Traduzido por Roldano Giuntoli
Enquanto escrevo esta newsletter estamos recebendo relatórios sobre a situação que se segue ao recente gigantesco terremoto no Chile. Tão logo recebi as notícias procurei entrar em contato com MariaRosa, nossa coordenadora nacional que vive em Concepcion próxima ao epicentro. Com a energia e as comunicações interrompidas passaram-se alguns dias antes que ela pudesse nos enviar uma resposta por meio do Facebook. O trauma que o desastre causou de imediato cedeu lugar àquilo que ela descreveu como algo ainda pior, os violentos saques que as casas de seus vizinhos sofreram, fazendo com que muitos cidadãos previamente cumpridores da lei se lançassem numa excitação enlouquecida. Ela pedia por preces, e por mais soldados. Ela terminou sua mensagem, antes que a bateria terminasse, dizendo estar aguentando apenas por se sentir unida em nossa prece comum, devolvendo o amor que ela sentia fluir na direção dela a partir de suas irmãs e irmãos da comunidade de meditação.
A mensagem comovedora dela parecia refletir muitos níveis de significado e tão numerosas maneiras de se entender a “mente”. Talvez até mesmo nos diminutos movimentos corriqueiros das placas tectônicas terrestres, que se movem aproximadamente à mesma taxa com que crescem nossas unhas ou fios de cabelo, possamos ver alguns primeiros tênues brilhos da mente. Pode ser difícil prever por que é que esses movimentos devem repentinamente crescer a ponto de criar desastres na esfera humana, porém isso é, ou pode ser explicado pelas leis naturais da física. Ao culpar Deus diretamente por tais eventos, estaremos meramente imitando as reações primitivas de nossos ancestrais, que espiritualizavam o que quer que eles não conseguissem explicar racionalmente. Ao mencionar a força da prece, MariaRosa não estava se referindo a qualquer forma de mágica que pudesse fazer voltar os ponteiros do relógio, ou sequer pedia pela proteção daqueles mais próximos de nós às custas de nossos vizinhos. Era a realidade que a mente contemplativa reconhece, talvez até mesmo mais claramente em períodos de crise do que na rotina corriqueira de nossas vidas.
A reação dos saqueadores, essa sim, é uma manifestação de consciência mais perturbadora. As mentes deles devem ter sido inundadas pelo mais básico instinto de sobrevivência, uma luta quase pré-humana para se estar entre os mais preparados, que então iriam friamente testemunhar a extinção dos mais fracos. Na desumanidade do homem, seja nos doze anos da barbárie nazista, ou no bombardeio de Dresden, ou no massacre de Srebrenica algumas décadas depois, vemos como pode ocorrer a erupção, a partir do abismo na consciência humana, de maneira tão imprevisível quanto qualquer outra força da natureza. Todavia, essas variações humanas não podem ser explicadas matematicamente. Por que é que algumas pessoas arriscam suas vidas para salvar aquelas que estão sob os escombros, e outras pessoas atacam os vivos para acumular provisões alimentícias? Essas perguntas não são filosoficamente abstratas ou remotas. Mesmo se não as pudermos responder, falharmos em encará-las seria arriscar descermos ao abismo.
Na grande tela de uma catástrofe de proporções, vemos projetadas as mesmas forças que governam nossas mentes no dia a dia. Como é que lidamos com os conflitos em nossas famílias, como é que manuseamos o ambiente competitivo do trabalho, como reagimos às necessidades dos aflitos: essas situações expõem a fragilidade do equilíbrio da mente e, o quanto estamos, a cada momento, nas encruzilhadas do bem e do mal, da realidade e da ilusão.
A Quaresma, na tradição cristã, é um período em que buscamos “mudar nossa mente”, metanoia, ou o verdadeiro significado da conversão. A Páscoa é a época em que vemos que a mente é muito mais vasta do que imaginamos, mais do que as pequenas privações que nos impomos, ou do que as boas ações que adicionamos à nossa atarefada agenda.
