ARCEBISPO EPARCA GRECO-MELQUITA DO BRASIL, DOM FARES MAAKAROUN DESEJA QUE O CELIBATO SEJA OPCIONAL NA IGREJA CATÓLICA
Dia 7 de setembro, enquanto parte significativa de comunidades católicas saíram em praças públicas para dizer à Nação que a Igreja Católica se preocupa e se sente frustrada com a atual forma de mobilização de pessoas e grupos no trabalho para inserir excluídos dos bens econômicos no conturbado banquete nacional, tive a alegria de reunir-me com um grupo de universitários de Belo Horizonte que partilha reflexões há 17 anos e é habituado em dividir do que possuem com pessoas necessitas, porém sem fazer alarde.
Não entramos no esquema artificial da mobilização oficial, pois nossa programação era meditar sobre outro tipo de exclusão e de excluídos. Refletimos sobre a viabilidade de oferecermos à reflexão dos cristãos esclarecidos possibilidades de soluções funcionais e irrefutávies contra os preconceitos que - apesar de insistentes bombardeios - ainda persistem no âmbito da oficialidade hierárquica da Igreja Católica: o tratamento aos padres casados e à ordenação de presbíteros casados, como realidades importantes para a própria comunhão da Igreja Católica Apostólica Romana. Abraço. José Vicente de Andrade
Nosso grupo refletiu sobre o valor do celibato e os riscos da manutenção do celibato obrigatório para o desenvolvimento eclesial, sem gastara tempo em choramingos, mas estudando séria proposição explicitada por Dom Fares Maakaroun, PSP, Arcebispo Eparca de Nossa Senhora do Paraíso, dos Greco- Melquitas para o Brasil, publicada no jornal O POVO, de Fortaleza, no Ceará, quando da visita pastoral do arcebispo à comunidade greco-melquita no Ceará. Segundo o texto escrito pelo jornalista Valdemar Menezes - disponível no Portal www.proconcil.org, Dom Fares acentuou o respeito à diversidade, à necessidade de unidade de ação das religiões e à admissão do celibato clerical opcional como ferramentas que ajudariam a resolver as questões referentes à falta de padres e à valorização do papel dos leigos conscientes que se dedicam à religião e pretendem trabalhar pelo aprovietamento de vocacionados ao ministério sacerdotal, de maneira melhor definida e mais firmes do que as existentes. Que Deus nos abençoe com suas luzes e sua força. José Vicente de Andrade
Dom Fares Maakaroun é bispo católico, apostólico e romano
O Arcebispo manifestou o desejo de sua Igreja, que é unida à Sé de Roma e deseja
que o primado pontifício seja de serviço e não de autoridade. Lembrou eventos do
1º Milênio do Cristianismo e ressaltou que tanto entre católicos ocidentais e
como entre os católicos orientais eram comuns as ordenações de homens casados
para o ministério presbiteral.
Dom Fares Maakaroun disse esperar que a Igreja Católica Romana o libere para que
ele possa, também no Brasil, ordenar homens casados e assim poder melhor atender
aos fiéis de sua Igreja. Para ele, os católicos orientais, mesmo vivendo em
países do Ocidente, devem conservar os próprios costumes e exercer plenamente as
prerrogativas facultadas pelo Direito Canônico. Lamentou a ignorância do próprio
clero romano em relação à tradição católica oriental e defendeu que os
seminários devem dedicar maior tempo ao estudo do 1º Milênio cristão, quando não
havia separação entre católicos e ortodoxos, e, assim, preparar o caminho para a
reunificação das Igrejas.
A entrevista
Na seguinte
entrevista, ele defendeu, antes de tudo, a unidade de ação das várias religiões
- cristãs e não-cristãs - no campo social, para promover a justiça social e a
paz entre os homens.
