UMA SAÍDA - UM CAMINHO NOVO
E VIVO
Francisco Salatiel *
"Temos aí um caminho novo e
vivo, que ele inaugurou através do véu,
isto é, através da sua humanidade”
(Heb10,20)
Há dias - ou
semanas - venho percebendo o interesse de alguns no debate dos assuntos
propostos para o XVII Encontro Nacional do MPC no Recife (10/13 Jan.
2008). Embora com a inscrição já feita para participar do mesmo com
Sonia, minha esposa, não me animava o tom das colocações veiculadas até
então. Contudo, fui impactado pela leitura do texto - Le mal
élémental, de Miguel Abensour, que comentava reflexões de E. Lévinas
produzidas na primeira hora da implantação do nazismo (1934/1935).
Lévinas, discípulo de M.
Heidegger, tinha a convicção filosófica de que tal sistema político,
longe de produzir um novo humanismo, criava sim "l´être rivé",
atrelado e sujeitado, ou todas as condições sociais da barbárie. A
metáfora (l´être rivé), que joga com a imagem da fixação que
imobiliza e aprisiona o barco nas margens, diz bem da impossibilidade de
um impulso para a saída, para a busca de um projeto, para a caminhada/
peregrinação (êxodo) no rumo de uma pátria ainda distante. Essa leitura
fecundou minha atual compreensão do movimento, no momento preciso em que
fui arrancado de certo torpor e me senti na obrigação de externar também
meu ponto de vista.
De onde estou falando
É bom que deixe
claro não pertencer ao grupo de Brasília que elaborou e assinou a
ATA comentada como o ponta-pé para o Encontro da virada, no dizer
de alguns. Ainda que assíduo participante do MPC de Brasília, em várias
ocasiões deixei explícita minha posição de não alinhamento total com
semelhante iniciativa por questão de princípio ou de visão que será
desenvolvida em seguida. Assim, essa minha entrada no debate expressaria
bem mais a inquietação de um bicho que se sente capaz de pensar,
refletir, meditar, ponderar a partir de uma situação mais pessoal do que
grupal, pois não sou porta-voz de ninguém, embora tenha conversado em
voz alta sobre isso com Sonia, minha esposa. E creio também que o clima
de preparação para o Encontro, agora na ante-véspera do Natal, é
bastante propício para reflexões vazadas na esperança e centradas na
pessoa de Jesus de Nazaré, o Immanû-El.
Questões de fundo que não
podem ser silenciadas
A - Uma releitura de
Hebreus com o pano de fundo do Êxodo
Creio que temos
uma aversão enraizada desde os tempos de seminário à releitura da
exortação (carta) aos Hebreus. Parece que os tons triunfalistas do Salmo
messiânico 110 (Tu es sacerdos in aeternum...), cantado a plenos
pulmões em nossos corais, desviaram-nos da melhor e mais autorizada
fundamentação do sacerdócio de Cristo - único e exclusivo (sempiternum/
aparábaton- Hebr 7,24) - e já não nos deixam enxergar que é aí,
nessa belíssima e bem arquitetada obra de oratória, que se acha a
desmontagem das pretensões à tentadora e satânica aura de poder de que
se revestiu o exercício do ministério (diakonia) sacerdotal.
Hebreus vai além de Filipenses e 1 Coríntios e mata a charada da
compreensão de um seguimento messiânico livre da "Lei de prescrição
carnal" (Hebr 7, 16). Por isso é que desenvolvo essa pista (vestígio)
novo-testamentária.
Como se trata
de uma exortação - uma longa homilia - convém saber primeiro quais os
destinatários da mesma e em que contexto tais palavras foram
pronunciadas. Deixo de lado a questão da autenticidade paulina. O mais
provável é que, destruído o templo de Jerusalém e desmantelado o aparato
litúrgico e sacerdotal do mesmo, os ouvintes deste eloqüente orador
viviam um momento de profunda crise e desânimo espiritual (Heb 10,35).
Seriam levitas convertidos ao cristianismo ou fiéis provenientes do
judaísmo, conhecedores das práticas do Templo? Pouco importa. O certo é
que subjaz uma questão inarredável: o que este caminho novo e vivo
(Heb 10,20; At 9,2; 18,25-26) tem para oferecer em lugar de
instituições tão veneráveis (sacerdócio levítico com os sacrifícios
para o perdão dos pecados), se isso tudo se acabou?
