de: Francisco
para: Carlos R Carvalho

 Quem tem medo da razão? - FRANCISCO BORBA RIBEIRO NETO


 
Caro Beto:
Eu ouvi comentário do dentista sobre esta manifestação acadêmica contra a presença do Papa na universidade, enquanto era atendido no consultório.
Não conheço detalhes do caso 
De qualquer maneira, na atualidade, parece ser uma manifestação inusitada.
Eu conheci uma manifestação de cidade do interior de MG(Resende Costa) para impedir que os crentes  lá pregassem e lá permanecessem..
Trata-se de algo estranho 
 No entanto, podemos recordar que foi o Papa, quando era cardeal, que condenou Leonardo Boff  ao silêncio . Boff foi calado mesmo. Até hoje continua banido dos meios eclesiásticos oficiais..
Foi, também, o grupo de Ratzinger que procurou aniquilar as comunidades eclesiais de base,  reduzindo-as a prolongamento da sacristia.O combate intransigente à Teologia da Libertação minou a atuação dos grupos católicos progressistas.
Nesta mesma linha de atuação, este grupo  esmilinguiu o Concílio Vaticano II. Os avanços conseguidos pelo Concílo foram detidos e os costumes pré-concilares foram restabelecidos.
Algumas perguntas:
 Como estão as práticas ecumênicas sob Bento XVI ?
As missões cristãs  e a catequese que rumos estão tomando?
O compromiso com o povo sofredor como está sendo assumido?
Quais as diretrizes para a evangelização de um mundo globalizado?
O que está sendo feito para promover a partilha dos bens(culturais e materiais) entre os povos e estabelecer um mundo  tal qual é  pedido nas Bem-aventuranças?
 Vejo  que as vozes proféticas são confinadas na Igreja de Bento XVII.Eles querem negar a necessidade do "aggiornamento", de que falava João XXIII.
De qualquer maneira, parece inusitado vetar a presença do Papa numa universidade. Será este veto  um sinal dos tempos?
 
Francisco Resende
de: Carlos R Carvalho
para: Aamigos & Amigas
 (Polêmica Papa e Universidade) Quem tem medo da razão? - FRANCISCO BORBA RIBEIRO NETO

 

Quem tem medo da razão?

FRANCISCO BORBA RIBEIRO NETO

Um dos responsáveis pelo protesto contra o papa disse que ele usa a razão como um cavalo-de-tróia para entrar no mundo da ciência

