de: José Vicente de Andrade
para: Mario Palumbo

ARCEBISPO EPARCA GRECO-MELQUITA DO BRASIL, DOM FARES MAAKAROUN DESEJA QUE O CELIBATO SEJA OPCIONAL NA IGREJA CATÓLICA


 
Mário Palumbo! 
Envio-lhe este texto bastante longo, para o "Ora et Labora". Pode publicá-la, se você a julgar de algum proveito para o Forum de Debates com vista á Preparação do Encontro do MPC, no Recife. É entrevista do Heparca Católico Greco-Melquita no Brasil. Desconheço manifestação mais explícita de um bispo romano sobre as relações entre celibato e ministério presbiteral.
No mais profundo dos corações dos verdadeiros cristãos  repousa a expectativa de  que  os bispos profetas, que ,sem dúvida, existem na Igreja,  usem seu bom senso para levar a Santa Sé a apagar do Direito Canônico o óbice que permite apenas a solteiros, o acesso à recepção das ordem presbiterial. Esta norma canônica que - a meu ver - impede a plenitude de vida católica e dificulta sua missão evangélica,    não traduz o desejo de Deus nem os caminhos da fé. Apenas realça a dimensão gigante da carência de espírito evangélico no Colégio Episcopal.
Do contrário não teríamos a tristeza de observar a permanência de um número sempre crescente de presbíteros casados na periferia da Igreja ou na fronteira da fé com a descrença na existência  de liberdade evangélica e bom senso administrativo do episcopado católico. Não acredito que nossos irmãos bispos prefiram deixar desenvolver-se, escandalosamente,  a ambigüidade em termos de castidade clerical do que reconhecer a pureza e a eficiência do amor humano elevado a Sacramento.

Dia 7 de setembro, enquanto  parte significativa de comunidades católicas saíram em praças públicas para dizer à Nação que a Igreja Católica se preocupa e se sente frustrada com a atual forma de mobilização de pessoas e grupos no trabalho  para inserir excluídos dos bens econômicos no conturbado banquete nacional, tive a alegria de reunir-me com um grupo de universitários de Belo Horizonte que partilha reflexões há 17 anos e é habituado em  dividir do que possuem com pessoas necessitas, porém  sem fazer alarde.

Não entramos no esquema artificial da mobilização oficial, pois nossa programação era meditar  sobre outro tipo de exclusão e de excluídos. Refletimos sobre a viabilidade de oferecermos à reflexão dos cristãos esclarecidos possibilidades de soluções funcionais e irrefutávies contra os preconceitos que - apesar de insistentes bombardeios - ainda  persistem no âmbito da oficialidade hierárquica da Igreja Católica: o tratamento aos padres casados  e à ordenação de presbíteros casados, como realidades importantes para a própria comunhão da Igreja Católica Apostólica Romana. Abraço. José Vicente de Andrade

Nosso grupo refletiu sobre o valor do celibato e os riscos da manutenção do celibato obrigatório para o desenvolvimento eclesial, sem gastara tempo em choramingos, mas estudando séria proposição explicitada por  Dom Fares Maakaroun, PSP, Arcebispo Eparca de Nossa Senhora do Paraíso, dos Greco- Melquitas para o Brasil, publicada no jornal O POVO, de Fortaleza, no Ceará, quando da visita pastoral do arcebispo  à comunidade greco-melquita no Ceará. Segundo o texto escrito pelo jornalista Valdemar Menezes - disponível no Portal www.proconcil.org, Dom Fares acentuou o respeito à diversidade, à necessidade de  unidade de ação das religiões e à admissão do celibato clerical opcional como ferramentas que ajudariam a resolver as questões referentes à falta de padres e à valorização do papel dos leigos conscientes que se dedicam à religião e pretendem trabalhar pelo aprovietamento de vocacionados ao ministério sacerdotal, de maneira melhor definida e mais firmes do que as existentes. Que Deus nos abençoe com suas luzes e sua força. José Vicente de Andrade

