UMA HISTÓRIA DE FÉ, AMIZADE E COMPROMISSO SOCIAL.

 

                       Toda história tem  começo,  meio e  fim. A que contarei é diferente. Tem um começo, um meio, mas, não terá fim. Como “cada ponto de vista é à vista de um ponto”, claro está que só poderei contá-la do ponto de vista das minhas experiências vividas, no seu desenrolar. De como me vi seduzida pelo amor e como esse amor cresceu e espalhou-se pelos caminhos da vida, abertos por mim, na certeza de filha amada de Deus, construindo, em parceria de fé e esperança, o que hoje é o grupo “TRONCO”.

                          Seu começo nos reporta à Congregação Religiosa dos padres Sacramentinos.  Começavam os anos 60, quando esses padres vieram para Monte Santos de Minas, onde fora construído um seminário da referida congregação.

                       Entre outros estavam José Dias da Costa e Nelson, ambos do Rio. Jefferson Ildefonso da Silva, mineiro de Caratinga. Moços, chegaram cheios de entusiasmo para trabalhar a fé em várias  áreas inclusive no incentivo às vocações sacerdotais, justificando o porque da construção do seminário naquelas plagas.

                        O início de seus trabalhos se concentrou na catequese infantil e estudantil através da organização e orientação da JEC (Juventude Estudantil Católica) e iniciação à catequese infantil na cidade. Introduziram a catequese dentro dos Grupos Escolares, onde se desenvolvia o Ensino Primário, abrangendo suas quatro séries. Foram inicialmente assessorados pelos poucos seminaristas e alguns professores locais.

                    Ao se tornarem conhecidos começaram a ser chamados pelas igrejas das cidades vizinhas para retiros espirituais, semanas santas, tríduos a padroeiros e padroeiras, etc. Nessa ocasião já havia terminado o curso de magistério, e exercia, por concurso público, o cargo oficial de professora primária no Grupo Escolar Cel. José Cândido. O ginásio, hoje as quatro últimas séries do Ensino Fundamental, cursei com as Irmãs Dorotéias, no Colégio Beata Paula Frassinetti, na minha cidade natal, São Sebastião do Paraíso, vizinha à Monte Santo. Como passara o período da JEC, agora pertencia à JIC (Juventude Independente Católica). Foi quando conheci os padres Sacramentinos.

                             A formação religiosa que a igreja oferecia aos jovens, antes do Concílio Vaticano II, diversificava-se nas siglas JAC para a Juventude Agrária Católica, JEC (Juventude Estudantil Católica) JIC (Juventude Independente Católica) JOC ( Juventude Operária Católica) e JUC ( Juventude Universitária Católica). Na ocasião meu grupo era o da JIC. A formação religiosa seguia um método cujas etapas eram VER, JULGAR E AGIR. A formação na JIC acontecia observando o mesmo método.  Constavam de reuniões semanais e um retiro também mensal que se realizava no último domingo de cada mês de 8 às 17 horas. Para isso nos reuníamos na casa das Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado. A superiora, Madre Hercília, nos acompanhava nas reuniões semanais.  Um sacerdote, a convite da paróquia, vinha passar o dia conosco. Propunha-nos um tema e refletíamos sobre ele. Além disto rezávamos, recreávamos, almoçávamos juntos. Nossa ação era mais social. Logo um dos padres sacramentinos se tornou o orientador dos retiros. Chamava-se pe. Leo Damiani. Italiano recém chegado ao Brasil. Falava em italianês, mas, era extremamente simpático e humilde. Pintava e cantava muito bem, o que veio abrilhantar nossas criações recreativas.  

                               O trabalho de catequese infantil, iniciado em Monte Santo, se espalhou pela região, sobre os auspícios da diocese de Guaxupé. As primeiras cidades visitadas e que aderiram ao projeto foram: Itamogi, São Sebastião do Paraíso, Passos, Alpinópolis e Carmo do Rio Claro. Nelas, assessorados por professores, os padres sacramentinos iniciaram a “Catequese Escolar” os “Clubes Vocacionais”, os “Círculos Vocacionais”. A Catequese era a base, de donde emergiam crianças com estrutura familiar piedosa e que mostrassem interesse para a vida sacerdotal. Essas recebiam outro nível de formação, reunidas nos Clubes Vocacionais. À medida que passavam para a adolescência eram acolhidas nos “Círculos Vocacionais” dando continuidade a sua formação, considerando a faixa etária em que estavam. Se persistissem nos Círculos seguiam para o Seminário. Neste conviviam com a JEC orientados pelo padre orientador educacional e espiritual, acompanhando seus estudos, orientando na fé, nas exigências de idade e vocação.

