From: Joao Tavares
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* ERRAMOS: o texto REFLEXÕES SOBRE O MPC EM BUSCA DE UMA IDENTIDADE  enviado por João Tavares moderador é do Padre Armando Holocherski presidente do MPC

 

REFLEXÕES SOBRE O MPC EM BUSCA DE UMA IDENTIDADE

 Por Armando Armando Holocherski
 

 

                             Na medida em que se aproxima o XVII Encontro Nacional das Famílias dos Padres Casados, em Recife, intensifica-se o debate .   Afinal,  Padre Casado na Igreja do Ocidente  já é uma  realidade que já vai alcançando seus quarenta anos,  “Missão do Padre Casado e sua Família no mundo” é o tema do XVII Encontro, no entanto há outros temas e outras questões  com remetentes vários  gravitando na órbita do tema principal.. É o debate sobre a presença do bispo Melingo de uma parte,  de outra parte a sugestão do  Jorge Lúcio  de que é hora de o MPC  ter um bispo, mesmo que este passo seja uma ruptura , reversível como foi o a do Lefevre, pondera o Jorge. Em outra órbita,  a Igreja Carismática Católica (ICC)  divulga  sua intenção de , pela imposição de mãos do bispo Milingo,  prover o MPC de um ou vários bispos e fundamenta sua pretensão apoiada na legitimidade da sucessão apostólica do bispo Milingo. Há ainda  colocações de  João Tavares, de José Vicente, de Lauro Motta, de Francisco Resende, de Eduardo  Hornaert, de Miroslau Kropidlowski, de Mario Palumbo, de  Rogério Ataíde, do Bismark Frota e outras veiculadas pelo moderador João Tavares . A  riqueza de enfoques é significativa.

                            A análise das colocações e a importância do Movimento  que se apresenta  sob a sigla MPC abre caminho para algumas considerações que  poderão oferecer elementos para o discernimento , ampliação do debate e a colocação de alguns balizamentos que poderão  sinalizar o caminho que não está definido e que deverá ser construído pelos próprios interessados.

                             Se por alguma ótica pareceu que o XVII Encontro poderia ser o derradeiro e por outro ângulo  pareceu que vai ser o Encontro da virada,  o mais presumível é que o Encontro  será um passo importante  que integrará os já dados pelos Encontros anteriores e sinalizará para os passos vindouros. O caminho se faz caminhando. Nesta caminhada, que passa de trinta anos, uns passos foram mais outros menos apropriados, mas foram passos de uma caminhada que não tem e não deve ter fim enquanto o MPC for movimento. Será necessário dar outros e mais outros passos. Trata-se de um movimento. O Movimento das famílias dos padres, como se definiu no XV Encontro.

                               Um olhar mais atento parece mostrar  que os motivos para  a ordenação de um bispo para o MPC não são  tão fundamentais e inadiáveis Até pode ser um passo que poria fim ao movimento transformando-o numa instituição.  Também  assoma como coisa estranha  a ICC ( Igreja Carismática Católica)  pretender impor um bispo e uma diocese territorial. Se não é lógico, é menos ainda teológico . A  questão fica ainda mais estranha porque a ICC não faz parte da caminhada do MPC e, mesmo que fizesse algum sentido, a  imposição fica muito mais estranha com a figura de um episcopado paramentado  de cristandade. No pretenso gesto não se percebe vestígios da teologia neo-testamentária.

 

 

CONSIDERAÇÕES .

 

                             As considerações  a seguir decorrem  da importância do MPC como movimento, do seu significado no  presente momento, da intenção de contribuir com  a reflexão para  antes e durante o XVII Encontro  e também para oferecer alguns elementos que possam servir de balizamento do caminho.