Dom Fares Maakaroun é bispo católico, apostólico e romano 

O Arcebispo manifestou o desejo de sua Igreja, que é unida à Sé de Roma e deseja que o primado pontifício seja de serviço e não de autoridade. Lembrou eventos do 1º Milênio do Cristianismo e ressaltou que tanto entre católicos ocidentais e como entre os católicos orientais eram comuns as ordenações de homens casados para o ministério presbiteral.
Dom Fares Maakaroun disse esperar que a Igreja Católica Romana o libere para que ele possa, também no Brasil, ordenar homens casados e assim poder melhor atender aos fiéis de sua Igreja. Para ele, os católicos orientais, mesmo vivendo em países do Ocidente, devem conservar os próprios costumes e exercer plenamente as prerrogativas facultadas pelo Direito Canônico. Lamentou a ignorância do próprio clero romano em relação à tradição católica oriental e defendeu que os seminários devem dedicar maior tempo ao estudo do 1º Milênio cristão, quando não havia separação entre católicos e ortodoxos, e, assim, preparar o caminho para a reunificação das Igrejas.

A entrevista

Na seguinte entrevista, ele defendeu, antes de tudo, a unidade de ação das várias religiões - cristãs e não-cristãs - no campo social, para promover a justiça social e a paz entre os homens.

O Povo - O pontificado de João Paulo II foi marcado, em linhas gerais, pela busca da reafirmação da identidade católica romana, pelo diálogo ecumênico e inter-religioso e, no âmbito político, pela contribuição que deu à queda do comunismo. Agora que vai se aproximando do fim, há uma interrogação sobre como deveria ser o próximo pontificado. Alguns, por exemplo, acham que a grande meta do próximo pontificado deveria ser a reunificação das igrejas cristãs, a começar pelos católicos e ortodoxos. O senhor pensa também assim?
Dom Fares Maakaroun - Em primeiro lugar, acho que não devemos ter medo do futuro, sabe? Porque se a gente se lembra bem, desde o tempo de Leão XIII (para falar nos tempos modernos) foi sempre assim: ante a morte de cada papa toda a Igreja perguntava: como vamos continuar? Que papa poderia, agora, liderar esta Igreja diante dos desafios do mundo moderno? E a cada vez o novo papa sempre era melhor do que o anterior. Nesse sentido não podemos ter medo porque o Espírito Santo está cuidando da Igreja, não apenas a pessoa do papa. O papa, com toda a Igreja, com o Senhor que está sempre conosco, (''o nome d'Ele é Emanuel'', que quer dizer ''Deus conosco''), a Igreja vai conseguir sempre vencer todas as dificuldades do mundo.

O desafio maior que temos agora, além deste movimento de globalização mundial, é também o de unificar a Igreja. Ao ver este país - o Brasil - com tantas igrejas diferentes a gente se pergunta se poderá haver a unificação de novo. Mas, como todas falam em nome de Jesus Cristo, e Cristo falou na necessidade da união de todos, essa unidade vai acontecer. Gostaria de acrescentar que nós precisamos também da ajuda da Virgem Maria. Eu sou oriental, e lá no Oriente é a mãe que sempre une toda a família. Quando a mãe morre, muitas vezes o pai, sozinho, não consegue fazer manter a família unida: os irmãos se dividem e cada um passa a viver num lugar diferente. Com a mãe presente, a família sempre é unida. O que falta agora para a Igreja é a presença mais acentuada da Virgem Maria: é pedir a ela essa ajuda. Ela que é a mãe de todos nós é a única que pode nos unificar. Com ela, vamos conseguir. Sem ela, será muito complicado.

O Povo - Como o senhor acha que se poderia começar esse trabalho mais concreto de unificação?
Dom Fares - Pode-se começar pelo trabalho social. Se sou católico, evangélico, ortodoxo - ou o que seja - nós podemos pelo menos trabalhar juntos para o bem do homem. Evitando falar, agora, dos dogmas, dos sacramentos. Vamos falar das coisas mais simples, que podem realmente nos unificar para salvar o homem. Este trabalho, juntos, para o bem dos outros, vai abrir também nossos corações para nos aceitarmos mutuamente e assim acharmos os caminhos que nos vão conduzir a Deus, à unidade na diversidade - essa é a palavra certa. A unidade na diversidade, no interior da Igreja - que seja uma Igreja Una, Santa, no mundo inteiro.

