Ela deixou de ter vida própria
E passou a viver para o trabalho
Iniciado com crianças. Hoje atende
Idosos no Lar Francisco de Assis
Mais de 200 pacientes já morreram nos braços de Joana Cordeiro do Amaral, de 1998 para cá, no Hospital de Retaguarda São Francisco de Assis. Nascida em Tabira, no sertão pernambucano, Joana é fundadora e presidente do Francisco de Assis, erguido numa área de onze mil metros quadrados, cedida pela prefeitura em forma de comodato. Localizado no Solar Boa Vista, zona Oeste, o hospital é vizinho da Favela do Morro.
O São Francisco, hoje, tem 42 anos e 27 internos. São pacientes que exigem cuidado durante 24 horas. São vítimas com seqüelas gravíssimas de AVC, Alzheimer, Parkinson, câncer e, com um crescimento assustador, o espancamento. Um pavilhão para crianças, com o nome de clara de Assis, já tem uma paciente de seis anos. Mas, por falta de aparelhamentos, por enquanto, não receberá mais ninguém.
O hospital de retaguarda São Francisco de Assis, com 80 funcionários, consome hoje um orçamento mensal de R$ 95 mil. O dinheiro para fazer frente às despesas vem de doadores e das promoções feitas pela equipe de marketing da instituição.
“Quando passamos por apertos, a Joana diz que esta é a casa do Pai e tudo se ajeitará. E se ajeita mesmo. A fé que ela tem encoraja todo mundo”, diz Lúcia Zucoloto, gerente administrativa.
É de Lúcia a conta de que pelo menos 200 pacientes morreram nos braços de Joana nestes últimos 25 anos. “Foram pessoas que ela ajudou a cuidar e com quem criou alguma ligação afetiva”.
A CHEGADA
Joana Cordeiro desembarcou em Ribeirão Preto no dia 1º de Janeiro de 1970. Tinha 18 anos (já completou 58) e queria fazer medicina. Mas seu pai morreu em seguida, estabelecendo-se um longo conflito em torno das terras deixadas por ele. Isso impediu que Joana seguisse os estudos. Ela precisou trabalhar para se manter.
O emprego de técnica em enfermagem no Hospital das Clínicas despertou a caridade em Joana. Trabalhava no setor de queimados e, em 1985, já fazia visitas voluntárias a pessoas que tinham sofrido queimaduras graves. Ela contou que em 1985, num plantão teve uma visão: um franciscano, vestido de marrom, em forma de nuvem, apareceu para ela. Eles se comunicaram.
Ele indicou até o local que ela devia comprar para montar alguma coisa para ajudar as pessoas mais necessitadas.
“O terreno é esse onde estou hoje e que nunca tinha ouvido falar, em 1985. precisei gastar mais de cinquenta milhões de cruzeiros, moeda da época, para desalojar os traficantes que viviam aqui. Vendi meu Wolks para negociar com o tráfico. Felizmente a prefeitura entendeu minha proposta e cedeu o terreno em comodato. Fui construindo os pavilhões e formei o hospital”, conta. Casada mas vivendo processo de separação Joana tem dois filhos naturais e 35 que ajudou a criar.
QUARTIER, SIDNEI. Joana ouviu a voz de um franciscano. Jornal A Cidade, Ribeirão Preto - SP, p. A25, 07 mar. 2010.