xv encontro nacional dos padres casados e suas famílias
I - AGENTES NA MUDANÇA
rogério i. de almeida cunha
“Agentes de Mudança no Reino: Esperança e Realidade”. Em torno a essa preocupação reuniram-se em Luziânia, DF, de 23 a 25 de Julho, mais de 120 , membros do mpc (Movimento dos Padres Casados) Maridos, Mulheres, Filhos e Netos,. A presença viva dos netos, a brincar de pegador e mil outras invenções infantis deu ao encontro um colorido movimentado, cheio de alegria. Enquanto isso, a secretaria caminhava a pleno vapor, nas mãos de jovens e adolescentes, eficientes assessores em informática e estratégias de organização, co-celebrantes nas liturgias. Durante o encontro, estiveram conosco representantes do conic (Conselho Nacional das Igrejas Cristãs), da cnc (Conferência Nacional do Clero) e da anpb (Associação Nacional de Presbíteros do Brasil). Participou do Encontro como palestrista e membro da Assembléia o bispo Anglicano de Pelotas rs, Sebastião Gameleira Soares.
Vivacidade,
eficiência e profunda reflexão foram as marcas do Encontro. Boa parte do tempo
foi ocupada na discussão de problemas institucionais: articulação do Movimento,
organização da Associação Rumos, sobrevivência do Jornal Rumos, que concretiza a
comunicação interna e externa do mpc.
A primeira certeza foi de que a vivacidade madura do nosso movimento se
manifesta nas múltiplas atividades que exercemos em todo o território Nacional
e na comunicação com outros países do Continente Americano, da Europa e mesmo da
Austrália. Não temos a possibilidade de desenvolver alguma atividade organizada
pelo grupo, especificamente levada adiante pelo Movimento. Nem mesmo se pode
dizer que um movimento, seja ele qual for, tenha um papel deste tipo. A presença
de Padres Casados na Sociedade é visível e atuante em todos os níveis da vida
pública, social e familiar. Há Padres Casados e ex-membros do Clero em cargos
eletivos ou executivos dos Governos Nacional, Estaduais ou Municipais, muitos
são dinamizadores de atividades sociais de assistência e promoção, empresários
de vários ramos, militantes de movimentos organizados, e até mesmo agentes de
Pastoral, ou de vários Ministérios das Igrejas. Não é como Padres Casados ou por
o serem, que têm uma palavra a dizer, uma contribuição a dar, mas por serem
cidadãos, por exercerem de pleno coração a dignidade humana de quem procura
antes de tudo o Reino de Deus.
Essa busca é o que aprendemos no decorrer de nossa formação e no nosso exercício do Ministério. Disso brota também o desejo de alguma coisa forte, feita como esforço comum e contribuição específica. O xv Encontro tomou clareza de que, perante as múltiplas atividades em que desdobramos as nossas forças espirituais, intelectuais e pessoais, isso não é possível, não é necessário, e se torna ineficiente. Atuamos na sociedade em força de nossa Cidadania, e essa é marcada pelo que somos e sabemos fazer.
O Encontro se
concentrou nessa questão, na mesa redonda do dia 24. Abriu o
debate o bispo Sebastião Gameleira, que, ao lado de C. Mesters e Elizeu Lopes,
ajudou na fundação do cebi (Centro
de Estudos Bíblicos). Depois dele falou dom Marcelo Barros, monge beneditino e
biblista, seguido do monge budista Ademar Sato. A rodada de depoimentos foi
encerrada pelo casal Zenóbia e Rogério, do
mpc de Belo Horizonte. Como é que
vivemos a mudança, e como agimos dentro dela?
Boa parte dos depoimentos descreveu o desenrolar das caminhadas pessoais.
D. Sebastião Gameleira foi professor no iter, Instituto de Teologia do Recife, onde trabalhou ao lado de D. Hélder Câmara. Ao ser fechado o Instituto, por ordem do sucessor de D. Hélder, a colaboração teológica de Sebastião Gameleira foi solicitada e aproveitada pela Igreja Anglicana. Ele descobriu imediatamente que sua visão de Igreja era muito mais próxima ao modelo Anglicano do que ao que chamou de “autoritarismo romano”, que é hegemônico na Igreja Católica de hoje. Tanto o autoritarismo, quanto a exclusividade de um modelo de Igreja que se estima único e universal, são posições que desconhecem que vivemos num mundo em mudança, e que essa mudança exige respeito radical à autonomia das pessoas e visão de mundo capaz de perceber os muitíssimos aspectos emergentes da realidade. Valores até pouco tempo atrás respeitados como imutáveis se mostram hoje relativos, e aspectos desconhecidos emergem com força e exigências desconhecidas.
