Alguma anotação para auxiliar participantes do Encontro da Virada, em janeiro, na cidade de Recife.
SOBRE E PARA O ENCONTRO DA VIRADA DO MPC
Mesmo quem estudou em teologado de fraca qualidade conhece Teologia e a estudou mais voltada às teorias criadas e desenvolvidas por especialistas do que à preocupação de levar os vocacionados ao melhor entendimento de Deus. Pelo zelo de companheiros nossos em suas reflexões sobre o Sacerdócio e sua espiritualidade e sobre o Padre Casado na Igreja, tanto quanto pela dedicação do João Tavares no E-Grupos e nas provocações e sínteses que escreve, e do Mário Palumbo, no site Ora et Labora, este tempo que se caracterizou como preparatório ao Encontro do MPC, em Recife, se transformou na manifestação mais expressiva da reflexão teológica católica e de sua vivência entre os Padres Casados no Brasil.
1- Tenho a impressão que acontece algo semelhante aos fatos que antecederam o XIII Encontro do MPC, em Belo Horizonte, em 2000, quando, analisando – [como jornalista habituado a interpretar fatos] - antes de opinar sobre eles, trabalhei junto à mídia e aos colegas explorando o lema “Retorno ou Novos Caminhos?”, pois eu não enxergava outra opção diante da realidade de então. No entanto, apesar de todos os meus esforços, não consegui a adesão dos colegas para a discussão sistemática da idéia. O motivo era claro: os padres casados do MPC, por terem sido ordenados na Igreja Católica Apostólica Romana deviam permanecer sempre ligados visceralmente a ela, às suas leis e aos seus ritos, apesar de seu estado permanente de suspensos “a divinis”.
2- Escandalizou a maioria dos participantes do XII Encontro o fato de termos realizado a Eucaristia de forma solene e o arcebispo emérito de João Pessoa, José Maria Pires, que agia como capelão do MPC em Belo Horizonte, além de não ter participado dela - pois ficou no salão nobre, durante toda a celebração – foi honrado com a companhia de alguns colegas do MPC na celebração da “missa romana”, na capela da PUC-MG
Convém a lembrança de que o Campus Coração Eucarístico, dói cedido pelo Cardeal Dom Serafim Fernandes de Araújo, então arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, para a realização do Encontro. Evidentemente, o MPC, por não ter maturidade suficiente para protestar, merecia mesmo continuar enxarcando-se no pântano, de onde queira Deus, saia no Encontro do Recife, oito anos depois!
2- Romeu Teixeira Campos, companheiro leal, que é reconhecido como brilhante pesquisador da Teologia e da História da Igreja, sempre pugna de peito aberto pela liberdade, jamais se demonstra preocupado em agradar, pois vive empenhado em acertar, referindo-se ao artigo que escrevi “Retorno ou Novos Caminhos”, escreveu-me dia 18 de dezembro, dentre outras considerações, o seguinte texto que destaco, como um alerta para os dias de hoje: “Retorno ou Novos caminhos? Este foi o título de um artigo/proposta às vésperas do XIII Encontro em 2000. Imediatamente ele foi por todos ignorado. Li-o hoje com outros olhos. Na ocasião, também eu o achava inoportuno já que ainda não pensava que os padres quisessem voltar e que à hierarquia não interessava isso, rejeitando de primeira tal hipótese que ameaçava o controle de todo o poder que tinha nas mãos. Não o combati porque já percebi que começara agonizante.”
3- “Hoje,” - ainda segundo afirmação do Romeu – “vejo as coisas de modo bem diferente. Você estava se adiantando. Penso que se nós tivéssemos aceitado discutir a idéia, talvez a coisa tivesse tomado outro rumo e não estaria, como agora está,totalmente desgovernada a nau e sem rumo e o pior o desespero instalado não deixando livre o raciocínio. O pessoal quer mesmo é voltar à situação do Egito embora tente camuflar isto com alguns argumentos com valor duvidoso. Como ficam os que não aceitam voltar a um sistema antes rechaçado?”
4- A resposta está sendo dada nesta fase preparatória, pois os fatos convergiram para a situação em que o MPC e a Igreja se encontram neste ano de 2007: numa grande perplexidade total, perante as realidades do sacerdócio, do ministério, e da disciplina eclesiástica. Não pretendo nem espero que o Encontro do MPC solucione impasses, por motivos óbvios. No entanto, mesmo que nele nada se resolva em termos de sistematização, sua fase preparatória – graças à ajuda da internet - tem sido rica no estabelecimento de parâmetros e de difusão de diferentes idéias que frutificarão, desde que se tomem posicionamentos claros a respeito do que, de direito, de fato e segundo as escrituras e a tradição, os padres casados entendem por Igreja, vocação, missão, presbíteros e bispos.
