A constituição do rebanho do Senhor

I. Introdução geral


No domingo anterior, o evangelho apresentou a experiência do reconhecimento do Ressuscitado como o mesmo que fora crucificado, a exemplo do que ocorrera no domingo precedente, não permitindo assim um desvirtuamento da pessoa de Cristo. Neste 4º domingo da Páscoa, o tema do reconhecimento aparece, mas de modo diferente, menos central. Somos chamados a refletir não sobre a identidade do pastor, mas, sobretudo, sobre a identidade das ovelhas ou, simplesmente, do rebanho ? embora a dinâmica de todas as leituras e também do salmo nos faça perceber algo sobre a identidade de ambos: pastor e rebanho.

Primeira Leitura (At 13,14.43-52)

Leitura dos Atos dos Apóstolos:

Naqueles dias, Paulo e Barnabé partindo de Perge, chegaram a Antioquia da Pisídia. E, entrando na sinagoga em dia de sábado, sentaram-se. Muitos judeus e pessoas piedosas convertidas ao judaísmo seguiram Paulo e Barnabé. Conversando com eles, os dois insistiam para que continuassem fiéis à graça de Deus.
No sábado seguinte, quase toda a cidade se reuniu para ouvir a palavra de Deus. Ao verem aquela multidão, os judeus ficaram cheios de inveja e, com blasfêmias, opunham-se ao que Paulo dizia. Então, com muita coragem, Paulo e Barnabé declararam: Era preciso anunciar a palavra de Deus primeiro a vós. Mas, como a rejeitais e vos considerais indignos da vida eterna, sabei que vamos dirigir-nos aos pagãos. Porque esta é a ordem que o Senhor nos deu: ?Eu te coloquei como luz para as nações, para que leves a salvação até os confins da terra?.
Os pagãos ficaram muito contentes, quando ouviram isso, e glorificavam a palavra do Senhor. Todos os que eram destinados à vida eterna, abraçaram a fé. Desse modo, a palavra do Senhor espalhava-se por toda a região.
Mas os judeus instigaram as mulheres ricas e religiosas, assim como os homens influentes da cidade, provocaram uma perseguição contra Paulo e Barnabé e expulsaram-nos do seu território. Então os apóstolos sacudiram contra eles a poeira dos pés, e foram para a cidade de Icônio. Os discípulos, porém, ficaram cheios de alegria e do Espírito Santo.


Comentários dos textos bíblicos:

I leitura (At 13,14.43-52): O testemunho na sinagoga

Na primeira leitura, temos o testemunho de Paulo e Barnabé na sinagoga de Antioquia da Pisídia. Como bem indica o texto, era um dia de sábado, sagrado para os judeus. Num primeiro momento, a atuação deles parece bem discreta, mas na sequência se percebe uma mudança radical, apontada no texto pela indicação: No sábado seguinte, toda a cidade se reuniu para ouvir a Palavra de Deus (v. 44).
No entanto, os judeus, a quem primeiro se dirigiram os apóstolos, não acolheram o ensinamento, porque ficaram tomados de inveja quando viram a multidão que os ouvia anunciar. Diante da rejeição, os apóstolos se dirigem aos pagãos, que acolhem sua mensagem com muita alegria. Do anúncio de salvação em Cristo, testemunhado por Paulo e Barnabé, decorrem duas posturas: rejeição por parte dos judeus e alegre acolhida por parte dos gentios. Os que acolhem são aqueles que ouvem a Palavra de Deus, reconhecem a voz? do pastor na palavra pregada.

II Segunda Leitura (Ap 7,9.14b-17)

Leitura do Livro do Apocalipse de São João:

Eu, João, vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar. Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro; trajavam vestes brancas e traziam palmas na mão.
Então um dos anciãos me disse: ?Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do Cordeiro. Por isso, estão diante do trono de Deus e lhe prestam culto, dia e noite, no seu templo. E aquele que está sentado no trono os abrigará na sua tenda.
Nunca mais terão fome nem sede. Nem os molestará o sol nem algum calor ardente. Porque o Cordeiro, que está no meio do trono, será o seu pastor e os conduzirá às fontes da água da vida. E Deus enxugará as lágrimas de seus olhos.


