De: José Vicente de Andrade
Para: Mario Palumbo
Olha a barulhada da
desafinação entre o POVO de DEUS, AS ORIENTAçÕES PAPAIS E OS QUE DIZEM OS
DELEGADOS DA CCG
Dia-a-Dia
VCG: Carta ao povo cristão da América Latina e do Caribe
segunda: 21 de maio de 2007
Caras irmãs e irmãos do povo de Deus
Por ocasião da V Conferência Episcopal Latino-americana e Caribenha, nós,
participantes do Seminário Latino-americano de Teologia, organizado pelo
Conselho Nacional do Laicato do Brasil, queremos comunicar a nossa reflexão em
torno do tema central: “Discípulos/as e missionários/as de Jesus Cristo para que
nossos povos nele tenham vida”. Somos 250 pessoas, vindas de vários estados do
Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, Equador, México, Uruguai,
Venezuela, Colômbia, Guatemala, El Salvador, Haiti, Nicarágua, Canadá, França e
Itália, além dos participantes de inúmeras salas virtuais.
Dentre os muitos pontos aprofundados, queremos destacar alguns aspectos que
julgamos importantes para a caminhada da Igreja latino-americana e caribenha.
Sentimo-nos interpelados pelas diversas formas de agressão à vida humana, a
todas as formas de vida e à Terra, nossa mãe: o aprofundamento da pobreza e da
desigualdade social; o clima de violência que atinge particularmente a população
mais jovem, as mulheres e as crianças; a destruição dos povos e da cultura negra
e indígena.
A humanidade experimenta uma crise generalizada, que atinge a família, a Igreja,
as relações sociais e econômicas, a organização política e o conjunto de valores
construídos a longo do tempo. Trata-se de uma crise sistêmica e paradigmática,
que rompe o equilíbrio nas relações entre os seres humanos e destes com toda a
Criação.
Na fidelidade ao seguimento de Cristo, aos seu profetismo e pedagogia, não
podemos calar diante dos gritos e clamores dos povos latino-americanos e
caribenhos, causados por esse processo histórico de exploração.
Nada disso é natural ou acontece por acaso. O neoliberalismo agravou o
endividamento externo e interno e multiplicou a dura experiência da miséria e da
exclusão social. Além disso, aprofundou o grau de dependência dos nossos povos
na forma de um neocolonialismo que se expressa especialmente em relações de
livre comércio profundamente desiguais e geradoras de exploração em todos os
níveis.
Porém, não podemos deixar de apontar os sinais dos tempos que tornam visível
para os dias de hoje a Ressurreição de Jesus: o aumento da consciência
ecológica; as experiências de democracia participativa e expressões de soberania
popular; a criatividade nas experiências de economia solidária e comércio justo;
a multiplicação e o fortalecimento de muitos movimentos sociais. Expressão
importante desse movimento de resistência e ressurreição de nossos povos tem
sido a realização dos sucessivos fóruns sociais regionais e mundiais.
A Igreja, enquanto participante da historia, também passa por situação de
profunda crise: diminuição significativa do número de fiéis; dicotomia entre fé
e vida; ausência de renovação da linguagem e símbolos religiosos; permanência de
uma estrutura piramidal rígida, que leva ao não reconhecimento da missão e do
sacerdócio comum de todo o povo de Deus; a não valorização do laicato, e de modo
especial das mulheres, como sujeito eclesial e sua participação nos espaços de
decisão.
Diante de tudo isso, sentimo-nos desafiados a:
· reconhecer o protagonismo dos empobrecidos no processo de evangelização e na
construção de uma nova sociedade, baseada na justiça e solidariedade;
· assumir com firmeza a opção pelos pobres, afirmando-a como irreversível e
irrenunciável, como um imperativo do seguimento de Jesus e de fidelidade ao Deus
da Justiça;
· construir novas relações com equidade de gênero;
· reconhecer a presença de Deus nas culturas, nos povos, nas religiões,
vivenciar processos de inculturaçao e fomentar espaços de diálogo intercultural
e inter-religioso;
· criar estruturas adequadas para o trabalho de evangelização no mundo urbano;
· reconhecer a riqueza da diversidade e a pluralidade, cultivando a alteridade;
· promover uma nova cultura do trabalho a partir da crise da sociedade do
emprego;
· estimular a presença de bispos e presbíteros diretamente nas experiências
libertadoras em suas paróquias e dioceses.
Assim, convidamos a todos os irmãos e irmãs a assumir conosco esses
compromissos:
· aprofundar a experiência de vida cristã inspirada em Jesus de Nazaré;
· construir uma igreja que seja rede de comunidades que sejam expressões vivas
do povo de Deus; que reafirma as estruturas próprias das igrejas
latino-americanas e caribenhas, historicamente fundadas no tripé: CEBs,
pastorais e conferências episcopais; que dialoga com as realidades do tempo de
hoje; que fermenta as ações humanas que vão construindo uma sociedade nova – um
outro mundo já possível, em que possamos experimentar a globalização da
solidariedade -, tecendo parcerias com movimentos sociais;
· aprofundar a teologia da libertação como inspiração que nasce da rica
experiência eclesial e da profunda religiosidade dos povos latino-americanos, e
que alimenta a fé, renova sua esperança e que torna mais libertadora a prática
do amor;
· assumir uma ética da vida em âmbito pessoal e social;
· promover espaços de evangelização que possibilitem aos jovens uma adesão livre
e amadurecida ao Evangelho de Jesus;
· manter-se livre na relação com as estruturas necessárias para a evangelização,
sabendo que devem ser reformadas permanentemente;
· fomentar a promoção de um fórum social cristão, com o objetivo de refletir
sobre a transição de época e os diversos cenários eclesiais face aos desafios
político-sociais;
· incentivar uma maior integração das pastorais com os movimentos, enquanto
crescimento da consciência social e libertadora da igreja latino-americana e
caribenha como caminhada de todo o povo de Deus;
· aprofundar a reflexão sobre o uso das novas tecnologias a favor da vida, bem
como a reflexão crítica acessível e prática das conseqüências do sistema de
globalização capitalista.
Pindamonhangaba, São Paulo, 20 de maio de 2007