                                   No carnaval de 1963 a paróquia de Paraíso convidou um de padres sacramentinos para o retiro anual, onde se reuniam “as moças do bem”. A maioria procedentes da JIC, Pia União das Filhas de Maria e Legião de Maria. Veio  pregar o retiro Pe. Nelson. Outro artista. Tocava piano muito bem e era apaixonado pela liturgia. Ensinou-nos a cantar salmos. Encantava cantando canções românticas do tempo. Liturgia e catequese eram o seu forte, braços indispensáveis para a Educação para a Fé na Catequese Escolar, nos Clubes e Círculos Vocacionais. Nos tornamos bons amigos. Foi ele, meu querido Nelson, que naquele retiro de 1963, em uma de suas falas desvelou para mim a pessoa do meu irmão primogênito Jesus Cristo. Falou com tanta emoção e convicção sobre Jesus que muito amou, salientando que “ninguém tem maior amor que aquele que dá a vida pela pessoa amada”. Naquele momento vi com clareza que Jesus havia dado a vida pela humanidade. Nela me incluí. Senti-me amada. Como “amor com amor se paga” passei a querer corresponder aquele amor. Para tanto me vi com necessidade de compreender melhor sua mensagem e vivenciá-la a exemplo de Jesus. De preferência entre os desamparados, pobres, doentes, explorados pequenos, esquecidos prostitutos e prostitutas. Esses apareciam com clareza no Novo Testamento. Se assim fosse estaria mais próximo de Jesus retribuindo Seu amor. Por qual caminho?  Como? Com quem?

                                     Trabalhei por quase um ano essas minhas interrogações com Nelson. Em agosto de 1963 Nelson comunicou-me que pretendia deixar a congregação, mas antes seria transferido para a Igreja da Boa Viagem em de Belo Horizonte. Disse-me que iria me apresentar a seu melhor amigo. Do seu desejo que ele também se tornasse meu amigo. Ele iria continuar o seu trabalho. E mais, que eu deveria ajudar a ele como o ajudava. Seu melhor amigo chamava-se padre José Dias da Costa.

                                   Em uma tarde iluminada de sol, 23 de agosto do mesmo ano, estava lecionando quando recebi um comunicado. A diretora da escola queria falar comigo em sua sala. Ao chegar Nelson e José me esperavam. José me foi apresentado. A diretora disse: Pe. José essa é a professora que poderá ajuda-lo. Saiu da sala com Nelson.

                                    Nos entreolhamos, sorrimos um para o outro, o tal de “sorriso amarelo”. Conversamos meio acanhadamente, e marcamos um outro encontro. Para isso ele faria o contato. Retornam os que se ausentaram. A diretora foi mostrar a escola ao José. Nelson ficou comigo. Perguntou-me minha impressão sobre José.- Pareceu-me ser um homem ensimesmado, porte orgulhoso e muito bonito, respondi. - Nelson revidou dizendo: - Preste atenção menina. Não estou lhe oferecendo um homem. Estou lhe oferecendo meu melhor amigo. A pessoa em que mais confio. - Estremeci diante da segurança de Nelson. Aqueles olhos grandes e verdes, brilhantes e indagadores, ternos e inquietos de José muito me impressionaram.

                                   Até terminar o ano estive algumas vezes com José. Passando ou chegando à cidade ele ia à casa da diretora da escola, da qual se tornou diretor espiritual e me ligava. Algumas vezes ia à Monte Santo encontra-lo. Assim fomos nos conhecendo, nos ajudando, nos cuidando, nos admirando e planejando as ações catequéticas e vocacionais que poderíamos juntos desenvolver.