 

 

 

 

                            Primeira consideração :.buscando conceituar o MPC e  inferências

 

                            O MPC se definiu e se define como movimento. A característica dos movimentos é a sua não vinculação a algo estrutural, definitivo, pronto. Isto é decorrência do ser de um movimento.O movimento é um movimento, É  oposto ao fixo, ao rígido, ao inflexível, ao institucional.. A opção  por aquilo que  dá uma estrutura, fixa a forma de agir e de ser   descaracteriza a identidade de movimento. Os movimentos aos poucos  começam a ser aquilo por o que  se optaram. Se estruturam sobre a sua opção . Quando optam por uma estrutura, uma instituição, desaparecem elementos que caracterizam os movimentos  como a perda  da  pluralidade,  exclusão dos que não são da mesma opção, dificuldades de  adaptação à novas situações e circunstâncias. Estar aberto ao pluralismo, ao respeito pela alteridade do outro, oferecer espaço para todos, mesmo que diferentes entre si no pensar e no agir, é o próprio dos movimentos ,Isto não é sincretismo , mas busca da fidelidade a si mesmo,.

                              Estes caminhos foram os que o MPC buscou com passos de diversos matizes,  embora o nome  Movimento de Padres Casados , hoje sub-entendido Movimento das Famílias dos Padres Casados, encerra uma certa limitação conceitual que pode denotar  certa inconsciência que os padres casados não estão mais sozinhos e se aplicado rigidamente exclui os não casados e os leigos e as leigas, que são os membros da família do padre ou do bispo.

                             Na práxis  a exclusão não ocorreu, embora a mulher, os filhos e outras pessoas  não ordenadas não tenham ocupado o lugar que se esperaria nos debates e na caminhada . Também importa lembrar que , embora o nome seja excluidor,  há pluralismo de pensamento, de opções pastorais, de  formas de vida. É variada a gama  de conceitos que as pessoas ( padres e leigos) ligadas ao movimento fazem do  padre  casado ou não, do seu trabalho,  das suas aspirações e do seu futuro, São alguns elementos que mostram que a práxis  do MPC  o caracteriza como movimento, mesmo que o nome seja restritivo, mas é o nome histórico.

                              Do acima ponderado infere-se que algumas opções em debate como a de ter um bispo próprio, ou a de aceitar a ingerência da Igreja Carismática Católica que  pretende criar dioceses e ordenar bispos para o MPC, ou ainda a opção de atrelar-se ao  bispo Milingo, ou ao seu movimento  representam  estruturas que limitarão, ou suprimirão o essencial  ao  Movimento  Padres Casados e cujo essencial  é ser um movimento. A aceitação  destas opções, instituições ou estruturas,  ou apenas alguma delas,  exclui os que não têm o mesmo ponto de vista e suprime   a liberdade da iniciativa pessoal ou grupal para opções pastorais ou opções de vida que não se enquadram   na ótica  de um bispo próprio, ou  na ótica da ICC. É um filme que pode ser  visto na medida que se lê a discussão que o antigo   Israel faz quando está pensando em abandonar a sua opção pela liga tribal e voltar à instauração da realeza.

                              Bem analisada, a  desvinculação do ministério regulado pelo Código de Direito Canônico da Igreja Católica  é libertação do aprisionamento e  da limitação que o tempo,  a história, o contexto e  as ambições humanas  encerraram os ministérios ordenados. Significativo é o depoimento do Eduardo Horanert que compreendeu a prisão dentro da qual estava o seu bispo que não conseguia livrar-se dos preconceitos sobre o casamento do padre quando Eduardo lhe comunicou que iria casar-se. É verdade que esta libertação teve  um  preço porque  marginalizou e degradou  padres, bispos,  diáconos e as  famílias dos mesmos.

