Nascido em Campinas, Justino Alfredo esteve no grupo de soldados brasileiros na 2ª Guerra

Era começo do mês de julho, em 1944. O relógio marcava duas horas da manhã e quase todos dormiam, na Vila Militar, Zona Oeste do Rio de Janeiro, quando os clarins tocaram. Cerca de 5 mil homens se levantaram e entraram em forma para o que, segundo imaginavam, seria apenas mais um treinamento de rotina.
Os soldados, com suas mochilas sempre prontas, foram levados de trem até a Zona Portuária. Enquanto amanhecia, se espantaram com o tamanho do USS General W. A. Mann (AP-112), o grande navio de transporte de tropas americano, que aguardava o embarque do Primeiro Escalão da Força Expedicionária Brasileira, acompanhado de belonaves de combate dos Estados Unidos e destróiers brasileiros - que fariam a escolta até o Estreito de Gibraltar.
Os soldados, que ainda acreditavam estar sendo levados para desembarque em algum ponto do litoral, levaram instrumentos musicais e vitrolas, que soaram melodias e batucadas até que a costa brasileira deixou de ser vista. Em alto mar, o silêncio predominou no convés até o final da viagem, que levaria quinze dias através do Oceano Atlântico.
Justino Alfredo, nascido em Campinas, estava a bordo e ficou espantado quando se afastaram do Rio de Janeiro. 'Quando não vi mais o Cristo Redentor, desconfiei que a coisa era séria'. O desembarque foi em Nápoles, na Itália, a 9,2 mil quilômetros de distância.
Assim se iniciou a odisseia do campineiro na Segunda Guerra Mundial. O então soldado sobreviveu a dois anos de batalhas, dormindo em barracas e, por fim, a um problema de circulação do sangue nas pernas, causado pelo frio extremo durante o conflito. No dia 24 de setembro deste ano, completou 100 anos de idade, 73 primaveras depois do fim da guerra.
Seu centenário foi comemorado por militares, civis e ex-militares com um bolo e a apresentação da Banda de Música da Escola Preparatória de Cadetes do Exército, no Largo do Pará, ao lado do apartamento onde vive.
Chegou para a homenagem andando, com uma das suas filhas, e discursou ao lado da emocionada dona Olete Vanny Alfredo, com quem é casado desde que retornou ao Brasil. O Correio conversou com ele para ouvir histórias sobre armas, fardas, fome, frio, mortos e feridos.
Armas e fardas
Os pracinhas chegaram em Nápoles com fardas feitas para o clima do Brasil e acabaram enfrentando temperaturas abaixo de zero. As armas levadas eram antigas e ultrapassadas, provenientes em sua maioria da França e Alemanha. Os americanos perceberam o problema e forneceram equipamentos mais modernos aos brasileiros e fardas mais grossas e compatíveis com o inverno italiano que começaria em dezembro.
Depois de treinamentos em Caçapava e Rio de Janeiro, Justino conta que passou por mais um aprendizado, daquela vez para que pudesse manejar as novas armas de fogo oferecidas pelos Estados Unidos. O campineiro recebeu um fuzil semiautomático M1 Garand, o mesmo que era usado pelas tropas americanas. "O Garand era automático e o nosso, não'.
Fome em Lucca
Quatro meses após a chegada dos brasileiros à Itália, Justino e seus colegas de armas se deslocaram para um vilarejo da cidade de Lucca, onde conheceram um sapateiro, sua mulher e o filho, de apenas 3 anos chamado Gian Luigi, que passava dias sem ter o que comer.
A família italiana tinha dinheiro, mas não havia onde comprar comida e o pai do menino não podia se arriscar muito longe de casa, onde se escondia no porão quando tropas alemãs apareciam, por causa do risco de ser levado para cavar trincheiras.
O soldado campineiro, sensibilizado pelo estado de desnutrição da criança, passou a separar diariamente parte da ração e do farto café da manhã, fornecido pelos americanos, que entregava ao menino. Isso foi feito cerca de um mês, até que os expedicionários se deslocaram para outro lugar.
Como agradecimento, antes de ir embora, o pracinha de Campinas recebeu da família uma foto do garoto, com a frase que dizia, em italiano "Ao Justino, com tanto afeto. Gian Luigi Pierotti" .
Mortos e feridos
Na batalha de Monte Castelo, uma das mais icônicas para o Exército Brasileiro, um expedicionário de Campinas foi atingido por uma granada arremessada dentro de seu 'fox-hole' (uma trincheira pequena feita para no máximo duas pessoas). Amâncio Tofanello era um homem grande, forte e pesado, e, depois da explosão, teve que ser carregado rapidamente para não morrer. Os brasileiros tentavam tomar o alto da montanha ocupada pelos nazistas e o único lugar seguro por perto era a base do monte.
Justino e mais alguns soldados armaram três padiolas, uma ao lado da outra. Colocaram três feridos atravessados por cima e desceram até o pé do morro, se arrastando sob tiros de fuzil e canhão. Suas fardas, joelhos e cotovelos terminaram o deslocamento esfacelados. Amâncio perdeu um olho, mas foi salvo pelo grupo heroico de pracinhas.
Já outros dois soldados, amigos de Justino, não tiveram a mesma sorte. Os soldados Paulo Tansini e Oscar Rossin nunca retornaram ao Brasil. Eles também foram mortos por estilhaços dentro de trincheiras.
Os expedicionários mortos na Itália foram enterrados no Cemitério Militar Brasileiro, na cidade italiana de Pistoia, que foi o sepulcro de 465 pracinhas até 1960, quando seus restos mortais foram exumados e transferidos para o Monumento Nacional aos Mortos na Segunda Guerra Mundial, no Rio de Janeiro.
Fim da odisseia
Justino Alfredo percebeu que suas pernas não estavam bem quando seus tornozelos incharam durante uma patrulha em uma estrada italiana, mas decidiu continuar caminhando e chegou a pedir ajuda aos colegas para não ficar para trás.
Quando retirou o coturno e suas meias, viu que seus membros inferiores estavam muito inchados. Foi diagnosticado com 'pé de trincheira' e impedido de continuar com o grupo que acompanhava. O frio durante dois anos havia causado o problema de circulação e seus pés entravam com dificuldade nas botas.
Foi deixado escondido, sozinho, com pouca munição, para aguardar um comboio brasileiro que cruzaria aquele mesmo caminho em seguida. Por sorte, um jipe da Força Expedicionária o resgatou pouco tempo depois e o levou para ser tratado por uma enfermeira, chamada Jane, a quem homenageou batizando a primeira de suas filhas com seu nome.
Em seguida, foi enviado para Dakar, no Senegal, por conta do risco de ter as duas pernas amputadas se permanecesse em um local gelado.
O clima quente africano ajudou na recuperação de Justino que, na sequência, foi trazido de volta ao Brasil, onde vive até hoje preservando a infinidade de lembranças. Uma delas, aliás, é forçada e obrigatória: ainda sente dor nas pernas quando chega o inverno.

FONTE: CORREIO