21
Janeiro

Quando Helder Câmara capta a dor do mundo.

POSTADO POR ADMIN ÀS 15:38


Eduardo Hoornaert.

Nas Cartas Circulares de Helder Câmara se inserem, de modo irregular, curtos textos rimados e ritmados, em que se revela um poeta. Um poeta que se esconde por trás da imagem de um tal de ?Padre José?, nome que parece provir do fato que a mãe de Helder pensou em chamar seu filho de José. Com o correr do tempo, o Padre José se torna a mais criativa e persistente transpersonalização de Helder Câmara, ao mesmo tempo heterônimo, interlocutor de toda hora e anjo da guarda. Ele visita Helder principalmente à noite, nas Vigílias. Nas Cartas se percebe que o bispo é bastante reticente, quando se trata de explicitar o que o Padre José significa para ele. Repetidamente, ele demonstra um certo pudor em relatar, nas Cartas, as intervenções do Padre José e confessa que só se resolve a fazê-lo por ter confiança na Família Messejanense, ou seja, no grupo de mulheres ? seja no Rio de Janeiro, seja em Recife - às quais endereça suas Cartas Circulares. Pois o Padre José diz coisas e emite opiniões que nem sempre combinam com o que se espera e um bispo. Além disso, revela sentimentos que não raramente expressam um estado de ânimo que beira o desespero.

A desproporção
Entre o imenso que sondas
E o quase-nada
Que logras realizar.
O desnível
Entre o que imaginas
E os frutos grotescos
Que dás à luz.
A incompreensão quase geral
E, em certos momentos, geral.
Os voos cegos
Com visibilidade zero
Sem bússola e sem radar.
A necessidade imperiosa
De ser otimista,
De fazer crer,
Esperar
E amar.
Eis, Pai,
O balanço
Das Vigílias sempre mais longas
E em que se acaba escutando
- com a alma, com os ouvidos? -
O grito constante
Que tanto conheces:
?Meu Pai, meu Pai,
Por que me abandonaste?? (Carta 2-3/3/1966, III, I, pp. 171-172).

Após assistir ao filme ?Zorba o Grego?, Helder comenta a dança ?desesperada? de Anthony Quinn (depois da ruína de um projeto longamente acalentado) do modo seguinte:

Ou já é dança,
A tua dança inconfundível e única,
Cujo sentido último
Aos próprios anjos escapa
E só é entendida por Deus? (ibidem, p. 171).

Ou, no mesmo sentido:

Qual o limite máximo
Da declividade?
A partir de que grau
A estrada se torna impossível? (Carta 30-31/3/1966, III, I, p. 225).

Na Carta de 20-21/2/1966 (III, I, p. 149), Helder pensa em rasgar as confidências do Padre José. Uns dias mais tarde, em 2-3/3/1966 (III, I, p. 171), o mesmo pensamento: quem sabe, é melhor não prosseguir (com os poemas do Padre José), deixar fora da série o que aí está escrito (na mesma noite, veja p. 172).

Mesmo assim, há períodos de intenso fluxo de poemas, por exemplo entre final de fevereiro e início de abril de 1966. Neste trabalho me limito a comentar as dezenas de poemas produzidos nesse curto período. Muitos dos poemas são redigidos no tempo de Carnaval, quando Helder tem mais tempo para mergulhar na contemplação da vida.

O olhar privilegiado
De quem recebeu de Deus
O tesouro e a tortura
Da imaginação criadora (Carta Circular 23/03/1966, III, I, p. 154).

Entre os lados todos
Fáceis de descobrir
Existe, oh! Existe
A região misteriosa
Em que Te escondes
Em que Te apagas em mim (ibidem, p. 155)

O Padre José, é verdade, ilumina. desvela, abre horizontes. Mas ele inquieta também, revela acessos de pessimismo, revela um Helder que mal aparece nas partes mais informativas de suas Cartas, que costumam ir impregnadas do mais persistente entusiasmo. Em outras palavras: é pela mediação do Padre José que Helder expressa o que ele, na qualidade de bispo católico, mal consegue verbalizar. Assim, os poemas se apresentam como um jogo sutil entre a pessoa do bispo e seu disfarce, sua imagem fantasiosa, o Padre José.