                             Nada impede que  padres casados individual ou grupalmente  decidam por um bispo próprio, ou por bispos que a Igreja Católica Carismática (ICC) lhes ofereça,  ou queiram  Milingo como seu bispo, ou optem pelo  seu movimento. Será o exercício  do direito  da liberdade religiosa,  um  direito  sagrado. É próprio do MPC como movimento reconhecer este direito  e dar o maior apoio possível à opção de cada um, ou de um grupo. Seja qual for a opção  sempre poderão considerar-se do MPC. Ser do MPC é uma opção pessoal que não contraria opções por esta ou aquela instituição

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                              Segunda consideração: \em busca de uma fundamentação

 

                              Compreender o MPC como movimento ganha uma dimensão melhor  lendo-o  a partir de  Jesus  apresentado no texto de Paulo aos Filipenses “ Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus. Ele, estando na forma de Deus, não usou de seu direito de ser tratado como um deus, mas se despojou, tomando a forma de escravo. Tornando-se semelhante aos homens e reconhecido em seu aspecto como um homem, abaixou-se, tornando-se obediente até à morte, à morte sobre uma cruz . Por isso Deus soberanamente o elevou e lhe conferiu o nome que está acima de todo nome.”  Fl 2,5-8

                             Aparentemente o texto parece não ter relação com o MPC.  Admitindo, no entanto, que a razão fundamental , o por que do MPC , é seguir Jesus o Cristo entende-se a existência de uma relação entre este texto e o MPC . O Jesus do texto de Paulo não é o Jesus da doutrina, mas o Jesus da história, o Jesus terreno ou terrestre, o Jesus de Nazaré . O paralelo Jesus do texto de Paulo e dos Evangelhos e o MPC  fundamenta o MPC como movimento, não no sentido de um conselho piedoso ou de uma mística, mas porque Jesus homem é a razão de ser dos padres que se desligaram do ministério canonico, como é também o fundamento do modo de vida de todo cristão. Descobrir a relação que existe entre a encarnação de Jesus e um ministério desclericalizado  coloca  para um segundo plano a ordenação de bispo,  a idéia de provocar um cisma, ou de optar por isto ou por aquilo.O fundamental é seguir Jesus o Cristo homem , tornando-se seu  discípulo, sua discípula, caminhando com Ele ao lado.

                             Sair  do ministério regulado pelo direito canônico  e aparentemente ficar sem ministério cria a possibilidade de transformar em ministério a própria vida, que é mais  do que fazer de uma parte da vida um ministério “ex oficio”. Fazer do viver um ministério é colocar-se no tempo messiânico. É, como  afirma Eduardo Hornaert em JESUS DOIS MIL ANOS DEPOIS ( tema abordado no Encontro de Salvador) “ O tempo messiânico é o tempo da minha vida. Estou sendo chamado para andar ao lado do messias. Vivo um intenso ‘aqui e agora’, uma oportunidade única. Sinto-me chamado por Deus. Não que eu sinta a necessidade de passar do mundo profano dentro do qual vivo a um mundo religioso. Não é dentro de um universo com referencial espiritualista, ou contido dentro de um contexto de ritos, que se comprende a vocação no tempo messiânico. Tudo permanece profano” assim como em Jesus tudo é totalmente humano,  não de uma humanidade teórica, abstrata, mas de uma humanidade judaica do seu tempo. Jesus não era sacerdote judaico, não foi aluno das escolas rabínicas, não era mestre reconhecido pelos rabinos. Era um morador da cidade de Nazaré e não fazia de conta que era um pobre,  trabalhador,  homem que sofria as agruras do seu tempo, que se alegrava com as alegrias  com que se alegravam os nazarenos.e se revoltava com a opressão que se abateu sobre o povo judeu. Ele assumiu todas as realidades de vida da ignota Nazaré, as realidades de um povo oprimido, de uma história nacional que estava indo  para a destruição. Viveu em tudo a vida de homem do seu tempo. Se é possível dizer, a vida de Jesus não apresenta nada, nada mesmo , de sobrenatural. Ele mesmo precisa se entregar com toda fé a Deus e buscar à luz desta fé a vontade do Pai.

