de: Joao Tavares
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   América Latina - A V Conferência, entre profetismo e estagnação
 
 Ermanno Allegri *   

Adital -
Estou há uma semana em Aparecida acompanhando os trabalhos da V Conferência e percebo uma preocupação muito forte em relação ao resultado desta Conferência no meio de quantos passam por aqui: na tenda dos mártires, na tenda da Conferência dos  Religiosos, entre os participantes da Romaria das CEBs e do Seminário de Teologia e em setores da imprensa nacional e internacional que cobrem o evento.
A questão de fundo que está em jogo nesta V Conferência, é se a igreja da América Latina e Caribe se colocará com coragem evangélica dentro dos novos ventos que estão soprando no continente (com sua presença atuante, ela foi uma das grandes  criadoras deste tempo que vivemos), ou se vai estagnar oferecendo respostas velhas às novas perguntas de nosso tempo. E ainda, se ela vai assumir seu rosto latino-americano e caribenho, ou se continua como ‘filial’ de uma matriz européia.
Se não der passos claros, ela ficará fora da história, perdendo uma ocasião única de ser sal e fermento no continente.
Como observador externo, não tenho a impressão de que a assembléia se sinta empolgada diante dessa tarefa histórica. Não se trata simplesmente de escrever algumas frases sobre os pobres como se fosse uma obrigação ‘porque isso não pode faltar’. O Banco Mundial também fala deles nos seus documentos. O problema é assumir, como Cristo na sinagoga de Nazaré, a escolha dos famintos, dos cegos, dos leprosos, das mulheres, dos excluídos para sermos, com eles, protagonistas no caminho de libertação.
Do mesmo modo ficará vazio o documento se ganhar a tendência de falar genericamente das ‘comunidades eclesiais’ sem ter a coragem de caracterizá-las explicitamente ‘de base’, as CEBs, aquelas que deram novo ânimo à vivência da fé na América Latina e Caribe.
 
A V Conferência retrata aquilo que a igreja é em suas realidades e formas, hoje. Nos debates do plenário se confrontam continuamente, entre os 160 bispos-delegados (26 do Brasil), os modelos da igreja do Concílio de Trento, hierárquica, doutrinal e centralizadora; da igreja do Vaticano II, que abre as janelas para deixar entrar o ar do mundo moderno; e da igreja de Medellín que, do mofo do Cenáculo, vai para o meio dos excluídos.
Assim percebe-se que enquanto um bispo fala da comunidade cristã aberta na defesa dos injustiçados, a serviço do Reino, outro (aconteceu na missa oficial da assembléia), apela emocionado ao ecumenismo como retorno à igreja católica de todos que estão fora dela.
Até agora, não aconteceu nenhum choque mais sério no plenário e o clima é de paz, mas parece a paz de quem não quer comprar uma boa briga para sacudir um pouco os ares. Nós, do lado de fora, esperamos mais coragem, mais profetismo.
Lembramos a ousadia de Dom Luciano Mendes, da CNBB, em Santo Domingo quando, numa noite, redigiu dois textos (os atuais números 302 e 303 do documento final) e, na manhã seguinte, passando por cima de todas as regras, foi ao microfone, leu os textos e a mesa, que tinha abafado e controlado qualquer sopro de vitalidade durante toda a conferência, teve que ceder aos aplausos do plenário e incluir as palavras de Dom Luciano.
De Aparecida sairá um documento morno e insosso ou uma palavra corajosa e profética? Pessoalmente, tenho uma certa esperança. Se os nossos bispos deixarem passar esta oportunidade será uma tristeza para eles e uma frustração profunda para os cristãos já comprometidos com um cristianismo de libertação. Depois de 500 anos de dependência e exploração, esse é o momento para reafirmar e avançar no compromisso de uma América Latina nova, ética, fraterna e solidária.

* Vigário do Tancredo Neves, Fortaleza e Diretor de ADITAL