O Povo - O pontificado de João Paulo II foi marcado, em linhas
gerais, pela busca da reafirmação da identidade católica romana, pelo diálogo
ecumênico e inter-religioso e, no âmbito político, pela contribuição que deu à
queda do comunismo. Agora que vai se aproximando do fim, há uma interrogação
sobre como deveria ser o próximo pontificado. Alguns, por exemplo, acham que a
grande meta do próximo pontificado deveria ser a reunificação das igrejas
cristãs, a começar pelos católicos e ortodoxos. O senhor pensa também assim?
Dom Fares Maakaroun - Em primeiro lugar, acho que não devemos ter
medo do futuro, sabe? Porque se a gente se lembra bem, desde o tempo de Leão
XIII (para falar nos tempos modernos) foi sempre assim: ante a morte de cada
papa toda a Igreja perguntava: como vamos continuar? Que papa poderia, agora,
liderar esta Igreja diante dos desafios do mundo moderno? E a cada vez o novo
papa sempre era melhor do que o anterior. Nesse sentido não podemos ter medo
porque o Espírito Santo está cuidando da Igreja, não apenas a pessoa do papa. O
papa, com toda a Igreja, com o Senhor que está sempre conosco, (''o nome d'Ele é
Emanuel'', que quer dizer ''Deus conosco''), a Igreja vai conseguir sempre
vencer todas as dificuldades do mundo.
O desafio maior
que temos agora, além deste movimento de globalização mundial, é também o de
unificar a Igreja. Ao ver este país - o Brasil - com tantas igrejas diferentes a
gente se pergunta se poderá haver a unificação de novo. Mas, como todas falam em
nome de Jesus Cristo, e Cristo falou na necessidade da união de todos, essa
unidade vai acontecer. Gostaria de acrescentar que nós precisamos também da
ajuda da Virgem Maria. Eu sou oriental, e lá no Oriente é a mãe que sempre une
toda a família. Quando a mãe morre, muitas vezes o pai, sozinho, não consegue
fazer manter a família unida: os irmãos se dividem e cada um passa a viver num
lugar diferente. Com a mãe presente, a família sempre é unida. O que falta agora
para a Igreja é a presença mais acentuada da Virgem Maria: é pedir a ela essa
ajuda. Ela que é a mãe de todos nós é a única que pode nos unificar. Com ela,
vamos conseguir. Sem ela, será muito complicado.
O Povo - Como o senhor acha que se poderia começar esse trabalho
mais concreto de unificação?
Dom Fares - Pode-se começar pelo trabalho social. Se sou católico,
evangélico, ortodoxo - ou o que seja - nós podemos pelo menos trabalhar juntos
para o bem do homem. Evitando falar, agora, dos dogmas, dos sacramentos. Vamos
falar das coisas mais simples, que podem realmente nos unificar para salvar o
homem. Este trabalho, juntos, para o bem dos outros, vai abrir também nossos
corações para nos aceitarmos mutuamente e assim acharmos os caminhos que nos vão
conduzir a Deus, à unidade na diversidade - essa é a palavra certa. A unidade na
diversidade, no interior da Igreja - que seja uma Igreja Una, Santa, no mundo
inteiro.
O Povo - Depois que o papa pediu às várias igrejas cristãs que
encontrassem uma fórmula de exercício do primado papal que fosse aceitável a
todos, teólogos católicos já anunciam que é possível fazer uma reinterpretação
do dogma da infalibilidade papal, declarada pelo Concílio Vaticano I, em 1870, e
que criou uma dificuldade adicional para a aceitação do primado do bispo de
Roma. Aceita-se, hoje, que a Cúria Romana exagerou na interpretação da decisão
dos padres conciliares, hipertrofiando o poder do papa. Como o senhor vê essa
questão?
Dom Fares - A Igreja inteira aceita que uma pessoa seja a cabeça.