                            Assim pode ser lido o ministério do padre casado. Se há um profetismo a ser exercido, esse é o profetismo. Sou profeta naquilo e por aquilo que sou. O texto de Paulo aos Corintios ( 1 Cor 7,29-31) esboça como viver o profetismo.  Novamente parafraseando o texto de Eduardo Hornaert, trata-se de viver ‘como se não’. Viver com a esposa como se não vivesse com ela, chorar como se não chorasse, alegrar-se como se não se alegrasse, aproveitar deste mundo como se não aproveitasse. E acrescento, ser padre como se não fosse padre, bispo, diácono, leigo ou leiga. Isto tudo é assim  porque é preciso superar o esquema deste mundo sem deixar de viver neste mundo. È a vocação. Ela faz com que se viva “como se não”. Paulo não está falando da vocação como é entendida no jargão eclesiástico, vocação para padre, para religiosa, para religioso. Para ele  vocação não é opção para ser diferente como o linguajar na fala eclesiástica de hoje. Explicitamente Paulo diz: cada um permaneça na vocação em que foi chamado (1 Cor 7,20), querendo isto dizer que a vocação cristã é um segundo chamado que não desloca as pessoas da vida real na qual estão. O escravo permanece escravo, o senhor permanece senhor, o profissional permanece profissional, o padre permanece padre. Ninguém tem de abandonar sua maneira de viver para acompanhar o movimento de Jesus. As mulheres participam tanto quanto os homens, os ricos tanto quanto os pobres, os padres tanto quanto os leigos, mas doravante o rico não vive como rico, o marido como mandão e a mulher como serva, o padre como clérigo, mas como se não fosse padre. Aqui está o melhor do fundamento do MPC. O mistério da encarnação garante o ministério que nasce na ordenação sem a necessidade de um  retorno à clericalização ou à criação de um substitutivo da clericalização que os padres casados deixaram. É bastante evidente que isto é até difícil de compreender. Por séculos o bispo . o padre, o diácono foram apartados da realidade da vida e colocados num “status” de apartados, encerrados num ministério profissional com a idéia de que o único que sabe das coisas é o padre e que os leigo são  ovelhas ignorantes que nem sabem expressar com  suas palavras  a  decisão de celebrar  sua união conjugal como  sacramento.  O padre fica assoprando as palavras que os nubentes devem dizer. Despojar-se do poder clerical é muito difícil e demorado.

                             Dentro desta perspectiva  sai  de foco a idéia de um retorno ou de uma reintegração ao ministério regulado pelo direito canonico. É suficiente ser padre e se inserir na vida pois isto já é ministério, que um dia a Igreja  recolherá. E se alguém é bispo ?  Não há problema nenhum. Seja bispo. O movimento é um movimento e não uma instituição. Jerônimo Podestá  não era bispo ? Não viveu como se não fosse bispo ? E se ele impôs as mãos sobre alguém ordenando-o bispo ? Seja bem vindo.! Os  bispos  são para santificar, ensinar e orientar. Algo impede que alguém seja bispo e santifique, ensine e oriente ?. Precisa de um aparato todo, uma estrutura exercer o episcopado  ? Participando da Liturgia da imposição de mãos para a ordenação de um bispo oriental  percebi a brevidade e a sobriedade das palavras da epiclese   da imposição das mãos e chamou atenção a  paramentação do novo bispo. Uma bolsa a tiracolo porque simboliza  o alimento que como bom pastor deve levar  para  alimentar o rebanho enquanto o conduz  em busca de pastagens.  Uma dalmática mais curta que a dos diáconos é sua veste. Se  a dalmática do diácono significa que ele está a serviço, a do bispo é mais curta porque ele deve estar  mais ainda  a serviço  Por sobre a dalmática o pálio episcopal simbolizando o bom pastor que carrega a ovelha  desgarrada e na mão o cajado. Se houver algum bispo dentro do movimento que espiritualmente esteja paramentado assim  será um bom bispo, mas não há necessidade que o MPC queira ter um bispo para o MPC.

