----- Original Message -----
From: Mario Palumbo
To: Francisco/ Rosa Rezende ; Francisco Resende
Sent: Tuesday, March 15, 2005 4:41 PM
Subject: Jornal Rumos! Ainda não sabemos quem somos?

 

Caro Francisco, você  pede a minha opinião e da Margarida a respeito de Rumos. Quanto à Margarida ela é alheia  a qualquer instituição religiosa: sua religião é a honestidade, a família e o trabalho, me acompanha e deixa livre pois existe amor entre nós.

 Quanto a mim, na verdade você já conhece exaustivamente o meu pensamento que expressei, em múltiplas ocasiões e muitas delas encontram-se na página. Mas você me estimula e aqui estou eu! Concordo com você em tudo que você me diz no e-mail publicado na página. A indefinição a que você alude, ao meu ver, tem sua raiz na ambigüidade da própria instituição eclesiástica da qual surge toda a confusão. Pela instituição religiosa, somos padres “in aeternum”,  podemos e devemos administrar sacramentos, quando solicitados, mas na prática, não devemos fazer isso, pois, para os atuais mandatários, incorremos no pecado de ter pedido a liberação do celibato, quando podíamos continuar com ele e praticar, “as escondidas,” qualquer prática sexual e tudo seria perdoado, pois o altar, o templo e a instituição religiosa tem mais valor do que a transparência.

Isso posto, ao meu ver, existem três categorias de Padres casados: os que não querem mais nada com a Igreja e preferem ficar escondidos, creio, são a maioria; uma secunda categoria, mesmo sem esperança, aguardam um messias que possam reconduzi-los ao serviço litúrgico do altar e ficam abraçados às sua batinas que vestem suas almas!

Uma terceira categoria acredita em sua missão ou por causa do caráter sacramental da ordenação, ou por força do presbiterado, preparo, fé, doutrina e longos anos de esforço de testemunhança cristã. Estes últimos, sem negar ou discutir nenhum dogma ou autoridade eclesiástica, baseados na ligação à pessoa de Cristo, vivo na humanidade (Reino), procuram de ouvi-lo no fundo da própria consciência e difundir com palavras e ações a mensagem evangélica.

Na verdade as três categorias misturam-se um pouco em todos nós, como também , creio, nos padres que se dizem celibatários...

Para dirimir a confusão, ao menos teoricamente, basta uma pequena reflexão: O que é afinal um padre? É um cristão que anuncia o Pai através do serviço aos irmãos. Pela imposição das mãos, como presbítero, ou se prefere, como ordenado, por um motivo a mais,  exerce o múnus da evangelização, que, em absoluto, não pode se restringir ao exercício sacramental- litúrgico, que também não é excluído ao padre casado, visto que deve exercer quando solicitado.

Tudo isso me parece muito claro e me parece um tempo perdido voltar ao assunto.

Vamos agora ao Jornal Rumos e à Associação do MPC. Seja jornal que Associação,  especialmente os dirigentes deveriam ter bem claro na mente o que nós realmente somos e o momento histórico que atravessamos: repito, somos cristãos impulsionados pelo Espírito ao anuncio do amor de Deus para todos!

Para isso não precisamos de chapéus, fumaças, batinas ou templos.....

Nossa formação clerical é demasiada intelectual: adoramos um bom texto filosófico-teológico ou coisa aparecida! O serviço litúrgico, que tem um valor importante, esmagou os demais valores de serviço ao povo. Tudo isso explica o porque da indefinição, como vc diz, do jornal Rumos e da própria diretoria que até o momento não disse a que veio e não se manifestou sobre problemas  que envolvem o movimento.

As finalidades do MPC são ajuda mutua. Esta Diretoria até o momento parece  não ter mexido uma palha a este respeito. Existem necessidades materiais e morais candentes que a página Ora et Labora apontou com veemência, Não ouve nenhuma resposta. Pode-se dizer que a Diretoria não tem caixa, mas poderia lançar um apelo, ou ao menos, fazer uma declaração aberta de apoio, mas nada. Outra finalidade seria a ajuda ao povo de Deus como grupo, seria como “mostrar a cara” como louvavelmente se pretende.

Na terceira finalidade que é  a tentativa de dialogo com as autoridades não daria muita ênfase, visto que há trinta anos estamos pedindo diálogo e  sempre a porta nos é fechada na cara, excetuados poucas exceções, mas que não são muito representativas e, na maioria das vezes, procuram esconder o diálogo que gostariam de ter conosco.  Cristo não criticou a lei, pelo contrário a cumpriu, também não se fechou no silêncio, quando se pretendia encobrir a hipocrisia com nome de Deus.

