Primeira Leitura (2Mc 7,1-2.9-14)

Leitura do Segundo Livro dos Macabeus.

Naqueles dias, 1aconteceu que foram presos sete irmãos, com sua mãe, aos quais o rei, por meio de golpes de chicote e de nervos de boi, quis obrigar a comer carne de porco, que lhes era proibida. 2Um deles, tomando a palavra em nome de todos, falou assim: Que pretendes E que procuras saber de nós? Estamos prontos a morrer, antes que violar as leis de nossos pais.

9O segundo, prestes a dar o último suspiro, disse: Tu, ó malvado, nos tiras desta vida presente. Mas o Rei do universo nos ressuscitará para uma vida eterna, a nós que morremos por suas leis. 10Depois deste, começaram a torturar o terceiro. Apresentou a língua logo que o intimidaram e estendeu corajosamente as mãos. 11E disse, cheio de confiança: Do Céu recebi estes membros; por causa de suas leis os desprezo, pois do Céu espero recebê-los de novo.

12O próprio rei e os que o acompanhavam ficaram impressionados com a coragem desse adolescente, que considerava os sofrimentos como se nada fossem.

13Morto também este, submeteram o quarto irmão aos mesmos suplícios, desfigurando-o. 14Estando quase a expirar, ele disse: ?Prefiro ser morto pelos homens tendo em vista a esperança dada por Deus, que um dia nos ressuscitará. Para ti, porém, ó rei, não haverá ressurreição para a vida!

. Introdução geral

As leituras bíblicas deste domingo têm como tema central o triunfo da vida. Na I leitura, recordamos a doação da vida dos mártires do passado, que permaneceram firmes na fé diante da opressão promovida pelo império greco-helenista, e a certeza da ressurreição dos mortos. No evangelho, Jesus confirma que nosso Deus é o Deus da vida e, por isso, somos desafiados/as a nos manter firmes na esperança e na caridade, defendendo e promovendo a vida em nossa sociedade (II leitura).

II. Comentários dos textos bíblicos

1. I leitura: 2Mc 7,1-2.9-14

2Mc 7 narra a opressão durante o período do império greco-helenista (séc. II a.c), no tempo da revolta dos Macabeus, e a resistência até a morte de uma mãe e seus sete filhos. O império grego dominava a Judeia e impunha sua cultura em detrimento da cultura e da religião judaicas. Assim, obrigava os judeus a desobedecer às prescrições presentes na Lei. Os judeus sabiam que, se cedessem aos gregos, perderiam aquilo que mantinha o povo unido, ou seja, sua identidade, suas tradições, sua cultura, sua religião. Enfim, a aliança que tinham estabelecido com o Deus de Israel. O texto escolhido para a liturgia é importante para nós, cristãos, porque, pela primeira vez, no AT, aparece a fé na ressurreição. Portanto, o texto não objetiva apresentar a realidade cruel e a frieza dos torturadores, mas reafirmar a convicção de que Deus é soberano e capaz de gerar vida, mesmo nesse contexto de morte.

Percebe-se uma processualidade na tortura e na confissão de fidelidade ao Deus de Israel e às tradições religiosas judaicas. O primeiro filho torturado confessa a lealdade às leis referentes à alimentação, as quais eram um elemento fundamental para a formação da identidade do povo (cf. 2Mc 7,1-2). Do segundo até o quarto, temos a profissão de fé na ressurreição do corpo, partindo da certeza de que Deus é o aliado do povo, é o Senhor da vida e o Criador de todo o universo.

Anúncio do Evangelho (Lc 20,27-38)

 O Senhor esteja convosco.

 Ele está no meio de nós.

 PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas.

 Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, 27aproximaram-se de Jesus alguns saduceus, que negam a ressurreição, 28e lhe perguntaram: Mestre, Moisés deixou-nos escrito: se alguém tiver um irmão casado e este morrer sem filhos, deve casar-se com a viúva, a fim de garantir a descendência para o seu irmão.

29Ora, havia sete irmãos. O primeiro casou e morreu, sem deixar filhos. 30Também o segundo 31e o terceiro se casaram com a viúva. E assim os sete: todos morreram sem deixar filhos. 32Por fim, morreu também a mulher. 33Na ressurreição, ela será esposa de quem? Todos os sete estiveram casados com ela.

34Jesus respondeu aos saduceus: Nesta vida, os homens e as mulheres casam-se, 35mas os que forem julgados dignos da ressurreição dos mortos e de participar da vida futura, nem eles se casam nem elas se dão em casamento; 36e já não poderão morrer, pois serão iguais aos anjos, serão filhos de Deus, porque ressuscitaram. 37Que os mortos ressuscitam, Moisés também o indicou na passagem da sarça, quando chama o Senhor de o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó.38Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos, pois todos vivem para ele.

