Em dezembro, o DCM publicou que uma fiel está processando o pastor Oséias Oliveira de Abreu e a Igreja Batista Atitude pelo sumiço de R$ 726.300.

A primeira-dama, Michelle Bolsonaro, frequenta a igreja e o presidente eleito, Jair Bolsonaro, já participou de seus cultos. A fiel que moveu o processo chama-se Sigrid Engersen Navarro, que falou ao DCM sobre o caso.

Diário do Centro do Mundo: Como se deu o sumiço dos R$ 726 mil? Em que circunstâncias?

Sigrid Engersen Navarro: Eu era casada com o jogador de basquete Marcus Vinícius, o Marquinhos, do Flamengo, com quem tenho duas filhas. Na ocasião estávamos nos divorciando e era uma fase muito difícil para mim. Meus pais são falecidos e não tenho família no Rio de Janeiro.

Estava num quadro grave de depressão. Todos que me conheciam na igreja sabiam disso, inclusive o pastor Josué Valandro Jr. Por indicação da igreja eu frequentava a célula que funcionava na casa do Oséias Oliveira de Abreu e de sua esposa, Fabiana Ferreira de Abreu.

Dentro das células da igreja acontece um ato chamado discipulado, que consiste, em síntese, na entrega da vida ao mundo de Deus. Nesse ato, o fiel tem que ter transparência plena com a igreja e com Deus, falando sobre sua vida profissional, emocional, financeira, entre outros detalhes.

É uma exigência da igreja.

Bom, por essa razão, a Fabiana ficou sabendo quanto eu tinha no banco e da depressão que eu estava passando. Ela levou isso ao conhecimento de seu marido, Oséias Oliveira de Abreu, que além de líder de célula era um supervisor da igreja. No curso de uma reunião de célula eles sinalizaram que tinham uma mensagem de Deus para falar comigo. Eu estava chorando muito. Eles me levaram para uma sala reservada na casa deles e Oséias disse que Deus tinha lhe tocado o coração dando uma mensagem.

Era para eu deixá-lo cuidar da minha vida financeira enquanto eu passava por aquela fase difícil de separação. Tendo em vista que Oséias tinha uma função grande na igreja, porque ele era supervisor, acabei aceitando a ajuda. Ele disse que tinha um fundo de investimento nos Estados Unidos, me apresentou um contrato em inglês e disse que me daria um cartão e uma senha para eu fazer saques e acompanhar a evolução do investimento sempre que quisesse.

DCM: E o que aconteceu?

SN: Passados três meses e nada de cartão ou senha, comecei a desconfiar que ele tinha se aproveitado das informações que teve acesso em razão do discipulado da igreja para me dar um golpe.

Quando pesquisei o nome dele na internet vi que ele respondia várias ações judiciais, cíveis e criminais e que estava sendo procurado pela justiça desde 2013.

Fui entregue a ele pela igreja como uma ovelha ao lobo.

DCM: O pastor Oséias Oliveira de Abreu é o único responsável pelo sumiço do seu dinheiro?

SN: A responsabilidade pelo sumiço do dinheiro não é exclusiva do Oséias. Ele foi quem sujou as mãos. Já estava acostumado com isso pois teve toda a sua vida dedicada ao crime. Mas quem viveu o que eu vivi consegue perceber que a igreja tem a maior fatia do bolo nessa história. Por isso eu não fui a única vítima.

O ato discipulado é um ato de grande responsabilidade. A igreja não pode pôr isso nas mãos de pessoas criminosas. Não tem como a igreja dizer que não sabia que Oséias era estelionatário procurado pela justiça desde 2013.

Se a Igreja Batista Atitude quer ter informações pessoais de seus fiéis, então ela tem que estar preparada para isso. O pai do Oséias era um criminoso famoso e conhecido.

DCM: Por que foi incluído no processo a mulher dele, Fabiana, e Josué Valandro Junior, amigo do casal Bolsonaro? Você tem ciência de outros crimes cometidos por Oséias?

SN: Assim como Oséias, a Fabiana era líder de célula. Ela colhia as informações dos fiéis para o Oséias e preparava o terreno para o golpe.

O envolvimento da igreja está sendo apurado cível e criminalmente, assim como o de seu pastor-presidente, Josué Valandro Jr. Não há julgamento ainda, mas a responsabilidade da igreja independe da voluntariedade de praticar o ato.

Se a igreja exige informações pessoais e até financeiras dos fiéis, logo deve responder pelos prejuízos causados pela utilização indevida dessas informações.

No caso do pastor-presidente, Josué Valandro Jr, incide a mesma responsabilidade. O pastor Josué incentiva a abertura das informações sigilosas para líderes de célula. No meu caso, em especial, a questão é mais grave, pois como já disse, o Oséias era supervisor da igreja.

Agora, não posso deixar de chamar a atenção para algumas posturas do pastor Josué Valandro Jr. quando lhe dei ciência do que ocorreu comigo na célula.

A primeira coisa foi me ofertar como ajuda apenas orações. Ninguém sobrevive de orações, nem a própria igreja.

Eu já frequentava a igreja há quatro anos. Pensei que ele fosse me ofertar pelo menos o corpo jurídico da igreja, mas ele lavou as mãos e pediu para eu não pôr o nome dele e da igreja nisso.