O Povo - Depois que o papa pediu às várias igrejas cristãs que encontrassem uma fórmula de exercício do primado papal que fosse aceitável a todos, teólogos católicos já anunciam que é possível fazer uma reinterpretação do dogma da infalibilidade papal, declarada pelo Concílio Vaticano I, em 1870, e que criou uma dificuldade adicional para a aceitação do primado do bispo de Roma. Aceita-se, hoje, que a Cúria Romana exagerou na interpretação da decisão dos padres conciliares, hipertrofiando o poder do papa. Como o senhor vê essa questão?
Dom Fares - A Igreja inteira aceita que uma pessoa seja a cabeça. Todo mundo aceita isso. A Igreja não pode caminhar com duas, três, vinte cabeças. Uma só cabeça. Como foi sempre vista nos primeiros séculos: um primeiro entre iguais (primus inter pares). A infabilidade do papa (se manifesta) quando ele ensina em nome de toda a Igreja reunida para esse momento, como se fosse um concílio ecumênico. Nesse momento ele é infalível. Mas, na vida própria dele, ele é um homem, semelhante a nós. Todas as igrejas (orientais) aceitam que num encontro ecumênico ele se pronuncie como chefe da Igreja universal. Roma sempre foi vista como a primeira sede, entre todas as igrejas patriarcais. Mesmo na Pentarquia (designação do conjunto dos cinco patriarcados que funcionavam em comunhão - Roma, Constantinopla, Antioquia, Alexandria e Jerusalém - antes da ruptura entre a Igreja Romana e as Igrejas Orientais), Roma sempre ocupou o primeiro lugar. Essa primazia continua aceitável por todas as igrejas, na condição de que seja uma primazia de serviço e de amor, e não de autoridade. Roma não é apenas um serviço de autoridade. Quando precisar tomar uma decisão, proclamar um dogma, uma coisa nova na Igreja, e toda a Igreja estiver reunida para isso, nessa ocasião o papa será infalível. Por isso temos que trabalhar mais na unidade das igrejas e parar um pouco de proclamar dogmas.

O Povo - Mas, o clero católico-romano está aberto para entender assim?
Dom Fares - A hora, talvez, é de pedir ajuda: é o que papa está fazendo - pedindo ajuda à Igreja Católica oriental para ajudar a Igreja Romana a entender a maneira de ver, entender, explicar a primazia do papa. No Oriente, nós sempre tivemos igrejas católicas com patriarcas. Não temos cardeais. Temos o patriarca, os arcebispos, e os bispos. Temos patriarcas como o de Constantinopla, de Antioquia e outros. Esses patriarcas, de acordo com uma tradição de dois mil anos, podem falar - e o papa diz estar pronto para ouvir essa voz que vem de fora. Quando estive junto com os bispos brasileiros de São Paulo em visita ad limina ao papa, ele falou para nós - ao perceber que eu era bispo melquita - sobre a necessidade de a Igreja respirar pelos dois pulmões (o ocidental e o oriental). Pediu que a Igreja Católica oriental falasse um pouco mais desse assunto, para aprofundá-lo um pouco mais. E pediu também à Igreja Romana para voltar um pouco às raízes, às fontes primeiras, e ver de que modo a gente pode unificar. Agora, cabe aos teólogos católicos, ortodoxos, protestantes fazer esse trabalho para tornar a Igreja, segundo a vontade do Senhor, Una, semelhante à Santíssima Trindade, na qual temos o Deus Pai: d'Ele procede o Deus Filho; d'Ele procede o Espírito Santo. Temos a unidade divina nessa Trindade. A unidade eclesial também deveria se dar ao redor do papa. Deste Patriarca de Roma.