Evangelho: Lc 20,27-38

Este trecho de Lc 20 traz a controvérsia entre Jesus e os saduceus, um dos grupos religiosos presentes na Palestina daquele tempo. Os saduceus se consideravam descendentes de Sadoc (cf. Ez 44,15). Esse grupo, constituído pelo chefe dos sacerdotes (sumo sacerdote), pelas famílias sacerdotais e pela aristocracia, detinha o poder político, religioso, econômico e jurídico. Desse modo, tinha poder sobre o Templo e sobre o sinédrio. Aceitava somente o Pentateuco e, por isso, não acreditava ser possível afirmar algo sobre a ressurreição dos mortos, uma vez que não via sinais dessa crença nos cinco primeiros livros da Bíblia, atribuídos a Moisés.

Os saduceus, ao se aproximarem de Jesus, interrogam-no baseando-se na Lei do Levirato (lei do cunhado), descrita em Dt 25,5-10. Essa lei prescreve que, se alguém tiver um irmão casado, e esse morrer sem filhos, o irmão deve casar-se com a viúva a fim de suscitar uma descendência para seu irmão. A Lei do Levirato fazia parte das leis de solidariedade familiar e tinha como objetivo garantir a sobrevivência da viúva, que, dessa forma, teria direito à herança do marido falecido, dado que uma viúva sem filho não teria nenhum direito.

Os saduceus apresentam o caso de uma mulher que teve sete maridos, sem deixar descendência. A pergunta que fazem é: Na ressurreição, ela será esposa de quem. Essa questão tinha como finalidade deslegitimar a crença na ressurreição dos mortos, visto que, para eles, a Lei do Levirato acenava a impossibilidade da ressurreição dos mortos, sendo a vida continuada nos descendentes. Outra possível interpretação baseia-se na crença de que a vida futura seria semelhante à vida terrena, contendo, porém, somente aspectos positivos. Jesus responde a essa questão em duas etapas. Primeiramente, afirma que o Reino de Deus, ou o mundo futuro, não segue os moldes de nossa sociedade. Aqueles que ressuscitarão serão como anjos, ou seja, terão seus olhos fixos no Deus da vida, pois poderão contemplar Aquele que dá a vida e também viver em comunhão com os irmãos e irmãs, como filhos e filhas amados pelo único Pai. Em segundo lugar, confirma a fé na ressurreição, baseando-se em Ex 3,6, um texto do Pentateuco que contém a revelação de Deus a Moisés e a confirmação de que ele é o Deus da vida. Assim, além de provar a ressurreição e refutar a crença dos saduceus, Jesus afirma que a preocupação dos saduceus não deve ser promover a morte, por meio de ações injustas e de um culto desvinculado da vida, mas o verdadeiro culto a Deus é promover a vida ao redor, pois Deus não é o Deus dos mortos, mas da vida, e vida em plenitude.

Segunda Leitura (2Ts 2,16-3,5)

Leitura da Segunda Carta de São Paulo aos Tessalonicenses:

Irmãos: 16Nosso Senhor Jesus Cristo e Deus nosso Pai, que nos amou em sua graça e nos proporcionou uma consolação eterna e feliz esperança, 17animem os vossos corações e vos confirmem em toda boa ação e palavra.

3,1Quanto ao mais, irmãos, rezai por nós, para que a palavra do Senhor seja divulgada e glorificada como foi entre vós. 2Rezai também para que sejamos livres dos homens maus e perversos, pois nem todos têm a fé!

3Mas o Senhor é fiel; ele vos confirmará e vos guardará do mal. 4O Senhor nos dá a certeza de que vós estais seguindo e sempre seguireis as nossas instruções. 5Que o Senhor dirija os vossos corações ao amor de Deus e à firme esperança em Cristo.


II leitura: 2Ts 2,16-3,5

A segunda carta aos Tessalonicenses é chamada deuteropaulina, ou seja, é atribuída a Paulo, mas não foi escrita por ele. Provavelmente foi escrita por um discípulo ou um líder da comunidade de Tessalônica que conheceu Paulo.

Nessa carta, transparece um contexto hostil à fé (cf. v. 2). Nesse sentido, ela está em sintonia com a I leitura e com o evangelho, mas também apresenta a esperança na fidelidade de Deus, que guarda a comunidade de todo mal.

O texto escolhido para a liturgia contém vários temas. Ele se inicia com um uma súplica (cf. 2,16-17), em seguida apresenta um pedido de oração (cf. 3,1-2) e conclui com a confiança na fidelidade de Deus e com uma bênção (cf. vv. 3-5). Apesar da diversidade temática, podemos dizer que todos os temas giram em torno da oração. O autor inicialmente pede que Deus possa animar a comunidade e confirmá-la em toda boa ação e palavra (vv. 16-17). O autor também pede que, na comunidade, uns rezem pelos outros, para que possam continuar anunciando a palavra da salvação, não obstante a perseguição e as tribulações, uma vez que nem todos acolheram essa palavra. Ele apresenta ainda a necessidade de que a Palavra seja não só rapidamente difundida (cf. Sl 147,15), mas também acolhida, para ser glorificada.

Ao concluir, pede a Deus que continue guiando a comunidade pelo caminho da caridade até a vinda definitiva do Reino, no fim dos tempos, e que os tessalonicenses possam sempre confiar no amor de Deus manifestado por meio do seu Filho, Jesus.

FONTE DA LEITURA: CANCAONOVA
FONTE DOS COMENTÁRIOS: VIDAPASTORAL