3. II leitura (Ap 7,9.14b-17): O rebanho reunido junto ao seu pastor

Na segunda leitura, encontramos novamente a questão do rebanho e do pastor. No entanto, a afirmação primeira se refere ao rebanho, às ovelhas que ?lavaram e alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro? (v. 14b), ou seja, àqueles que se ligaram existencialmente ao Cristo-cordeiro, o Crucificado. Por outro lado, a leitura fala da identidade do pastor como o Cordeiro. A imagem diz muito. O pastor das ovelhas, ou seja, do rebanho, é como um deles, é o Cordeiro. O pastor participa, de algum modo, da mesma condição de vida das ovelhas, o que permite não só o reconhecimento mútuo, mas também a confiança decorrente desse conhecimento.

Anúncio do Evangelho (Jo 10,27-30)

Naquele tempo, disse Jesus: "As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem. Eu dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão. E ninguém vai arrancá-las de minha mão.
Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai. Eu e o Pai somos um?.

Evangelho (Jo 10,27-30): O pastor conhece suas ovelhas

No evangelho deste dia, a primeira coisa que o texto nos traz serve de critério para a identificação das ovelhas desse rebanho particular: elas escutam a voz do pastor e o seguem. O texto diz algo também do pastor: ele conhece as ovelhas e lhes dá a vida? não qualquer uma, mas a vida eterna. Isso não é tudo. Do conhecimento do pastor em relação às ovelhas e do reconhecimento da voz do pastor por parte delas, decorre a compreensão de que elas nunca se perderão, não se extraviarão, nem ninguém poderá roubá-las, tomá-las de seu pastor.
O evangelho ainda assegura a posse das ovelhas por parte de alguém maior. Elas foram dadas pelo Pai e ninguém pode arrancá-las da mão dele. De algum modo, as ovelhas pertencem ainda ao Pai, são do Pai e do Filho, porque eles são UM. Não existe possessão de bens de um e de outro, mas uma única posse do Pai e do Filho, como bem lembrou Lucas na parábola do pai misericordioso, quando este se dirige ao filho mais velho e diz: ?Tu estás sempre comigo e tudo que é meu é teu (Lc 15,31). A unidade da qual fala o texto é a garantia de que as ovelhas que permanecem com o pastor, que é o Filho, permanecem na posse do Pai.

III. Pistas para reflexão

Esta celebração, nas suas três leituras, fala ao mesmo tempo da identidade do pastor e da identidade das ovelhas ou do rebanho, bem como da ligação entre pastor e rebanho. O fio que os une é a escuta ou o ouvir, para ser mais fiel ao texto. Ouvir é o mandamento por excelência do povo de Israel e, no evangelho, aparece como o critério de reconhecimento: as ovelhas escutam a voz do pastor e, porque escutam, ele as conhece.
Na primeira leitura, novamente a escuta aparece como critério identificador, à diferença de que, ali, aqueles que têm por mandamento o ?ouve, Israel? se recusam a ouvir a Palavra de Deus anunciada, enquanto os gentios, de quem não se exige tal conduta, a ouvem. Essa dinâmica de escuta e reconhecimento se completa na segunda leitura, que traz a imagem da recompensa dada àqueles que ouviram a voz do pastor e o seguiram. O Pastor-Cordeiro é o Cristo, divino-humano e, por isso, salvador desse rebanho.
A imagem do Cordeiro-Pastor nos diz muito sobre Jesus Cristo e sobre nós mesmos. É a perfeita imagem da relação única de Cristo com a humanidade. O nosso pastor não é alguém distinto de nós, mas alguém como nós. Ele participa da nossa condição e sabe para quais pastagens nos conduzir, a fim de chegarmos em segurança ao redil de Deus.