Mesmo sabendo que eu já estava separada de fato, o pastor Josué procurou meu ex-marido, que já estava vivendo com outra pessoa, para ele tentar me conter em qualquer ato contra a igreja ou contra o próprio Josué.

Isso foi extremamente desrespeitoso e demonstrou algum nível de desespero do pastor.

O pastor Josué fez constar em sua defesa que a igreja é frequentada por desembargadores. Tenho certeza da lisura e imparcialidade do Judiciário, mas não é comum essa postura lamentável vinda de um pastor. Diante de um passivo financeiro, a Igreja Batista Atitude optou por "atitudes" infelizes.

DCM: Você ainda tem contato com a Igreja Atitude? Seu envolvimento com a igreja é no exterior?

SN: Quando Oséias Oliveira de Abreu foi preso, fui procurada por muitas vítimas do estelionatário. Duas merecem destaque.

A primeira se chama Antônio Carlos, que também é pastor, mas não é vinculado a Igreja Batista Atitude. Esse senhor foi apresentado ao pastor Josué pelo Oséias entre os anos de 2013 e 2014, ocasião em que também levou um golpe do estelionatário.

O senhor Antônio Carlos me informou foi a uma célula da Igreja Batista Atitude naquela época, quando Oséias morava no município de Caxias. Ele também me apresentou um cartão antigo da igreja com o telefone do pastor Josué. Na ocasião a igreja se chamava Igreja Batista Central da Barra. Antônio Carlos nos informou que Josué e Oséias eram grandes amigos desde 2013 e que avisou pessoalmente e por e-mail a Josué sobre o golpe que tinha levado de Oséias.

Josué também naquela época respondeu que somente poderia fazer orações. Segundo Antônio Carlos, Josué andava de helicóptero com o governador do Rio de Janeiro Luiz Fernando de Souza, o Pezão, que se encontra hoje preso.

Um segundo caso que chegou até mim foi o do ex-embaixador e ex-presidente da Vale, Jório Dauster Magalhães Silva. Quando Oséias foi preso, a matéria saiu em diversos jornais e a família do Sr. Jório procurou meu advogado informando que Oséias tinha vendido o apartamento avaliado em 10 milhões de reais do embaixador por apenas dois milhões e meio.

O embaixador somente descobriu a venda quando um oficial de justiça estava a sua porta pra despejá-lo.

Depois do ocorrido não tive mais contato com a Igreja.

Na verdade tenho até medo de passar por perto, pois descobri que outros membros da igreja estão envolvidos com questões judiciais envolvendo crimes de violência, como o caso do serventuário da justiça André Rodrigues Marins, que responde a vários processos judiciais pela prática de crime, inclusive contra a própria filha.

André se passava por advogado de Oséias e me mandou um áudio dizendo que eu não deveria ter procurado a polícia. Achei estranho e quando pesquisei o nome dele vi uma série crimes bárbaros ainda sem julgamento.

DCM: O que acha da proximidade da igreja com Michelle Bolsonaro e a família do futuro presidente?

SN: Não vejo nenhum vínculo de Bolsonaro e sua família com o golpe que ocorreu comigo na igreja, mas a vinculação deles com a igreja pode dissolver a imagem que o fez ganhar as eleições.

No Brasil, está crescendo um movimento que une fé, religião e política. Se é bom ou não, só o tempo dirá. A exemplo de Eduardo Cunha, está cada vez mais frequente a existência de líderes religiosos que usam a fé para conseguir cargos e funções públicas e acabam presos ao final.

DCM: A política brasileira hoje deturpa os valores cristãos na sua opinião? O que você acha sobre isso?

SN: O envolvimento com igreja é uma estratégia da política. Os políticos criminalizam uns para ganhar os votos de outros, e fazem isso reforçando seus argumentos em passagens bíblicas. Os políticos também sabem do poder que os líderes religiosos têm sobre seus fiéis.

Eu mesma demorei a acreditar em tudo o que estava acontecendo no interior da igreja. Por inocência, ainda procurei o pastor Josué achando que ele iria tomar a frente do caso, quando na verdade lavou as mãos.

Hoje frequento outra igreja, mas não tenho admiração alguma pelos homens, principalmente aqueles que se julgam os representantes de Deus na Terra.

O Cristo que me acolheu tem amor pleno e não exclui ninguém.

DCM: Você acha que essas pessoas com acusações graves de crimes envolvendo dinheiro e vínculos religiosos maculam a sua religião?

SN: É uma vergonha para a comunidade evangélica ver sua fé sendo utilizada por criminosos. Mas o pior para mim é perceber que a igreja dedica os cultos para fazer com que os fiéis assumam um compromisso com a igreja e ver que ela não assume um compromisso com os fiéis.

Quero dizer para toda a comunidade evangélica que a nossa religião é linda, mas o homem é falho, só tenham admiração por Deus. Só ele não mente.

Com relação ao meu caso, não acredito que o Judiciário dirá à sociedade que a igreja não precisa ter responsabilidade sobre as informações que tem de seus fiéis. Isso seria a falência da própria igreja.

Fonte: Diário centro do Mundo