Antenas sensibilíssimas.

As meditações (os poemas) do Padre José são antenas sensibilíssimas, captam as mais leves ondas emitidas pela cabeça e pelo coração do Padre José (Carta 2-3/3/1966, III, I., p. 172).

Olho de micro-analista
Olho de astrônomo
Olho de mergulhador submarino
Olho de cosmonauta
- todos vos fundis
E outros tantos mais
No olhar privilegiado
De quem recebeu de Deus
O tesouro e a tortura
Da imaginação criadora (Carta 22-23/3/1966, III, I, p. 154).

Ah! Como são tristes meus dedos,
Arrancarão, instintivamente, do violão,
Canções magoadas.
Modelarão na argila
Bonecos severinos
De olhares angustiados
E sorrisos tristes (ibidem, p. 155).

Às vezes, o Padre José ?concursa? com poetas brasileiros da época, como João Cabral de Melo, Thiago de Mello, Octávio Mora, Fernando Ferreira de Loanda, Ledo Ivo e principalmente Cecília Meireles. Outras vezes, ele se deixa impressionar por um filme, como o já citado ?Zorba o Grego? ou ?Mary Hopkins?.

A dor do mundo.

Nos poemas que apresento aqui, referentes ao curto período de pouco mais de um mês, O Padre José expressa a dor do mundo, que tanto se configura como a dor do pobre, por discriminação, marginalização, opressão e violência, como a dor de pessoas que pertencem a classes privilegiadas. Um dor talvez mais angustiante, pois marcada pelo selo da solidão. O que diferencia as meditações de Helder acerca da dor do mundo é que ele não diz que apenas o pobre sofre, enquanto o rico goza. Sendo ele mesmo de origem burguesa, Helder sente a dor da classe burguesa, que ele expressa pela imagem de quem anda por ruas intransitáveis, em que ninguém se encontra, ninguém se vê, ninguém se ama. Isso em vivo contraste com quem caminha por humildes ruinhas, gostosas toda vida, nos bairros pobres (veja abaixo o poema em extenso). Eis um aspecto fundamental, frequentemente omitido nas análises das ?conjunturas? em que vivemos. Quem conhece os bairros de classe média nas cidades latino-americanas, sabe como são ?isolacionistas? os portões elétricos, as senhas de acesso, os radares, as câmaras de controle.

A dor do pobre.

O filho de mãe solteira
Três vezes filho.
Primeiro,
Como todos os filhos.
Depois,
Porque sem coragem,
Sem amor,
Não chegaria a nascer.
Por fim,
Porque além de mãe,
A mãe
Tem de ser pai (ibidem, 153).

Saber trabalhar,
Querer trabalhar
E não achar
Nem biscate.
Ter de esmolar,
Ser inoportuno,
Impertinente.
Parecer viciado e cínico,
Com o recurso único
De chegar à casa
Com um pouco de pão.
Chegar humilhado,
Ser recebido a insultos.
Perder moral,
Junto à mulher e filhos.
Tudo isso percebi, Manuel,
Ao ver o brilho de teus olhos
Quando,
Ao invés da esmola triste
Te dei trabalho
Tudo adivinhei
Quando minha Irmã (a Irmã Chuva)
Fez chover
Na terra estorricada de tua alma (Carta 2-3/3/1966, III, I, p. 170)

Chuva, dá um jeito
De abrir goteiras
Em todo o meu corpo,
De gelar meus ossos,
De alagar a minha alma.
Mas deixe em paz
Os mocambos de minha gente
Que precisa descansar
Da realidade triste
E esquecer no sono
A fome impertinente (Carta 20-21/3/1966, III, I, p. 204).

A dor das classes privilegiadas.

Tanto rosto
E nenhum olhar.
Tantos lábios
E nenhum sorriso
Tanta aparente presença
Tanta ausência real (Carta Circular 21-22/02/1966, III, I, p. 151).