 

 

                             Terceira consideração:Em busca do  ministério

 

                           Existem perguntas existenciais angustiantes. Durará  toda  vida  o lim-bo no qual foram lançados os padres que saíram do ministério canonico e se casaram ?   O padre readquirirá o “status”  de padre ?  Será que a Igreja perceberá a contradição quando lamenta que tem poucos padres e ostensivamente ignora os padres casados ?  São  perguntas que até podem ser  a  tentação de quem saiu  como o culto dos deuses cananeus era tentação de Israel .   O padre  e os próprios cristãos construiram  por anos   uma imagem de padre calcada numa estrutura milenar de ser Igreja.. Desde o Decreto de Constantino que juntou o episcopado com o poder imperial até o Decreto de Graciliano que define a Igreja como uma sociedade composta de clérigos ( topo da pirâmide) e leigos( base da pirâmide)  muitos acontecimentos cimentaram uma estrutura  difícil de superar.

                             Superar uma estrutura é um processo bem lento e até perigoso, repleto de altos e baixos. João XXIII é um  momento alto pois com o seu pontificado, ainda imerso na cristandade, começam novos tempos que já vinham se delineando com  a teologia da nova evangelização e a volta aos pobres,  curiosamente elaborada num período de muito fechamento que são os oito anos entre a interrupção do Vaticano I,em 1870, e a eleição de Leão XIII em 1878..O Concílio Vaticano II é outro momento alto. Durante o Concílio e logo depois surge o maior êxodo de padres e pode ser interpretado como uma busca de novas formas de ministério presbiteral  cujas raízes estão na primeira guerra mundial  onde padres vão para o front e se deparam com  a  realidade da vida e da morte na guerra,  estão também na segunda guerra mundial onde muitos presbíteros perdem a vida e finalmente no movimento dos padres operários, bruscamente encerrado por Pio XII.

                             Na América Latina as Conferências que seguem na esteira do Concílio, particularmente Medelin, são outro momento de mudanças. Buscam inserir o Concílio na Igreja das Américas e inserir  a Igreja  com  suas realidades no Concílio. Passando por percalços  e até a possibilidade de serem transformadas num mero sínodo consultivo, as Conferências sobrevivem  e chegam até a V Conferência, a de Aparecida. Nesta conferência  surge uma luz no fim do túnel, luz que até já vinha se manifestando na preparação da Conferência. Essa luz é o projeto ambicioso, que na expressão do Pe Comblin, não é nada menos do que uma inversão do sistema eclesiástico. Dentro deste projeto da inversão do sistema eclesiástico assumido pela Igreja da América Latina e do Caribe  há uma resposta para o ministério dos padres que saíram do ministério canônico.  Esta resposta faz concluir que as angustiantes perguntas são  apenas saudade de uma estrutura, a da cristandade, que se não passou ainda, não tem mais como retornar.

                             As considerações que seguem se baseiam na reflexão  do Pe Comblin publicada no Chile em agosto de 2007 com o nome de “ O Projeto de Aparecida”.  A afirmação de que a V Conferência é a luz  no fim do túnel  para responder às interrogações do padre casado se fundamenta no projeto  da Igreja da América Latina e Caribe. O projeto  pelo qual os bispos optaram é o de  toda  a Igreja deste continente   tornar-se missionária. Isto significa uma inversão do sistema eclesiástico  que por séculos  concentrou sua pastoral na conservação de uma herança do passado, adaptando as suas instituições para isto., principalmente as do século XII, que ainda são vigorosas  nos dias atuais e que são constituídas pelo sistema paroquial.