                                   Em 02 de abril de1964, logo após o Golpe Militar de 31 de Março, fui à Monte Santo para comunicar minha ida para Belo Horizonte. Havia ganhado uma bolsa de estudos do MEC (Ministério da Educação e Cultura) e do INEP (Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos). Por um ano estaria em Belo Horizonte cursando Supervisão Escolar para o Ensino Primário, anexo ao Instituto de Educação de Belo Horizonte. Nelson passava pelo seminário. José, Nelson, Maria José, que me acompanhava e eu, conversamos muito. Estávamos bastante perplexos, com a situação política que se desencadeava e sobre os “cuidados” que se precisaria ter. Final de abril, assumi o curso em Belo Horizonte. Durante o ano em que lá permaneci tive alguns encontros com José quando ele passava pela Igreja da Boa Viagem e me ligava. Nossas conversas giravam sobre o golpe militar e o compromisso dos padres com a resistência estudantil. Muitos eram remanescentes da JEC e por eles acompanhados. Outro assunto fervoroso sobre o qual nos dedicávamos eram os textos que surgiam do Concílio Vaticano II. Justificavam e incentivavam nossa co-responsabilidade com a luta dos corajosos estudantes contra o regime militar. Muitos deles continuavam sendo alimentados pelas Encíclicas que foram surgindo. Elas nos apontavam as exigências de fé nos compromissos sociais.

                                 Ao terminar o curso pude reassumir o trabalho vocacional, colaborando de perto na sua organização e realização, em parceria com outras cidades, sobre a orientação direta de José.

                                   José possuía o dom de reunir e o usava com sabedoria e sem reservas na Educação da Fé. Assim, periodicamente reunia suas colaboradoras no seminário de Monte Santo. Passávamos o dia juntas, no esquema dos retiros mensais da JIC, que já relatei. Estes encontros produziam grandes efeitos em nosso caminhar. Cada vez mais fortificadas na fé aprendíamos novas técnicas de dinâmica de grupo. Trocávamos experiências, muitas bastante criativas. Íamos nos conhecendo, nos respeitando, colaborando umas com as outras. Algumas se tornaram amigas para sempre.

                                   No revoar das renovações que o Concílio trouxe para a Igreja, no período de 1965 a 1972 foi um “Deus nos acuda”, para dar vida a elas. Por elas enfrentar a repressão ditatorial que massacrava a liberdade do povo de Deus no Brasil. Era o período de decisões e opções. Mudar e “progredir”, pondo fé na renovação, correndo o risco de ser taxado de “comunista”, ou “conservar” reagindo às mudanças. Na igreja elas apareceram a partir da organização dos Bispos, criando a CNBB  (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). 

                             A “igreja de opção progressista” passou a acolher em suas reuniões os cidadãos conscientes, deserdados de seus direitos de ir e vir, de ser livre, pela violência da repressão militar. As prisões, torturas e mortes exigiam reação. Assim, vimos surgir na sociedade, “trabalhadores” também “progressistas” se organizando e enfrentando, de peito aberto, o desumano regime político-militar, imposto e implantado no Brasil, até por ingerência de outro país. Era de se admirar e de se imitar.

                                   Tendo esse pano de fundo histórico, do lado de cá, no sul de Minas, na base da igreja guiada por padres progressistas, com seus colaboradores leigos, seguíamos também alimentados pela fé, nas mudanças necessárias, implantando as diversas “pastorais”. No nosso caso específico a “Pastoral de Juventude”. Dando seqüência ao trabalho de despertar vocações, não só, mas, também sacerdotais. A par disso armamos na retaguarda, esquema de apoio e sustentação aos jovens universitários militantes na UNE (União Nacional de Estudantes) que lutavam na vanguarda contra a repressão. Alguns passaram por nossas mãos. Éramos responsáveis juntos. Por suas indicações ou por conhecimento próprio acolhemos e escondemos alguns perseguidos.

                                   Em maio de 1965, termino o curso de Supervisor Escolar para o Ensino Primário. Volto para Paraíso e começo a cursar Pedagogia em nível superior.  Volto nomeada pelo Governador do Estado para exercer a referida função (Supervisão Escolar) em três terceiras séries de três escolas diferentes na cidade e nas escolas da circunscrição da Inspetoria Seccional a que fora lotada, quando convidada. Logo após assumir o cargo, a Prefeitura de Paraíso veio à Inspetoria pedir auxilio para as escolas da Zona Rural. Para isso oferecia condução sempre que a supervisora precisasse. A Inspetora reuniu o grupo de supervisoras, propôs e eu aceitei. Estava com o pé no Instituto de Pesquisas Educacionais “João Pinheiro” em Belo Horizonte e me interessava profissionalmente pesquisar sobre alfabetização na Zona Rural.