O Povo - É notável que na Igreja Romana se tenha perdido a tradição do patriarcado, e se tenha deixado de enxergar no bispo de Roma, antes de tudo, o patriarca do Ocidente. Essa ignorância dos católicos romanos foi motivo de queixas do patriarca Máximos IV (melquita), durante o Concílio Vaticano II. De lá para cá diminuiu essa ignorância - inclusive da hierarquia católica - sobre como funcionava a Igreja no 1º Milênio, ou ela permanece?
Dom Fares - Permanece. Faz três ou quatro anos que estou neste País e tenho que explicar sempre que sou católico, que tem católicos no Oriente que são verdadeiros, apostólicos, desde o início. As pessoas não conseguem entender bem que há católicos fora da Igreja Romana. Nós somos uma Igreja Católica Apostólica, diferente da Romana. Somos bizantinos. Infelizmente, temos visto seminaristas, nossos, aqui no Brasil, em São Paulo, sendo indagados por outros seminaristas romanos: vocês são católicos ou já mudaram de religião, viraram outra coisa? Falta muito conhecimento, sobretudo sobre a Teologia oriental, sobre os padres da Igreja, os primeiros concílios, sobre a riqueza de nossa liturgia. Por exemplo: o casamento. Para nós não é casamento, é uma coroação. É o mesmo sacramento. A comunhão: sempre comungamos sob as duas espécies (pão e vinho). Não usamos comumente hóstia, mas pão. Tudo é um pouco diferente. Agora, já estão começando a entender um pouquinho, e a se perguntar: o que é isso? Como a gente pode conhecer mais? Onde a gente pode comprar livros? Há também o mundo dos ícones. Pela primeira vez temos no Brasil escolas de iconografia. Gente que pede que falemos um pouco sobre a Igreja Católica do Oriente. As universidades católicas, os seminários, deveriam dedicar uma parte de suas programações escolares ao conhecimento do Oriente cristão. Fazer traduções: não há livros em língua portuguesa. A Igreja Romana, que é a mais forte, deveria preparar gente para fazer esse trabalho, que apenas está começando. Sou membro da CNBB e isso poderá ajudar.

O Povo - Pelo que se vê, mesmo na discussão sobre o próximo pontificado, não se vê uma referência sobre a preocupação com a questão das igrejas orientais. A situação ainda está como no tempo do patriarca Máximos IV, ou já se fala mais nessa questão?
Dom Fares - Fala-se mais. O prefeito da Congregação das Igrejas Orientais, por exemplo, é o cardeal Ignácio Moussadaoud, um siríaco-oriental. Pela primeira vez isso acontece. Foi um passo grande, pelo menos estão colocando no lugar que fala das igrejas orientais, um oriental. Ou seja, um cardeal oriental dentro da estrutura do Vaticano. Temos outros cardeais: o patriarca maronita é um deles. Nesse sentido, a Igreja está começando a abrir um pouco as portas. Vou dar o meu exemplo também: estou trabalhando no Brasil como arcebispo. Esse título foi-me dado pelo Santo Padre, dizendo: você irá para lá como arcebispo da Igreja Greco-Melquita Católica. Esse título não foi dado a nenhum dos meus predecessores, sou o quarto. A gente sente que tem luzes se acendendo aqui e ali, começando a abrir um pouco a Igreja. Isso é bom. Temos que esperar, nunca desesperar. Pelo menos uma janela grande se abriu.

O Povo - E se abriu também para o senhor? Da última vez que o entrevistei, o senhor disse que estava se preparando para ordenar homens casados, no Brasil, pois essa é a tradição das igrejas orientais, e esperava que os irmãos católicos romanos aceitassem os orientais como eles são. Como está a questão da ordenação de homens casados?
Dom Fares - Esse é um ponto importante. A Igreja Romana deveria aceitar as igrejas irmãs, filhas ou o que seja, com todos os direitos que estas possuem, segundo o Direito Canônico. Mesmo num país católico romano, se nele existe uma Igreja Católica oriental, que esta possa ordenar homens casados para fazer parte de seu clero, como é sua tradição. O Direito Canônico foi aprovado para toda a Igreja Católica Apostólica, ocidental e oriental. Uma Igreja Católica oriental deve ter o direito de viver sua vida de maneira plena, em qualquer parte do mundo. Esta é uma riqueza. A gente não pode exigir de uma Igreja mudar de mentalidade, de costumes, deve aceitar com respeito os outros. Estou esperando, mesmo no Brasil ver um dia - não sou precipitado - isso se realizar. Eu até entendo que a igreja local nunca ouviu falar desse assunto e estranhe. Mas espero um dia ouvir: sua Igreja é oriental? Então, as portas estão abertas para vocês exercerem os seus direitos plenos, inclusive o de ordenar homens casados.