                             Os bispos lançaram o Projeto e ele está no documento conclusivo da V Conferência. . Ele vai levar, na visão do Pe Comblin, mais de um século para se realizar  pois  os problemas são muitos, entre os quais o mais difícil é o de convencer o clero  A presente geração do clero não  está preparada para a inversão de suas tarefas em decorrência da sua formação. Será necessário mudar radicalmente a formação preparando gerações de sacerdotes diferentes da atual.

                              Fazer da Igreja toda uma Igreja missionária é  tarefa imensa principalmente porque  a missão da qual Jesus investiu os discípulos  e que eles a realizam  nos primórdios, sofreu um estagnamento com a oficialização do cristianismo no império romano. Parece que houve um equívoco sobre os confins do mundo,  que foram identificados com as fronteiras imperiais e com o fato de o estado romano ter reconhecido a fé e as práticas cristãs como religião oficial.

                               Mesmo que os monges retomem a evangelização entre os novos povos  do norte da Europa depois da queda do império ocidental , os bispos em geral e o clero não são missionários . Nos séculos XI e XII  nasce o sistema paroquial com um clero sem formação e Tomás de Aquino se queixava que o clero não evangelizava e não era missionário. Também os monges não o eram  mais nesta época, como  ilustra o  fracasso dos monges sistercienses chamados pelo Papa para debelar a heresia dos albingenses. Eles pregaram mas ninguém os ouviu porque eles não se inseriram na vida do povo pobre. Quem evangelizou a população  européia da idade média foram os franciscanos e os dominicanos porque eles se inseriram no mundo do povo.Viveram com o povo.

                              Para as Américas vieram principalmente os missionários das Ordens Mendicantes e em menor quantidade  Carmelitas, Agostinianos e Beneditinos. Mais tarde vieram as Congregações como os Vicentinos, os Redentoristas e outras. No século XX a maioria dos que nasceram para serem missionários migrou para o sistema paroquial e só uma minoria se dedicou à atividade missionária, mas com um método inadequado. No século XX os missionários usaram métodos do século XVII e XVIII. Dedicaram-se ao mundo rural quando 80% da população estava na cidade. Aliás,também a atividade missionária  iniciada no período da ocupação européia das Américas  baseou-se num método inadequado, que era a idéia da conquista.  Conquistar a gentilidade da barbárie para a civilização da fé, para  uma Igreja toda européia era a idéia dos missionários ,enquanto o colonizador também estava empenhado na conquista, embora não fosse para a fé. Agora, na V Conferência os bispos assumem o Projeto de tornar missionária toda a Igreja da América Latina e do Caribe. É algo novo.

                               Isto vai exigir  mudança da mentalidade paroquial e da maneira de ser missionário. Mudança de mentalidade e de comportamento. A missão será prioridade e a administração das  minorias que freqüentam as paróquias  gradualmente ficará em segundo plano. Os religiosos terão que voltar à sua vocação de origem e deixar a administração das paróquias e de suas obras.  Esta decisão exigirá  conversão radical,. não uma conversão da compunção do coração e  arrependimento dos pecados pessoais, mas uma mudança de visão.  Consiste no voltar-se para o reino de Deus fundamentando e apoiando a própria fé na fé que Jesus de Nazaré tem no Pai enquanto vive  plenamente a realidade humana dentro de seu povo e dentro de seu tempo. Assim também os discípulos e missionários, fundamentando sua fé em Jesus plenamente homem, viverão dentro da realidade de seu povo e de seu tempo. E lá,  não poderão estar  os ministros e as ministras ordenados,  os leigos e as leigas inseridos e vivendo dentro da realidade de seu povo e seu tempo ?