                                   Ao visitar as escolas para planejar o necessário descobri que algumas delas pertenciam à nova paróquia da cidade. Foi fácil conhecer seu pároco, Pe. Sebastião Galvão de Andrade. Grande Galvão! Querendo servir aos humildes e necessitados, rumamos juntos para a Zona Rural. Nosso interesse era criar condições para despertar a consciência de ser gente, conhecer, conquistar e preservar direitos, pelos caminhos da educação. Fundamos vários cursos rurais de Alfabetização de Adultos. Devido a minha função consegui trabalhar fazendeiros, professores, colonos e famílias, para as crianças nas escolas. Galvão acompanhando, assessorando, afinado com José em uma Fé renovada e firme que se traduzia no amor ao próximo e mais aos empobrecidos.

                                   A Pastoral de Juventude seguia alimentada pelos Encontros de Jovens, sempre sob a égide da Igreja. Atravessávamos os historicamente chamados “Anos de Chumbo”, violentíssimos na perseguição e na tortura aos presos. Também para proteger os jovens nos “Encontros”, os padres os acolhiam nos seminários e paróquias. Foi assim que, nesta região, Galvão recebeu em Paraíso, Luiz Girotti em Tambaú, José em Monte Santo. A Congregação Sacramentina em Uberaba, em um Colégio, todo protegido, da família de uma das grandes e queridas colaboradoras de José e de todos da Congregação, Dirce Miziara.

                                   Os “Sacramentinos Progressistas” trabalhavam bem entre si. O objetivo comum era “unir e cooperar, trocando experiências, além de socializar e educar para a fé”. Assim cada região que organizava um Encontro convidava as outras, através dos seus orientadores. Nesse processo, grandes Encontros, também em número, foram realizados. Duravam de três dias a uma semana. O esquema sempre o mesmo. Iniciava com a sessão de apresentação, troca de experiências, montagem de equipes, responsáveis pelo seu deslanchar e determinação de horários. As equipes eram: de recreação,  (sempre a noite) animação (mural cada dia) liturgia e de secretaria. A avaliação era feita sempre que necessária. Os comportamentos definiam a hora e o lugar. A do encerramento era fixa.

                             Além de José e Galvão lembro outros Sacramentinos, amigos, simpatizantes, orientadores, colaboradores e incentivadores, em outros Estados e cidades. Alguns já falecidos. Jefferson, Hélio Grande Pousa, Luiz Girotti, Antônio Haddad, Adauto, Hélio Soares, André Agasi, Edson, Giovani, Raimundo e tantos outros.

                                   Havia um cérebro especial iluminando nossa ação, Pe. Jefferson Ildefonso da Silva. Jefferson, saindo de Monte Santo, foi para Belo Horizonte. De lá a convite da CNBB foi colaborar com os Institutos Superiores de Pastorais, abertos no Rio de Janeiro, com o objetivo de formar educadores da Fé, dentro da nova doutrina social emanada do Concílio Vaticano II. Os Institutos se diversificavam em ISPAL (Instituto Superior de Pastoral Litúrgica). ISPAC (Instituto Superior de Pastoral Catequética). ISPAV (Instituto Superior de Pastoral Vocacional). Junto com Frei Alano, dominicano, Jéferson dirigia o ISPAV. Todo documento que de lá saía Jefferson enviava para José. Este repartia com seus colaboradores e com os próprios jovens. Aqueles que nos seus grupos de base despontavam por liderar em alguma ação eram reunidos em grupos chamados de liderança. Esses tinham orientação em momento diferente e era, aqui na nossa região dada por José. Era tão grande a relação de amizade e de respeito entre José e Jefferson que não tardou serem considerados a dupla perfeita. “Um pensa, o outro realizava”. Quando Jefferson e Frei Alano começaram a escrever sobre as Comunidades Eclesiais de Base, Galvão, José e eu, com parte da zona rural nas mãos tratamos de dar vida à idéia. Assim surgiram as missões rurais.