O
autoritarismo com que se defrontou D. Marcelo Barros, o Beneditino, foi mais o
do Estado ditatorial, que se prolonga hoje no “pensamento único” neo-liberal. Na
infância, ele desejava ser médico, veterinário de feras selvagens. É uma das
linhas centrais da mística beneditina o confronto com as “feras” que habitam o
ser humano, em seu interior, como nas estruturas sociais. No Brasil temos uma
diversidade crescente de experiências e propostas espirituais, dentro do
processo de mudança religiosa, cultural e social que envolve a todos numa mesma
luta. Católicos, Budistas, Evangélicos, Umbandistas, Muçulmanos, religiosos das
mais diferentes tradições, nos defrontamos hoje com um mundo em que não
sobrevivem mais exclusivismos, uma realidade humana em que o “ecumenismo” se
torna exigência vital em vários sentidos. Ecumenismo é reconhecer que Deus é
maior que nossas Religiões, e que as Religiões são maiores que as instituições
eclesiásticas, mais ainda que as exigências históricas e institucionais ditadas
pela caminhada de cada uma.
A visão mais instigante foi a proposta do ex-militante da juc (Juventude Universitária Católica) dos anos ‘60, marxista ex-membro da ap (Ação Popular), desde os anos 80 monge budista Ademar Sato. Uma das diretivas fundamentais do budismo é o princípio da impermanência. Nada permanece aquilo que é, mas tudo se desenvolve. Na linguagem ocidental, pode-se dizer que tudo é transformação. A busca da resolução é o sofrimento e o sofrimento é fonte de energia. Tudo é mudança sofrida e profunda, inclusive o que pensamos a respeito de Deus, o que experimentamos de sua presença como Criador. O exercício do aprofundamento em si mesmo é caminho em direção ao mais profundo de si próprio, e busca de uma via de acesso ao que ultrapassa toda profundidade, e constitui não apenas o que cada um tem de mais profundo, mas é aquele limite em que todos começam a ser “um” e se encontrar na totalidade. Nas palavras do escritor argentino Borges, o tempo é um rio que arrebata. Você é o rio. O tempo é um tigre que estraçalha. Você é o tigre. O tempo é um fogo que consome. Você é o fogo.
O casal “emepecista”
Zenóbia e Rogério se revezou, inicialmente na tentativa de
definir o que é a mudança em curso, e depois na apresentação dos desafios que o
casal vem assumindo no decorrer de várias situações e conflitos pessoais,
familiares, institucionais, sociais, políticos e antropológicos. A mudança que
vivemos é uma crise que nos atinge e nos ultrapassa. Mais que agentes de
mudança, somo atores na mudança. Não a produzimos, mas atuamos dentro dela. O
desafio é compreender, dentro das novas exigências, o sentido da nossa Fé, das
tradições e doutrinas a respeito de Jesus Cristo, a Eucaristia, a Ressurreição,
o próprio conceito de Deus e criação. Envolvidas neste contexto, vivemos
situações aterrorizantes como a violência inaudita, questões desafiadoras como o
“aborto de anencefálicos”, e outras situações humanas radicais. Como os
discípulos, ouvimos o chamado do Senhor: “duc
in altum” – ouse águas mais profundas. A Igreja não se transformará ao
fogo de nossas exigências, nem atenderá a vozes que lhe exijam o que não admite.
Ela é parte da sociedade, dentro da qual já exerceu certa hegemonia, e só se
transformará na medida em que essa matriz social e cultural ceder às mudanças em
curso. Tê-la sempre como referencial positivo ou polêmico é navegação costeira.
O horizonte das exigências é mais amplo.
Na reflexão espiritual de abertura, o Pe. Carlos SJ já nos havia abraçado com a pergunta: ”o que é que vim fazer aqui?”. A resposta começou a brotar no final, nas conversas de cafezinho e corredor. Não somos vítimas de perseguição, porque a instituição pretende apenas manter a ordem. Não somos desobedientes castigados. O que carregamos e por vezes sofremos por parte da Instituição Eclesiástica ou de alguns fiéis é a conseqüência da nossa transgressão. Nas palavras de Jorge Ponciano não apenas desobedecemos a uma regra, mas transpusemos um limite. Com isso a regra foi denunciada e desmascarada como produtora de desordem. Na nossa transgressão se anuncia uma nova verdade. O horizonte da nossa identidade é mais profundo.
Ninguém profetiza porque quer ser profeta. A profecia é um dom do Espírito à
Igreja. Nela se tornam palavra profética as ações – em palavras e atos - de
quem presta um serviço ao Reino. A Profecia faz o Profeta, não o profeta a
profecia. Dom Hélder Câmara não serviu aos pobres porque era um profeta, mas foi
feito Profeta porque consumiu sua vida por eles. Nele a Igreja viveu a profecia
dos pobres. Em nós a Igreja vive a profecia daqueles a quem o Espírito chamou
para o Sacerdócio plenificado no sacramento do amor humano. Somos apenas agentes
na mudança, a caminho. Se alguém se incomoda com nosso exercício de atividades
cristamente sacerdotais, é porque se sente desafiado pelo Espírito, pela
profecia que somos.
Ao final, a Assembléia elaborou uma “Carta de Luziânia”. A ela dedicaremos nossas próximas reflexões.
