admite a ordenação de homens casados e maior participação das mulheres na Igreja Católica


Manaus (AM) ? O Papa Francisco encerrou, no domingo (27), a Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, na Basílica de São Pedro, no Vaticano, Itália. O documento final, denominado ?Conversão?, apresentado ao sumo pontífice, decidiu itens polêmicos como a ordenação de homens casados, os viri probati, com 128 votos a favor e 41 contra; e a ampliação da participação feminina, das mulheres diaconistas, que recebeu 137 votos a favor e 30 contra. Além disso, o documento critica a exploração econômica que provoca a destruição da Floresta Amazônica e promove os conflitos socioambientais. Também propõe um diálogo ecumênico, inter-religioso e cultural na região, que compreende nove países onde vivem mais de 33 milhões pessoas, incluindo cerca de 2,5 milhões de indígenas.

?No entanto, esta região, segunda área mais vulnerável do mundo, devido às mudanças climáticas provocadas pelo homem, está ?numa corrida frenética rumo à morte? e isso exige urgentemente, reitera o Documento, uma nova direção que permita que seja salva, sob pena de impacto catastrófico em todo o planeta?, destaca o documento, que pode ser lido na versão resumida, publicada pelo site Vatican News.

Segundo o Vaticano, o documento ?Conversão? tem diferentes significados: integral, pastoral, cultural, ecológico e sinodal. O texto é o resultado do ?intercâmbio aberto, livre e respeitoso?, desempenhado durante as três semanas de trabalhos do Sínodo para relatar os desafios e o potencial da Amazônia, o ?coração biológico do mundo?, diz o documento. No total, dos 120 itens pontuados no documento, 118 foram de consenso e 181 padres sinodais tiveram o direito a voto.

O Sínodo dos Bispos para a Amazônia começou em 6 de outubro e durante três semanas a Igreja Católica, sob o comando do Papa Francisco, reuniu 250 participantes, sendo 184 bispos e 35 mulheres. Além desses, também havia religiosos, pesquisadores e membros da Organização das Nações Unidas (ONU) e representantes dos nove países da Amazônia: Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Guiana, Guiana Francesa, Venezuela e Suriname.

A mãe terra e o rosto feminino

O Papa Francisco na abertura do Sínodo da Amazônia (Foto: Vatican News)

No capítulo sobre a participação da mulher, o documento ?Conversão? dedica no item ?A hora da mulher? o amplo espaço à presença e à hora das mulheres. ?Como sugere a sabedoria dos povos ancestrais, a mãe terra tem um rosto feminino e no mundo indígena as mulheres são ?uma presença viva e responsável na promoção humana?. O Sínodo pede que a voz das mulheres seja ouvida, que sejam consultadas, participem de modo mais incisivo na tomada de decisões, contribuam para a sinodalidade eclesial, assumam com maior força sua liderança dentro da Igreja, nos conselhos pastorais ou ?também nas instâncias de governo?, diz trecho.

O documento também chamou atenção para as mulheres como protagonistas e custódias da criação e da Casa Comum. ?As mulheres são com frequência ?vítimas de violência física, moral e religiosa, inclusive de feminicídio?, afirma. O texto reitera o empenho da Igreja Católica ?em defesa dos seus direitos, de modo especial em relação às mulheres migrantes?.

No entanto, o diaconato de mulheres é uma das questões que continua em aberto. Mesmo com a criação da Comissão de Estudo sobre o Diaconato das Mulheres, em 2016, a Igreja ainda não conseguiu chegar a um consenso sobre a importância da ordenação de mulheres. Mesmo assim, duas mulheres farão parte da comissão pós-sínodo: uma freira e uma laica.

Márcia Oliveira, perita do Sinodo e assessora da Repam, com o Papa Francisco
(Foto: Vatican News)

?A parte do Sínodo que discute a questão das mulheres abordou a participação de uma forma muito ampla, desde a dimensão participativa e o reconhecimento de que a Igreja na América Latina passa por nós, mulheres, pois representamos quase 80% das coordenações de pastorais e animações de comunidades da região. É uma participação importante e não meramente simbólica. Foi a primeira vez que um evento do tipo teve tantas mulheres, de maneira especial compondo equipes que, até então, eram eminentemente de homens, por exemplo, a de peritos, que são especialistas em diversas áreas, que contribuem e assessoraram no que diz respeito ao conteúdo das discussões?, afirma a socióloga Márcia Oliveira, doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e assessora da Rede Eclesial Pan-Amazônia (Repam) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e da Cáritas Brasileira.

?As mulheres indígenas deram um sentido muito especial ao Sínodo. As colocações que elas fizeram a partir das suas experiências e da realidade indígena para o debate foram muito profundas. De fato, mostraram que são mulheres muito preparadas e que representam de fato as suas etnias e os seus povos. Fizeram isso sem medo e constrangimentos e foram muito bem acolhidas e respeitadas, não somente no espaço sinodal, mas nas atividades paralelas na chamada Casa Comum?, relata Márcia.

Atualmente, a Igreja Católica só permite os homens como diáconos, padres, bispos, cardeais e o próprio papa. Somente pessoas do sexo masculino podem receber o sacramento para os ministérios ordenados. As mulheres podem ser leigas, que são as fiéis, ou religiosas, como freiras e monjas, que têm vida dedicada às obras religiosas.

Na Igreja Católica, os diáconos são homens autorizados a fazer sermões nas missas e outras ?tarefas?, como batismos. No entanto, não podem rezar missas ou dar absolvição nas confissões, por exemplo.

A luta na Amazônia é para instruir formalmente os ?fiéis idôneos?, homens e mulheres, para os ministérios não ordenados. E, assim, eles terem a oportunidade de substituir padres em atividades religiosas quando estes não estiverem presentes.