Depois de tudo isso o que fazer? Fazer o nosso trabalho, melhor ser cristãos! Sem se preocupar tanto com a hierarquia!   Criar unidade em nós! Isto significa procurar o nosso ser verdadeiro, o nosso centro que é Deus que unifica tudo e nos sintoniza com todos s demais centros. Os povos mais simples que nós chamamos de primitivos, são unificados pelo mistério religioso. Para eles tudo é movido e envolto na religião, no divino. Nós não repetimos que "em Deus nós vivemos,nós nos movemos e somos?"

Na verdade somos múltiplos! Nos falta a unidade  não sabemos bem, ou não queremos saber, o que somos.

A respeito do Jornal Rumos, ao meu ver, é um veículo que deveria procurar incentivar no público alvo a auto estima da classe e mostrar os exemplos vivos que podemos e devemos ser igreja, mesmo não tendo o apoio da hierarquia. Isto é mostrar a cara!

O site Ora et Labora cansou de mostrar exemplos, mas o jornal  mostra-se parco em procurá-los, mesmo tendo-os em baixo dos seus olhos no próprio site. Neste último Rumos (190) o jornal reproduz duas matérias do Ora et Labora. Sou grato e vejo boa vontade.Teria preferido, porém, que tivesse reproduzido matérias que mostram o trabalho positivo de Padres casados, ou de gente que trabalha à margem da hierarquia  e fazem um trabalho de evangelização admirável, apesar da repressão que sofrem ..... A impressão que se tem é que o Rumos não quer se comprometer e fica em uma linha de belas teorias, com deliciosos artigos que massageiam nosso ego acostumado à intelectualizar. Quer falar em educação? dê exemplos. Mostrem o que determinados padres casados fazem ou fizeram neste campo. Em lugar de teorias, multiplique exemplos de atividades de Padres casados! Se o publico alvo é o Padre Casado, me parece que isso é primordial: aumentaria a nossa auto estima que está lá em baixo. Temos que dizer à hierarquia que não somos delinqüentes, o povo de Deus passaria a nos ver com outros olhos,  os próprios descrentes saberiam  melhor onde encontrar a Cristo: Ao Fazer, fazer, fazer ajuntaria: dizer, dizer, dizer e dizer ao mundo quem nós somos!

Se o publico alvo do Jornal é outro, então qual é? Se forem os mais humildes, precisamos de uma linguagem mais adequada e não faltam revistas católicas neste campo. Se o público alvo, forem  cristãos  mais esclarecidos de direita  ou de esquerda também existem revistas com autores de peso....

È de se pensar, temos recursos humanos e financeiros para isso? Não seria melhor indicar estas publicações já existentes?

O momento histórico que vivemos, exige definições claras.  O reacionarismo tão acentuado no mundo e especificamente na igreja pode ser visto em maneira otimista:  os valores impostos não são mais aceitos, a moral religiosa está dando lugar para a ética leiga, muitas vezes mais honesta. A liberdade de consciência é um valor cada vez mais aceito e não tem mais imposições que possam conte-la.  Multiplicam-se as seitas religiosas e as que vão se firmar serão  baseadas na transparência.

Nosso papel nisso tudo é fundamental: não escondemos nossa sexualidade, pelo contrário, a unificamos na santidade de Cristo! Fazendo amor com nossas mulheres, estamos louvando a Deus! È um ponto que devemos dizer ao mundo!

Os teólogos da instituição clerical insistem na sacramentalidade  da ordenação e tem sua razão.

O Livro Santo em Ata dos Apóstolos, quando se tratou da identidade específica do apóstolo  (Presbiter) dirimiu assim a questão: Vamos procurar pessoas que possam nos aliviar no socorro das viúvas e pobres e nós, os presbíteros, poderemos assim, ser os homens dedicados à oração e a pregação do Verbo: evangelização!  Creio que a identidade do padre casado ou não, é esta. A fractio Panis pode até ser presidida pelo presbiter, mas o essencial dele é a oração e a pregação! E Isto não nos foi tirado. O que nos foi tirado é a tentação de ser donos do rebanho  isso, para mim é um dom de Deus!

 Caríssimo, me delonguei demais! Espero não voltar mais ao assunto. Gostaria de me dissesse aonde errei?

 Por causa do MPC estou sacrificando dois links importantes da página: a Meditação e a Adoção a Distancia, se isso servisse valeria a pena continuar, espero que sim! Desculpe  fui prolixo, um grande abraço. Mario