PAZ PARA O ANO LETIVO 2005.
No ritual de passagem de ano tornou-se comum o uso do branco. Simboliza paz, desejo de paz, busca de paz, intenção de paz. Dentre tantos cumprimentos afetuosos não faltam os de paz, prosperidade e de felicidade.
No começo de um ano letivo também não faltam os bons desejos. Para colaborar com os trabalhadores em educação oferece-se para eles várias sugestões de pensadores das diversas ciências: pedagógicas, filosóficas, antropológicas sociológicas, psicológicas, metodológicas etc... Todas ricas e necessárias a quem acompanha o processo ensino aprendizagem, como diretor, supervisor, coordenador e professor Tais ciências respondem pela formação técnica competente dos que, marcam o rumo e acompanham, na base, o referido processo. Esses denodados trabalhadores sabem, por experimentarem, que nada pode estar aquém ou além do momento histórico em que se vive. Vale dizer, nada fora da real necessidade do presente, dele e por ele olhar o ontem, compreender o hoje, vislumbrar o amanhã. A esses eu quero falar de Paz
Para tanto fui buscar na espiritualidade algumas definições de paz para juntos pensarmos e quem sabe juntos construirmos também na escola e pela escola a paz que a todos desejamos.
A primeira definição vem do Papa João XXIII que compara a paz a uma construção de telhado. Para tê-lo firme e seguro, diz ele, “será preciso construir quatro colunas mestras. Uma coluna da paz, outra da justiça, a outra do amor e a última da verdade”. A paz é filha da justiça. Sem justiça não haverá paz. O amor propicia confiança e entrega, ternura e compreensão, respeito e cuidado. A verdade liberta, faz querer, impele à pesquisar, à perguntar, à criar, à conhecer mais e melhor. Dela emana segurança que até permite a fantasia e desafia a realizar. A fantasia integrada à ação se torna o berço do experimento, da criatividade.
A segunda definição também vem de um Papa, Paulo VI. Para ele “não se pode falar de paz com arma na mão”.Cada um de nós pode se tornar um exercito ambulante desfilando armas destruidoras por todos os lados. O pensamento pode ser uma arma, as mãos outras, o coração rancoroso, o orgulho desmedido, a ignorância, a insegurança escondida no grito e no autoritarismo, a vaidade, todos os sentidos podem virar armas. A língua pode se transformar na pior delas.
Na seqüência, chamou-me a atenção o que o Papa João Paulo II define por paz, “a solidariedade é o novo nome da paz”. Em um mundo comandado pelo mercado, incentivado pelo consumo excessivo, pelo comércio, a negociação, a desmedida concentração de renda, predispõe ao aproveitamento de tudo e de todos para o uso próprio, construindo um individualismo brutal e descriminante, que conduz à discórdia, contendas, violências, guerras. A paz se torna indispensável para a vida e a convivência humana possível e saudável. Para tanto será preciso desenvolver a solidariedade, a partilha, a ajuda, mútua e duradoura, o conhecimento para todos, a formação do cidadão responsável e participativo.
Embora saibamos que as religiões são o lugar natural da espiritualidade, ela não se forma apenas através delas. Emana do que provoca mudança interior em nós. Do que nos faz melhores.Quando nos abrimos para mudanças, quando diante de um desafio, uma novidade, de uma situação de extrema dificuldade, nos perguntamos: “em que isso nos faz mudar? Como poderemos colaborar com essa mudança”?, estaremos nos colocando questões de espiritualidade. É o mais profundo do nosso ser que está sendo questionado. Ao buscarmos respostas estaremos permitindo mudanças de dentro de nós, do íntimo do nosso coração. Depois, em união com o pensamento sai de nós para o meio ambiente, para o social, refletindo a mudança e/ou espiritualidade.
Cabe perguntarmos: Na educação isso é possível? Caberá espiritualidade na escola? A escola pode não só desejar a paz, mas, também ser construtora de paz ?
Se educar “é mudar comportamentos” como ensina-nos grandes pedagogos a resposta às questões é afirmativa. Cabe espiritualidade na educação. Por si ela não só propicia, ela é mudança e mudança de dentro para fora. Para educar e produzir mudanças a escola não pode criar contendas, descriminar, dominar, impor. Se a paz é filha da justiça, para se tornar construtora de paz, na escola não pode haver injustiça em nenhum de seus seguimentos. Ninguém pode mandar, todos precisam colaborar. Quem dirige precisa amar e ensinar a amar a tudo e a todos. O amor ama e porque ama quer conhecer em profundidade e em detalhes o amado. Porque ama orienta, respeita, pensa junto, desviando do pensamento qualquer descriminação ou favoritismo. O interesse último é o bem comum. O amor cuida e tem por auxiliar o afeto e a verdade. Esta por sua vez liberta para a criatividade na medida em que cria ambiente seguro que permita dar o salto em busca do novo. Pelo caminho da criatividade alimenta questionamentos e pesquisas. Nada na escola pode se tornar arma. Nela precisa-se cultivar, no ato de apossar-se do conhecimento, o perdão a compreensão, a alegria, a amizade, o convívio fraterno, a felicidade. E finalmente a paz desejada passará a ser realidade, que toma corpo na solidariedade, na partilha do ato de aprender e ensinar conhecimentos e participação. Esta última, de braços dados com a colaboração, enseja mudanças políticas que justificam os votos de prosperidade para todos, na formação do novo cidadão que precisa ser participativo, na valorização dos trabalhadores em educação, também construtores de paz.
Ruth Carvalho da Costa.
Mestra em Educação e Diretora Sindical do Sindicato de Especialistas de Educação do Magistério Oficial do Estado de São Paulo- UDEMO, em Ribeirão Preto.