Todo mundo aceita isso. A Igreja não pode caminhar com duas, três, vinte
cabeças. Uma só cabeça. Como foi sempre vista nos primeiros séculos: um primeiro
entre iguais (primus inter pares). A infabilidade do papa (se
manifesta) quando ele ensina em nome de toda a Igreja reunida para esse momento,
como se fosse um concílio ecumênico. Nesse momento ele é infalível. Mas, na vida
própria dele, ele é um homem, semelhante a nós. Todas as igrejas (orientais)
aceitam que num encontro ecumênico ele se pronuncie como chefe da Igreja
universal. Roma sempre foi vista como a primeira sede, entre todas as igrejas
patriarcais. Mesmo na Pentarquia (designação do conjunto dos cinco
patriarcados que funcionavam em comunhão - Roma, Constantinopla, Antioquia,
Alexandria e Jerusalém - antes da ruptura entre a Igreja Romana e as Igrejas
Orientais), Roma sempre ocupou o primeiro lugar. Essa primazia continua
aceitável por todas as igrejas, na condição de que seja uma primazia de serviço
e de amor, e não de autoridade. Roma não é apenas um serviço de autoridade.
Quando precisar tomar uma decisão, proclamar um dogma, uma coisa nova na Igreja,
e toda a Igreja estiver reunida para isso, nessa ocasião o papa será infalível.
Por isso temos que trabalhar mais na unidade das igrejas e parar um pouco de
proclamar dogmas.
O Povo - Mas, o clero católico-romano está aberto para entender
assim?
Dom Fares - A hora, talvez, é de pedir ajuda: é o que papa está
fazendo - pedindo ajuda à Igreja Católica oriental para ajudar a Igreja Romana a
entender a maneira de ver, entender, explicar a primazia do papa. No Oriente,
nós sempre tivemos igrejas católicas com patriarcas. Não temos cardeais. Temos o
patriarca, os arcebispos, e os bispos. Temos patriarcas como o de
Constantinopla, de Antioquia e outros. Esses patriarcas, de acordo com uma
tradição de dois mil anos, podem falar - e o papa diz estar pronto para ouvir
essa voz que vem de fora. Quando estive junto com os bispos brasileiros de São
Paulo em visita ad limina ao papa, ele falou para nós - ao
perceber que eu era bispo melquita - sobre a necessidade de a Igreja respirar
pelos dois pulmões (o ocidental e o oriental). Pediu que a Igreja
Católica oriental falasse um pouco mais desse assunto, para aprofundá-lo um
pouco mais. E pediu também à Igreja Romana para voltar um pouco às raízes, às
fontes primeiras, e ver de que modo a gente pode unificar. Agora, cabe aos
teólogos católicos, ortodoxos, protestantes fazer esse trabalho para tornar a
Igreja, segundo a vontade do Senhor, Una, semelhante à Santíssima Trindade, na
qual temos o Deus Pai: d'Ele procede o Deus Filho; d'Ele procede o Espírito
Santo. Temos a unidade divina nessa Trindade. A unidade eclesial também deveria
se dar ao redor do papa. Deste Patriarca de Roma.
O Povo - É notável que na Igreja Romana se tenha perdido a
tradição do patriarcado, e se tenha deixado de enxergar no bispo de Roma, antes
de tudo, o patriarca do Ocidente. Essa ignorância dos católicos romanos foi
motivo de queixas do patriarca Máximos IV (melquita), durante o
Concílio Vaticano II. De lá para cá diminuiu essa ignorância - inclusive da
hierarquia católica - sobre como funcionava a Igreja no 1º Milênio, ou ela
permanece?