Há ruas intransitáveis
Em que ninguém se encontra,
Ninguém se vê,
Ninguém se ama.
E há ruas,
Humildes ruinhas (neologismo helderiano),
Gostosas toda vida,
Onde pode até sair briga,
Mas briga de faz-de-conta,
Pois todo mundo é irmão (ibidem).

Quando encontro
Criaturas errantes
No país do ódio,
- cheias de travos,
De amargura,
Ou, o que é mais triste,
De gelo,
De frieza,
E indiferença ?
Sinto uma vontade imensa
De levá-las nos braços
Ao condado do amor (ibidem).

Por que me afligem tanto
Vidros embaciados?
Não deixam de ser
Imagem angustiante
Do pecado contra a luz (Carta Circular 20-21/03/1966, III, I, p. 203).

Se eu pudesse,
À noite
Nenhuma casa
Se fecharia de todo...
Casa nenhuma deixaria de ter
Uma luz amiga
Inspirando confiança à distância...
Quando os portões e as portas se fecham
E a luz se apaga,
De um certo modo
Cada família
Se tranca no seu egoísmo (Carta Circular 02-03/4/1966. III, I, p. 234).

A solidão.

Helder, que não é sociólogo, mas observador arguto da realidade, aponta a solidão como a grande dor das classes privilegiadas. Uma solidão que cria um mal-estar mal definido. Em seu livro ?O Mal-Estar de uma Civilização?, o psicólogo Sigismundo Freud (1856-1939), já no início do século XX, descreve a troca de liberdade por segurança, a regulação do prazer em nome do progresso e o recurso sempre maior à repressão. Nisso insinua, a seu modo, a perspectiva da solidão. E o filósofo polonês Zygmunt Bauman, em seu primeiro livro, intitulado ?O Mal-Estar da Pós-Modernidade? (um título alusivo ao trabalho de Freud) recorre ao mesmo pensamento, acrescentando que a tensão entre a liberdade e a estabilidade do estado, da família, do emprego se agrava exponencialmente nos tempos que vivenciamos. Tudo se torna ?líquido? (termo preferido por Bauman), os sinais se tornam confusos, propensos de mudar com rapidez de forma imprevisível. Zygmunt Bauman descreve como ninguém a crescente ansiedade, o sentimento de desconforto, a insegurança, que toma conta do mundo e afeta principalmente a classe média. O que Helder intui no ano 1966, Bauman explicita em 2010, mais de quarenta anos depois: mais muros, mais portões eletrônicos, adesivos ?fumê? (Helder escreve vidros embaciados) em vidros de carros, janelas de casa, varandas, sacadas, cozinhas, mais senhas de acesso, câmaras de vigilância, entradas reservadas, comunicação só por telefone celular ou por Whatsapp, etc. Cria-se um mundo separado do mundo, um mundo enxuto, sem pedintes, sem vendedores ambulantes, sem caminhonetes convertidas em balcões de comércio. Um mundo de solidão em meio à multidão, um universo de telefones celulares que criam um mundo ?nas nuvens?, sem compromisso com a pessoa ao lado, sem pé no chão.
Esse mundo se impõe com tanta evidência que as pessoas ficam convencidas que não há como reagir, que não se consegue mudar as coisas, que somos impotentes. Uma situação de certo modo explosiva, pois pode criar o ódio contra tudo e contra todos (?me deixe em paz?) e abre a porta para um cego descontrole político. Junte-se a perspectiva de empregos precários e instáveis para a juventude emergente, o medo dos robôs a roubar postos de emprego, a galopante insegurança social, o medo de sinais confusos, propensos a mudar com rapidez de uma hora para outra.
Impressionante com Helder já capta, no ano 1966, sinais desse mundo emergente, em rápida mutação para horizontes de isolamento progressivo.

O valor perene das meditações do Padre José.