5- A fim de subsidiar a discussão e ajudar a garantir produtividade além das reais expectativas da programação oficial do evento, ofereço a seguinte síntese, a partir da afirmação segundo a qual Presbíteros e Bispos são denominações de duas funções diferentes ou de dois serviços de natureza idêntica, prestados a comunidades, conforme descrições existentes no Novo Testamento (Atos 20:17,28; 1 Pedro 5:1-3; Tito 1:5-7) e seguindo a tradição da Teológica Cristã.
6- Presbítero (ancião) designava homem experiente e de bom procedimento, com filhos e de idade mais avançada, que servia ou supervisionava uma determinada comunidade locai (Atos 11:30; 14:23; 15:2,4,6,22,23; 16:4; 20:17; 21:18; 1 Timóteo 5:17,19; Tito 1:5; Tiago 5:14; 1 Pedro 5:1; 2 João 1; 3 João 1).
7- Bispo (da palavra grega episkopos, que significa supervisor, gerente ou superintendente (1 Pedro 2:25), era o presbítero ao qual era passada a função de orientar outros presbíteros e também os membros das comunidades locais, em sua vivência cristã. (Atos 20:28; Filipenses 1:1; 1 Timóteo 3:2; Tito 1:7).
Por falta de comprovações históricas convincentes, parece-me improvável que o episcopado seja Ordem Sacramental diferenciada do Presbiterado. Ao contrário, com base histórica, o episcopado surgiu da função atribuída a homem, eleito pela comunidade ou pelo presbitério para coordenar - com autoridade delegada, - as ações do colégio de presbíteros para o serviço do Povo de Deus, em termos territoriais e/ou pessoais.
A desgastada jurisdição ou controle decorrente da aplicação do Direito Romano mostra bem o andamento do processo católico sacerdotal e da sistemática administrativa. Aqui valeria alguma reflexão a respeito da importância e do descaso católico com o fenômeno da vocação, considerado como chamado ou escolha para prestação de serviços em instâncias diferentes. São Jerônimo, presbítero de maior realce para o cristianismo do que os próprios bispos e os papas de sua época, é exemplo de que a hierarquia de Ordem nada tem a ver com o quadro de pessoal O Papado também se estriba na mesma arenga, agravada pelos interesses geo-políticos de poder ampliado, segundo comprovação histórica.
8- Enquanto houver presbíteros validamente ordenados, em serviço pastoral oficial ou não e mesmo fora dele, não se faz necessária a presença de intervenção episcopal como meio de garantir a persistência do quadro especializado. Portanto, o MPC – que admite a pluralidade nas dimensões da vivência eclesiástica, não carece de bispo para funcionar, nem em termos doutrinários, nem em termos pastorais. A experiência demonstra que bispos são administradores eclesiásticos dispensáveis e nem sempre eficientes, tanto no modelo tradicional romano como em derivações dele.
9- O presbítero exerce ação ontologicamente válida em termos de essência e também em termos de fundamentos tradicionais de doutrinação e vivência quanto aos serviços da Palavra e dos Sacramentos. Assim, o grupo de colegas de Brasília, sem ferir a doutrina do Sacerdócio Ministerial, sem criar cisma dentro da Igreja Católica e sem criar nova Igreja formal, credenciou-se – em termos jurídicos - à realização válida dos atos constitutivos religiosos, pois seus membros preenchem todos os requisitos quanto à doutrina tradicional a respeito de validade e, principalmente, quanto à moral, que anda muito sofrida também em Igrejas paralelas à Romana.
10- Bispo casado, validamente ordenado, que queira constituir diocese ou Igreja nos moldes romanos arcaicos, pode fazê-lo. Mas, para atendimento quanto à economia da fé, sua ação é sacramentalmente a de presbítero, pois a “supervisão” é simples função estratégica e administrativa. Bispo, seja quem for e venha de onde vier, pode ser útil como suporte a padres que não têm coragem de assumir responsabilidades pastorais sem um pai, ou a padres que não sabem agir de modo organizado e produtivo, sem forte supervisão.