Na crescente radiância da mente de Cristo vemos como a consciência, que se inicia a partir de uma misteriosa e não observável fonte de pureza absoluta, flui em todas as direções para os contornos da criação que se expandem eternamente. E, como somos parte desse movimento desde o início, como de alguma maneira, tal como Cristo, nos reunimos e “recapitulamos” a criação em nossa própria humanidade. As placas tectônicas poderiam possuir algum vestígio primitivo de mente, anterior àquele das plantas e dos animais, similar ao modo com que operam nossos processos corpóreos. Todavia, não podemos culpá-las pelo mal que causam, ao obedecer às próprias leis. No entanto, no estágio humano, a consciência desenvolveu também um escrúpulo. Precisamos assumir a responsabilidade por nossas ações, mesmo quando nossa liberdade tenha sido restringida por cultura ou condicionamento. Não haveria ulterior evolução da humanidade caso não tivéssemos nos dado conta de que normalmente temos alguma escolha e, nossas ações conscientes refletem como a utilizamos.
A verdade começa a ganhar importância na dimensão humana da mente. Recentemente, em uma noite que passei com uma jovem família, fiquei impressionado pela maneira tão honesta com que as crianças responderam às perguntas de seu pai acerca de como algo havia se quebrado na casa. As crianças responderam direta e simplesmente, com a verdade, sem temor. Quando estendi meus cumprimentos aos pais eles sorriram e disseram que o que eu vira tinha sido apenas um dia bom, mas a clara honestidade das crianças, que poderiam facilmente ter se evadido ou mentido, permaneceu comigo. A verdade é mais do que a resposta certa. Trata-se da própria natureza da mente, e isso explica o porque Jesus do Evangelho de São João se identifica a si mesmo tão confiante e intimamente com “a verdade”. Trata-se da mente pura. Trata-se de clareza e translucidez, sem a interferência de filtros, ou do preconceito de sobrevivência do ego. Quando somos testemunhas do testemunho da verdade, só podemos, tal como Pilatos ao interrogar Jesus, nos impressionar ou nos comover, talvez também sentir raiva ou ameaça. Em todas as encruzilhadas de consciência de nossas vidas, em que temos escolhas a fazer, estamos às voltas com o grande encontro humano com a verdade da mente.
Primeiro, ouvimos essa verdade de outras pessoas. Ela não está nunca completamente encapsulada apenas em respostas do dogma ou do catequismo, pois estas só podem ser prenhes de verdade se elas forem sinceramente transmitidas por aqueles que neles acreditam. A verdade nunca pode ser hábito. Ela é sempre doadora de vida, libertadora e refrescante. Ainda assim, precisamos ouvir que outros digam a verdade, da melhor forma que a vêem. E, precisamos esperar que aquilo que eles vêem corresponda àquilo que é. Então, isso pode despertar em nós nossa própria fome pela verdade, e começamos a busca pelo conhecimento pessoal que é nosso norte na vida.
A seguir precisamos ver a verdade com nossos próprios olhos. Aquilo que aprendemos de outras pessoas não é suficiente. Também deve haver momentos de discernimento, que demandam muita preparação, mas que nos chegam inesperadamente, como se tocados pela graça tivéssemos sido, não como resultado de um programa, ou de um processo de doutrinação. A educação trata de manter a mente da criança aberta a esses momentos. Discernimento é experiência-da-verdade que nos modifica. Contudo, então precisamos integrar aquilo que éramos antes, com aquilo que somos agora, porque a mente é contínua. Ela não desperdiça nada, e recicla todas as coisas, incluindo nossa ignorância e nossos êrros. Uma vez que essa integração tenha ultrapassado um determinado nível, podemos sentir que estamos, surpreendentemente, chegando mais perto de ser verdadeiros. Nossos instintos se tornam mais confiáveis e nossa espontaneidade mais livre e compassiva. A verdadeira bondade de nossa natureza torna-se mais manifesta, ainda que nos seja mais difícil dizer se isso somos nós ou se é Deus. Todavia, as palavras de Jesus assumem novo significado: “deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito”. (Mt 5,48)
“Pois quem conheceu o pensamento do Senhor para poder instruí-lo? Nós, porém, temos o pensamento de Cristo”. (1 Cor 2,16)
Essa afirmação auxilia o meditante cristão a compreender porque o tempo gasto deixando de lado os pensamentos na meditação, mesmo pensamentos piedosos e bons, pode ser entendido como prece. Para esses cristãos a afirmação de São Paulo expressa um fato ontológico. A mente de Cristo, contínua com a mente que foi de Jesus, que nasceu e morreu, e ainda assim se expandiu para se tornar co-terminus com o universo, e assim flui para a mente de Deus, essa mente de Cristo está “em nós”. A preposição é necessária, porém metafórica. Ela está em nós, mas não podemos ser contenedores de uma realidade que nos transcende. Se isso é verdade, então minha prece, em última análise, flui em direção à prece dele, assim como nossa mente se transforma à medida que se aproxima da dele e, afinal se une à dele por meio de uma consumação de amor.