                                    Sendo os jovens, que poderíamos contar, estudantes a “missão” só poderia ser em período de férias. Espalhamos a idéia convidando os interessados. Vinte se dispuseram doar suas férias. Entre os universitários congregamos estudantes dos seguintes cursos: Pedagogia, Psicologia, Comunicação, Enfermagem, Medicina, Agronomia, Estudos Sociais, História Assistentes Sociais. Predominou o número dos estudantes da área Educação, sendo alguns universitários e outros do ensino médio cursando o Magistério. Os estudantes secundários de Paraíso, que participavam da OPE (Organização Paraisense de Estudantes), cria da antiga JEC, por nós acompanhados, receberam em suas residências os estudantes missionários universitários.

                                   O esquema era simples, mas, como sempre cercado de cuidados. Reunidos os 20 missionários passamos a prepará-los. Por cinco dias permaneceram na cidade para a preparação. Constou de clarear o objetivo da missão, refletindo com os missionários a partir de suas dúvidas apresentadas em enfoques diversos. O objetivo era: “Ensinar a reunir e despertar a consciência crítica, respeitando a realidade de vida, e conduzindo a pensar sobre ela”. Definido o objetivo, as várias reflexões buscando compreendê-lo, apontavam técnicas que poderiam ser usadas e princípios cristão a envolvê-las, tais como: carinho respeito, cuidado, fraternidade, solidariedade, cooperação ternura e...

                                   Por cinco dias permaneceram na cidade para a preparação. Esta também constou de um curso de primeiros socorros específicos para acidentes rurais como: quedas, incluindo a de cavalos, mordidas de animais peçonhentos, problemas alimentares, intestinais, no caso como usar os próprios recursos naturais, etc... Para isso os estudantes da área de saúde muito contribuíram. Orientava esse ponto meu amigo e médico pessoal, Dr. Álvaro Pinto Vilela, de saudosa memória. 

                                   As Fazendas foram escolhidas por Galvão. Conforme seu tamanho e vizinhança foram distribuídos os “Missionários”. Esses se hospedavam onde houvesse lugar. Durante o dia acompanhavam os colonos nos trabalhos rurais. Ensinavam e aprendiam, perguntando e fazendo junto. Carpiam, plantavam, colhiam, debulhavam o milho, apanhavam café, carreavam (com carro de boi) e tudo mais que surgia. Na primeira Missão a preparação inicial durou cinco dias, a realização dez dias, avaliação cinco. Nas subseqüentes três dias a preparação, quinze a realização, três a avaliação. Por dois anos esses valorosos moços e moças doaram suas férias de janeiro e julho aos irmãos rurais. Quanta maravilha! Não demorou muito para fazendeiros e colonos de uma das fazendas chamada “Queimada Velha”, se reunirem diante da Prefeitura de Paraíso exigindo do Prefeito luz elétrica para todos, e foram atendidos.

                                   No decorrer das Missões muitas atividades foram feitas, círculos bíblicos, hortas comunitárias, curso para gestantes, como melhorar a alimentação com os recursos naturais disponíveis, maneiras de carrear o milho como limpar a tapera sem fazer poeira, higiene pessoal, cuidados especiais com crianças, gestantes...

                                   José, Galvão e eu alternávamos nas visitas às fazendas missionadas. Aos missionários era recomendado que, hospedados juntos ou não procurassem se encontrar em hora propícia, para se ajudarem nas dificuldades que surgissem e trocar experiências.

                                   Os dias que se seguiam para a avaliação iam nos emocionando tal o encantamento no servir, o despojamento e coragem nos  desafios enfrentados, o amor, alegria e seriedade com que os  jovens missionários relatavam e avaliavam o que fizeram.

                                   Em uma dessas avaliações surgiu a idéia de nos comunicarmos por um jornal. Ele poderia sair de qualquer lugar onde um de nós estivesse, desde que sentisse alguma necessidade. Seu nome, dadas às experiências vividas nas missões seria “O TOCO”. Daí para “O TRONCO”.

