Primeira Leitura (Hab 1,2-3;2,2-4)
Leitura da Profecia de Habacuc:
2Senhor, até quando clamarei, sem me atenderes? Até quando devo gritar a ti: Violência, sem me socorreres?
3Por que me fazes ver iniquidades, quando tu mesmo vês a maldade? Destruições e prepotência estão à minha frente; reina a discussão, surge a discórdia.
2,2Respondeu-me o Senhor, dizendo: ?Escreve esta visão, estende seus dizeres sobre tábuas, para que possa ser lida com facilidade. 3A visão refere-se a um prazo definido, mas tende para um desfecho, e não falhará; se demorar, espera, pois ela virá com certeza, e não tardará. 4Quem não é correto, vai morrer, mas o justo viverá por sua fé?.

Introdução geral
O que fazemos com os dons e talentos que temos? Trata-se de pergunta importante, porque nos leva para dentro da comunidade. E uma comunidade é composta de muitos membros, cada um dos quais com inúmeros dons e talentos. Assim, é necessário pensar na multiplicidade de dons e talentos presentes em cada comunidade e como eles agem para aprimorar o corpo de Cristo. Quando não se tem noção real dos próprios dons e talentos, é necessário buscar discernimento e aconselhamento para descobrir quais seriam; todavia, quando se sabe e eles não são postos à disposição do crescimento da comunidade, sonega-se a ela parcela importante daquilo que lhe foi reservado.

1. I leitura (Hab 1,2-3; 2,2-4): o justo viverá por sua fidelidade
A terra está cheia de violência, diz o profeta Habacuc. E a leitura que ele faz da realidade é por demais catastrófica. Com efeito, o rei Joaquim, filho do famoso rei Josias, havia sido nomeado rei pelo Egito. No entanto, não seria uma nomeação sem interesse. O rei do Egito impôs pesado tributo em ouro e prata que, para ser pago, levou o rei Joaquim a espoliar duramente o povo (cf. 2Rs 23,33-35). Violência, crime, injustiça, opressão, processos, rixas, leis fracas, direito distorcido e a presença do ímpio são expressões presentes no texto. Parece, aos olhos de Habacuc, que a vida foi totalmente absorvida e dominada pelas forças do mal e da violência. Até quando, Senhor? Até quando o império da violência se fará presente, anulando a força da solidariedade e da justiça? A resposta se encontra no versículo que representa o centro do livro: ?mas o justo viverá por sua fidelidade? (v. 4). Há clara relação de oposição entre arrogantes e justos, assim como entre os projetos de vida deles. O orgulhoso vive de sua insaciável ambição, e o justo se alimenta da fé no projeto de Deus.

Segunda Leitura (2Tm 1,6-8.13-14)
Leitura da Segunda Carta de São Paulo a Timóteo:
Caríssimo: 6Exorto-te a reavivar a chama do dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos. 7Pois Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e sobriedade.
8Não te envergonhes do testemunho de Nosso Senhor nem de mim, seu prisioneiro, mas sofre comigo pelo Evangelho, fortificado pelo poder de Deus.
13Usa um compêndio das palavras sadias que de mim ouviste em matéria de fé e de amor em Cristo Jesus. 14Guarda o precioso depósito, com a ajuda do Espírito Santo, que habita em nós.

. II leitura (2Tm 1,6-8.13-14): viver plenamente o dom recebido
O tema principal é a exortação de Paulo a Timóteo e, por extensão, a todos os vocacionados que desejam cumprir fielmente sua missão, superando as dificuldades. O evangelho é anunciado em meio às dificuldades e contradições, porém sempre contando com a ajuda de Deus, que é fiel e jamais falha. O anúncio do evangelho é a resposta ao dom recebido. Guardar o depósito da fé se refere a todo o conjunto da Boa-Nova  núcleo da fé como tesouro a ser transmitido de geração em geração. Para isso, Timóteo conta com a ajuda fundamental do Espírito Santo. A instrução de Paulo é que Timóteo deveria reacender o dom de Deus que se encontrava em si próprio. A presença do dom infunde coragem, força, amor e sobriedade, ao mesmo tempo que afasta a covardia. Assim, tomado pela presença do dom, a força do testemunho também se faz presente. Não há necessidade de se envergonhar, mesmo que haja sofrimento.