Há, no entanto, outros cristãos para os quais isso é um problema. Eles relutariam em afirmar que a mente de Cristo está em nós, a menos que tenhamos antes pedido por isso, e que tenhamos disso sido considerados merecedores. Uma vez que isso nunca poderá ser completamente apurado, nunca poderemos estar certos disso. Para esses fiéis, a prece poderá então parecer uma perpétua petição: a de receber essa graça e a de ser considerado merecedor dela. Em geral, entende-se a prece como aspiração, auto-análise e diálogo. Para eles a meditação poderá não parecer válida como prece, por mais profunda e frutificadora que ela possa parecer. De fato, poderá até mesmo ser ‘perigosa’. O ‘deixar de lado os pensamentos’ e a ação de adentrar uma pobreza do espírito dessa maneira, todo o significado contemplativo da prece, é visto como um ‘esvaziamento da mente’. O meditante sorri perante a idéia de que seria tão fácil esvaziar a mente de pensamentos. Todavia, para outras pessoas essa mente vazia é um convite à invasão de forças das trevas.
Não é a carta aos Filipenses que nos diz: “irmãos, ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso ou que de qualquer modo mereça louvor”. (Fl 4,8)
Na prece, algumas pessoas nos dizem, deveríamos pedir que nossos pensamentos sombrios, do tipo que preenche as mentes dos saqueadores, sejam substituídos por esse tipo de bons pensamentos. Os maus pensamentos são tentações do diabo ou sinais de nossa própria natureza pecaminosa. Se na meditação buscamos deixar de lado todos os pensamentos, estaríamos arriscando uma queda no abismo. A mente de Cristo ainda não está em nós. Ela está do outro lado do abismo que estamos cruzando como se fosse em uma corda bamba, uma mente sempre inconstante e assustadora.
Como sempre, existe uma verdade parcial nessa objeção. Ninguém duvida que seja melhor cultivar bons pensamentos do que os maus. Todavia a própria variabilidade do conteúdo dos pensamentos de nossa mente sugere que os pensamentos expressam algo. Eles não são a própria verdade. Bons pensamentos refletem uma mente que é relativamente pura e clara, uma criança que relata como uma mesa se quebrou, ou um político que se decide por seguir a política econômica que seja a mais justa, por mais impopular que ela seja. Maus pensamentos refletem uma mente que é opaca, voltada sobre si mesma e apegada a seus próprios desejos e temores ego-dirigidos, até mesmo ao ponto da loucura. Não estaríamos exagerando, portanto, ao afirmar que o esvaziamento da mente, se assim quisermos chamar a pobreza de espírito, ainda que de fato ela signifique muito mais do que isso, seja um convite às forças das trevas, na medida em que ele abre uma porta para que elas saiam. Sempre que uma pessoa esteja em meio à travessia de um limiar poderá lhe ser difícil dizer se ela está entrando ou saindo. Você poderá partir do pressuposto de que o lado para o qual a pessoa está voltada lhe dirá isso, ainda que às vezes quando a pessoa parte ela se volta para lhe dizer adeus.
No processo da meditação, os padrões e hábitos de pensamento dos quais gostaríamos de nos despedir, são parecidos. A experiência sugere que nós os vemos na verdade ceder ainda que, às vezes, eles parecem voltar e nos encarar de frente. Isso poderia nos inquietar, até nos atemorizar, não fosse pela consciência mais profunda da mente-de-Cristo em nosso interior. Normalmente, esse processo de purificação e de simplificação não é dramático, ainda que possa estar sujeito a solavancos. Às vezes, porém, as pessoas poderão sentir fugazes e intensos momentos de temor ao vislumbre de uma força profundamente reprimida, ou longamente oculta, que esteja sendo purificada de sua mente. Nesse momento breve e aparentemente desprotegido, elas poderão sentir um terror primitivo, um vislumbre da mortalidade que é a treva do abismo. Sem a boa orientação, essa experiência poderia impelí-las para fora do caminho da meditação, tamanho pode ser o medo de voltar a experimentá-la. Nada poderia mostrar mais claramente o valor de se conhecer a sabedoria da tradição na qual você medita, e a amizade de outras pessoas que a compartilham contigo. De fato, esses momentos são tão raros, ou mais raros, que as suas contrapartes experienciais em que conhecemos a pura união e a completa iluminação do amor. Algumas pessoas podem se perturbar e se afastar, tanto por esses momentos de bem aventurança, quanto outras podem fazê-lo pelos mais sombrios. Elas podem desejar ardentemente por anos a fio a repetição daquele momento de êxtase, ou desistir desapontadas por não poderem ter o controle sobre isso.