Dom Emanuel Milingo, que até pouco tempo – segundo me diziam - desejava constituir uma comunidade eclesial composta de Padres Casados, disse-me que simplesmente deseja inserir-se em comunidade católica. Segundo ele, já que Roma não o quer entre seus bispos, ele deseja viver em comunidade católica que, de alguma forma, lhe ofereça algum suporte. [Parece-me que o estado psicológico de insegurança que Dom Milingo vive, se assemelha ao que costuma afetar padres de idade provecta, logo que deixam o ministério... Dom Milingo está se esforçando muito para livrar-se da ilusão dos “valores pontificais”. Não pretende fundar Igreja, pois não quer provocar mais represálias nem arcar com responsabilidades novas que pesariam em seus ombros durante o tempo que lhe resta de vida. Na fisionomia e nas palavras dele entendi como o reconhecimento da excomunhão lhe dói, mas, principalmente, percebi que ele agoniza porque se sente relegado ao ostracismo e, no MPC, ele será apenas mais um sacerdote casado.)
11- Bispo de outra Igreja que a católica romana, que procura atrair padre do MPC para agregá-lo a suas comunidades ou dioceses, demonstra-se incompetente. Automaticamente se confessa sem autoridade para formar seu clero ou seu grupo de serviço. Até em sua fala costuma revelar-se inseguro ou com duvidas a respeito da validade ou da transmissão apostólica de seu poder de Ordem. Às vezes convence um padre a aderir à sua Igreja, valorizando os conhecimentos deste e seus dotes pessoais. (Casos concretos estão patentes nas relações permanentes entre MPC e membros de diversas Igrejas).
12- Bispo católico que deseja padre casado a serviço de sua diocese, não restringe a ação pastoral do presbítero a ministério da Ordem dos Diáconos, mas o insere em seu presbitério, ou em plenitude ou segundo segmentação funcional negociada com liberdade, por parte do padre casado também. (O Padre casado que se contenta em servir de sacristão, será pouco útil como participante de um presbitério sério e competente.)
13- A experiência histórica do MPC – pelo menos em termos da realidade brasileira, mesmo que o MPC sempre se agite mais às vésperas de seus Encontros - não merece ser relegada ao esquecimento. As realizações dos padres casados no mundo todo, talvez se constituam no que há de mais sério e de mais decisivo na Igreja desta pós-modernidade. Enquanto os muitos abusos por parte de membros da hierarquia oficial enfraquecem o ânimo das sociedades diversas na busca da Palavra e dos Sacramentos, as atenções sociais se voltam para os sacerdotes que deixam o ministério oficial. A vivência pastoral e os testemunhos cotidianos deles, de suas esposas, filhos e familiares, em termos de contribuição para a justiça, a misericórdia e paz na sociedade, são de capital importância. A correção ética nas Igrejas domésticas do pessoal do MPC chama a atenção da opinião pública para a urgente necessidade de reformulação das normas da Igreja Católica Romana.
14- As novas vertentes que surgem como veredas e se estabelecem como Novas Igrejas, tendem a multiplicar-se, com rapidez e a desenvolver-se, em profundidade, com a adesão de sacerdotes virtuosos e bem formados que se afastam da oficialidade da Igreja que se blinda, para continuar apenas no ritualismo, respirando e sofrendo as leis e as determinações do que se convencionou batizar como Santa Sé.
15- A cristandade de hoje entende que o Poder das Chaves tem que ser exercido para abrir caminhos para a humanidade se santificar, jamais para travar o crescimento do testemunho evangélico. De forma alguma e em nenhuma circunstância, alguém, em nome do Evangelho, pode ousar excluir os pecadores do seio da Igreja que nasceu do Sangue Redentor de Jesus Cristo, para salvar a todos os homens.
16- Estudos sistemáticos em termos de Teologia do Sacerdócio e Espiritualidade; Formação da Família; Vocação; Patrística e outros, talvez possam ser desenvolvidos “on line” como incremento à formação continuada da Igreja e como forma de partilha de reflexões e de experiências.
17- O Encontro da Virada se tornará realidade, se vencermos o medo de agir com responsabilidade; se, de fato, quisermos entender e seguir os sinais dos tempos e ouvirmos os apelos da Graça em nossas almas.
O Encontro da Virada se efetivará, se tivermos a coragem da fé para encararmos o Evangelho não como livro que deve ser interpretado por exegetas, mas como o Manual de Assistência Técnica que Deus nos entregou para curar-nos de todas as nossas enfermidades e para nos encorajar a vivermos, todos os dias, como os batizados eleitos para os serviços da Palavra e dos Sacramentos, no mundo inteiro e para toda a humanidade.
José Vicente de Andrade
São Paulo, 21 de dezembro de 2007