Uns têm um estilo mais reservado e outros não vêem problemas em passar a noite em festas de rua, onde as atrações são bandas de forró, axé ou pagode. Edson Viana, 33, é um desses "homens de batina" que gosta de sair em companhia de amigos e enfrenta críticas dos fiéis. Pároco da Igreja de São Sebastião, ele encara com naturalidade a situação e chega a se comparar a Jesus Cristo. "Jesus tinha a fama de ser comilão. Jesus também tinha a fama de ser beberrão e muita gente hoje tem prazer em falar dos padres dizendo que os padres são beberrões. Do mesmo jeito se falava de Jesus. Nem ele escapou da língua do povo. De um povo que não faz nada e quer ser santinho. Já ouvi uma senhora dizer: isso aí é padre nada, é um beberrão. Do mesmo jeito era com Jesus", justifica. Na página que mantém no site de relacionamentos Orkut, o padre confirma o seu gosto pela bebida.
O padre Marcelo Protásio, 36, da Catedral de Santo Antônio, também reza
pela mesma cartilha e aceita convites de amigos para sair e se divertir em
lugares públicos. Marcelo costuma fazer comemorações na casa paroquial
sempre que termina alguma programação festiva na igreja. Nessas festinhas
particulares, não falta bebida para dar ânimo ao ambiente. "Todo mundo está
convidado para tomar um quentão agora", disse ao final de uma de suas missas
ainda no altar. O tradicional quentão nordestino é uma mistura de gengibre,
vinho, cravo e cachaça. Protásio também já promoveu grandes festas na frente
da igreja comemorando dia de Santo com bandas de forró e pagode.
"O fato de eu beber cerveja não quer dizer que eu vou deixar de ser homem de
Deus. Não vejo nada demais em tomar uma cerveja. Existem fatores positivos
nisso. Por exemplo, quanto mais próximos das pessoas nós estivermos, mais
possibilidades nós teremos de fazer a experiência de Deus na vida delas",
alega. "Tem gente que só toma refrigerante, mas tem um comportamento
completamente contrário a uma pessoa que diz ter fé em Deus", completa.
CURTIÇÃO
José Emerson Alves da Silva, 32, é outro padre que gosta de curtir
a vida como qualquer outro jovem. Ele é da paróquia de Jupi, mas vai a
festas de rua em toda a região. Sem dar ouvidos ao que o povo pensa, o padre
cai no passo. "Em todas as festas da região as pessoas costumam me ver. Nós
temos que ter uma presença em todas as camadas da sociedade. Uma cerveja não
vai fazer mal a ninguém. O mal está na forma como o sujeito se comporta ao
beber", esclarece. O religioso é natural de Palmeirina e está sendo cotado
na cidade para disputar um cargo político no futuro.
Paralelamente ao estilo de vida que cada um segue, eles desenvolvem
trabalhos sociais nas comunidades das igrejas, cumprem rigorosamente as
atividades eclesiásticas e aconselham fiéis que procuram ajuda nas salas de
confissão. Ao mesmo tempo em que os jovens padres adotam esse tipo de
comportamento, os sacerdotes de mais idade se dedicam mais para a vida
religiosa. Apesar de ser bem mais velho do que os novos padres, Frei Joaquim
Machado, 77, não critica o comportamento daqueles que estão começando a vida
sacerdotal. "Eu mesmo bebo cerveja ou qualquer outro tipo de bebida. O erro
está em exagerar na bebida. Agora ir a bar ou restaurante, aí já não é
comigo. Eu acho que pode beber quando estiver sozinho", acredita.
|
7/18/2007 |
Ele disse ainda que os fiéis ficavam chateados quando ele não aceitava
o convite para ir a alguma festa. "Lá as pessoas ficavam até chateadas
quando a gente não ia tomar uma cerveja", dispara. Com relação à
participação dos padres nas festas de rua, o religioso aponta uma
justificativa, segundo ele, bíblica: "Jesus foi na casa de Levi e na casa de
Zaqueu, que foram pessoas tidas como pecadoras e, além disso, ele
freqüentava vários ambientes públicos".
A reportagem procurou ouvir a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) a respeito do assunto polêmico. O secretário geral da regional Nordeste 2, padre José Albérico, disse que a CNBB tem competência apenas para tratar de assuntos que envolvem bispos. Como dom Irineu apóia o comportamento dos padres e disse que também bebe, o representante da entidade declarou que "o bispo fala apenas por ele e isso não quer dizer que a CNBB tenha o mesmo pensamento". Segundo o padre José Albérico, o assunto precisa ser levado a uma discussão interna e devido a isso evitou aprofundar a discussão. "É preciso fazer uma reunião para ver o que a CNBB delibera. Não posso dar um depoimento isolado a respeito disso", diz. Segundo ele, as declarações de dom Irineu serão levadas à próxima conferência.