O Povo - Então o senhor ainda não ordenou homens casados para seu clero, aqui no Brasil?
Dom Fares - Não, até hoje não ordenei.

O Povo - Mas precisa ter consentimento?
Dom Fares - Como sou membro da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), também gosto de respeitar a maneira de fazer da Igreja Católica local. Tenho de respeitar isso. Mas estou esperando que um dia a igreja local - acho que é a CNBB que deve fazer isso - possa me dizer: você é livre para fazer isso. Com muito respeito, vamos continuar a amar e apoiar este bispo nosso.

O Povo - E a Igreja Melquita tem seminaristas no Brasil?
Dom Fares - Sim, temos. Mas não são seminaristas casados. Estão se preparando para se tornar padres celibatários.

O Povo - É o celibato obrigatório, então?
Dom Fares - Obrigatório, mas foi uma opção. Hoje em dia eu não posso quebrar essa relação com a Igreja local. Tenho que respeitá-la. Mas, um dia, estou certo, a Igreja local também vai reconhecer de uma maneira mais profunda a riqueza da Igreja Oriental em ter homens casados ordenados. Vai começar esse período. Já falei para a CNBB que temos de fazer isso para salvar o nosso povo oriental espalhado por todo lugar. Essa falta grande de padres, se o celibato não for uma obrigação, vai permitir ordenar mais padres. Temos leigos maravilhosos, bem engajados na vida da Igreja, fazendo obras boas. Eu até me sinto envergonhado como bispo ao ver a maneira profunda como se dedicam à religião. E digo: eu tenho de melhorar a minha vida espiritual - eu, bispo. Entre esses leigos já engajados a gente pode chamar algum - aquele médico, aquele professor - para se preparar para se tornar um dia um padre. E a mulher dele e os filhos devem dar um testemunho, diante de todo mundo, como uma família dedicada a ajudá-lo a dirigir a igreja como padre. Nós precisamos disso. E vamos fazê-lo aos poucos, não podemos forçar as coisas.

O Povo - Está havendo uma compreensão cada vez maior de que o restabelecimento da comunhão entre Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa ajudaria muito na solução de vários problemas dentro da Igreja Romana. A própria questão do celibato obrigatório, do casamento religioso e da própria organização eclesial tem encontrado uma boa resolução dentro da visão oriental.
Dom Fares - Esse é um ponto muito importante. Em primeiro lugar, ao permitir aos homens casados se tornarem padres isso não vai diminuir o número dos padres celibatários. No Oriente, temos monges, missionários, padres seculares não-casados, os próprios bispos também não se casam, ao lado do clero casado que trabalham nas paróquias. Nem por isso diminui o número dos que se consagram ao celibato. Ao ver que tem a opção de escolha, quem opta pelo celibato o faz alegremente. Na verdade, vai aumentar o número de celibatários. Por isso a Igreja local vai descobrir em pouco tempo a riqueza que é ter homens casados ordenados e vai permitir essa opção. Nas demais igrejas cristãs o clero é casado, só os ortodoxos ainda têm os monges e os bispos celibatários. Se estamos interessados na comunhão com os ortodoxos, por que não preparar desde já homens casados, no interior da Igreja Católica Roma para assumir o sacerdócio? É essa abertura que se espera da Igreja Romana. Aceitar ordenar homens casados é diferente da aceitação do casamento de padres já ordenados como celibatários. Esse é um problema ainda de difícil solução, mesmo nas igrejas orientais que não aceitam que depois de ordenado um padre possa se casar. O casamento tem de ser feito antes de receber o diaconato.