Se, com
atenção, seguirmos os passos da argumentação do pregador, descobrimos
pouco a pouco que a verdadeira consagração (teleiôsis)
sacerdotal ou a perfeição/ consumação ritual (Heb 7,11.28)
deslocaram-se das práticas legais do mosaismo,terrenas, carnais, meras
sombras (Heb 8,5; 10,1) para outro tipo de templo - tenda - o
corpo de Jesus, não feito por mãos humanas (Heb 8,2; Jo 2,21). Ele é o
homem, a quem tudo foi submetido (Sl 8,5-7 - "que é o homem"?
- Heb 2,5-9) e, não sendo anjo, está acima de toda a realidade
criatural. Não é sem razão que, logo no começo do sermão, o pregador
traça o perfil desse novo homem - Jesus - que padeceu a morte e foi
coroado de glória e honra (Heb 2,9). E, antes mesmo de desenvolver a
comparação de Jesus com Moisés (Heb 3,1-6), já aparece, embutido o pano
de fundo do Êxodo do Egito no tema da solidariedade com aqueles que não
se envergonhou de chamar irmãos (Hebr 2,11). A obra de Jesus é
mencionada como uma gesta de condução e de pioneirismo: ele é
precursor (pródromos: Heb 6,20) numa caminhada de libertação
(Heb 2,10.15).
Então, pela
primeira vez no texto, aparece aplicado a Jesus o título - incomum no NT
- de sumo-sacerdote/ pontífice (archiereus), nesse preciso
contexto existencial, mas a-litúrgico e irreligioso (profano) da
solidariedade com os irmãos: "Por isso devia assemelhar-se em tudo a
seus irmãos, a fim de se tornar sumo-sacerdote misericordioso, ao mesmo
tempo que acreditado (fiel) junto a Deus para apagar os pecados do povo"
(Heb 2,17). Deste modo, a definição de sacerdote como alguém
"tomado dentre os homens e constituído em seu favor" (Heb 5,1)
jamais deveria ter sido descontextualizada e desligada da baliza
precedente, ou seja: Jesus não é um estranho no ninho da humanidade e
não pertence a qualquer tipo de linhagem sacerdotal, segundo a lei
(Heb 7,11-16), mas é o Filho bendito de Deus (Sl 2,7; Heb 1,5) e
irmão "capaz de compadecer-se das nossas fraquezas", pois, à
nossa semelhança "ele foi provado em tudo" (Heb 4,15), submetido
à nossas mesmas realidades terrenas (carnais): "ofereceu orações e
súplicas com grande clamor e lágrimas Àquele que podia salvá-lo da morte
e foi atendido por causa de sua submissão... aprendeu a obediência pelos
próprios sofrimentos" (Heb 5,7-8) e, nisso mesmo, consistiu a sua
consagração/ consumação (teleiôtheis) sacerdotal (Heb 5,9),
tornando-se “causa de salvação eterna para quantos lhe obededem”.
Por que venho insistindo que a homilia aos Hebreus
tem como pano de fundo um midraxe (comentário) do Êxodo? A
resposta é óbvia: porque esta - a saída do Egito - é a maravilha das
maravilhas do Senhor (YHWH), cantada em verso e prosa na Torá, nos
Salmos, nos Profetas, no livro da Sabedoria e até serve de moldura para
o livro do Apocalipse do NT. Assim, a exegese do encontro de Abraão com
o misterioso Sacerdote do Altíssimo Melquisedeque (Gên 14,17-20 e
Heb 7), que amplia o entendimento messiânico do Salmo 110,4, citado
diversas vezes (H 5,6.10; 6,20; 7,3.11.17.21), não pode anular o hoje
desse novo êxodo, dessa nova caminhada que tem em Jesus - não em Moisés,
nem em Josué - o seu novo líder. O hoje do Salmo 95,7-11 (Heb
3,7-4,13) é o nosso hoje. E é tão verdade que se trata de uma
peregrinação sob a condução desse bom pastor - Jesus - que a ele, "o
grande pastor das ovelhas" - se aplica a terminologia da subida
(êxodo) dentre os mortos, quando a exortação (Heb 13,20) toma
de Isaías esta metáfora para falar da ressurreição: "Onde está aquele
que fez subir novamente do mar o pastor do seu rebanho?" (Is 63,11)
Se este é o
fundamento da argumentação do orador de Hebreus, como entender
agora o Tu es sacerdos in aeternum secundum ordinem Melchisedech
do Salmo 110,4? Por que retroagir até o Gênesis e não permanecer no
Êxodo? À luz do que o texto de Hebreus - que avança por etapas
bem concatenadas - já antecipara nos capítulos 2-6, o comentário (midraxe)
de Gên 14,17-20 em Heb 7,1-28 não tem outro sentido senão o de reforçar
a preeminência messiânica e a exclusividade desse novo tipo de
sacerdócio, sem a linhagem levítica (Heb 7,11-16), pois centrado
no corpo de Jesus, simultaneamente ofertante e vítima solidária.