                            Será mais fácil o processo de conversão  a partir dos temas  com maior signifcado contidos no Documento conclusivo de Aparecida. Em primeiro lugar está a redescoberta do conceito de missionário, que antes eram só os que vinham da Europa para trabalhar com  índios ou os pregadores das missões populares.. Agora a consciência da necessidade missionária no meio da sociedade cada vez mais secularizada está crescendo  cada vez mais. Um segundo tema é a volta ao método da ação católica: ver-julgar e agir, que foi a opção de Medelin.  Na V Conferência ocorreu, com   forte insistência, a volta para Medelin. Justamente  quando muitos padres já diziam que Medelin estava superado e já não servia mais para a Igreja atual. Com a volta para Medelin e Puebla  são retomados dois temas fundamentais: a opção pelos pobres e as comunidades eclesiais  de base. Estes temas foram muito atacados e tratados com indiferença como coisas do passado. Até tinham desaparecido no Sínodo romano de 1977 como se pode perceber no documento sinodal Ecclésia in América.

                             O importante é que ao reassumir a opção pelos pobres a Igreja não  está falando da compaixão pelos pobres, mas os pobres estão colocados como os sujeitos da evangelização e da promoção humana. Com relação às Comunidades Eclesiais de Base os bispos, no texto original, afirmam: “ queremos decididamente reafirmar e dar novo impulso à vida e à missão profética e santificadora das CEB’s no seguimento missionário de Jesus Cristo. Elas foram uma das grandes manifestações do Espírito na América Latina e no Caribe depois do Vaticano II ( 194). Este texto foi censurado e o que mais podas sofreu no Vaticano, mas ele existe e as censuras lhe dão mais significação porque  o texto oficial é obra dos revisores enquanto que o censurado é dos bispos que reunidos ensinam.

                             A proposta dos bispos está  posta. Quem vai  fazer que este programa  seja a prática  da Igreja ?

                              A história mostra que as mudanças profundas da Igreja, mesmo a partir da mudança pré-eclesial  que se inicia com Jesus,  foram mudanças realizadas  por pessoas novas, formando grupos novos, criando um novo estilo de vida, sempre a partir de uma opção de vida na pobreza. Não foram as lideranças estabelecidas, formalizadas e nem as estruturas instaladas. Elas não conseguem sair do seu papel tradicional. É isto que faz pensar que o clero tradicional e as estruturas  tradicionais ,genericamente denominadas sistema paroquial, não têm condições de aplicar este programa.

                                Farão que esta proposta seja prática da Igreja aqueles que tiverem  a capacidade de viver no meio do povo, ser missionários,  ligados ao povo dos pobres. E hoje já há cristãos que são assim, que convivem no mundo dos pobres, embora sejam pouco conhecidos e pouco valorizados. Até são apenas tolerados mais do que apoiados pois não se enquadram nos esquemas oficiais, não têm lugar no direito canônico. A maioria são leigos, mas há  presbíteros e bispos, casados ou celibatários, que fizeram a sua conversão escapando-se da estrutura em que estavam inseridos. É aí que estão os padres casados, excluidos do sistema canônico. Não é importante a faixa etária  ou que a maioria seja composta de alguns anciãos. O que importa é a conversão para ser como alguém que vive como se não fosse, alguém que se encarna  no mundo profundamente humano ao lado de Jesus Cristo que é plenamente homem.

 

                             Quarta consideração:  Dificuldades e problemas.

 

                             Uma dificuldade, que não vem de uma formação deficitária , que não vem de algo que foi esquecido em Aparecida, mas que está em toda a Igreja ocidental, nos concílios ocidentais, nos documentos do magistério, nos do Vaticano II e no de Aparecida. Esta dificuldade é que a Igreja ocidental ignora o Espírito Santo. O Espírito Santo é mencionado sempre, mas é mencionado para reforçar o planejamento feito pela hierarquia ou pelo clero em geral .De maneira simplificada,  defini-se a conduta  para a Igreja e depois se pede ao Espírito Santo para que Ele realize aquilo que foi decidido. Pouco sentido faz  pedir ao Espírito que venha iluminar a mente quando Ele já está presente no mundo, mostra com sinais o que Ele quer, mas  não sabemos olhar os sinais. As Igrejas do oriente são mais sensíveis a este aspecto, mas elas , mesmo estando presentes na América Latina até com vários bispos, elas não têm influência. A Igreja da América Latina, mesmo que tenha etnias de todos os continentes, como os ucranianos, os sírios, os árabes, os egípcios, os iranianos, iraquianos, indianos, que são orientais, é uma igreja de cunho ocidental, europeu e por isso sua visão do Espírito é de desconhecimento.