                                   Iniciamos a década de 70 com os mesmos problemas a nos afligir: O da repressão política e a da Igreja conservadora. Essa última, predominando nos sacramentinos de origem holandesa, provocou uma cisão na Província separando-a. Isso causou profunda tristeza em José que sempre lutou pela união e por ela acalentou grandes projetos. Desconcentrou seu trabalho. Passou a atender outras Dioceses, inclusive de São João da Boa Vista por intermédio de Luiz Girotti, a quem queria bem. Luiz por sua vez não queria perder José. De lá para a Diocese de Ribeirão Preto.

                            Por outro lado os amigos, jovens universitários o procuravam sempre para contar da decepção de procurar a igreja que ele lhes apresentara sem a encontrar. Além do mais começavam a passar pela concorrência profissional desleal. Outro momento difícil para José que questionava o que fizera.

                                   Em janeiro de 1972 foi para a Itália representar a congregação no Capítulo Geral da ordem. Sentia-se confuso, decepcionado consigo. Em fevereiro do mesmo ano, volta trazendo a cópia do seu pedido de desligamento do sacerdócio. Apresenta-me e me pede em casamento. Em um Encontro em Itaipava, logo após voltar da Itália, contou ao grupo da decisão. Anunciamos aos presentes nosso casamento. Aí mudou-se o nome TOCO para TRONCCO. Pouco depois recebemos “O TRONCO”, feito pelo grupo de São Paulo noticiando as núpcias do distinto casal. Era mimeografado a álcool, mas bastante avançado para o tempo por ser ilustrado e pela linguagem irreverente e crítica, lembrando o Pasquim.

                                     A dispensa chegou 19 de novembro.  Nos casamos 27 de dezembro de 1972, em Aparecida do Norte, na capelinha de São Benedito, conseguida por Luiz Girotti, celebrante e padrinho. Nossas famílias não eram de posse. O meio do caminho facilitaria. Qual não foi nossa surpresa ao vermos chegar caravanas de vários lugares. São Paulo (Tambaú, São Simão, Cravinhos,) Minas (Paraíso e Uberaba) Rio. A capelinha ficou cheia. Nelson e Jefferson também vieram, já casados.  Nelson foi para o órgão e encheu de música o ambiente. Chegaram carregados de filmes fotográficos e gravadores. As fotos foram transformadas em Slides. A liturgia especial, preparada por Uberaba foi participada por todos, com muita alegria. Começávamos juntos, felizes e agradecidos, outra parte da história.

                                   A maioria do grupo já diplomada e no começo da vida profissional, como José. Eu, funcionária pública em Minas, já com o curso superior completo, vim morar em Ribeirão Preto, com dispensa de dois anos para estudos de pós-graduação. Comecei logo os créditos do Mestrado em Educação. José lecionando em duas faculdades e eu atrás de emprego, igual a maioria dos neo profissionais do grupo, em começo de carreira.

                            Os empregos que arrumávamos na rede particular de ensino passaram a nos preocupar. As relações de trabalho eram cruéis. Tão cruéis como a ditadura que pairava sobre todos nós. O professor não possuía nenhuma segurança no trabalho. À sua revelia era despedido caso não respirasse como o proprietário queria. Ainda tínhamos que seguir as exigências curriculares idiotas do governo militar e tolerar agentes da policia especial nas salas a nos vigiar. Era preciso dar “nó em fumaça” para enganá-los e alertar outros colegas. Isso foi o que encontramos ao começarmos casados nossa vida profissional.

                                   Nossa casa sempre aberta para os antigos jovens e universitários ou não, agora profissionais. Eles vinham, com suas escolhas, amorosas e profissionais, com os problemas e vitórias ligados a elas. Começaram a trazer os novos amigos que surgiam das lides profissionais. Apareciam no Carnaval, Semana Santa, Férias, Festas Natalinas, Feriados Prolongados. Ou, com o correr da vida pelas necessidades profissionais e afetivas. Vinham participar de cursos, congressos de suas profissões, aniversários, nascimentos, batizados, formaturas.... Nossa casa se transformou em passagem obrigatória, para amores antigos, hoje com agregados. Amor que vem se confirmando nos apelos da vida, da amizade verdadeira, da história que vamos construindo.