EM JANEIRO, no mundo todo, jornais noticiaram um disparatado ataque à liberdade de expressão. Numa grande universidade pública, um grupo fundamentalista, por meio de protestos que incluíram a invasão da reitoria, impediu o acadêmico mais influente da atualidade de participar da aula magna de início do semestre.
A universidade era La Sapienza, em Roma (Itália), o grupo fundamentalista era de militantes anticatólicos e o acadêmico era Joseph Ratzinger, professor universitário considerado brilhante e que, como Bento 16, se tornou o pensador mais lido e discutido da atualidade.
O abaixo-assinado dos professores tinha 67 assinaturas (entre mais de 4.500 professores) e os estudantes eram uma centena. O papa foi defendido na Itália e no mundo, inclusive por críticos tradicionais da igreja, o texto foi lido e aplaudido na universidade e mais de 200 mil pessoas participaram de um ato de solidariedade ao papa na praça São Pedro. Mas o episódio faz pensar.
O termo fundamentalismo refere-se a uma posição que se recusa ao diálogo e à argumentação racional, chegando à violência para tentar impor-se. Normalmente, é aplicado a grupos religiosos e étnicos que não admitem visões de mundo que consideram destrutivas a eles e seus valores.
O episódio de La Sapienza, contudo, mostra-nos que o fundamentalismo não é exclusividade desses grupos, podendo chegar a quem se considera defensor da liberdade de pensamento e da mentalidade moderna. Bento 16, de certo modo, já havia denunciado esse perigo em Regensburg (Alemanha), ao dizer que toda religião que não interage com a razão se torna violenta.
A passagem foi tida como um ataque ao islamismo, mas é um alerta que serve a todas as crenças -inclusive à aparente não-crença, que muitas vezes disfarça uma crença verdadeiramente irracional.
Disponível no site do Vaticano, o discurso não proferido propõe que, numa sociedade plural, o papa (e a própria igreja) "fala como representante de uma comunidade crente, na qual, durante os séculos da sua existência, amadureceu uma determinada sabedoria da vida; fala como representante de uma comunidade que guarda em si um tesouro de conhecimento e de experiência ética, que se revela importante para toda a humanidade: nesse sentido, fala como representante de uma razão ética".
O que está sendo proposto aqui não é uma confissão religiosa, mas uma "razão ética". Não uma ética de convenções e preconceitos, mas, sim, a sabedoria da vida e as experiências concretas de uma comunidade humana. Trata-se, portanto, de uma proposta aberta à indagação racional e à comparação com outras propostas.
Em seu discurso, Bento 16 diria ainda: "O homem quer conhecer; quer a verdade (...). Mas a verdade nunca é apenas teórica. Agostinho (...) notou uma reciprocidade entre "scientia" e "tristitia': o simples saber deixa-nos tristes. E, realmente, quem se limita a ver e apreender tudo aquilo que acontece no mundo acaba por ficar triste".
A tristeza, a desilusão e a dor diante do sofrimento, do mal, das falências do mundo humano não são sombras que ameaçam continuamente nosso olhar sobre o mundo? Esse é um discurso dogmático e confessional ou um olhar atento à experiência cotidiana de quem olha criticamente a realidade?
O papa continua: "Verdade significa mais do que saber: o conhecimento da verdade tem como finalidade o conhecimento do bem (...). A verdade nos torna bons, e a bondade é verdadeira: tal é o otimismo que vive na fé cristã, porque a esta foi concedida a visão do "Logos", da Razão criadora que, na encarnação de Deus, se revelou conjuntamente como o Bem, como a própria Bondade".
Um dos responsáveis pelos protestos contra o papa disse que ele usa a razão como um cavalo-de-tróia para entrar no mundo da ciência.
Bento 16, de fato, nos convida a recuperar o horizonte "sapiencial" da razão, não reduzi-la a um instrumento de poder e dominação, mas torná-la busca pelo amor e pelo bem. Esse é um estratagema para instaurar o obscurantismo ou um convite, vindo de séculos de lutas e esforços da inteligência humana, lançado ao coração do ser humano?
Dizem os cristãos que o encontro com Cristo dá a coragem para olhar - com esperança - para nós mesmos, nossas contradições, nossos medos e limites, mas, sobretudo, para nosso desejo de amor e plenitude. Esse "realismo" e essa "racionalidade" são a grande contribuição da igreja numa sociedade pluralista. Afinal, quem tem medo da razão? (FSP, 1.2.2008)
 


FRANCISCO BORBA RIBEIRO NETO, sociólogo e biólogo, é coordenador de Projetos do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br


Painel do Leitor da Folha, 2.2.2008:

Razão e fé
"Em relação à opinião exposta em "Tendências/Debates" contra o repúdio ao papa na universidade italiana La Sapienza ("Quem tem medo da razão?", 1º/2), digo que razão e fé são, sim, valores incompatíveis. Antagônicos na verdade.
É cada vez mais comum encontrar religiosos alicerçados no belo discurso contra a patrulha ideológica e o totalitarismo epistemológico.
De fato, a liberdade de pensamento e de expressão são valores caros às sociedades civilizadas, mas não devem servir de escudo para o discurso religioso invadir o ambiente acadêmico.
É irônico que esse discurso seja atualmente utilizado pelo mesmo grupo que outrora se ocupava de queimar livros ou mesmo pessoas."
MARCELO OTAVIO CAMARGO RAMOS (Botucatu, SP)

"O texto belicoso de Francisco Borba Ribeiro Neto relata só parte do que aconteceu na universidade La Sapienza, em Roma. Uma importante parte omissa é que os professores contrários à presença do papa explicavam que ele seria bem-vindo, como qualquer outro palestrante, ao longo do ano. Não achavam bom que estivesse palestrando na abertura do ano acadêmico.
Quem conhece a confusa situação política italiana sabe quanta interferência existe nessa política por parte do Vaticano. Informações parciais não ajudam no confronto construtivo."
MARCELO NETTO RODRIGUES (São Paulo, SP)