                             Na teologia de Paulo e de João a Igreja é dirigida pelos dons do Espírito Santo ( 1 Cor 12,4-11 .27-30) e o primeiro dom do Espírito é o dom do apostolado (1 Cor 12,28) . Paulo não está se referindo aos 12 Apóstolos, mas aos discípulos que, como ele, se tornaram missionários porque foram enviados pelo Espírito. Na estrutura atual as instituições são as de governo: diocese, paróquia, organizações paroquiais e pastorais. Na teologia de Paulo elas vem em  sétimo lugar. O primeiro lugar é ocupado pelos apóstolos e o segundo lugar  pelos profetas , insistemente mencionados por Paulo ( 1 Cor 14).

                              O Espirito Santo está presente hoje como esteve sempre, mostrando os caminhos do seguimento de Jesus. Na sua teologia João afirma que o Espírito ensinará o alcance da vida de Jesus nas mais diversas circunstâncias. Ele não deixou nenhum  programa de apostolado ou de administração eclesial. Só  prometeu que  o Espírito estaria presente para mostrar como pode-se atualizar a vida de Jesus nas mais diversas circunstâncias da história. Ele não encerrou a história num quadro estável, mas garantiu que o Espírito estará presente  para ensinar em cada situação o sentido das palavras e obras que Ele, Jesus, realizou no contexto muito determinado e limitado da Galiléia  de onde Ele veio ( Jô 14, 26; 16,13-15). Aqui não é uma questão de acusar Aparecida, ou o Vaticano II, ou a Igreja do Ocidente, mas é uma questão de conversão radical  para a volta ao ensino do Novo Testamento sobre o Espírito Santo. Aprendendo no Novo Testamento quem é o Espírito e que é Ele que conduz Jesus Homem Ressuscitado e que é Ele que realiza a conversão, mudar-se-á a noção de evangelização e de atividade missionária.

 

                             Uma segunda dificuldade ou problema é a questão cristológica. Não é so´ a  fraqueza  do documento da V Conferência  em relação a Jesus. Aparecida fala muitas coisas bonitas de Jesus, mas não tem uma síntese reunindo   numa vida humana  de Jesus tudo o que fala dele ( 129-135). A dificuldade está  em que nós não sabemos falar de Jesus que se fez homem em tudo, não sabemos anunciar o Jesus que Paulo  diz que anuncia: o Jesus  inserido na vida humana também agora. Pensamos no Jesus celeste e  ensinamos uma doutrina especulativa construída pela escolástica, quando é Jesus feito homem que temos de anunciar para que as pessoas ouvindo a boa notícia deixem que o Espírito Santo as faça entender que o divino está em viver plenamente o humano. Que  o Espírito as faça entender que não é preciso deixar em casa o humano da vida e ir até uma igreja para se encontrar com o divino, mas que o humano é divino justamente porque é humano.

                             Qual ministério maior se pode buscar para o padre do que aquêle em que  ele está inserido plenamente no humano da vida , da família, do trabalho, do dia a dia ? É um ministério que não se faz pelo ofício de padre, realizado por um que outro ato do ofício de padre, mas que se faz pelo viver. É uma profecia que não se prega com as palavras, mas pela vida inserida nas realidades que compõem a vida do padre casado e da sua família.

 

                            Conclusão: são reflexões que ofereço como contribuição para o tema do XVII Encontro: Profetismo da família do padre casado  e seu profetismo pessoal. Espero que sirvam para uma frutuosa reflexão, para novos debates e quiçá para balisamento do caminho.