                                   Os anos 70 foram marcados pela lutas de empregos e desempregos, da insegurança econômica. Era muita injustiça, sofrimento, opressão, mando e desmando conosco e a nossa volta. Por outro lado inspirados nos metalúrgicos do ABC, sentíamos que a melhor maneira de reagir à repressão era reorganizar a sociedade, reunindo as categorias profissionais em sindicatos. Armamos o esquema para isso. Entre tapas e beijos conseguimos em 1987 fundar o SIMPAAE-RP (Sindicato de Professores e Auxiliares de Administração Escolar) das Escolas da Rede Particular de Ribeirão Preto.

                                   Vencendo a luta de “medos e burocracia”, luta maior e mais ferrenha nos esperava. Era a da própria categoria, manipulada pelos patrões. Para as assembléias eram preparadas equipes  que deveriam impedi-las, sob pena de perderem os empregos. Elas se tornaram muito desgastantes. Com muito sofrimento e tenacidade vencemos esse período, filmando as assembléias, denunciando com provas, refreando a fúria patronal, e conscientizando a base.

                                   Era impossível para nós  permanecermos na rede particular. Assim com a abertura do primeiro Concurso Público para Diretor de Escola da Rede Pública no período de abertura política, José prestou e passou. Quatro anos após eu prestei e passei. Começa outra fase de luta e questionamentos pela “Qualidade do Ensino e pela Valorização do Diretor de Escola da Rede Pública do Estado de São Paulo. Entramos Para UDEMO (Sindicato de Especialistas da Educação do Estado de São Paulo). Em meados de 1995, José é vítima de um processo engendrado por um grupo de professores aproveitadores escondidos na máscara de denunciar erros. A eles se juntaram alguns pais da APM corruptos, e membros da Secretaria  praticando Abuso de Autoridade, da escola que ele dirigia. Causa: raiva, por José exigir “Qualidade no Ensino” e na “Equipe de Administração” o que estava a atrapalhar os interesses e tornando evidentes os que tiravam proveito para si da Escola Pública. Processo feio! Afetava sua moral e sua família. José, mesmo cansado de tanta luta por justiça reagiu o quando pode. Mas, a depressão que o acometeu fez surgir um câncer violento que o matou em dois meses. Em 09/01/96 José toma posse do seu pedaço de terra, volta para as estrelas e fica eterno.  Por fé, viveu e morreu lutando pela justiça. Merece reverências.

                                    A notícia dos sofrimentos profissionais e de saúde de José reuniu a família, espalhada pelo mundo. Uns introduzindo filhos e filhas na universidade. Outros os casando, outros esperando netos, dando seqüência a criação. Nos dias comuns da vida telefonemas e visitas esparsas mantinham nossa relação. Mas nas emergências e problemas de saúde, como no caso, as visitas, cartões, cartas, telefonemas, E-mails, eram constantes. Traziam alegria diminuindo o sofrimento. Umas das profissionais que veio caminhando conosco desde os tempos de JEC escrevia uma carta por dia enviando ternura, agradecimentos, alento, coragem.

                                   Aproximando o fim dos dias de José sobre a terra todos se aproximaram. As enfermeiras vieram e ficaram, dias e dias em tempo integral.  Cuidavam da medicação, da alimentação e orientação da higiene pessoal. O médico doou todo seu tempo de Férias de Natal. Fez plantão na cabeceira de José. Verificando a gravidade do caso avisou a vários que foram chegando. Em equipe davam banho no José, punham-no na cadeira para descansar, buscavam o sol para ele etc. Outros para o supermercado prover a cozinha. Outros cozinhando, limpando, verificando roupas etc. Todos apoiando carinhosamente a esposa e filhos.  Amante e amado José morreu como viveu, cercado pela grande família que formou. Mesmo na UTI havia grupos esperando para visitá-lo em hora permitida.

                                   Como a morte traz a ressurreição, nesses dias dolorosos os que chegavam, que eram a maior parte, perguntavam pelos ausentes. Quase sempre se tinha alguma notícia. Apostaram na reunião e listaram os endereços. A oportunidade de reunir chegou logo.  Luiz Girotti ligou com voz muito tenra. Estava também doente. Tomei seu endereço e disse: “Quando tudo passar vamos  visita-lo”. Vida nova apontava.