Dom Fares - Permanece. Faz três ou quatro anos que estou neste
País e tenho que explicar sempre que sou católico, que tem católicos no Oriente
que são verdadeiros, apostólicos, desde o início. As pessoas não conseguem
entender bem que há católicos fora da Igreja Romana. Nós somos uma Igreja
Católica Apostólica, diferente da Romana. Somos bizantinos. Infelizmente, temos
visto seminaristas, nossos, aqui no Brasil, em São Paulo, sendo indagados por
outros seminaristas romanos: vocês são católicos ou já mudaram de religião,
viraram outra coisa? Falta muito conhecimento, sobretudo sobre a Teologia
oriental, sobre os padres da Igreja, os primeiros concílios, sobre a riqueza de
nossa liturgia. Por exemplo: o casamento. Para nós não é casamento, é uma
coroação. É o mesmo sacramento. A comunhão: sempre comungamos sob as duas
espécies (pão e vinho). Não usamos comumente hóstia, mas pão. Tudo
é um pouco diferente. Agora, já estão começando a entender um pouquinho, e a se
perguntar: o que é isso? Como a gente pode conhecer mais? Onde a gente pode
comprar livros? Há também o mundo dos ícones. Pela primeira vez temos no Brasil
escolas de iconografia. Gente que pede que falemos um pouco sobre a Igreja
Católica do Oriente. As universidades católicas, os seminários, deveriam dedicar
uma parte de suas programações escolares ao conhecimento do Oriente cristão.
Fazer traduções: não há livros em língua portuguesa. A Igreja Romana, que é a
mais forte, deveria preparar gente para fazer esse trabalho, que apenas está
começando. Sou membro da CNBB e isso poderá ajudar.
O Povo - Pelo que se vê, mesmo na discussão sobre o próximo
pontificado, não se vê uma referência sobre a preocupação com a questão das
igrejas orientais. A situação ainda está como no tempo do patriarca Máximos IV,
ou já se fala mais nessa questão?
Dom Fares - Fala-se mais. O prefeito da Congregação das Igrejas
Orientais, por exemplo, é o cardeal Ignácio Moussadaoud, um siríaco-oriental.
Pela primeira vez isso acontece. Foi um passo grande, pelo menos estão colocando
no lugar que fala das igrejas orientais, um oriental. Ou seja, um cardeal
oriental dentro da estrutura do Vaticano. Temos outros cardeais: o patriarca
maronita é um deles. Nesse sentido, a Igreja está começando a abrir um pouco as
portas. Vou dar o meu exemplo também: estou trabalhando no Brasil como
arcebispo. Esse título foi-me dado pelo Santo Padre, dizendo: você irá para lá
como arcebispo da Igreja Greco-Melquita Católica. Esse título não foi dado a
nenhum dos meus predecessores, sou o quarto. A gente sente que tem luzes se
acendendo aqui e ali, começando a abrir um pouco a Igreja. Isso
é bom. Temos que esperar, nunca desesperar. Pelo menos uma janela grande
se abriu.
O Povo - E se abriu também para o senhor? Da última vez que o
entrevistei, o senhor disse que estava se preparando para ordenar homens
casados, no Brasil, pois essa é a tradição das igrejas orientais, e esperava que
os irmãos católicos romanos aceitassem os orientais como eles são. Como está a
questão da ordenação de homens casados?
Dom Fares - Esse é um ponto
importante. A Igreja Romana deveria aceitar as igrejas irmãs, filhas ou o
que seja, com todos os direitos que estas possuem, segundo o Direito Canônico.
Mesmo num país católico romano, se nele existe uma Igreja Católica oriental, que
esta possa ordenar homens casados para fazer parte de seu clero, como é sua
tradição. O Direito Canônico foi aprovado para toda a Igreja Católica
Apostólica, ocidental e oriental. Uma Igreja Católica oriental deve ter o
direito de viver sua vida de maneira plena, em qualquer parte do mundo. Esta é
uma riqueza. A gente não pode exigir de uma Igreja mudar de mentalidade, de
costumes, deve aceitar com respeito os outros. Estou esperando, mesmo no Brasil
ver um dia - não sou precipitado - isso se realizar. Eu até entendo que a igreja
local nunca ouviu falar desse assunto e estranhe. Mas espero um dia ouvir: sua
Igreja é oriental? Então, as portas estão abertas para vocês exercerem os seus
direitos plenos, inclusive o de ordenar homens casados.