Sem eliminar essas características bem humanas, mas apartadas do aparato
sacerdotal vigente/ legal, a ênfase com que o Salmo 110,4 é citado recai
sobre a firmeza do juramento do Senhor que não se arrependeu de sua
aliança com Abraão (Heb 6,13-18). Essa aliança é, pois, o fundamento e o
paradigma da aliança do Sinai, das alianças com as casas de Israel e de
Judá, e vai resultar - nos tempos escatológicos - numa nova e eterna
aliança, tema capital do capítulo 8.
O autor da
exortação sabia de antemão que esses assuntos - novo sacerdócio, nova
aliança - não eram fáceis de entender. Isso exigia maturidade na fé
e também esforço contínuo: deixar de lado a preguiça e a desatenção ao
escutar ( “imbecilles”: Heb 5,11; 5,12). Pois, a exclusividade
desse sacerdócio (sempiternum/ aparábaton - Heb 7,24) é
paradoxal: ao mesmo tempo que não tem mais nada a ver com a lei de
filiação humana na tribo de Levi (Heb 7,14.16), que precisava
perpetuar-se no tempo para multiplicar os sacrifícios (Heb 7,23.27), o
sacerdócio do Messias Jesus - de acordo com o tipo misterioso de
Melquisedeque rei/ sacerdote - ancora-se no juramento de Deus,
que não mente (Heb 6,17-18), nem se arrepende da promessa feita a
Abraão, antes das leis dadas no Sinai a Moisés. É isso que o Salmo 110 e
o encontro de Abraão com Melquisedeque, rei da Justiça e da Paz (Heb 7,2
-cf.Is 2,3-5; 9,5), quer mostrar ou seja a preeminência e a
anterioridade do juramento sobre o que foi estabelecido depois,
ou seja, até Levi está submetido ao dízimo oferecido por Abraão a
Melquisedeque.
Assim, a primazia dessa
promessa com juramento (Heb 7,20) é o que funda e inicia o Povo de
Deus, com sua vocação universal para abarcar todos os povos na mesma
bênção divina, numa aliança duradoura, prometida para o final dos
tempos, através de um novo mediador de uma aliança muito melhor
(Heb 8,6; 9,15; 12,24), Jesus - pioneiro/ precursor (pródromos:
Heb 6,20) e iniciador de nossa fé (Heb 12,2), nessa caminhada nova e
viva (Heb 10,20).
