18
Fevereiro

Mino Carta: A nova face do Kremlin

POSTADO POR ADMIN ÀS 13:35


De como o general Heleno impediria a humilhação de Henrique IV. Mas hoje ele cuida da gente


O presidente Bolsonaro e o general Heleno estão certos: o papa Francisco é vermelho. É o mínimo que dele se pode dizer. Subversivo declarado com sua pregação contra a desigualdade crescente mundo afora e sua defesa de humilhados e oprimidos. E não é admissível que quem lhe segue as palavras deixe de ser perseguido e punido sem misericórdia. Está na hora de impor ordem em meio à orgia comunista, como diria o Marquês de Sade.
A questão central no momento se estabelece na convocação pelo papa vermelho, carmesim, vale sublinhar, de um Sínodo capaz de reunir 250 bispos para discutir a realidade da Amazônia, à luz de novas formas de evangelização dos indígenas, das mudanças climáticas na região e dos conflitos de terra. Dá para acreditar nesta manobra sorrateira da Igreja Católica para intrometer-se em assuntos exclusivos da soberania brasileira? Há tempo o general Heleno advertia a respeito dos sombrios propósitos dos bandos de batina prontos a semear a sedição na selva.

Mino Carta: A herança de Caim
Este enredo recorda outro que, na segunda metade do século XI, abalou profundamente as relações entre o imperador e o papa por razões similares às que movem o confronto atual. Entendia o pontífice Gregório VII que à Igreja cabia investir novos bispos, enquanto Henrique IV, do Sagrado Romano Império, atribuía a missão a si mesmo. O conflito passou à história como a Controvérsia das Investiduras, e foi áspero a ponto de levar o papa a excomungar o imperador.

Henrique rumou então para Canossa, na Toscana, onde naquele momento se hospedava Gregório no castelo da condessa Matilde. Era inverno rigoroso e o imperador ajoelhou-se na neve nas proximidades da ponte levadiça hirta sobre o portão a negar-lhe o acesso, e lá ficou três dias a fio, a pedir perdão. Ao cabo, o pontífice retirou a excomunhão. Mesmo assim, a desavença não se aquietou, voltou a manifestar-se escassos anos depois.

Mino Carta: O senhor do golpe
O litígio decorria de duas distintas afirmações de poder, mas algo indiscutível é que, estivesse o general Heleno ao lado do imperador, Henrique IV jamais se ajoelharia para implorar perdão, ainda mais debaixo da nevasca. O ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional arca com seu papel com notável empenho. Comove, entre outras coisas, a sua visão de mundo e das relações internacionais. Consta que pretenderia recorrer à intercessão do governo italiano para levar o papa a desistir do Sínodo sobre a Amazônia. O raciocínio obedece a uma lógica implacável, digna de um autêntico estrategista. Onde fica o Estado do Vaticano? Em Roma. Ninguém como o governo de Roma para interferir no caso, sem contar que uma mão lava a outra. E não foi o Brasil de Bolsonaro que presenteou a Itália com a extradição de Cesare Battisti?

Já dizia minha mãe, que Deus a tenha a despeito do seu temperamento combativo, "Cristo era comunista". Ela cultivava a certeza de conhecer os endereços do Bem e do Mal e, no caso, tratava-se de mera e pacata constatação de uma evidência sacrossanta. Cristo pregava a igualdade entre todos os seres humanos e com isso não haveria de agradar aos poderosos de então, tanto em Roma quanto em Jerusalém. E foi assim que tomou o caminho do Calvário.

A ideia da igualdade é francamente subversiva, tanto mais no país da casa-grande e da senzala, onde a mentalidade escravocrata se afirma, sem deixar frestas ou escapes, na minoria rica e na maioria pobre e miserável. Nesta, o indivíduo ainda traz nos lombos a marca da chibata e vive resignado em uma ignorância límbica. Naquela, a ignorância mistura-se com presunção, vulgaridade e prepotência, esta exercida de maneira tão absoluta e desvairada até a demência, hoje tornada forma de governo.


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18
Fevereiro

Papa Francisco aprova a reabilitação de sandinista Ernesto Cardenal

POSTADO POR ADMIN ÀS 13:03
O padre humilhado publicamente por João Paulo II por ter apoiado a revolução da guerrilha de esquerda na Nigarágua poderá voltar a administrar sacramentos. Mas o perdão chegou aos 94 anos e quando está doente.



O Papa Francisco aprovou a reabilitação do sacerdote e poeta Ernesto Cardenal, que apoiou a revolução sandinista na Nicarágua, e que o Papa João Paulo II humilhou em 1983, repreendendo-o, de dedo em riste, no alcatrão da pista do aeroporto de Manágua, quando Cardenal estava de joelhos.

