A presença de um ou mais astrólogos ou magos atrás do tapume, às vezes influenciando um governante e seus asseclas ou seguidores, não pode ser invocada como a luz de uma nova política, mesmo que essa seja a única certeza prevalecente nos primeiros cinco meses de gestão pública, a qual é pobre de programa, pobre de ação, e cujo discurso é o do vai e vem trepidante e enviesado que o Brasil atualmente assiste perplexo.

O hábito é antigo, uma vez que o homem comum aprecia muito quem lhe fale da vida futura. Autoridade eleita, tal como o Presidente da República, assume e logo no primeiro minuto já pensa em como continuar ali! Afinal, o cargo, que além de seu simbolismo ? há imbecil que não o sabe ? exerce forte atração ? e para o despreparado o trono é uma festa permanente -, favorece a mobilidade familiar, colocando filhos e agregados em  espaços jamais sonhados, assumindo meios de acesso à facilidade de negócios, trato fácil envolvido de graça, inclusive, por governo estrangeiro, que surpreendentemente recebe até pedaço do território nacional, para não dizer da sabujice de seus súditos, que imita a dele.

Um exemplo próximo e inesquecível é o de Adolf Hitler, eleito em 1933 pela via democrática do voto, e que tinha seus astrólogos. O líder nazista chegou a enviar ao Tibet uma delegação desses iluminados, mas não se teve notícia do que aconteceu com ela. Durante muito tempo, pensou-se que um sobrevivente teria escrito alguns tantos livros sob o pseudônimo de Lobsang Rampa. Por que o esconderijo do nome simulado no mundo ocidental? Fica a pergunta. Hoje, sabe-se que pertencia ao polêmico escritor Cyril Hoskins (1910 ? 1981), que alegava ser um monge tibetano.


Pelo sim, pelo não, aí está um exemplo desastroso de uma convivência que construiu um dos regimes políticos mais violentos e cruéis do século XX. Se a astrologia não foi suficiente para impedir a hecatombe da Segunda Guerra Mundial, não é crível que tenha estimulado a estupidez. Tal precedente serve de advertência para onde se pode ir, mesmo que a nossa liderança não tenha competência para escrever um livro-programa como o Minha luta. Tal restrição da natureza humana ainda festeja o uso intercalado de uma caneta esferográfica, celebrada como conquista, no êxtase de quem parece saber só escrevinhar o próprio nome.

Mas, pior do que aquela influencia, a do Brasil surge pelo governante teleguiado, que se entrega de cara às delícias do convívio imperial, que nunca escreveu livro algum e que não gosta de quem escreve ou fala criticamente contra ele.

Outro ato, ou fato, recorrente do nazismo destroçado foi a do incêndio do Parlamento alemão, que logo após 1933, Hitler, independentemente de se discutir a culpa, aproveitou-se para aprofundar a gestão do medo, que seus milicianos disseminaram pela Alemanha.

Lá o inimigo eleito foi o povo judeu. Aqui, o objetivo é o da surrada narrativa do anticomunismo, confundido com o antipetismo, de acordo com o qual, para facilidade didática, são todos os que estão contrários à inércia e à pobreza mental do governo. Tal como em 1964, quando o discurso tóxico era o mesmo, sem o PT. Uma falácia completa, que dia a dia está esfarelando, porque o laranjal miliciano está encurralando o pai, o filho e o espírito maléfico do governante astrólogo, que se dá por satisfeito em intrigar seguidores e ofender os militares do governo com palavras de baixo calão.

A incapacidade de governar, que já está demonstrada nesses dias de crise, faz com que o próprio presidente adira aos bilhetes de interpretação, que sonham com uma conspiração, como se não houvesse incapacidade presidencial gerando a paralisia da economia do país e muitas outras atividades que vão da empresa ao desemprego, da escola ao mundo da inovação.

Ele diz que o perseguem porque ele não faz conchavo. Na verdade, tem-se uma confissão de incapacidade, porque o mundo da política é o do diálogo, do argumento e do convencimento. E o presidente traz da sua prolongada vida parlamentar só a fúria da palavra, a grosseria do trato, a discriminação e o racismo, bem como a revelação de sua vocação autoritária. E o figurino antidemocrático adota a concepção da inevitabilidade da história, que não teria mais possibilidades inesperadas no desenho do futuro, porque agora só existe um só rumo, que seria o de quem está no poder, por mil anos.

O povo brasileiro não merece o desastre de um governo desastrado.