Para não nos alongarmos demais,
enfeixaremos essa releitura em 3 eixos:
a) A apropriação da terminologia
cúltica por Hebreus com a aplicação a Jesus de termos não
utilizados pelo resto do NT (sacerdos/
pontifex - hiereus/ archiereus),
em vez de pretender assimilar o seu papel redentor à função dos
sacerdotes do Templo, deu-se justamente o contrário. A terminologia,
re-interpretada, foi utilizada para marcar um radical distanciamento ou
um não pertencimento de Jesus a esse sistema (cf. de novo Heb 7,11-24),
a ponto de Heb 8,4 exclamar: "Se Cristo estivesse na terra, nem
sequer seria sacerdote, por estar esse posto ocupado por aqueles que
oferecem os dons, de conformidade com a Lei". Contudo, há um aspecto
do perfil sacerdotal, segundo a definição de sacerdote já mencionada
(Heb 5,1) que Jesus realiza à perfeição, ou seja, o da solidariedade,
o da compaixão, não por ser sacerdote segundo a Lei, mas por ser
irmão e Filho de Deus. Em várias passagens (Heb 4,16;
7,25), essa qualidade - ser nosso próximo para aproximar-nos de Deus -
marca a sua entrega sacerdotal e constitui um novo tipo de liturgia ou
serviço cúltico (Heb 8,6);
b) A superação da Lei
- a antiga aliança, envelhecida, foi abrogada pela nova (Heb 7,18; 8,13)
- dá-se precisamente porque o perdão dos pecados não se realiza mais
pela repetição cotidiana de sacrifícios com sangue que não purifica nem
renova o interior dos corações. Somente a entrega voluntária de Jesus ao
Pai é que produziu essa transformação: a vontade de Deus é interiorizada
no mais profundo da consciência (Heb 8,10; 9,9.14/ Jer 31,31s),
purificada de toda maldade (Heb 10,22). Poderíamos ver aqui, na
realização da promessa como está formulada em Jer 31,31-34 e citada na
íntegra em Heb 8,8-12 e retomada em parte em Heb 10,15-18, a pertinência
de uma cristologia unida à pneumatologia. Noutros termos, a Páscoa da
Ressurreição é incompreensível sem o Dom do Espírito, do Consolador, do
Paráclito, exegeta do Jesus histórico (Jo 14,26;16,13-15);
c) A exclusividade,
perenidade, eternidade (cfr. o sempiternum/ aparábaton de Heb
7,24) desse novo tipo de Sacerdócio ganha um traço
inegavelmente antropológico quando, com a destruição do Templo, da
tenda, feita pelas mãos humanas (Heb 8,2; 9,11), a nova tenda
do Senhor (Yhwh), em Jesus, torna-se o seu corpo (Salmo 40,7-9),
a sua natureza humana que atravessou o céu e nos precedeu nessa
caminhada, nessa peregrinação, nesse êxodo para a Pátria Celeste (Heb
11,16).A eficácia dessa oferta definitiva é tal que se torna
irrepetível: “fomos santificados pela oblação do corpo de Jesus
Cristo, efetuada de uma vez por todas”(ephapax: Heb 10,10) E é
preciso estar livre de toda carga para empreender esta corrida:
"rejeitemos qualquer fardo e o pecado que tão bem sabe envolver-nos, e
corramos com persistência o certame que nos é proposto, de olhos fitos
naquele que é o iniciador da fé e a conduz à realização (teleiôten),
Jesus" (Heb 12,1-2).
B - O postulado do Sacerdócio Comum do
Povo de Deus.
Convém lembrar
que a polêmica com os reformadores/ protestantes (sec.XVI), que
tiveram o mérito de refontizar, bem antes do Vaticano II, a dignidade do
sacerdócio régio do Povo de Deus (Ex 19,5-6 e 1 Ped 2,5-9), pode
ainda hoje ter deixado impregnados em nossa pele os humores da
hierarquia. O belo capítulo II, da Constituição Lumen Gentium
sobre a Igreja do Concílio Vaticano II, procura amainar essa
redescoberta com a reafirmação de uma diferença entre a participação no
sacerdócio do Cristo por todos os fiéis batizados e aquela dos que
receberam o sacerdócio ministerial (bispos, presbíteros, diáconos), que
detêm a sacra potestas para dirigir e orientar o Povo. Diferença
não apenas de grau, mas de essência: ambos participam, cada qual a
seu modo, do sacerdócio único de Cristo (LG¸II, n. 10).
Por que as CEBs
foram pouco a pouco descartadas ou de novo submetidas à tutela clerical,
senão porque o assim chamado leigo jamais foi considerado em sua
condição e dignidade de batizado e seguidor/ testemunha adulto de Jesus
de Nazaré. A volta ao paroquialismo, sem dinamismo missionário, não
reflete outra coisa senão a redução à minoridade e à imbecilidade do
rebanho passivo e mudo.
