Na medida em que subia a ladeira do Mosteiro de São Bento, o presente tornava-se cheio de passado e o silêncio ia aos poucos me levando à mansidão de espírito, tão necessária naqueles dias difíceis que eu atravessava. Num curto período, de menos de seis meses, havia perdido tragicamente um sobrinho, a quem amava como filho, e meu pai. Buscava consolo para minha dor. Era fim de tarde de um dia de semana qualquer e em poucos minutos começaria, como sempre pontualmente às 17:40 horas, o encontro dos beneditinos para os Cantos de Véspera. Sentado ao fundo, quieto, observava os monges entrarem na igreja e ocuparem as laterais do coro. Poucos minutos após o início dos cantos gregorianos, já me sentia envolvido por aquela serenidade que, durante muitos anos de minha infância e juventude - como aluno do São Bento -, encontrava depois das aulas. * Jornalista, para Adital - Agência de notícias que nasceu
Não lembro bem se eles entoavam o Sanctus, Pater Noster ou Agnus Dei. Sei que meu olhar se fixou na figura de Dom Clemente Isnard. E ali começava uma viagem interior. Pouco tempo atrás, ele havia celebrado, na Paróquia da Santíssima Trindade, no Rio, a missa de sétimo dia de meu pai. A cerimônia foi a despedida de um encontro que ocorrera muitas décadas antes. Jovens, se conheceram na pequena cidade de Lambari, sul de Minas, onde meu pai nasceu e um dia teve a oportunidade de conhecer José Carlos Isnard, que ali passava o verão, antes de ouvir o chamado para a conversão à vida religiosa e tornar-se Dom Clemente, em 1936. Muitos anos depois, já morando no Rio, casado e em dificuldades financeiras, meu pai procurou Dom Clemente, que o ajudou a abrir as portas do colégio, onde eu e meus três irmãos estudamos como bolsistas.
Gratidão. Esse era o sentimento que tomava conta de mim, enquanto olhava para o monge, já com o corpo curvado, sentindo o peso de seus quase 90 anos. Na época em que estudávamos no São Bento, não houve a possibilidade de nos relacionarmos com Dom Clemente, visto que, em 1960, ele foi morar em Nova Friburgo, após sua nomeação como bispo daquela diocese.
"Os 33 anos que passei como primeiro bispo de Nova Friburgo foram um esplendor. Não que não houvesse passado momentos de angústias e sofrimentos, mas anos em que descobri o povo de Deus especialmente nas chamadas capelas rurais, nas povoações do interior, na simplicidade da gente da roça. Na pobreza do chamado palácio episcopal, recebendo durante o período revolucionário pessoas perseguidas pela polícia, hospedando no palácio pobres da rua, recebendo em audiência todo mundo, ricos e pobres. Mas estes especialmente", recordava Dom Clemente na celebração de seus 90 anos, em setembro do ano passado.
Foi numa conversa informal com nosso pároco que vim a conhecer um pouco mais da dimensão histórica desse beneditino, a quem a gratidão de meu pai soma-se à minha e de meus irmãos. Sabia que ele havia sido vice-presidente da CNBB de 1979 a 1983, quando Dom Ivo Lorscheiter era Presidente e Dom Luciano Mendes de Almeida o Secretário-Geral. Entretanto, padre José Ignácio me revelaria um dado desconhecido até então: Dom Clemente havia sido o responsável pela reforma litúrgica. Convocado a participar do Concílio Vaticano II, Dom Clemente dedicou-se durante quase 20 anos à reforma litúrgica aplicada no Brasil.
Numa palestra proferida em São Paulo, em 2003, Dom clemente lembrou daquela época de grande renovação para nossa Igreja: "É sabido que o uso obrigatório do latim no rito romano sufocava a espontaneidade do uso da língua vulgar. Pouco depois do Concílio houve uma explosão de concessões de uso de língua vulgar, não só para as grandes línguas, mas também para línguas africanas, asiáticas e outras. A nós do Brasil interessava poder usar o português (...) Durante o Concílio, o Patriarca Maximos IV, que sabia perfeitamente o latim, só falava em francês, como meio de pressão para acelerar a aprovação da língua vulgar. É desse Patriarca a célebre frase:"le latin est mort, l'Église est vivante" - O latim está morto mas a Igreja está viva. Evidentemente alguns Cardeais conservadores levantaram a voz em defesa do latim, mas nada conseguiram (...) Todo o trabalho de reforma da Liturgia, inclusive, com experiências de adaptação deve ser considerado como "passagem do Espírito Santo pela sua Igreja" (nº 43). É texto conciliar que não pode ser desmentido por declarações de Cardeais ou do próprio Papa. A reforma da Liturgia foi uma graça especial do Espírito Santo. E os que se opõem à Reforma Litúrgica, como elementos conservadores da Cúria Romana ou de numerosas Dioceses, estão se opondo a ação do Espírito Santo. Estávamos habituados às Missas em que o celebrante dizia tudo e o povo "assistia". Isso praticamente não existe mais (...)"
"O tempo que me resta de vida, que não pode ser muito longo, eu desejo empregar na defesa das conquistas do Movimento Litúrgico, na defesa do Concílio Vaticano II, na defesa da opção preferencial pelos pobres e da Igreja como Povo de Deus", disse Dom Clemente na homilia da missa pelo seu aniversário no ano passado.
A dor que me levara a procurar o Mosteiro naquele dia dava agora lugar à meditação e às lembranças do menino que se sentia oprimido diante da suntuosidade da arte sacra e do interior da igreja pintada a pó de ouro: o pobre Jesus de Nazaré estará aqui? Questionava. E essa indagação ganhou força, gerando em mim conflitos de fé, quando testemunhei o trabalho das Irmãzinhas de Foucauld, que moravam junto aos excluídos em favelas cariocas: aqui está o pobre de Nazaré, dizia para mim mesmo. Mas, com a mansidão de espírito propiciada pelos cantos gregorianos, tomei consciência, naquele momento, de que eu, meus irmãos e muitos outros alunos bolsistas representávamos os pobres, acolhidos no Colégio de São Bento e tratados com o mesmo carinho dispensado aos filhos de famílias da elite do Rio de Janeiro. Havia um ponto de ligação entre os beneditinos - em especial na doce figura de Dom Clemente-, e o das religiosas De Foucauld: a caridade, caritas, amor, em suas diversas e verdadeiras formas.
Fortalecido espiritualmente, desci a ladeira do Mosteiro, localizado em plena efervescência e culto ao prazer mundano da Praça Mauá, região portuária da cidade. Mas, já não havia divisões em minha alma. Sagrado e profano encontram lugar na obra do Criador e somente sob a ótica do amor (caritas) conseguiremos abrir nosso espírito para as revelações que transformam nossos momentos de crise em plenitude e esplendor. Passado, presente e futuro são uma ilusão humana. Chronos (o tempo cronológico) e Kairós (o tempo do espírito) agem em diferentes compassos sobre nossa compreensão dessa dádiva chamada Vida.
No próximo dia 8 de julho, abençoado por uma vigorosa saúde, Dom Clemente Isnard completará 91 anos. Por estar em Recife, não poderei expressar pessoalmente minha gratidão. Mas, deixo aqui registrado o carinho que o tempo jamais apagará.
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