Não sei o que admirar mais nos poemas do Padre José, se é a sensibilidade e a capacidade de penetrar em sentimentos nem sempre confessadas, apenas sugeridas, ou a coragem de aguentar situações de extrema brutalidade (ainda há rios onde afogar mendigos? [Carta 30-31/3/1966, III, I, p. 229]) e de expor sua própria vida. Alguns poemas são quase impenetráveis de tão crípticos, outros aludem a fatos irrecuperáveis e situações desde muito passadas. Mesmo assim, os curtos poemas helderianos conservam um valor humano perene. Não podem cair no esquecimento. Merecem comentários.
(Observação: cito as Cartas de Helder Câmara pela Edição Cepe (Recife) do Governo do Estado de Pernambuco, Brasil. III, I significa: volume 3, tomo 1)

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21
Janeiro

Quando Helder Camara capta a dor da igreja.

POSTADO POR ADMIN ÀS 15:32


Eduardo Hoornaert.

Num dos mais pungentes poemas que o Padre José (veja meu texto anterior, intitulado: ?quando Helder Camara capta da dor do mundo?) dita ao Bispo Helder - um poema traspassado de compaixão e tristeza - a igreja católica aparece como um ?velho portão enferrujado?:

Velho portão enferrujado
Que já perdeste a memória
De abrir e fechar
E te espantas com a chave
Gostaria de abrir-te
Pela paixão que sinto
De ver portas e portões escancarados.
Mas devo respeitar o teu repouso,
A tua ferrugem, a tua segunda natureza
Que quase te transforma
Em muro (Carta Circular 2-3/03/1965, II,II, p. 238).

Escrito no início de março de 1965, um ano depois da posse de Helder Camara como Arcebispo de Recife, esse poema sintetiza dolorosamente a impressão que ele guarda de seu primeiro ano no ofício. Por mais que Helder o puxe ou empurre, o velho portão não deixa passar os pobres. Helder se lembra que, no Vaticano, os guardas suíças deixam passar cardeais, arcebispos e bispos, mas estendem a lança para impedir a entrada de pessoas não credenciadas. Ele se lembra das alucinações de 1962, quando viu o Imperador Constantino atravessar a galope a Basílica de São Pedro. Imagens confusas de procissões, mitras e estolas, grandiosas cerimônias na Basílica de São Pedro.
Helder, que sente paixão de ver portas e portões escancarados, mesmo assim deve respeitar o repouso do portão enferrujado, sua ferrugem, sua segunda natureza. Um portão que quase se transforma em muro, de tão desacostumado a dar passagem, que fica espantado pela chave, como se se tratasse de arma que pudesse ferir.
O Padre José bem sabe que chaves, para Helder, servem para abrir, não para fechar. Isso ele já sabe desde 1947, quando dita a Helder ainda simples sacerdote um poema atravessado pela paixão de abrir e acolher:

Senti-me triste comigo
Surpreendendo-me
com um molho de chaves na mão.
Se todos somos filhos do mesmo Pai
Para que fechar
O que deve ser comum?
Senhor,
Que ao menos meu coração
Não tenha portas,
Nem ferrolhos,
Nem chaves.
Que ao menos minha alma
 (Vigília 16-17/01/1947. Acervo do Instituto Dom Helder Câmara [IDHeC], Recife).

A dor da igreja, sentido por Helder, não se deve ao fato que ela perde fiéis para as igrejas evangélicas, nem ao fato que muitos a abandonam e se declaram ?sem religião?. Ele sente dor por experimentar que o velho portão enferrujado já não está escancarado a todos os meus irmãos. Para que fechar o que deve ser comum?

Helder Camara não é sociólogo nem historiador, mas suas imagens e intuições merecem a atenção de sociólogos e historiadores. A imagem da ferrugem (velho portão enferrujado), por exemplo. Os químicos dizer que o ferro é um material ?de transição?. Exposto ao ar e à umidade, se corrói e tende a voltar ao seu estado mineral original. A ferrugem é sinal de uma volta ?às origens?. Do mesmo modo, quando uma igreja ?enferruja?, ela sinaliza uma tendência de voltar à sua origem, ou seja, a um projeto eclesiástico formulado ao longo de um período que vai mais ou menos do século IV ao século XIII, assentado sobre o princípio do consenso clerical (veja um texto meu publicado neste blog em 07/08/2018, intitulado ?A cortina eclesiástica?).

