From: Joao Tavares
To: padrescasados@grupos.com.br
 

 Parabéns aos colegas do Grupo de Padres Casados de Brasília, pela inspirada ação de saída do deserto para o mundo da liberdade!

 

 

Mário e Tavares!

Acabo de receber a notícia de que, em Brasília, aconteceu a Graça de um passo significativo na caminhada dos Padres Casados que desejam trabalhar segundo pastoral moderna, em novas formas, com novas linguagens, porém com o renovado entusiasmo dos Apóstolos e a fé obediente e pura da Mãe de Jesus e nossa.

Aos meus fraternos cumprimentos aos colegas nossos de Brasília, junto esta reflexão, talvez no momento mais importante da longa travessia do deserto para a liberdade e para a paz da Ressurreição. José Vicente de Andrade

 

 

Grupo de Padres Casados de Brasília retorna ao ministério, seguindo forma jurídica moderna, sem ferir princípios cristãos nem causar constrangimentos aos fiéis e à hierarquia eclesiástica

 

 

1. Nós todos, padres casados, nascemos sem pedir, como acontece com todas as pessoas desde que mulheres e homens se amaram ou, na pior das hipóteses, se relacionaram sexualmente.

2. Morreremos sem querer, da mesma forma como acontece com todas as demais pessoas que estão em gozo do direito de viver. Como todas as pessoas, nós, padres casados, também aproveitamos o intervalo entre o nascimento e a morte para realizarmos o que nos é possível ou facultado fazer.

3. Um dia, com maturidade ou não, a recepção de ordens maiores à Igreja e ela nos atendeu.

4. Depois, ainda no intervalo, com disposição de nos casarmos ou não, nos afastamos ou fomos afastados do ministério ordenado que um dia, anteriormente, solicitamos para servimos o Povo de Deus.

5. Agora, ainda no intervalo, estamos pensando se a retomada do ministério recebido pela ordenação convém para nós, pessoalmente; é bom para nossas famílias e útil para a sociedade  e para a Igreja.

6. As formas como administraremos as alternativas ou posicionamentos são diversas. Temos que repensar o chamado que recebemos; nossa aceitação quanto a ele; nosso pedido de ordenação; nossa saída do ministério; nosso casamento e nossas responsabilidades sociais como chefes de famílias e cidadãos de aparências comuns e sem proteção institucional da Igreja. Tudo com vistas à nossa realização pessoal.

7. Excluído o nosso nascimento e o nosso falecimento, tudo o mais é de natureza episódica.

8. Os eventos de intervalo são acidentais, porém importantes na qualificação de nossa realização como pessoas marcadas por determinada identidade intransferível: cristãos a serviço dos irmãos.

 

Os cristãos convivem com o mundo e o transformam

 

Na carta de Diogneto um cristão da segunda metade do século II, que se manteve anônimo, escreveu em a um amigo seu uma série de considerações para mostrar-lhe que na vida dos cristãos o diferente do que acontecia na vida dos que não o eram, acontecia na alma. Disse textualmente, nos itens 5-6 que os seguidores de Cristo “eram para o mundo o que a alma era para o corpo. Porém os cristãos não se apresentavam nem eram diferentes dos demais”. Moravam em cidades ou na zona rural, como as demais pessoas. Como estas eram cidadãos; porém eles procuravam proceder de modo mais elevado, pois respeitavam as leis e cumpridores todos os deveres delas decorrentes, pois sua religião não se fundamentava em sistema filosófico, mas no ensinamento da verdade de Deus. Os cristãos agiam esparsos no mundo todo assim como  a alma se espalhava pelo corpo todo,

 

Quem dá testemunho corre o risco de ser excluído

 

 1. - Na sociedade de outrora aconteciam fatos semelhantes aos que acontecem na atualidade da Igreja, cujas autoridades – movidas por preconceitos legais – referem-se aos padres casados, com desdém e os excluem dos serviços ministeriais ordenados, como se o sacerdócio fosse algo muito sem importância para a comunidade.

2. - O autor da carta, diante das injúrias e incompreensões para com os que davam testemunho de vida virtuosa, posicionou-se, falando em nome dos cristãos: “Acusam-nos de sermos improdutivos nas várias formas de atividades. Mas, como podem afirmar isso de homens que vivem com vocês, que se alimentam como vocês, que vestem os mesmos trajes que as demais pessoas, que seguem o mesmo sistema de vida e se defrontam com as mesmas necessidades?”

3.- “Usamos os bens materiais dos quais necessitamos para a sobrevivência com moderação. Respeitamos o imperador, porém sem prestar-lhe adoração. Mas nós o reverenciamos, pois ele merece receber nossos respeitos.”

4.- Parece que, atualmente pode-se afirmar que os padres casados que vivem com seriedade, repartindo a Palavra e o Pão com os irmãos, não deveriam ser  alijados do convívio social da Igreja. Talvez aos que se desgostam com a presença e as ações dos padres casados, pode-se aplicar esta observação de Tertuliano: “ As pessoas que têm motivos para queixar-se dos cristãos são os que não podem relacionar-se com eles, pois estas são as exploradoras de prostitutas, os rufiões, os criminosos diversos e seus cúmplices, tais como os homicidas, os que ganham a vida com a prática da magia, os adivinhos...Nós , cristãos, aprendemos de Deus  que devemos viver com honestidade”.

5.- Os padres casados, considerados em seu conjunto, de fato diferenciam-se em seus procedimentos dos demais padres. A diferença não consiste no fato de serem melhores que estes, mas apenas pela qualidade da busca constante pelos frutos dos trabalhos que cotidianos que realizam e pela vida familiar virtuosa, apesar de cometerem inúmeras falhas e muitos pecados.