Para compreendermos como é que de fato ‘possuímos a mente de Cristo’ precisamos antes ver como é que nossa própria mente opera. Tão logo nos engajamos em um processo comprometido de purificação da memória, que em parte é aquilo que a meditação realiza durante o estágio purgativo da jornada, encontraremos algum conflito e resistência interior. Em essência, isso não é muito diferente do protesto de nossos músculos quando fazemos exercício físico ao qual não estamos acostumados. Não devemos encarar isso como sendo um sinal de que não somos talhados para o exercício, mas por outro lado, de que devemos dar ouvidos a nosso corpo e praticar com moderação.
Quando Jesus foi tentado no deserto, ele encarou as forças das trevas iniciais do abismo, talvez não tão atemorizadoras quanto sedutoras, a inclinação do ego para o poder e a auto-suficiência. Todavia, quando ele orou no Getsêmani, ou quando ele resistiu na Cruz, forças mais sombrias devem ter-lhe abalado a fé. Seu último grito de abandono sugere que ele mergulhou tão fundo no abismo quanto qualquer ser humano poderia e que, contudo, ao fazê-lo, as fronteiras de sua mente abriram-se completamente para a mente de Deus. Vemos isso, porque ele foi tomado não pelo desespero, mas pela compaixão, e ele não invocou vingança, mas sim perdão para seus inimigos.
A árvore da Cruz possui alguma ressonância com a árvore Bodhi (Figueira sagrada) sob a qual o Buddha se sentou para obter sua iluminação. Ainda que a imagem do Buddha em meditação seja uma imagem de paz, o relato de sua experiência interior naquela noite descreve um conflito intenso, e não foi o seu primeiro, com a personificação da Morte, do Maligno, do Tentador. Não tenho a intenção de confundir as duas histórias, o Buddha deixou sua árvore para depois considerar se deveria ensinar. Jesus morreu em sua árvore, desceu ao Inferno, o mais profundo do abismo, de modo que a partir de então não haja treva que o homem possa adentrar que já não tenha sido visitada por sua presença. A Ressurreição não é uma volta em um sentido comum, mas acima de tudo, uma delegação de poder a seus discípulos tão falíveis, para que eles ensinassem aquilo que ele havia ensinado, inspirados pela maneira pela qual seu ensinamento se verificava em sua própria experiência.
Isto para nós é luz e graça, e não substituição. Precisamos encarar nossos próprios demônios e passar por nossa própria Páscoa. Nós também somos chamados às profundezas e à resistência, e a aceitar certos aspectos ou episódios de nossas vidas com a resignação ativa que ele demonstrou. No entanto, conscientes disso, e sabendo que a mente de Cristo está realmente consciente em nós, isso significa que podemos empreender esse trabalho com uma certeza e uma esperança que são novas na experiência humana. Nós também resistiremos a períodos de conflito e a sentimentos de abandono, porém essas experiências são vividas no interior de uma mente já parcialmente iluminada pela mente de Cristo. Apreenderemos que quando a mente toca seus próprios limites na fé, ela não desmorona e se desintegra, mas se abre para fora, dirigindo-se para cima.
Três testemunhas disso.
“A prece”, nos diz São João Maria Batista Vianney, ‘nasce do desespero e da esperança’. Não deveríamos esperar que a abertura de nossa mente para a mente de Cristo se desse sem paradoxos recorrentes ou aparentes contradições. Vivenciamos o mistério pascal de perder e de encontrar em todos os níveis da experiência consciente. Haverá períodos em que não sentimos nada, e em que o nada nos parece fracasso e, um beco sem saída. Esses são os momentos em que resistimos e a fé se torna visão.