Não vamos
continuar tais polêmicas e discussões tridentinas, mas o aferrar-se à
perenidade de uma função, datada e canonizada por leis humanas,
relegando na sombra a vocação batismal, o conformar-se (Rom 8,29;
Fil 3,10) e o assemelhar-se ao Jesus, que foi crucificado fora dos
muros de Jerusalém (Heb 13,12-14), parece ser a maior tentação dos
que deixaram pra trás esse status e saíram à procura de um novo
caminho de vida (Heb 11,14-15).
O pertencer à
Igreja como Povo de Deus peregrino, remete-nos ao contexto do
provisório, do efêmero, da não fixação num porto seguro e definitivo (l´être
rivé), pois nos incita a caminhar, a não parar: a tenda/ o barco
tem de mover-se. A negligência de uma espiritualidade do êxodo,
palco das metamorfoses da criação e revelação de novas harmonias dos
dons de Deus (Sab 19,18-21), talvez seja o maior perigo por que a fé
passa hoje. Ela perde o seu dinamismo missionário do anúncio ecumênico
das maravilhas da salvação, quando se pensa ter atingido a terra
prometida e encapsulado a Deus nos novos templos, feitos por mãos
humanas.
C - A radicalização
do "não ser/ estar padre", no MPC/ Rumos
Diante desses pontos ou
balizas de reflexão, o perguntar pela identidade daqueles que um
dia foram investidos de uma missão canônica e receberam a imposição das
mãos do bispo para o ministério sacerdotal, talvez acarrete a perda de
perspectiva para nos situar como Povo de Deus.
Assim como a perfeição/
consumação/ consagração (teleiôsis) de Jesus como sacerdote,
apartado e distanciado das prescrições do sacerdócio levítico, fundado
na lei antiga, deu-se com a vivência plena de sua humanidade até à morte
- e morte de cruz, assim também é através da tenda de nossa
corporeidade, oferecida como hóstia viva (Heb 13,15; Rom 12,1),
com todas as dimensões teologais da fé, da esperança e do amor, que
exercemos o nosso sacerdócio régio, à imitação do Cristo. Pois
ninguém nos introduzirá num limbo ou na degradação dos
rejeitados, se os laços da fé, da esperança e do amor nos unem ainda ao
Povo Santo de Deus.
Não creio que nos domine o
sentimento de estarmos atolados na imanência (l´être rivé),
incapacitados para uma saída, sem a perspectiva de um projeto,
só enxergando o escuro das trevas da morte.
Essa chamada à transcendência, à
luz da gloriosa liberdade dos filhos de Deus (Rom 8,21; Ef 5,14) talvez
seja nossa maior e melhor identidade: a de seres que não pararam de
perscrutar os horizontes e de caminhar como se vissem o invisível
(Heb 11,27 e Lc 5,4: “duc in altum”).
À guisa de conclusão
"Encontro da
virada"? Talvez! Nosso sacerdócio existencial deveria
apartar-se e distanciar-se o mais possível - à maneira de Jesus - das
sombras de um serviço litúrgico que não leva em consideração a
grande metamorfose por que já passamos em nossos corpos e mentes, longe
de fáceis seguranças institucionais. Solidarizando-nos com a missão do
Povo de Deus, nas comunidades em que estamos inseridos, que ministérios
(diakonias) poderiam ser explicitados senão aqueles que dão
sustentação à fé e atendem às necessidades dos mais fracos e dos mais
pobres? Por que pretender ainda fustigar a hierarquia eclesiástica com
reclamos da sacra potestas da presidência da Eucaristia e de
outros sacramentos? Nesse caso, com a consciência de que o "padres
casados" do MPC é mera circunstância historica datada, a virada
estaria mais bem posta no como se não tivéssemos sido marcados e
nos puséssemos a andar, sem olhar para trás, em busca de uma pátria
melhor. A saída (exodus) está precisamente nesta disposição de
caminhar um caminho novo e vivo (Heb 10,20) e jamais o de
enclausurar-nos, encapsular-nos, ilhar-nos no pantanal sem saída (l´être
rivé) de uma pseudo-permanência num status a que renunciamos
com a mesma liberdade gloriosa dos filhos de Deus.
* Francisco Salatiel –
Brasília (DF), 15-12-2007