A imagem do velho portão enferrujado pode chocar, mas retrata uma realidade vivida no dia-a-dia. Queiram ou não seus responsáveis atuais, a igreja tende a retornar à sua origem, aos tempos medievais. É doloroso perceber isso, como é doloroso sentir o pouco que se faz para reverter a situação.

Preparando-se a participar da quarta e última sessão do Concílio Vaticano II, o Arcebispo de Recife recebe mais uma visita do Padre José, que lhe dita o seguinte poema:

Sonhei que o Papa enlouquecia
Ele mesmo ateava fogo
Ao Vaticano
e à Basílica de São Pedro.
Loucura sagrada,
porque Deus atiçava o fogo
que os bombeiros, em vão,
tentavam extinguir.
O Papa, louco,
saía pelas ruas de Roma,
dizendo adeus aos Embaixadores
credenciados junto a Ele,
jogando a tiara no Tibre,
espalhando pelos pobres
o dinheiro todo
do Banco do Vaticano.
Que vergonha para os cristãos!
Para que um Papa
viva o Evangelho,
temos de imaginá-lo
em plena loucura! (Carta Circular 18-19/02/1965, II, II, p. 192).

Um poema realmente louco. Fala da loucura sagrada de um papa que joga a tiara (papal) no Rio Tibre, ateia fogo no Vaticano, diz adeus a todo o aparelhamento diplomático que o cerca e espalha pelos pobres o dinheiro todo do Banco do Vaticano. Loucura total. Não se sabe quem é realmente louco, se é o papa ou o Vaticano. O poema é claro: o Vaticano é um desvio, um caminho equivocado, uma loucura. É a prisão do papa. Louco não é o papa que joga a tiara no Rio Tibre, louco é o papa que a ostenta. Louco não é o papa que espalha pelos pobres o dinheiro todo do Banco do Vaticano, louco é quem acredita que um papa necessita de um banco para governar a igreja. E assim por diante. 
Aqui vai exposta, de modo pungente, a dor da igreja: que vergonha para os cristãos: para que um Papa viva o Evangelho, temos de imaginá-lo em plena loucura! Os católicos não sabem por onde se virar, se admiram tal ou tal papa que lhes parece bom, se rejeitam o papado de vez ou se atribuem sua dor a ver o papado tão vinculado à burocracia eclesiástica clerical. Não enxergam claramente onde está o nó da questão, o que Vaticano realmente representa nisso todo, pois as informações que recebem costumam andar envoltas pela hipocrisia que costuma envolver as informações que vêm de Roma.

Por que o papa não se desvincula do Vaticano? Por que ele não vai morar numa paróquia em Roma? Helder fala sério, pois ele mesmo, três anos depois de compor o poema que aqui comento, em 1968, se muda do Palácio Episcopal de Recife para uma sacristia. Mesmo assim, ele tem de se apresentar como um Dom Quixote para dizer algo que tenha impacto. Em vigílias angustiadas, o Padre José segura as rédeas do cavalo Rocinante no momento em que Dom Quixote penetra na Basílica de São Pedro. Ele está triste. Não irrompe a galope no recinto sagrado (como o Imperador Constantino numa alucinação de Helder Camara que data de 1962), mas mantém a lança em riste, pronto a investir contra qualquer um que se atreva a dizer que a Basílica de Roma é a casa de Deus.

O Padre José fala sem rodeios: o papa tem de sair do Vaticano, renunciar ao poderio sobre o Estado Vaticano, deixar de ser reconhecido como soberano pelos poderes políticos do mundo, renunciar ao ?primado de poder?, assumir o ?primado do amor? (como recomenda o evangelho), renunciar a modos capitalistas de administração financeira, não se apresentar como ?infalível?, não impor sua opinião, não se elevar acima dos demais. Assim será de novo o ?bispo de Roma?, o primeiro entre iguais, bispo entre bispos, sendo o primeiro por viver na cidade onde ? segundo a tradição ? o primeiro dos apóstolos estaria enterrado.