O Povo - Então o senhor ainda não ordenou homens casados para seu
clero, aqui no Brasil?
Dom Fares - Não, até
hoje não ordenei.
O Povo - Mas precisa ter consentimento?
Dom Fares - Como sou membro da CNBB (Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil), também gosto de respeitar a maneira de fazer da
Igreja Católica local. Tenho de respeitar isso. Mas estou esperando que um dia a
igreja local - acho que é a CNBB que deve fazer isso - possa me dizer: você é
livre para fazer isso. Com muito respeito, vamos continuar a amar e apoiar este
bispo nosso.
O Povo - E a Igreja Melquita tem seminaristas no Brasil?
Dom Fares - Sim, temos. Mas não são seminaristas casados. Estão se
preparando para se tornar padres celibatários.
O Povo - É o celibato obrigatório, então?
Dom Fares - Obrigatório, mas foi uma opção. Hoje em dia eu não
posso quebrar essa relação com a Igreja local. Tenho que respeitá-la. Mas, um
dia, estou certo, a Igreja local também vai reconhecer de uma maneira mais
profunda a riqueza da Igreja Oriental em ter homens casados ordenados.
Vai começar esse período. Já falei para a CNBB que temos
de fazer isso para salvar o nosso povo oriental espalhado por todo lugar. Essa
falta grande de padres, se o celibato não for uma obrigação, vai permitir
ordenar mais padres. Temos leigos maravilhosos, bem engajados na vida da Igreja,
fazendo obras boas. Eu até me sinto envergonhado como bispo ao ver a maneira
profunda como se dedicam à religião. E digo: eu tenho de melhorar a minha vida
espiritual - eu, bispo. Entre esses leigos já engajados a gente pode chamar
algum - aquele médico, aquele professor - para se preparar para se tornar um dia
um padre. E a mulher dele e os filhos devem dar um testemunho, diante de todo
mundo, como uma família dedicada a ajudá-lo a dirigir a igreja como padre. Nós
precisamos disso. E vamos fazê-lo aos poucos, não podemos forçar as coisas.
O Povo - Está havendo uma compreensão cada vez maior de que o
restabelecimento da comunhão entre Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa ajudaria
muito na solução de vários problemas dentro da Igreja Romana. A própria questão
do celibato obrigatório, do casamento religioso e da própria organização
eclesial tem encontrado uma boa resolução dentro da visão oriental.
Dom Fares - Esse é um ponto muito importante. Em primeiro lugar,
ao permitir aos homens casados se tornarem padres isso não vai diminuir o número
dos padres celibatários. No Oriente, temos monges, missionários, padres
seculares não-casados, os próprios bispos também não se casam, ao lado do clero
casado que trabalham nas paróquias. Nem por isso diminui o número dos que se
consagram ao celibato. Ao ver que tem a opção de escolha, quem opta pelo
celibato o faz alegremente. Na verdade, vai aumentar o número de celibatários.
Por isso a Igreja local vai descobrir em pouco tempo a riqueza que é ter homens
casados ordenados e vai permitir essa opção. Nas demais igrejas cristãs o clero
é casado, só os ortodoxos ainda têm os monges e os bispos celibatários. Se
estamos interessados na comunhão com os ortodoxos, por que não preparar desde já
homens casados, no interior da Igreja Católica Roma para assumir o sacerdócio? É
essa abertura que se espera da Igreja Romana. Aceitar ordenar homens casados é
diferente da aceitação do casamento de padres já ordenados como celibatários.
Esse é um problema ainda de difícil solução, mesmo nas igrejas orientais que não
aceitam que depois de ordenado um padre possa se casar. O casamento tem de ser
feito antes de receber o diaconato.
O Povo - Há poucos dias um membro importante da Igreja Ortodoxa,
no Oriente Médio, disse que uma forma de se chegar a um acordo entre as igrejas
Ortodoxa e Romana seria cada uma das igrejas ficar obrigada a seguir apenas as
determinações dos concílios em que tomaram parte. Os próximos concílios
voltariam a participar juntas. O que o senhor acha da proposta?
