"Pedro não é pedra - Mt 16,18
Frei Jacir de Freitas Faria,OFM
Os judeus Pedro, Paulo, Tiago, Maria Madalena e tantas outras lideranças
da primeira hora do cristianismo foram pessoas importantíssimas na
re-elaboração do pensamento judaico no cristianismo nascente. Tomemos a
figura de Pedro e a sua relação com Jesus. Discípulo fiel ao Mestre,
Pedro foi questionado por Jesus: Tu me amas? Três vezes a pergunta foi
repetida. Dizer três vezes a mesma coisa tem um significado especial no
pensamento judaico.
Está ligada à declaração de fé judaica em Deus, expressa no Shemá
(Escuta, ó Israel). Todo judeu é convocado professar que Deus é UM e a
amá-lo com todo o coração, alma e as posses (Dt 6,4-9). A fé de Pedro
foi colocada em xeque. No momento da morte de Jesus,Pedro o negou três
vezes antes que o galo cantasse (Mt 26, 69-75).
Pedro esteve presente na vida apostólica de Jesus e na hora da sua
morte. Jesus valorizou o discípulo fiel curando a sua sogra e
conferindo-lhe a liderança apostólica. Jesus valorizou tanto a pessoa de
Pedro que ligou a sua pessoa ao seu nascimento. Como? Sim.Essa afirmação
só pode ser entendida se analisarmos o sentido do nome de Pedro em
aramaico, Kepha. Antes, porém, situemos o nascimento de Jesus.
A comunidade de Lucas conservou a memória da ida de José e Maria a Belém
para cumprir o decreto de recenseamento estabelecido pelo Imperador
romano César Augusto (Lc 2,1). Estando em Belém, Jesus nasceu, segundo a
tradição, em uma gruta e foi colocado numa manjedoura, lugar onde os
animais comiam. A manjedoura no nascimento de Jesus tem valor simbólico
importantíssimo. O substantivo grego fatné, traduzido como manjedoura,
significa também cavidade aberta em uma superfície de um terreno
vertical ou inclinado. O povo tinha o costume de escavar as rochas para
daí tirarem pedras para construir casas.
Os buracos formados nas rochas recebiam, na língua familiar, o aramaico,
o nome de Kepha. Daí o significado de Kepha ser gruta escavada na rocha.
Aos pobres restavam o infortúnio de morar nessas cavernas ou grutas.
Kepha e fatné têm sentido correlato. Kepha traduz o substantivo grego
Pétros (Pedro). Então Pedro não significa pedra? Sim, mas tomado no
sentido anterior, pode significar gruta escada na rocha. E aqui, não
vale o sentido de rocha, firmeza.
Retornemos ao pensamento inicial: Pedro (Kepha) está ligado ao
nascimento de Jesus. Vale a ousadia de pensar que Jesus se lembra do seu
nascimento em uma kepha quando disse a Pedro: "Tu és caverna escavada na
rocha, e sob (debaixo) dessa caverna, onde vivem os pobres, aí
edificarei a minha Igreja" (Mt 16,18). O sentido semântico do
substantivo aramaico Kepha muda completamente a tradicional
interpretação do "Tu és Pedro, e sobre essa Pedra edificarei a minha
Igreja".
Ou não muda? O nascimento de Jesus em Belém serviu para colocar os
alicerces da futura comunidade de fé, que mais tarde passou ser chamada
de Igreja. Jesus nasce pobre para libertar os pobres. Pedro continua
rocha e caverna, casa dos pobres, periferia do mundo,onde as Igrejas
devem estar anunciando a libertação.
Publicado no Jornal de
Opinião, Belo Horizonte/MG."