From: Francisco
To: Mario Palumbo

 

 

 

A Pastoral com os Marginalizados

 

Domingos Zamagna (*)

 

“Veio João, que não come nem bebe, e dizem: ‘Um demônio está nele’. Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: ‘Eis aí um glutão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores’. Mas a Sabedoria foi justificada pelas suas obras.” (Mt 11,18-20)

 

Ficamos felizes ao constatar que a Arquidiocese de São Paulo é pródiga de boas obras, empreendimentos úteis e conquistas significativas. Sob vários aspectos a Igreja de São Paulo é paradigmática para a pastoral de outras regiões. Nossa cidade, porém, ainda abriga um sem-número de problemas de alta complexidade que, sobretudo se levarmos em conta a omissão, descaso ou incompetência de setores do poder público, fazem dela um tecido ainda frágil, incoerente, vulnerável. Seria esperar demais que tivéssemos poucos conflitos.

Dadas as nossas peculiaridades, a pastoral da Igreja obviamente não pode ser o arremedo de outras partes do mundo; para ser eficiente, deve ser criativa. 

As urgências pastorais da Igreja de São Paulo conduziram o irmão Pe. Júlio Lancelotti, meu querido ex-aluno, à mais difícil missão: o trabalho com a parte mais excluída da população, o povo de rua. Pe. Júlio e seus colaboradores vêm procurando estancar a realimentação dessa massa excluída, agindo junto aos migrantes, desempregados, doentes, jovens em situação de risco pessoal ou social. Atuam também junto às estruturas do Executivo, Legislativo e Judiciário que podem influir na solução de muitos problemas. Numa palavra: o combate às fontes da marginalização. Uma pastoral de vanguarda, que sempre contou com o apoio dos Arcebispos.

Se é verdade que a Igreja é de todos, mas especialmente dos pobres - predileção do amor de Deus -, é também verdade que o mundo dos pobres não pode ser idealizado. Os pobres também têm as suas contradições. O seu sofrimento não os torna imunes ao contágio da maldade, inclusive muitas vezes introjetando e potencializando a maldade dos poderosos. A miséria nunca foi um bem, nem é virtude; deve ser combatida, porque embrutece as pessoas.

As vicissitudes pelas quais passa o Vigário do Povo de Rua da Arquidiocese de São Paulo, e que de fato poderiam atingir a qualquer um de nós se estivéssemos expostos aos perigos inerentes à natureza da ação de evangelização urbana, manifestam como é difícil essa pastoral especializada. Trabalhar com os empobrecidos supõe uma crença muito forte na sua capacidade de ressurgimento. Supõe a paciência histórica de acreditar neles, mesmo quando mais ninguém os valoriza. Supõe até mesmo aceitar ser eventual vítima de suas próprias contradições.

Ninguém deveria pretender julgar as atitudes desses irmãos que estão na frente de combate ou, como diz a Escritura, na "Galiléia das nações". A mística do amor aos pobres pode nos conduzir ao misterioso e ousado caminho dos profetas: longe da indiferença dos reis, da prudência dos sábios, da ironia dos doutores, da inclemência dos juízes, do conforto dos escribas, da justiça dos fariseus, da pureza dos levitas, das filigranas dos diplomatas, da espetaculosidade da mídia. Foi, porém, com a vida desconcertante dos profetas que se identificaram João, o precursor, e  Jesus, nosso Salvador. E tantos outros na história da Igreja.

A seu tempo, quem os entendeu? E com quem eles puderam contar?

 

(*) Jornalista e professor de Filosofia em São Paulo.