Em novembro de 1964, ao participar em Roma da terceira sessão do Concílio Vaticano II, o Arcebispo recorda dolorosamente que, em Recife, ele vive com Deus na casa da Mãe Igrejagovernada pela sogra:

Senhor, assim como o esposo leva a jovem esposa
Para uma casa que ela não conhece, governada pela sogra,
Tu me trouxeste para viver contigo
em casa da Mãe Igreja (Carta Circular 29-30/11/1964, II,II, p. 44).

Três meses depois, já de volta em Recife, as mesmas imagens doloridas. Deus lhe parece um padrasto. Pior: um sádico, um torturador:

Que estranho gosto possuis
de parecer Padrasto
quando Te sei
tão profundamente Pai?
Tu me deixas
sem saída e sem resposta.
Jamais Te senti um sádico
às gargalhadas
enquanto nos contorcemos
nas torturas que nos preparas.
O incrível,
em certas circunstâncias,
é o teu silêncio,
o teu mutismo,
quando uma palavra tua
um simples som,
mudaria tanto travo
em alegria interior. (Carta Circular 18-19/02/1965, II, II, 192).

O Arcebispo sofre a pior tortura: o silêncio de Deus. Ele ainda terá de passar por muitos anos pela prova da dor, da incompreensão e do silêncio de Deus para, finalmente, em 1978, na idade de 69 anos, encontrar a ?igreja em saída? (como se expressa o atual Papa). Mas isso já é tema de um próximo texto.

Por enquanto junto aqui algumas palavras baseadas num texto do teólogo espanhol Xavier Pikasa (acessível pela Internet), que consideram o que o abandono do Vaticano pelo papa pode significar para a igreja católica. Deixar o Vaticano não significa desprezar o papado nem o Vaticano, mas criar novos horizontes. Nada contra um Vaticano que atue como cúria diocesana do bispo de Roma. Mas há de se soltar o papa, ele excede de longe o Vaticano. Por sua autoridade moral, está em condições de lançar pontes de diálogo entre as culturas do mundo, de ser um sinal concreto da universalidade e da comunicação entre os habitantes da terra, em nome do evangelho. Alguém cujo trabalho consiste em tecer solidariedade, acolhida, fraternidade, sempre segundo a mensagem de Jesus.
Pois passaram os tempos dos grandes chefes religiosos, desde os Sumos Sacerdotes de Jerusalém até os Sacerdotes Sagrados do Egito, do México e de muitos outros lugares. O fato do papa se apresentar, no mundo de hoje, como o único a se manter nessa posição de ?grande chefe religioso?, não é um bom sinal. Isso pode alisar a vaidade dos católicos, mas é contraproducente. Pois a experiência do passado demonstra que a concentração de um poder religioso nas mãos de uma só pessoa não é precisamente a melhor forma de divulgar na humanidade uma mensagem, por valiosa que seja. Pelo contrário, a história mostra que a melhor divulgação de uma mensagem de valor, como a do evangelho, está na superação do poder. Que o diga Jesus em sua conversa com o Grão-Inquisidor no subsolo da Catedral de Sevilha, no famoso episódio do romance ?Os Irmãos Karamazov? de Dostoievski.

O Padre José dita e Helder escreve:

Deus atiça o fogo que devora o Vaticano.
Os bombeiros tentam em vão extinguir um fogo sagrado.

Um fogo que consume projetos de poder. O ?poder do papa? não é o poder de um homem situado acima dos demais, mas o poder da ?graça de Deus?. A revolução cristã se opera fora dos círculos do poder, em trabalhos de base. No momento em que conferências episcopais, dioceses e paróquias passam a se organizar ?sinodalmente? (outra expressão do atual Papa), sem recorrência a um poder que viria de cima, as coisas começam a funcionar a contento. Assembleias e encontros criam uma igreja oriunda de um diálogo continuado.
Está claro: se os católicos quiserem agir como cristãos, eles têm de sair de instituições ?imperialistas? de poder, dominadas pelo capitalismo, para voltar a caminhar nas intempéries da vida, com todos e todas que esperam dias melhores.


