Um ministro do STF tem que ser alguém que conhece a Constituição e a respeita. Tem que ser alguém com competência o bastante para ocupar uma posição na mais elevada corte de justiça do país. O fato de ser ou não evangélico jamais poderá ser motivo para ser ou não escolhido para o cargo", escreve Carlos Caldas, professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC Minas em Belo Horizonte.

Citando Lutero, em um aforismo bastante conhecido disse: ?se for para me operar, prefiro um médico muçulmano a um açougueiro cristão?, Carlos Caldas conclui: "A competência, aliada à lisura e honestidade devem estar em primeiro lugar, para a escolha de qualquer pessoa para seja lá qual for o cargo. Colocar como primeiro critério de escolha a opção religiosa é o caminho para o desastre".

Eis o artigo. 
No último dia 10 de julho o Brasil foi surpreendido com (mais) uma declaração polêmica do presidente Jair Bolsonaro: ao participar de culto evangélico na Câmara dos Deputados, declarou que pretende indicar um ministro ?terrivelmente evangélico? para o STF. Ele terá que indicar dois ministros para a suprema corte da justiça brasileira até o final do seu mandato, considerando que Celso de Mello e Marco Aurélio Mello se jubilarão compulsoriamente, por conta da idade (respectivamente, 2020 e 2021). Bolsonaro já havia sinalizado que pretende indicar Sergio Moro, o atual ministro da Justiça e da Segurança Pública, para uma destas vagas. A outra, conforme a mencionada declaração deverá ser para alguém que seja ?terrivelmente evangélico?. A escolha das palavras é estranha: o advérbio ?terrivelmente? tem a ver com ?terror?, isto é, aquilo que amedronta, apavora, assusta, ameaça. Não combina com ?evangélico?, que, antes de ser palavra que aponta para uma tradição identificada com o cristianismo, tem a ver com o evangelho ? boa notícia ? de Jesus de Nazaré.

É importante pensar no que de fato a palavra ?evangélico? significa. Pois palavras, assim como o dinheiro, podem sofrer processo de inflação, e assim têm seu significado esvaziado e diminuído. John Stott (1921-2011), pastor e teólogo anglicano inglês, lembra que

O adjetivo latino evangelicus foi utilizado já no começo da história da Igreja, com referência ao evangelho. Agostinho, por exemplo, declarou que ?o sangue dos cristãos é algo como a semente do fruto do evangelho? (semen fructuum evangelicorum)[1].

O mesmo Stott resgata um comentário breve, mas elucidativo, de Erasmo de Rotterdam, a respeito do termo evangelici usado pelos reformadores: conforme Erasmo, os reformadores usavam esta palavra sic enim appelari gaudent (?pois assim desejam chamar-se?)[2]. Já em 1524 Lutero usa ?evangélico? para se referir aos adeptos do movimento reformador. Não é por acaso que em alemão a igreja que aderiu à proposta reformadora de Lutero é Die Evangelische Kirche in Deutschland (EKD), literalmente ?Igreja Evangélica na Alemanha?[3].

Outro autor que contribui para uma compreensão do que de fato as palavras do campo semântico de ?evangélico? significam é o também inglês Roger Steer, historiador do movimento evangelical. Conforme Steer, o pré-reformador ?John Wycliffe [...] foi chamado, em latim, o doctor evangelicus, ao tempo de sua morte, em 1384?. O mesmo Steer afirma:

A palavra ?evangelical? caiu em uso comum no tempo da Reforma: Lutero e os reformadores gostavam de descrever-se em latim como evangelici (forma reduzida de evangelici viri, ?homens evangelicais?, ou em alemão como die Evangelischen [4].

O movimento evangelical ? ou evangélico ? é bastante fragmentado, ou seja, nunca foi monolítico. Portanto, não há entre os historiadores do movimento consenso quanto a uma tipologia abrangente o bastante para apresentar todos os grupos evangelicais. Comentando sobre a variedade de grupos que se entendem como evangelicais o falecido bispo anglicano brasileiro Robinson Cavalcanti, citou o historiador estadunidense Richard Quebedaux, que catalogou ?28 diferentes tendências entre os evangelicais, que iam dos amish (menonistas pacifistas isolacionistas) aos black evangelicals e radical evangelicals [...] passando pela politicamente conservadora Maioria Moral [Moral Majority] (hoje Christian Action)?[5]. Estes diferentes grupos compartilham entre si algumas crenças básicas, como a aceitação dos quatro Solas da reforma luterana ? Sola gratia (?a graça somente?), Sola fide (?a fé somente?), Sola Scriptura (?a Escritura somente?) e Solus Christus (?Cristo somente?), a crença na necessidade de conversão individual a Cristo e a responsabilidade evangelística do cristão em compartilhar sua fé e esperança em Cristo.

