I. Introdução geral

A Igreja deve ser compreendida como Igreja em saída, ou seja, missionária. A mensagem de Jesus ressuscitado não pode se tornar refém das quatro paredes de uma paróquia. Discípulos e discípulas não podem ser compreendidos como pessoas que se limitam somente às celebrações litúrgicas. É fora das quatro paredes que a missão ganha sentido. A Igreja não pode se acomodar e sonegar a mensagem da salvação a homens e mulheres. A missão exige o envolvimento de cada um da comunidade. Nesse sentido, todos os discípulos e discípulas são, simultaneamente, também missionários e missionárias.

Primeira Leitura (At 2,14.22-33)

Leitura dos Atos dos Apóstolos:

No dia de Pentecostes, 14Pedro de pé, junto com os onze apóstolos, levantou a voz e falou à multidão: 22?Homens de Israel, escutai estas palavras: Jesus de Nazaré foi um homem aprovado por Deus, junto de vós, pelos milagres, prodígios e sinais que Deus realizou, por meio dele, entre vós. Tudo isto vós bem o sabeis. 23Deus, em seu desígnio e previsão, determinou que Jesus fosse entregue pelas mãos dos ímpios, e vós o matastes, pregando-o numa cruz. 24Mas Deus ressuscitou a Jesus, libertando-o das angústias da morte, porque não era possível que ela o dominasse. 25Pois Davi dele diz: ?Eu via sempre o Senhor diante de mim, pois está à minha direita para eu não vacilar. 26Alegrou-se por isso meu coração e exultou minha língua e até minha carne repousará na esperança. 27Porque não deixarás minha alma na região dos mortos nem permitirás que teu Santo experimente corrupção. 28Deste-me a conhecer os caminhos da vida, e a tua presença me encherá de alegria?.

29Irmãos, seja-me permitido dizer com franqueza que o patriarca Davi morreu e foi sepultado e seu sepulcro está entre nós até hoje. 30Mas, sendo profeta, sabia que Deus lhe jurara solenemente que um de seus descendentes ocuparia o trono.

31É, portanto, a ressurreição de Cristo que previu e anunciou com as palavras: ?Ele não foi abandonado na região dos mortos e sua carne não conheceu a corrupção?. 32Com efeito, Deus ressuscitou este mesmo Jesus e disto todos nós somos testemunhas. 33E agora, exaltado pela direita de Deus, Jesus recebeu o Espírito Santo que fora prometido pelo Pai, e o derramou, como estais vendo e ouvindo?.

1. I leitura: At 2,14a.22-33

A Igreja existe para fazer missão. Ela é e deve ser compreendida, necessariamente, como uma Igreja missionária. Dessa forma, encontra-se sempre ?em saída?, ou seja, não se tranca nem, muito menos, foge de sua responsabilidade. Pedro, diz-nos a leitura, ficou de pé. Todavia, não foi uma ação isolada e particular do apóstolo. A ação de Pedro ? seu discurso missionário ? representava o desejo de todos, e, assim, todos os demais apóstolos se levantaram com ele. Todos naquele ambiente ouviam a voz de Pedro e, no entanto, por meio daquela única voz, todo o corpo apostólico falava. Qual o conteúdo do anúncio de Pedro? Ele faz o anúncio da Boa-nova do Ressuscitado. Sabiamente se utiliza de passagens do Antigo Testamento para demonstrar como Cristo foi assassinado por meio da crucificação e, todavia, a habitação dos mortos não conseguiu segurá-lo. Por isso, na comparação feita por Pedro, enquanto o túmulo do patriarca Davi podia ser visto até aquele momento, o túmulo de Jesus se encontrava vazio. Jesus representa, a partir da ressurreição, a plenitude do amor e da misericórdia. Afinal, mesmo estando entre eles com milagres, prodígios e sinais, e tendo sido brutalmente assassinado e ressuscitado, continua a amar e ser misericordioso.

Segunda Leitura (1Pd 1,17-21)

Leitura da Primeira Carta de São Pedro:

Caríssimos: 17Se invocais como Pai aquele que sem discriminação julga a cada um de acordo com as suas obras, vivei então respeitando a Deus durante o tempo de vossa migração neste mundo.

18Sabeis que fostes resgatados da vida fútil herdada de vossos pais, não por meio de coisas perecíveis, como a prata ou o ouro, 19mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha nem defeito. 20Antes da criação do mundo, ele foi destinado para isso, e neste final dos tempos, ele apareceu, por amor de vós. 21Por ele é que alcançastes a fé em Deus. Deus o ressuscitou dos mortos e lhe deu a glória, e assim, a vossa fé e esperança estão em Deus.

2. II leitura: 1Pd 1,17-21

A segunda leitura está inserida numa série de exortações para o bem viver em comunidade, além de reforçar a identidade daqueles que assumem o discipulado como estilo de vida. O tom dos versículos recai sobre o comportamento que a comunidade deve exibir. Seus membros não podem, na verdade, reproduzir os comportamentos que herdaram de seus antepassados. Embora estejam em terra estranha e vivam na condição de marginalizados, não podem negligenciar a vontade de Deus e dela se afastar. O fundamento das exortações é que eles foram resgatados por meio do sangue de Jesus Cristo. Prata e ouro, mesmo que possam mover mundos e fazer que os olhos de muitos brilhem, são perecíveis. Somente em Jesus é possível preencher ?o vazio de viver? que é próprio a cada ser humano.