Dom Fares - Esse é o trabalho dos teólogos de hoje, é o trabalho
do ecumenismo, que está acontecendo em todo lugar, no mundo inteiro. Durante o
primeiro milênio, todo mundo estava na mesma Igreja, utilizando a mesma
linguagem dogmática, depois veio a divisão: a distância entre os povos era
grande, havendo pouca comunicação. Agora, os contatos voltaram a acontecer e a
base para a retomada da aproximação e o estudo do primeiro milênio e ver o que
aconteceu depois com todas essas igrejas. E como a gente pode aproveitar também
dessa nova riqueza e não apenas da Igreja Romana, porque nessas outras igrejas o
trabalho também não parou no segundo milênio e cada uma tem algo de novo a
apresentar. Neste terceiro milênio que se inicia, devemos reunir todas essas
experiências para formar uma igreja de face renovada. É um trabalho delicado e
difícil. Ninguém sabe quanto tempo nos resta para a unificação - 20, 40, 50 anos
-, mas com a intervenção do Espírito Santo um milagre pode acontecer. Veja-se:
quem diria que o mundo socialista iria acabar? E aconteceu. Temos que crer num
milagre. Nossa fé é baseada sobre o milagre: o milagre da Encarnação de Deus, da
Ressurreição, da salvação de nossa vida. De que somos todos participantes dessa
única realidade chamada Cristo: já somos um n'Ele, graças ao batismo. Vamos
continuar, sem medo. Se a Igreja puder caminhar sem medo, hoje, será salva: a
unidade será realizada. Temos que orar com um coração aberto e não orar dizendo:
eu sou da Igreja verdadeira, única, e todo mundo deve se render a minha maneira
de pensar. Quando todos dizem que são da Igreja de Jesus Cristo, membro deste
Corpo, então vamos pedir a cabeça dessa Igreja, ao Senhor Jesus, pois ele é o
Pastor dessa Igreja.
O Povo - O senhor acha que se os seminários católicos dessem mais
atenção ao estudo sobre o 1º Milênio isso facilitaria essa aproximação?
Dom Fares - Isso vai ajudar muito, sob a condição de os seminários
ensinarem de maneira correta a historia da Igreja e não procurar acentuar o que
há de errado nas outras tradições. Devemos olhar as coisas boas que existem -
estou falando em nome de todas as igrejas - não podemos em nossos centros de
estudo destacar apenas o que tem de errado, mas o que tem de verdadeiro. Porque
tem muitas coisas boas que podem nos ajudar. Infelizmente, de vez em quando, a
gente só fala do que há errado nos outros, aumentando o fosso. É como aquela
historia da garrafa: enquanto uns preferem dizer que ela esta cheia até a
metade, outros preferem dizer que está vazia até a metade. Infelizmente, temos a
tendência de só ver a metade vazia: falta isso, falta aquilo. Ora, somos todos
cristãos, batizados, crismados, temos sacerdócio, conselhos eclesiais, o que nos
falta? O que falta é muito pouco e esse pouco a gente pode examinar, refletir e
aceitar. O mesmo se aplica no diálogo inter-religioso, entre religiões cristãs e
não-cristãs: a gente não deveria falar das diferenças. Podemos falar apenas do
único Deus que nos une, todos. O Pai criador de todas as coisas, por meio do
qual formamos uma única família. E vamos nos unir na ação social, na ajuda ao
outro, ao que tem fome, ao doente - sem perguntar se ele é católico, ortodoxo,
cristão ou não-cristão: ele está com fome, vamos dar uma comida a este irmão.
Assim, a gente pode salvar a Igreja, pode salvar o mundo; pode acabar com as
guerras, a violência. Vamos partilhar, e todo mundo sairá ganhando.