Tensões socioambientais

Povos da Amazônia no Sínodo (Foto: Guilherme Cavalli/Cimi)

O Sínodo e seus desdobramentos são resultado de uma metodologia inovadora proposta e aplicada pelo Papa Francisco. Nunca antes na história tantas pessoas foram ouvidas para um evento desse tipo. De acordo com a Igreja, as escutas tiveram a participação de 87 mil pessoas em toda a Pan-Amazônia entre bispos, missionários, representantes de confissões cristãs, seculares e leigas, e representantes de quase todos os 390 povos indígenas.

O grupo de 30 peritos foi composto por experts ou especialistas em determinados assuntos, leigos ou não. Do Amazonas foi perito também o padre indígena Justino Sarmento Rezende, do povo Tuyuka. Os peritos auxiliaram na construção do documento final ?Conversão?, entregue ao Papa e que dará origem a uma encíclica que orientará as ações da Igreja na Amazônia futuramente. Francisco prometeu tornar públicas as suas considerações até o final do ano.

Para a socióloga Márcia Oliveira, uma das cinco peritas do Sínodo da Pan-Amazônia, o documento final não é nem conservador e nem progressista. ?Acho que o Sínodo colocou a Amazônia no centro do debate e da Igreja. As ruas de Roma foram tomadas por latino-americanos com suas culturas, línguas, adornos. Isso é o mais importante, pois a periferia veio ao centro e mudou o sujeito da fala. O documento tem muito valor por isso?, avalia a perita.

?Nesses 20 dias no Vaticano, também tivemos diversas modalidades de debates, intervenções, de retorno do documento para revisão e ementas. Um processo riquíssimo por causa da pluralidade de ideias, por respeitar as diferenças e sem tensões, ao contrário de sínodos anteriores, que foram marcados por divergências sobre questões internas. Isso indica que a Panamazônia vivencia os mesmos desafios, as mesmas lutas por direitos e considera questões transversais em toda a região, não somente a eclesial, mas também as sociais como migrações, refúgios e deslocamentos internos dos povos indígenas, camponeses, quilombolas?, diz a socióloga.

Povos indígenas com o Papa Francisco (Foto: Vatican News)

Entre as questões que se sobressaem no texto, Márcia chama a atenção para as tensões socioambientais, como a imposição de grandes projetos, a criminalização de lideranças populares, o enfrentamento à monocultura e ao agronegócio, que geram grandes impactos na região.

?A ganância pela terra está na raiz dos conflitos que levam ao etnocídio, além do assassinato e criminalização dos movimentos sociais e de seus líderes. A demarcação e proteção da terra é uma obrigação dos Estados Nacionais e de seus respectivos governos. No entanto, muitos dos territórios indígenas são desprovidos de proteção e os já demarcados estão sendo invadidos por frentes extrativas, como mineração e extração florestal, por grandes projetos de infraestrutura, culturas ilícitas e grandes propriedades que promovem a monocultura e gado extensivo?, como consta no item 45 do documento ?Conversão?.

Nesse quesito, o documento ressuscita palavras de uma velha conhecida dos católicos brasileiros: a Teologia da Libertação. ?Dessa maneira, a Igreja se compromete a ser aliada dos povos amazônicos para denunciar os ataques à vida das comunidades indígenas, os projetos que afetam o meio ambiente, a falta de demarcação de seus territórios e o modelo econômico, desenvolvimento predatório e ecocida. A presença da Igreja entre as comunidades indígenas e tradicionais precisa dessa consciência de que a defesa da terra não tem outro propósito senão a defesa da vida?, descreve o item seguinte do referido documento.

Pastoral inculturada

Papa Francisco com representantes da Amazônia (Foto: Vatican News)

A partir do item 42, sob o título ?O rosto da Igreja nas aldeias amazônicas?, o documento resultante do Sínodo da Amazônia, fala sobre a assimilação de características culturais dos povos indígenas em ritos eclesiais na Amazônia. Entre outras coisas, a Igreja reconhece a miscigenação e diversidade cultural como parte do continente. Também pede responsabilidade com os povos indígenas que vivem em comunidades isoladas por questões geográficas e aqueles que vivem em isolamento voluntário.

?Somente uma Igreja missionária inserida e inculturada apresentará as igrejas indígenas particulares, com rostos e corações amazônicos, enraizados nas culturas e tradições do povo, unidos na mesma fé em Cristo e diversificados em seu modo de viver, expressar e celebrar?, diz o item.

?A parte mais surpreendente do documento, na minha opinião, é a que trata da assimilação de características culturais, já que abre portas para o respeito pelas teologias indígenas. Ele sugere um rito amazônico, que seria pensar uma liturgia e outras práticas pastorais nas atividades eclesiais que considerasse elementos da Amazônia, a exemplo do que acontece na ?Missa Cabocla?, espetáculo criado pelo grupo musical Raízes Caboclas, com cantos específicos sobre a questão cultural inserida na liturgia, mas, nesse caso com mais simbologia, gestos e celebrações mais participativos, com mais complexidades, que não foram contemplados no documento?, diz a socióloga.

Mas a mudança vai depender da visão do Papa Francisco. ?Temos que ver se o Papa vai optar apenas por um rito dos povos indígenas ou um rito dos amazônicos, que é o desejo da grande maioria dos bispos da região que gostariam de pensar os rituais a partir do contexto amazônico. Isso não muda em nada a liturgia tradicional, mas ela seria enriquecida?, completa a socióloga Márcia Oliveira.

Papa Francisco no Sínodo da Pan-Amazônia (Foto: Guilherme Cavalli/Cimi)

FONTE: AMAZONIA REAL
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