Dentre os diversos grupos evangelicais destaca-se o que Quebedeaux chamou de ?evangelicais radicais?. Este é particularmente interessante, porque embora tenha sua raiz remota no movimento de revitalização no anglicanismo britânico do século XVIII, que teve como representantes destacados nomes como o líder abolicionista William Wilbeforce, é um movimento que ganhou elaboração teórica e atuação pastoral na América Latina: o evangelicalismo radical latino-americano. O diferencial do movimento evangelical latino-americano, conforme Mark Ellingsen, está no fato que ?os evangelicais radicais abraçam, talvez mais intensamente que outros, um compromisso [...] de que a ética sociocristã deve estar enraizada no testemunho bíblico e num estilo de vida regenerado?[6].

Um dos mais destacados teóricos do movimento evangelical radical latino-americano foi o teólogo porto-riquenho Orlando Costas (1942-1987)[7] . Para Costas o movimento evangelical radical latino-americano é uma práxis de fé ?espiritualmente energizante e historicamente transformadora?, que recebeu influências de movimentos tão diversos quanto a ?piedade mundana? calvinista do século XVI, os abolicionistas evangélicos ingleses e norte-americanos dos séculos XVIII e XIX, e, mais recentemente, os movimentos pelos direitos civis dos Estados Unidos na segunda metade do século XX [8].

Como se vê, a palavra evangélico tem uma história rica de significado. Evangélico evidentemente tem a ver com a boa notícia de Deus em Cristo Jesus. É neste sentido que Karl Barth, um dos principais teólogos do século passado, utilizou a palavra na obra pequenina, mas densa de significado, considerada seu ?canto de cisne?: Introdução à teologia evangélica[9]: a teologia é evangélica não por ser alinhada de um modo ou de outro com o protestantismo, mas por ter a ver com o evangelho de Jesus.

Considerando então a profundidade de sentido da palavra evangélico e a vasta gama de grupos que a utilizam, o que será que o atual presidente do Brasil quis dizer quando afirmou que pretende indicar um ministro ?terrivelmente evangélico? para o STF? É bastante provável que Bolsonaro tenha em mente o estereótipo popular de ?evangélico? que circula no senso comum, e que pense exatamente como ele (Bolsonaro) pensa. Afinal, grande parte do mérito da eleição de Bolsonaro se deve a um contingente de milhões de evangélicos que se enquadram perfeitamente no estereótipo popular, mas que, infelizmente, está muito distante dos sentidos bíblico e histórico do que evangélico realmente significa. Este estereótipo é na verdade uma caricatura grosseira do verdadeiro, rico e profundo significado do que, à luz da Bíblia e da história, a palavra evangélico quer dizer. Ainda mais se for um evangélico da tradição radical latino-americana. Para este tipo de evangélico em particular, a luta pelos direitos dos mais frágeis na sociedade não é ?coisa de esquerdista?, mas uma obrigação que é imposta aos seguidores de Jesus pela própria Bíblia.

Um ministro do STF não tem que ser ?terrivelmente evangélico?. Um ministro do STF tem que ser alguém que conhece a Constituição e a respeita. Tem que ser alguém com competência o bastante para ocupar uma posição na mais elevada corte de justiça do país. O fato de ser ou não evangélico jamais poderá ser motivo para ser ou não escolhido para o cargo. Lutero, em um aforismo bastante conhecido disse: ?se for para me operar, prefiro um médico muçulmano a um açougueiro cristão?. A competência, aliada à lisura e honestidade devem estar em primeiro lugar, para a escolha de qualquer pessoa para seja lá qual for o cargo. Colocar como primeiro critério de escolha a opção religiosa é o caminho para o desastre.

FONTE: IHU