A notícia ainda não foi tornada pública - foi avançada pelo jornal espanhol El País, citando uma carta enviada pelo Sumo Pontífice. Hoje com 94 anos, hospitalizado com uma infecção renal grave, Ernesto Cardenal recebeu a visita do núncio do Vaticano em Manágua, que se ofereceu para celebrar com ele a sua primeira missa em 35 anos - pois a pena a que João Paulo II o condenou impedia-o de o fazer.

Cardenal era seguidor da corrente cristã nascida na América Latina denominada teologia da libertação, que dá revelo ao apoio aos mais pobres e à libertação dos povos oprimidos. Para o Papa polaco João Paulo II, que viveu as durezas do comunismo, este tipo de ideias e as revoluções e guerrilhas de esquerda na América Latina eram difíceis de aceitar.

Ao sair do avião, o Papa foi recebido com um grande cartaz, que dizia "bem-vindo à Nicarágua livre graças a Deus e à revolução", e pelo Presidente Daniel Ortega, líder da Frente Sandinista de Libertação Nacional desde 1962, que lhe deu um discurso de meia-hora, debaixo de um Sol escaldante, a exaltar a revolução, recorda para o El País, o jornalista veterano Juan Arias, que acompanhou a viagem papal.

"Sempre que o Papa tentava deixar clara a sua rejeição à chamada Igreja Popular, a multidão interrompia-o com gritos de 'entre cristianismo e revolução não há contradição'", recorda Arias. O Papa não conseguia terminar a sua homília.

A certa altura, Ernesto Cardenal aproximou-se do Papa, ajoelhou-se e tentou beijar-lhe a mão. João Paulo II tirou a mão. Quando Cardenal lhe pediu a bênção, esticou o dedo severo e disse-lhe: "Antes tens de te reconciliar com a Igreja", recorda Juan Arias.

O Papa João Paulo II, que morreu a 2 de Abril de 2005, aplicou posteriormente a suspensão ad divinis a Cardenal por acumular de forma considerada "incompatível" com o sacerdócio o cargo de ministro da Cultura da Nicarágua. Ficou proibido de administrar sacramentos.

Ernesto Cardenal é considerado um dos mais importantes poetas da América Latina ainda em vida. Com formação superior em Teologia, nos Estados Unidos, recebeu vários prémios literários pela Europa, tendo sido candidato a Nobel da Literatura em 2005, atribuído ao britânico Harold Pinter.
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18
Fevereiro

A felicidade escondida nas bem-aventuranças

POSTADO POR ADMIN ÀS 11:53


"E, levantando os olhos para os seus discípulos, disse: "bem-aventurados vós..."(Lc 6,20)


A reflexão bíblica é elaborada por Adroaldo Palaoro, sacerdote jesuíta, comentando o evangelho do 6° Domingo do Tempo Comum - Ciclo C (17/02/2019) que corresponde ao texto bíblico de Lucas 6,17.20-26.

"Ser feliz": não há outra meta mais importante na vida de todos nós. De fato, é tão importante que se converteu em um desejo que repetimos de maneira muito frequente e, de forma especial, para as pessoas que mais amamos. Proferimos os votos de felicidade em qualquer evento, em todos os aniversários, no início de cada ano... Não podemos desprezar o excesso de nossas felicitações, por mais rotineiras que nos pareçam. Elas expressam um desejo profundo, talvez o desejo mais íntimo de nós mesmos.
"Que sejas feliz!" Que melhor sentimento que isso podemos desejar a alguém, seja ele(ela) quem for?

A proposta evangélica de felicidade tem algo a nos dizer em nosso momento atual?
A impressão que temos é que a vivência de muitos cristãos está longe de apresentar a Deus como amigo da felicidade humana, fonte de vida, alegria, saúde; na experiência de fé de muitas pessoas, o seguimento de Jesus, muitas vezes, não se associa com a ideia de "felicidade".
Predomina, em certos ambientes ou grupos cristãos, uma doutrina dolorida e uma catequese afastada da busca humana da felicidade. O cristianismo se apresentou, durante muito tempo, como a religião da cruz, da dor, do sofrimento, da renúncia, da repressão ao prazer e à felicidade neste mundo.

Diante de tal situação, Jesus, no Evangelho de hoje, afirma categoricamente: "Felizes sois vós!"
Jesus, ao "descer à planície", promulga seu programa "com" vida, fundado não numa ética de "deveres e obrigações", mas numa ética de "felicidade e ventura".
Aqui está a surpreendente novidade do projeto oferecido por Jesus. Sem sombra de dúvida, o significado das bem-aventuranças e, portanto, do programa de Jesus, é algo mais humano, mais próximo e mais ao alcance de ser entendido e vivido por qualquer pessoa de boa vontade.