Os padres do deserto advertiam que a luta continua até o fim. Frequentemente, nos surpreenderemos diante de obstáculos interiores que nos impedem de abrir nossa mente à mente maior. Simone Weil dizia que quando encontramos tais obstáculos incorporados, os hábitos da mente, que de tão enraizados nós os tomamos como sendo nossa própria personalidade, em geral não podemos movê-los à custa de esforço. Em lugar disso, deveríamos olhar diretamente para eles, por tanto tempo quanto necessário, até que desapareçam. Às vezes, a meditação diária, pode ser apenas isso.
Desaparecerão sim, todavia, pois eles se originam do poder da ilusão.
À medida que nossa mente se abre para além de seus próprios limites e se surpreende expandindo-se na mente de Cristo, poderemos em alguns momentos sentir que estamos desaparecendo junto com alguns dos obstáculos. Todavia, há uma reaparição, quando nos reconhecemos em um universo maior, como se descobríssemos que pertencemos a um mundo maior do que imaginávamos, como cidadãos do cosmos. Nossa própria identidade mais profunda (nosso logos) então será vista em harmonia com o Logos ou a mente em todas as coisas. O resultado disso é uma expressão no amor, a transmissão de tudo aquilo que obtivemos. São Máximo o Confessor colocava isso da seguinte maneira:
Nesta experiência o homem reúne os logoi de todas as coisas. Ele percebe o Logos em tudo, não para torná-lo seu, mas para oferecê-lo a Deus.
Assim, o trabalho diário da meditação e o problema das distrações têm uma maior significação do que o que pode parecer de início.
Quando pela primeira vez descobrimos a agitação e o baixo nível de atenção de nossas mentes podemos nos sentir desencorajados e nos afastarmos. Se sentirmos uma necessidade suficientemente forte, se pudermos reconhecer a graça do mestre, qualquer que seja a maneira pela qual ele se manifeste, poderemos ir além dessa reação inicial. Talvez precisemos fazer diversas tentativas, antes de começarmos realmente. Todavia, à medida que aprendemos a reconhecer a natureza de nossa própria mente, com seu potencial de clareza e compaixão, sentiremos a mente de Cristo de maneira mais suave e amorosa. Então, a fé cristã poderá realmente começar a crescer.
De acordo com nossa própria experiência, é nesse processo que se realiza a conexão entre as dimensões mística e moral do Evangelho.. O amor aos inimigos e a não violência tornam-se não apenas ideais bonitos, mas atingíveis. Eles expressam a resposta natural ao despertar da mente contemplativa, que consegue enxergar além dos conflitos e das oposições que sofre. Enxergamos o espírito além da letra, e onde há o espírito há unidade. Amar nossos inimigos significa ver que na verdade não estamos separados deles, e aquilo que fazemos a eles, é o que fazemos a nós mesmos. Dentro dessa visão, as espadas se transformam em arados.
Em algum ponto, à medida que se fortalece o sentido da mente de Cristo na qual existimos, veremos a religião que leva seu nome sob uma nova luz. Tendo aceito suas muitas e inevitáveis imperfeições, ainda poderemos nos perguntar se a vida cristã é realmente, e essencialmente, uma religião. Não seria na verdade um misticismo do amor que luta a todo custo pela grande e completa unidade pela qual ele uma vez rezou.
Talvez, venhamos a concluir que ela se parece com uma religião até que a mente enxergue mais profundamente e reconheça que o aspecto religioso é apenas a forma que carrega o espírito. Isso não concordaria com a crítica radical a toda religião que Jesus expôs? Não seria essa a impulsão dos ensinamentos de São Paulo após sua conversão? E, não seria essa a sabedoria da tradição mística cristã?
Algo está se movimentando dolorosamente na mente cristã de hoje. A forma religiosa do Cristandade, que teve longa relação com as estruturas do poder do mundo, e ainda frequentemente se agarra a elas no vestuário e na atitude, tornou-se tão forte, tão incrustada às custas do místico, que a outra dimensão mais profunda está empurrando para a frente.
O dinamismo não religioso mantém a esclerose religiosa sob controle e está se tornando mais presente na mente cristã. À medida que as formas religiosas se deformam e se racham sob a ação de suas próprias tensões, conflitos e divisões auto-gerados, a vida contemplativa da Cristandade aparece mais central e necessária do que nunca. Se precisamos aprender a nos alienar dos apegos e das estruturas do poder de nossa mente na meditação, não seria razoável, na mente de Cristo, que devêssemos ver a necessidade de fazer o mesmo também em todas as estruturas de nossas igrejas?
Com Muito Amor,
Laurence Freeman OSB