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América Latina - A V
Conferência, entre profetismo e estagnação
Ermanno Allegri *
Adital -
Estou há uma semana em Aparecida acompanhando os trabalhos da V Conferência
e percebo uma preocupação muito forte em relação ao resultado desta
Conferência no meio de quantos passam por aqui: na tenda dos mártires, na
tenda da Conferência dos Religiosos, entre os participantes da Romaria das
CEBs e do Seminário de Teologia e em setores da imprensa nacional e
internacional que cobrem o evento.
A questão de fundo que está em jogo nesta V Conferência, é se a igreja da
América Latina e Caribe se colocará com coragem evangélica dentro dos novos
ventos que estão soprando no continente (com sua presença atuante, ela foi
uma das grandes criadoras deste tempo que vivemos), ou se vai estagnar
oferecendo respostas velhas às novas perguntas de nosso tempo. E ainda, se
ela vai assumir seu rosto latino-americano e caribenho, ou se continua como
‘filial’ de uma matriz européia.
Se não der passos claros, ela ficará fora da história, perdendo uma ocasião
única de ser sal e fermento no continente.
Como observador externo, não tenho a impressão de que a assembléia se sinta
empolgada diante dessa tarefa histórica. Não se trata simplesmente de
escrever algumas frases sobre os pobres como se fosse uma obrigação ‘porque
isso não pode faltar’. O Banco Mundial também fala deles nos seus
documentos. O problema é assumir, como Cristo na sinagoga de Nazaré, a
escolha dos famintos, dos cegos, dos leprosos, das mulheres, dos excluídos
para sermos, com eles, protagonistas no caminho de libertação.
Do mesmo modo ficará vazio o documento se ganhar a tendência de falar
genericamente das ‘comunidades eclesiais’ sem ter a coragem de
caracterizá-las explicitamente ‘de base’, as CEBs, aquelas que deram novo
ânimo à vivência da fé na América Latina e Caribe.
A V Conferência retrata aquilo que a igreja é em suas realidades e formas,
hoje. Nos debates do plenário se confrontam continuamente, entre os 160
bispos-delegados (26 do Brasil), os modelos da igreja do Concílio de Trento,
hierárquica, doutrinal e centralizadora; da igreja do Vaticano II, que abre
as janelas para deixar entrar o ar do mundo moderno; e da igreja de Medellín
que, do mofo do Cenáculo, vai para o meio dos excluídos.
Assim percebe-se que enquanto um bispo fala da comunidade cristã aberta na
defesa dos injustiçados, a serviço do Reino, outro (aconteceu na missa
oficial da assembléia), apela emocionado ao ecumenismo como retorno à igreja
católica de todos que estão fora dela.
Até agora, não aconteceu nenhum choque mais sério no plenário e o clima é de
paz, mas parece a paz de quem não quer comprar uma boa briga para sacudir um
pouco os ares. Nós, do lado de fora, esperamos mais coragem, mais profetismo.
Lembramos a ousadia de Dom Luciano Mendes, da CNBB, em Santo Domingo quando,
numa noite, redigiu dois textos (os atuais números 302 e 303 do documento
final) e, na manhã seguinte, passando por cima de todas as regras, foi ao
microfone, leu os textos e a mesa, que tinha abafado e controlado qualquer
sopro de vitalidade durante toda a conferência, teve que ceder aos aplausos
do plenário e incluir as palavras de Dom Luciano.
De Aparecida sairá um documento morno e insosso ou uma palavra corajosa e
profética? Pessoalmente, tenho uma certa esperança. Se os nossos bispos
deixarem passar esta oportunidade será uma tristeza para eles e uma
frustração profunda para os cristãos já comprometidos com um cristianismo de
libertação. Depois de 500 anos de dependência e exploração, esse é o momento
para reafirmar e avançar no compromisso de uma América Latina nova, ética,
fraterna e solidária.
* Vigário do Tancredo Neves, Fortaleza e Diretor de ADITAL