Vitória (ES), 19/07/2004.

 

Caros irmãos emepecistas.

 

Impossibilitado de estar fisicamente presente no XV Encontro Nacional dos Padres Casados e suas Famílias, desejo assegurar-lhe que estarei presente em espírito, através de minhas orações, para que o Espírito Santo de Deus atua efusivamente em todos, fazendo emanar desse Encontro deliberações corajosas pertencentes ao nosso estado de Sacerdotes Casados.

É mais que hora de assumirmos na sociedade e no mundo a nossa verdadeira identidade, que é a de Sacerdotes Casados. Sim, não podemos furtar de nós mesmos aqueles que somos. De sociólogos e pedagogos o mundo está cheio. O mundo quer, precisa e esposa de nós muito mais do que de simples sociólogos. O mundo espera que assumamos com coragem nossa condição de Padres Casados.

Estou convencido de que a hierarquia eclesiástica não é empecilho que impossibilita o exercício de nosso ministério como homens casados. Papa e bispos podem, no máximo, atrapalhar, mas impedir não podem. Tudo só depende de nós. A messe do Senhor é grande e lá trabalho para todos em sua vinha.

Penso que e grande entrava que até hoje nos impede de exercer o ministério não é nem o Papa e nem os bispos, mas somos nós mesmos porque queremos uma Igreja à nossa imagens e semelhança, uma Igreja ao nosso modo, dentro das nossas concepções, e não uma Igreja como é de fato e na realidade, cheia de defeitos e de desafios.

Nosso grande desafio é exatamente o de acharmos o nosso espaço nessa Igreja que está aí, não na Igreja utópica que sonharmos.

Sermos corajosos se nos dispusermos a abrir e conquistas o nosso dentro da Vinha do Senhor como ela é aqui e agora, e não como queremos, que ela seja.

O convite do Senhor já feito. A Vinha é muito grande e nela há lugar para todos os que queiram trabalhar, tanto para os trabalhadores da primeira hora quanto para os da sexta, da nona e da undécima hora (Mt 20). Não importar! A todos o Senhor recompensará com igual salário, pois ele é o dono da Vinha e não o Papa. Este é um trabalhador com os outros e está lá para servir e não para dominar.

Mas só se deixa dominar quem é fraco e covarde, como o Servo preguiçoso que enterrou seu talento e ficou aguardando o retorno do Senhor com as mãos vazias (Mt 25).

Só os pusilânimes é que precisam justificar-se, e sua justificativa sempre é de que não trabalhavam porque as condições não eram favoráveis.

Assim temos sido nós, Padres Casados, sempre nos escondendo atrás da justificativa de que não trabalhamos porque o Papa não presente, o Direito Canônico nos exclui, a Igreja não nos escolhe etc. Desculpas! Meras desculpas de quem não tem interesse de trabalhar e tem medo de dar a cara pra bater.

A Igreja está no Reino, mas ela não é o Reino. A Igreja tem fronteiras e limites, por isso cria normas e dispõe barreiras. O Reino não tem limites e impõe barreiras. O Reino não tem limite nem fronteiras. Nele há lugar para todos os que amam e têm boa vontade. A condição é somente esta: amar e ter boa vontade. Há vaga para todos, não importa se solteiros ou casados. A ferramenta de trabalho é uma só: o evangelho de Jesus.

Sem querer colocar-seu como exemplo de nada, gostaria apenas de dizer que nunca perdi a vontade do trabalhar pelo Reino. No início, como não sabia por onde começar, comecei em minha própria casa, celebrando a Eucaristia na minha mesa de refeição, para minha esposa e minha filha. Com muito pouco tempo um casal amigo ficou sabendo e o grupo aumentou. Depois veio outro casal, outra família, e outra mais, até que minha casa ficou pequena. Aí ele mesmos me convidaram para celebrar na associação do bairro e nas casas de um e de outro, até que nos fixarmos na garagem de uma residência.

Meu trabalho é pregar o evangelho, refletir e viver com eles a Palavra de Deus, repartir o pão da Palavra e da Eucaristia.

Seu perceber formei uma comunidade que vive da Palavra e da Eucaristia, que nos levam a desenvolver um trabalho social na parte mais pobre da periferia de Vitória, uma das regiões mais violentas do Brasil.

Vejam que o campo de trabalho é imerso e ninguém pode nos impedir de trabalhar nele, porque o Reino é de Deus.

Aos que me acusam de sentir saudade das cebolas do Egito e, por isso, haver voltado à sacristia, respondo pedindo que um apontam um caminho melhor e mais eficaz para se trabalhar pelo Reino.

É muito fácil criticar quando se está de braços cruzados. Difícil é arregaçar as mangas e pegar no arado (Lc 9,62). Foi Jesus mesmo querer disse que, querer põe a mão no arado e fica olhando para trás não está apto para o Reino de Deus.

Minha opinião é de que os Padres Casados devemos trabalhar o Reino, mas não podemos nos esquecer de que todo o ser humano nasce e vive dentro de viu contexto historio, sócio-cultural e religioso que molda nossa personalidade e nosso jeito de ser, muitas vezes ocupados por costumes e tradições legítimas, que fazem parte da vida do povo, e que não podemos desprezar.

Digo isto para lembrar que o povo aprova e deseja o Padre Casado, 87% da população entrevistada lá pouco tempo mostrou que o povo concorda com o direito de os sacerdotes se casarem e continuaram sacerdotes, não como simples profissionais sociólogos, pedagogos e outros mais. Por isso, outro que não devemos nos acanhar de assumir nossa identidade de homens casado, chefes de família mas, também sacerdotes.

Sem querer desmerecer nenhuma profissão ou vocação, ouso dizer que o Reino precisa muito mais de sacerdotes que preguem a Palavra e celebrem a Eucaristia e os demais sacramentos do que de psicólogos, sociólogos e que tais. Muitos de nós podem ser as duas coisas junto, sacerdote e sociólogo por exemplo, Tanto melhor. O que não pode é um movimento, uma intimidade como o MPC, cuja sigla se traduz por “Movimento de Padres Casados”, renunciar à esta sua condição essencial que é o ser padre.

Desejo sinceramente que este XV Encontro de Padres Casados e suas famílias seja repleto da presença do Espírito Santo, e que ele  impulsione e inspire uma corajosa e decisiva decisão de nos colocarmos a serviço o mundo como Sacerdotes Casados.

 

         Um abraço a todos.

         Irmão em Cristo,

                                      Paulo Jorge Lúcio

                                      Vitória (ES)

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