6.- O simples fato de a direção da Igreja Institucional afastar do ministério os sacerdotes porque se casam ou se casaram [mesmo que ela seja conhecedora e/ou cúmplice de uma multidão de transgressões na caminhada dos milhares de bispos e padres celibatários, que levam vida dúplice] é vigoroso sinal de Deus. Os padres casados, embora as autoridades da Igreja nem o percebam, imitam o testemunho dos primeiros cristãos que demonstram viver o “”domínio de si mesmos pela prática da continência que acontece no matrimônio único no qual a castidade é observada e protegida, a injustiça é excluída, a piedade é testemunhada pelos fatos através dos quais Deus é reconhecido e a verdade considerada como norma suprema”. (Teófilo de Antioquia, Livro a Autólico, século II)

7.- Os padres casados, individualmente ou  nos seus diversos grupos, tratados com indiferença e, não raramente, com hostilidade, por seus irmãos católicos oficialmente celibatários, lhes retribui os maus tratos com caridade, “socorrendo-os, sem deles esperar nada em troca...Mesmo sofrendo injustiças, abençoam a todos, pois vivem na terra com os olhos e a esperança na vida eterna prometida por Jesus...Em enfermidade, em casos de falta de alimentos, de doenças, de funerais e mesmo quando os padres celibatários encontram-se prisioneiros, respondendo por seus crimes e sem assistência de seus próprios familiares e de seus bispos, padres casados surgem em socorro deles e agem tanto quanto podem “ Seguem os preceitos de Aristides, (Apologia , século II)

8.- A Igreja de hoje deveria deixar de ser tão ritualista e vazia de troca de experiências vitais. Ela nem percebe que ser não corresponde às necessidades humanas reais de apresentar e dar Jesus ao Povo como Ele é, continuará se enfraquecendo apesar de uma instituição forte, que funciona há dois mil anos; tem a guarda da Palavra de Jesus para realizar Sua Promessa de Redenção.

 

Revitalização ou revascularização da Igreja

 

O sol talvez tenha voltado a raiar sobre as almas de muitos padres casados que, psicologicamente, necessitam de uma comunidade sacerdotal fraterna para se sentirem seguros em suas práticas pastorais. Recebi pela internet, minuta da ATA DE BRASÍILIA, anunciando a criação do Centro Sacerdotal dos Padres Casados de Brasília e fiquei feliz, pois a boa nova de instituição apostólica que se alimenta do Evangelho e se fortifica não em expectativas que podem não acontecer, mas se alimenta da seiva do que o MPC e assemelhados e a AR produziram, durante 50 anos de travessia de duro deserto, muito me conforta.  Nada se perdeu dos esforços de tantos padres casados e seus familiares, graças ao Espírito do Senhor que inspirou nossos colegas de Brasília a oferecer algo de grande equilíbrio ao grupo em estado de travessia do deserto de  angústias e do dos temores de rupturas perigosas.

9.- À distância e ainda sem maiores informações, parece-me que não aconteceu secção no cerne da Igreja que todos amamos. Não há cisma nem rebelião: apenas se concretiza, em cartório, a acomodação cultural necessária e já existente e em funcionamento de metodologia pastoral modernizada, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, para a pregação e a vivência da mesma Igreja de Jesus, de Pedro e dos Apóstolos.

10.- A esperança é de ternura e eficiência, pois não faz sentido que sacerdotes de alta produtividade continuem fora do ministério apenas porque são autênticos em manter seus direitos de constituir famílias e não serem obrigados a falares, vestes e ritos que lembram um tempo da sociedade católica dependente do Império Romano. É sinal de renovação da bênção que dentro da Igreja surja segmento novo como odres novos para acondicionar o bom vinho com fins de distribuição às sociedades dos novos tempos da Graça.

11..- O passo dado em Brasília é importante, pois resguarda para a Igreja dos novos tempos, os direitos adquiridos de cidadania eclesial católica “ sempre antiga e sempre nova”. Também sugere que as comunidades católicas não precisam ser induzidas a rupturas da Verdade Revelada, menos ainda a aderir versões de Igrejas cujos presbíteros e bispos talvez até careçam da autêntica sucessão sacramental apostólica.

 

Eucaristia , a Coroação da Obra de Deus

 

O sacerdote existe em referência direta à vida espiritual e diretamente vinculado às realidades da Eucaristia, mistério e celebração que Justino, em um dos mais antigos e veneráveis textos cristãos, explica:

 “No dia denominado  ‘Dia do Sol’, todos os que residem na cidade ou no campo se reúnem em um mesmo lugar, onde lêem as memórias dos Apóstolos e os escritos dos profetas.

 Quando o leitor termina, o que preside toma a palavra para estimular e exortar à imitação de realidades tão belas.

 De imediato, de pé, oramos por nós mesmos e por todas as demais pessoas onde quer que elas se encontrem, a fim de que sejamos considerados justos em nossa vida e em nossos atos e sejamos fiéis aos Mandamentos para alcançarmos a salvação eterna.

Em seguida, leva-se ao que preside o pão, um copo com vinho misturado com água, que o que preside toma em suas mãos e os eleva dando graças e glorificando o Pai do universo, em nome do Filho e do Espírito Santo, e dá muitas graças porque fomos julgados dignos desses dons.

Quando o que preside terminou a ação de graças e o povo respondeu “amém”, aqueles que nós chamamos de diáconos distribuem a todos os presentes o pão e o vinho “eucaristizados”.

A ninguém é lícito tomar parte na Eucaristia, se não crê que são verdadeiras as coisas que ensinamos e não se tenha purificado no banho da remissão dos pecados, na regeneração, nem vive como Cristo nos ensinou.  ( Justino, Carta a Antonino Pio, Imperador, ano de 155)

 

 

José Vicente de Andrade