O Povo - Há poucos dias um membro importante da Igreja Ortodoxa, no Oriente Médio, disse que uma forma de se chegar a um acordo entre as igrejas Ortodoxa e Romana seria cada uma das igrejas ficar obrigada a seguir apenas as determinações dos concílios em que tomaram parte. Os próximos concílios voltariam a participar juntas. O que o senhor acha da proposta?
Dom Fares - Esse é o trabalho dos teólogos de hoje, é o trabalho do ecumenismo, que está acontecendo em todo lugar, no mundo inteiro. Durante o primeiro milênio, todo mundo estava na mesma Igreja, utilizando a mesma linguagem dogmática, depois veio a divisão: a distância entre os povos era grande, havendo pouca comunicação. Agora, os contatos voltaram a acontecer e a base para a retomada da aproximação e o estudo do primeiro milênio e ver o que aconteceu depois com todas essas igrejas. E como a gente pode aproveitar também dessa nova riqueza e não apenas da Igreja Romana, porque nessas outras igrejas o trabalho também não parou no segundo milênio e cada uma tem algo de novo a apresentar. Neste terceiro milênio que se inicia, devemos reunir todas essas experiências para formar uma igreja de face renovada. É um trabalho delicado e difícil. Ninguém sabe quanto tempo nos resta para a unificação - 20, 40, 50 anos -, mas com a intervenção do Espírito Santo um milagre pode acontecer. Veja-se: quem diria que o mundo socialista iria acabar? E aconteceu. Temos que crer num milagre. Nossa fé é baseada sobre o milagre: o milagre da Encarnação de Deus, da Ressurreição, da salvação de nossa vida. De que somos todos participantes dessa única realidade chamada Cristo: já somos um n'Ele, graças ao batismo. Vamos continuar, sem medo. Se a Igreja puder caminhar sem medo, hoje, será salva: a unidade será realizada. Temos que orar com um coração aberto e não orar dizendo: eu sou da Igreja verdadeira, única, e todo mundo deve se render a minha maneira de pensar. Quando todos dizem que são da Igreja de Jesus Cristo, membro deste Corpo, então vamos pedir a cabeça dessa Igreja, ao Senhor Jesus, pois ele é o Pastor dessa Igreja.

O Povo - O senhor acha que se os seminários católicos dessem mais atenção ao estudo sobre o 1º Milênio isso facilitaria essa aproximação?
Dom Fares - Isso vai ajudar muito, sob a condição de os seminários ensinarem de maneira correta a historia da Igreja e não procurar acentuar o que há de errado nas outras tradições. Devemos olhar as coisas boas que existem - estou falando em nome de todas as igrejas - não podemos em nossos centros de estudo destacar apenas o que tem de errado, mas o que tem de verdadeiro. Porque tem muitas coisas boas que podem nos ajudar. Infelizmente, de vez em quando, a gente só fala do que há errado nos outros, aumentando o fosso. É como aquela historia da garrafa: enquanto uns preferem dizer que ela esta cheia até a metade, outros preferem dizer que está vazia até a metade. Infelizmente, temos a tendência de só ver a metade vazia: falta isso, falta aquilo. Ora, somos todos cristãos, batizados, crismados, temos sacerdócio, conselhos eclesiais, o que nos falta? O que falta é muito pouco e esse pouco a gente pode examinar, refletir e aceitar. O mesmo se aplica no diálogo inter-religioso, entre religiões cristãs e não-cristãs: a gente não deveria falar das diferenças. Podemos falar apenas do único Deus que nos une, todos. O Pai criador de todas as coisas, por meio do qual formamos uma única família. E vamos nos unir na ação social, na ajuda ao outro, ao que tem fome, ao doente - sem perguntar se ele é católico, ortodoxo, cristão ou não-cristão: ele está com fome, vamos dar uma comida a este irmão. Assim, a gente pode salvar a Igreja, pode salvar o mundo; pode acabar com as guerras, a violência. Vamos partilhar, e todo mundo sairá ganhando.