O Evangelho, a "boa notícia", é o tesouro que enche o ser humano de uma felicidade indescritível. Com efeito, a primeira característica que aparece nas bem-aventuranças é que o programa de Jesus para os seus é um "programa de felicidade". Cada afirmação de Jesus começa com a palavra "makárioi", "ditosos". Essa palavra, significa, em grego, a condição de quem está livre de preocupações e atribulações cotidianas.
As bem-aventuranças substituem os mandamentos que proíbem por um anúncio que atrai para a felicidade. E a promessa de felicidade não é para depois da morte. Jesus fala da felicidade nesta vida.

Conhecemos duas listas de Bem-aventuranças: a de Lucas e a de Mateus. São bastante distintas, porque uma fala dos pobres e a outra fala dos pobres "em espírito"; uma fala de fome e outra de fome de "justiça"... Costuma-se dizer que as Bem-aventuranças de Lucas são bem-aventuranças "de situação", e as de Mateus são "de atitude". Ou seja, enquanto Lucas diz: os que se encontram assim, os que estão nesta situação, são bem-aventurados (os que estão chorando, os que tem fome, os que são pobres...), Mateus diz: os que reagem desta maneira diante dos que choram, dos que são pobres, dos que tem fome... são bem-aventurados. É como a atitude que se toma frente aqueles que Lucas descreveu.

Antes de proclamá-las, Jesus vive intensamente as bem-aventuranças; elas são a expressão daquilo que é mais humano no seu interior; elas são seu auto-retrato. Jesus é o bem-aventurado. Ele personaliza tais atitudes: é o pobre, aquele que se comoveu diante da dor e misérias humanas, que expressa uma fome e sede de plenitude e humanização, que é incompreendido e perseguido por causa dos seus sonhos.

O Jesus que os Evangelhos nos apresentam deixa transparecer, permanentemente, um sentimento sereno e agradecido diante da vida. Ele vive apaixonado pelo Reino do Pai; Ele é um homem aberto e próximo das pessoas, com uma enorme capacidade de relação, de maneira especial diante dos mais pobres e excluídos. Mostra uma infinita confiança nas pessoas que encontra, seja qual for sua situação existencial. Ele é o portador definitivo de boas notícias. O evangelho da salvação chega até às barreiras e fronteiras humanas. Seu tempo é tempo de alegria; é a festa das bodas. Jesus nos convida a entrar na nova vida de felicidade e fraternidade. As bem-aventuranças são o caminho da felicidade.

Jesus, ao proclamar "bem-aventurados" os pobres, os famintos, os que choram, os que são perseguidos... jamais quis sacralizar a dor humana. Ao contrário, são bem-aventurados, sim, os pobres, porque, vazios de apegos e cheios de esperança, anunciam o sonho de Deus para a humanidade, uma nova sociedade baseada na solidariedade e na partilha; são bem-aventurados, sim, os famintos, porque trazem nas entranhas a fome de liberdade e sabem que o ser humano e o mundo carregam infinitas possibilidades de crescimento; são bem-aventurados, sim, os que choram porque suas lágrimas demonstram que eles ainda não perderam a sensibilidade, que eles sentem o mundo como injusto e que, por isso, são verdadeiramente os únicos a sonharem, a buscarem e a lutarem por um mundo novo; são bem-aventurados, sim, os que são perseguidos porque seguem corajosamente a estrela do Reino e são sinal de grande transformação realizada por Deus.

As bem-aventuranças nos revelam que somos habitados por um impulso que nos torna "buscadores de felicidade". A sociedade de consumo que invadiu tudo, realça a felicidade como a meta imediata de nossas buscas, algo ao qual temos direito e que depende de fatores externos. Esta felicidade é passageira, pois quando a alcançamos, invade de novo a insatisfação, a inquietude, o ressentimento, a inveja... e de novo empreendemos nossa busca. Assim, pois, a felicidade nos escapa quando a buscamos "fora", como fim em si mesma, para saciar nosso ego insaciável.

A felicidade nasce dentro de nós: daquilo que sentimos, que valorizamos, que vivemos...
Por isso, as bem-aventuranças não são algo externo, mas atitudes que plenificam nossos corações.
A chave da felicidade está em permitir que se revele o sentido da luminosidade que se encontra no fundo de nosso ser. O que nos tira a energia e nos torna impotentes é afastar-nos desse princípio vital que é o Divino em cada ser.
Ser o que somos, em serenidade e profundo sentido. A felicidade, tal como a verdade e a beleza, ao se revelar a nós, desata a potencialidade daquilo que somos e de tudo o que é.

Nesse sentido, felicidade pode ser entendida como um "estado de espírito"; felicidade é viver sem chegada, sem partida; é experimentar uma sensação de renascimento de satisfação interior... ou sentir des-pertar em si um potencial de bondade, de compaixão, de solidariedade...muitas vezes desconhecida.
A verdadeira felicidade coincide com a paz interior; é o prazer de descobrir, cada dia, que a vida se inicia novamente em cada amanhecer; é fazer da mesma vida uma grande aventura... Por isso, a felicidade está relacionada com a gratuidade e com a gratidão

Fonte: IHU
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