                                   Em julho de 1996 fomos visitá-lo. Aderiram os grupos de Ribeirão Preto, Franca, Cravinhos, Santa Rita do Passa Quatro, Campinas. Luiz, como sempre, nos recebeu muito bem. Preparou-nos hospedagem em casa de seus paroquianos, um belo passeio em um dos pesqueiros construídos ao longo da represa de Furnas, refeições consigo na casa paroquial, sala para nossa conversa e reflexão, além de nos apresentar à paróquia em celebração eucarística da qual nós e nossos filhos participamos. Na avaliação e despedida decidimos por novos Encontros. O próximo poderia ser em Ribeirão Preto, portanto a equipe de lá consultaria a todos qual a melhor data.

                                   Em 1998, uma do grupo defendeu tese de doutorado em Sociologia. Um pequeno grupo compareceu. Diante do brilhantismo da defesa solicitamos a presença da Dra. em um encontro com o grupo, no qual ela deveria apresentar um extrato de sua tese. Versava sobre família e foi inspirada nas primeiras reflexões que fizemos juntos, nos idos Encontros de Jovens dos anos 60. À convocação pelo TRONCO para tal encontro na Semana Santa que se aproximava, a aceitação foi ampla e rápida. Realizou-se, conforme o pedido. Em Ribeirão Preto em nossa casa. Desde então passamos a nos reunir toda Semana Santa. Cada ano um grupo recebe. Assim, Ribeirão já recebeu (2) vezes, Campinas (1), Belo Horizonte (2), Tambaú (1), São Paulo (1).

                                   Do grupo também surgiu um padre, Sebastião Mezencio, Pe. Sacramentino. O Tiãozinho está conosco, com nossos filhos e outros amigos, nos bons e maus momentos. Casamentos, formaturas, bodas, mortes, doenças... Vai nos receber em sua paróquia em Alfenas na Páscoa 2005.

                                   Casos de doenças e dificuldades financeiras vêm acontecendo no Grupo. Um, muito triste, nos fez criar uma “caixinha” com o objetivo específico de assessorar problemas de saúde. Ela fica em um banco na cidade onde há um do Grupo doente, com dificuldade de tratamento. Não havendo essas necessidades ela caminha de cidade em cidade onde se prepara o Encontro da Páscoa. Seu fundo pode ser usado para as despesas preliminares de quem recebe. No Encontro repartimos as despesas, voltamos a alimentar a caixinha para ir cumprindo seu objetivo prioritário. Ao adoentado é dado todo cuidado possível, seja afetivo ou financeiro. Cada um do Grupo partilha a sua maneira e possibilidade.

                                   Se cada um do Grupo “TRONCO” contasse a história do TRONCO a partir de suas experiências nele, certamente seriam todas muito diferentes. Cada um chegou para um movimento em lugar diferente, em momentos diferentes, por mãos diferentes, por motivos diferentes, cativados diferentemente. No grupo há pessoas lá da Catequese Infantil, dos Clubes e Círculos Vocacionais. Dos Seminários e Comunidades Vocacionais. Dos inúmeros Encontros de Jovens. Dos Cursos de Lideranças. Das Missões Rurais. Das Férias com Crianças Pobres da Periferia e Interior do Estado em Suarão, Santos, Dos desafios profissionais, históricos e familiares que fomos enfrentando. Dos  Encontros na Páscoa. Dos sindicatos.

                               Enquanto colaboradores da criação, continuamos colocando nele vida nova em nossos filhos e netos. Por eles e mesmo por nós vão chegando, namorados e namoradas, noivos e noivas, esposos e esposas, sogro e sogras, colegas de trabalho totalmente afinados com os valores que nos sustentam. Dentro do grupo, ao longo da vida, aprendemos a reunir e repartir, colaborar e cuidar, ser fraternos e solidários, ter confiança e respeito, acolher e conviver, com muita alegria, abertura e compreensão. Pelas mãos de verdadeiros profetas o amor incondicional pediu para em nós fazer sua morar e abrimos espaço.

                               Esta é uma das histórias do “GRUPO TRONCO”. Plantado em terra boa criou raízes profundas e fortes, gerando energia que sustenta seus galhos, folhas, botões, flores de frutos. É uma história sem fim. Por maior que seja a violência e a disposição mercadológica do mundo, vem lutando pela justiça e construindo uma história de fé, amizade e compromisso social.

                                                                        

                                                                                  Ruth Carvalho da Costa.