Anúncio do Evangelho (Lc 17,5-10)
 O Senhor esteja convosco. Ele está no meio de nós.
 PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas.
 Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, 5os apóstolos disseram ao Senhor: ?Aumenta a nossa fé!?
6O Senhor respondeu: ?Se vós tivésseis fé, mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: Arranca-te daqui e planta-te no mar, e ela vos obedeceria. 7Se algum de vós tem um empregado que trabalha a terra ou cuida dos animais, por acaso vai dizer-lhe, quando ele volta do campo: Vem depressa para a mesa?
8Pelo contrário, não vai dizer ao empregado: Prepara-me o jantar, cinge-te e serve-me, enquanto eu como e bebo; depois disso tu poderás comer e beber? 9Será que vai agradecer ao empregado, porque fez o que lhe havia mandado?
10Assim também vós: quando tiverdes feito tudo o que vos mandaram, dizei: ?Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer?.

Evangelho (Lc 17,5-10): fé para servir!
O servo trabalha no campo, contratado por um ano, e aquele que o contratou tem direito assegurado de sua força de trabalho. Entre as funções que precisa desempenhar está não somente arar a terra e cuidar do gado, mas também cozinhar e preparar a mesa. As exigências podem parecer irritantes, sobretudo se considerarmos que o contratante deve ser um pequeno proprietário, porque o texto faz referência a somente um servo para atender a todos os serviços. Parece uma relação injusta: um trabalha exaustivamente no campo, enquanto o outro descansa em casa. A irritação parece que vai num crescendo na leitura: quando o servo retorna muito cansado do trabalho no campo, seu empregador já se encontra à mesa e com fome, à espera de ser servido. E o servo, mesmo que esteja mais faminto e cansado do que seu patrão, precisa esperar que este se satisfaça primeiramente. Além disso, após toda a cena, que talvez perturbe a muitos leitores, o patrão não dá um mínimo elogio àquele que o serve. Ele acha que o outro apenas cumpre seu dever e assim faz valer seus direitos sobre o servo.
Devemos perceber que Jesus não se pronuncia sobre essa situação social de profunda irritação, a qual causa certo mal-estar no leitor. Ele apenas se apropria de uma imagem do cotidiano a fim de usá-la pedagogicamente na parábola. Aos apóstolos que lhe pediram: Aumenta nossa fé, Jesus responde que a fé que possuíam era mais do que suficiente. Ao quererem algo a mais, deixavam de perceber a força da fé já presente neles. O processo pedagógico de Jesus se desenvolve em dois momentos, para que os discípulos percebam o compromisso que devem ter com a fé e o discipulado. No primeiro, há a clara indicação de Jesus de que os discípulos tinham fé e, mesmo que esta fosse pequena como um grão de mostarda, eles poderiam, metaforicamente, fazer coisas incríveis. No segundo momento de seu ensino, Jesus, por duas vezes, reitera a função do servo. Mesmo que este tenha feito tudo quanto lhe foi solicitado, apenas cumpriu a ordem que havia sido dada. Para Jesus, o exercício da fé, maior ou menor, não deve ser compreendido em termos de privilégio e poder. Depois de cumprir todas as ordens, ou seja, depois de viver o discipulado de forma plena, a única e possível alegação diante de Jesus seria: ?Apenas fizemos o que devíamos ter feito?. Não devemos pretender que Deus nos deva algo. Quando tivermos feito o melhor que pudermos, só teremos cumprido nosso dever; e aquele que cumpriu seu dever apenas realizou o que estava obrigado a fazer.
A parábola não deseja oferecer um retrato de Deus, e sim falar da atitude que se requer da pessoa diante dele. Deus não deve nada ao ser humano, e o ser humano lhe deve tudo. Por isso, a pessoa não tem de formular exigências para Deus, nem requerer recompensas, nem sequer esperar gratidão. Os doutores da Lei concebiam a relação entre Deus e o ser humano como uma relação contratual, ou seja, eu dou alguma coisa para que você me dê algo em troca. Nessa perspectiva, para que a Lei fosse cumprida, Deus estaria obrigado a recompensar o fiel. A parábola contada por Jesus descarta por completo essa mentalidade: Deus não deve nada. Somos servos e não fazemos nada além daquilo que é esperado.

FONTE DA LEITURA: CANCAONOVA
FONTE DOS COMENTÁRIOS: VIDAPASTORAL