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21
Janeiro

Altas conversas na Capela Sixtina

POSTADO POR ADMIN ÀS 15:27


Eduardo Hoornaert.

Quando os fotógrafos do filme ?Dois Papas? finalmente são conduzidos por atenciosíssimos Monsenhores à Capela Sixtina, no Vaticano, eles não se contêm. Começam a fotografar freneticamente, à torta e à direita. Não sabem por onde se virar: se para o imenso afresco central, atrás do altar, onde Cristo, com poderoso braço musculoso, joga uma multidão de pecadores no inferno, ou, acima da cabeça, para as nove cenas que mostram a origem do mundo e da humanidade, assim como a expulsão de Adão e Eva do paraíso. Alguns se deixam fascinar pelos afrescos de ambos os lados, onde figuram pinturas maravilhosas de Botticelli, Ghirlandaio e Perugino, outros admiram a imitação de tapeçaria, da autoria de Rafael, que orna as paredes da Capela.

O cineasta Meireles também acha que a Capela Sixtina forma um excelente cenário para as altas conversas entre Hopkins e Pryce. Já fotogênicos por natureza, esses atores impactam ainda mais nesse ambiente. O filme não acena ao fato que a memória de dois papas paira sobre o lugar. A do Papa Sixto IV, que manda construir num tempo recorde, entre os anos 1477 e 1480, a Capela que leva seu nome, e a do Papa Júlio II, que, entre 1508 e 1512, reserva polpudas somas de moedas do Vaticano, cambiadas pela Casa Fugger na Alemanha, a pagar os melhores artistas da época. São exatamente essas generosas moedas do Papa Júlio II que tanto escandalizam o jovem frade agostiniano Martinho Lutero em sua visita ao Vaticano, poucos anos depois.

Será que Meireles se deixou seduzir pela pompa do lugar, como tantos e tantos turistas que se extasiam na Capela Sixtina, como se deixam fascinar ao atravessar as inumeráveis salas fotogênicas do Palácio do Inverno em São Petersburgo? A pobre ?Casa Branca? de Washington não tem como rivalizar. Versailles faz figura melhor, assim como o Palácio Windsor nos arredores de Londres.

Sim, penso que o esplendor do Vaticano tem de entrar numa avaliação criteriosa do filme ?Dois Papas?, assim como a arte triunfal renascentista ostentada na Capela Sixtina. É um detalhe, sim, mas um detalhe importante.

Onde fica Andrei Rublev (1360-1427), o famoso monge artista do Mosteiro Andronikov em Moscou, que não consegue pintar o quadro do ?Último Juízo? encomendado pelo Patriarca Ortodoxo para a Catedral da Anunciação no Kremlin em Moscou, pois, em contraste com Michelangelo, não se imagina um Cristo que jogue pecadores no inferno (veja o filme ?Andrei Rublev?, de Tarkovski 1966)?

E onde fica Helder Câmara, que por duas vezes cita, em suas Cartas Circulares, seu poema louco do ?papa que enlouquece??

Sonhei que o Papa enlouquecia
Ele mesmo ateava fogo
Ao Vaticano
e à Basílica de São Pedro.
Loucura sagrada,
porque Deus atiçava o fogo
que os bombeiros, em vão,
tentavam extinguir.
O Papa, louco,
saía pelas ruas de Roma,
dizendo adeus aos Embaixadores
credenciados junto a Ele,
jogando a tiara no Tibre,
espalhando pelos pobres
o dinheiro todo
do Banco do Vaticano.
Que vergonha para os cristãos!
Para que um Papa
viva o Evangelho,
temos de imaginá-lo
em plena loucura!

(Carta Circular 18-19/02/1965, II, II, p. 192, repetido em 4-5/5/1974, VII, I, pp.128-129. Cito pela edição Cepe, de Recife, em fase de elaboração. Assim o texto de 1974 só existe, até hoje, ?on line?).
 
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