Anúncio do Evangelho (Lc 24,13-35)

13Naquele mesmo dia, o primeiro da semana, dois dos discípulos de Jesus iam para um povoado, chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém. 14Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido. 15Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles. 16Os discípulos, porém, estavam como que cegos, e não o reconheceram. 17Então Jesus perguntou: ?O que ides conversando pelo caminho?? Eles pararam, com o rosto triste, 18e um deles, chamado Cléofas, lhe disse: ?Tu és o único peregrino em Jerusalém que não sabe o que lá aconteceu nestes últimos dias??

19Ele perguntou: ?O que foi?? Os discípulos responderam: ?O que aconteceu com Jesus, o Nazareno, que foi um profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e diante de todo o povo. 20Nossos sumos sacerdotes e nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. 21Nós esperávamos que ele fosse libertar Israel, mas, apesar de tudo isso, já faz três dias que todas essas coisas aconteceram! 22É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos deram um susto. Elas foram de madrugada ao túmulo 23e não encontraram o corpo dele. Então voltaram, dizendo que tinham visto anjos e que estes afirmaram que Jesus está vivo. 24Alguns dos nossos foram ao túmulo e encontraram as coisas como as mulheres tinham dito. A ele, porém, ninguém o viu?.

25Então Jesus lhes disse: ?Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! 26Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso para entrar na sua glória??

27E, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da Escritura que falavam a respeito dele. 28Quando chegaram perto do povoado para onde iam, Jesus fez de conta que ia mais adiante. 29Eles, porém, insistiram com Jesus, dizendo: ?Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!? Jesus entrou para ficar com eles. 30Quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía. 31Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles. 32Então um disse ao outro: ?Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?? 33Naquela mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém onde encontraram os Onze reunidos com os outros. 34E estes confirmaram: ?Realmente, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!? 35Então os dois contaram o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão.

3. Evangelho: Lc 24,13-35

Jesus já não se encontrava no túmulo, e a notícia que se espalhava era que ele havia ressuscitado. Muitos creram, e tantos outros consideraram a notícia absurda. Provavelmente nesse momento se inicia a dispersão daqueles que não acreditaram no testemunho das mulheres discípulas de Jesus ? Maria Madalena, Joana e Maria. Entre os desconfiados, há dois discípulos que resolvem se afastar de Jerusalém. A cidade ainda respirava ares de ameaça. Os acontecimentos eram ainda bastante recentes, e o mais apropriado era se afastarem em direção a um vilarejo chamado Emaús. Dez quilômetros separam a cidade de Jerusalém do vilarejo de Emaús. Pode-se dizer, porém, que, quanto mais eles se afastavam da cidade de Jerusalém, mais ela se fazia presente neles. Conforme caminhavam, os dois conversavam a respeito dos últimos acontecimentos. Seus pés os levavam para longe da cidade, mas a mente deles ainda se encontrava lá. Possivelmente estavam desanimados e a esperança lhes havia fugido por entre os dedos. Teriam de reiniciar a vida. Apostaram-na no projeto de Jesus e, nesse momento, para eles, Jesus se encontrava morto. Os dois discípulos fugiam do furacão que havia atingido toda a comunidade. A fuga era a única aparente saída para eles.

Mas justamente nesse caminho é que Jesus se aproxima e passa a caminhar ao lado deles. Não somente caminha, mas também inicia um diálogo. Os discípulos têm os olhos embaçados de tal forma que não reconhecem aquele que caminha com eles. Têm olhos e não podem enxergar. Jesus provoca: ?Sobre o que vocês estão falando?? (v. 17). Com o rosto marcado pela tristeza, um deles responde: ?Será você o único estrangeiro em Jerusalém que não sabe das coisas que aí aconteceram nesses dias?? (v. 18). Caracterizam os dois discípulos olhos que não conseguem ver com clareza, faces marcadas pela tristeza, pés que caminham sem esperança, mentes que não conseguem interpretar os últimos acontecimentos e corações que se esfriaram por falta de fé. Jesus faz uma primeira catequese aos dois discípulos desiludidos. Explica-lhes o que as Escrituras dizem a seu respeito. No entanto, será somente num segundo momento de catequese que os discípulos ?acordarão?. Trata-se de catequese que integra gestos e palavras. Jesus, estando à mesa com os dois, toma o pão, abençoa-o, parte-o e o distribui. Nesse momento, os olhos dos discípulos se abrem e conseguem reconhecer Jesus, recordando-se de que, desde a primeira catequese, o coração deles ardia por causa das palavras que ouviram no caminho. Aqueles dois já não são os mesmos que haviam saído de Jerusalém. Haviam sido transformados e, por conta disso, resolvem voltar para o lugar de origem. Voltam já não vazios e sem sentido de viver. Trazem no coração e na mente a mais fantástica das mensagens: Jesus realmente está vivo!

Pistas para reflexão

1) Os discípulos fogem porque não conseguem compreender claramente o projeto de Jesus. Fazem um caminho com medo e assustados. Teriam renunciado a Jesus por causa da possível decepção que viveram? O caminho de Emaús pode ser considerado o caminho de cada um de nós. Somente o encontro com Jesus no caminho é que restaura a vida, produz motivação e expulsa a decepção.

2) Quais características da nossa comunidade indicam ser ela uma comunidade missionária? Quais características lhe faltam? De que forma seria possível alcançar as características faltantes?

Fonte : Vida Pastoral ; Canção Nova