em 1962, também como sacerdote enviado como missionário da Igreja Católica
para a América Latina.
Tem um breve histórico e durante a entrevista, muito bem conduzida, discorre
sobre diversos assuntos; religiao, filosofia, história, ditadura,
atualidades, cotidiano.
Uma leitura no mínimo interessante! :)
Abraços a todos e uma ótima semana!
Fernando Van Woensel
difícil,
não sei o quê... Mas
eu adorava! Eu tenho uma facilidade não
de falar, mas de ler algumas
línguas. Eu me esforcei e
criei essa habilidade, mas essa habilidade também foi dada
pelo lugar e
pela situação onde
eu nasci. Depois fui viajar para a França e vi que
os franceses não têm iss
ENTREVISTA COM EDUARDO HOORNAERT
Nota explicativa
Eduardo Hoornaert nasceu em Bruges, Bélgica. É formado em Línguas
Clássicas e História Antiga pela Universidade de Lovaina. Trabalhou dois
anos na África como professor. Desde 1958 vive no Brasil. Por mais de 30
anos foi professor de História do cristinianismo em diversos institutos
teológicos do Nordeste. Atualmente reside em Salvador. É membro fundador
da CEHILA (Comissão de Estudos de História da Igreja na América Latina).
Autor de inúmeros artigos e livros, entre os quais podemos citar:
Missie em kolonialisme in Latijns Amérika (1973); Verdadeira e
falsa religião no Nordeste (1973); Formação do catolicismo
brasileiro, 1550-1800 (1974); História da Igreja no Brasil:
primeiro período (1977); A Igreja no Brasil Colônia
(1978); Crônica das Casas de Caridade fundadas pelo Padre Ibiapina
(1ª edição: 1981 / 2ª edição: 2006); Kirchengeschichte Brasiliens
(1982); The Catholic Church in Colonial Brazil (1984); Padre
Ibiapina e a igreja dos pobres (1984); Voz do Padre Cícero (1985);
A memória do povo cristão (1986); O cristianismo moreno do
Brasil (1987); Essa terra tinha dono (1990); História da
igreja na Amazônia (1992); O movimento de Jesus (1994);
História do cristianismo na América Latina e no Caribe (1994);
História da Igreja na América latina e no Caribe (1995); Cristãos
da terceira geração (1997); Os anjos de Canudos (1997); Brasil
indígena: 500 anos de resistência (2000); Hermas no topo do mundo
(2002); Origens do cristianismo: uma leitura crítica (2006).
A entrevista ora apresentada foi realizada em fins de julho de 2006, no
Hotel Jardim, por ocasião da presença de Eduardo Hoornaert em Fortaleza
(Ceará) para o lançamento de dois livros organizados por ele: As
origens do cristianismo: uma leitura crítica, apresentado ao público
numa mesa redonda sediada no Seminário da Prainha; e a segunda edição da
Crônica das Casas de Caridade fundadas pelo padre Ibiapina,
editada na Coleção Outras Histórias do Museu do Ceará (volume 39) e
divulgada a partir de uma conferência proferida pelo professor no
referido Museu.
A transcrição das fitas cassetes que continham a entrevista ficou a
cargo de Nívia Maria Gomes Soares. O roteiro de perguntas foi planejado
pelo professor Régis Lopes (do Departamento de História da UFC),
especialmente para o Dossiê “Religiosidade” da Revista Trajetos, em
acordo prévio com o Professor Eduardo Hoornaert. O tête-à-tête, no
entanto, foi realizado por mim, na manhã do dia 31 de julho de 2006. No
desenrolar da conversa, acabei acrescentando outras perguntas ao roteiro
e realizei posteriormente a edição da entrevista, que passou pela devida
autorização do entrevistado. Já o conhecia por meio de algumas
palestras, alguns textos de sua autoria e pelas contribuições em 2005
como assessor do IV Encontro Estadual do Curso de Formação à Distância
do IMOPEC (Instituto da Memória do Povo Cearense), entidade onde atuo.
No entanto, essa entrevista com Eduardo Hoornaert teve um outro sabor,
diferente dos encontros anteriores. Foi uma conversa longa, muito
agradável e esclarecedora de vários aspectos da sua trajetória
intelectual, bem como de vários acontecimentos que marcaram a História
mais recente da Igreja Católica no Brasil e na América Latina. Nesse
sentido, registro a grande generosidade do Professor Eduardo em me
receber para uma manhã inteira de prosa e em dispor esse material para a
publicação, a fim de que um público maior possa também partilhar das
suas enriquecedoras experiências de vida.
Cristina Rodrigues Holanda
Mestre em História Social pela UFC /Assessora do IMOPEC (Inst. da Memór.
do Povo Cearense).
Cristina Holanda: Professor Eduardo, como foi nascer numa cidade
medieval?
Eduardo Hoornaert: Foi ter sensibilidade justamente pela
História. Eu não gosto de cidades ou países que não tenham essa dimensão
histórica. Por isso eu não gosto muito dos Estados Unidos. É um lugar
onde você raramente vê um documento realmente histórico. Tudo é muito
ralo, tem cem anos, duzentos anos. É por isso também que eu gosto de
morar em Salvador, onde você tem coisas, prédios, edifícios, igrejas, do
século XVI. Gosto também de vir em Fortaleza. O forte [inicialmente
denominado Shooneenborch, depois Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção]
me lembra o tempo dos holandeses e o surgimento da cidade. Daí o nome
For-ta-le-za. Eu adoro isso! Deve ser gosto de infância. Eu adoro!
Quando eu vou para uma cidade, eu sempre quero situar historicamente
essa cidade.
C.H: E como foi nascer num país pequeno, rodeado de grandes países?
E.H:
Fundamentalmente foi um convite, uma
espécie de instigação, de provocação
para estudar outras
línguas. A nossa “linguazinha” - a língua flamenga
– é da Idade Média. Na Holanda já
se falava a mesma língua, mas
diziam que de maneira melhor.
A nossa é considerada um dialeto. Há 30
quilômetros de onde eu nasci
era a França. A 150 quilômetros, do outro lado,
era a Alemanha. Se íamos para a capital da
nossa própria terra – Bruxelas -
já se falava francês. Dezessete quilômetros ao norte, estava
a Holanda, onde dominava o
protestantismo. A Inglaterra ficava a doze
quilômetros da
nossa casa. O mar da
Inglaterra ficava a 40 quilômetros.
Então, a Inglaterra, França, Alemanha
ficavam pertíssimo da gente.
Nós vivíamos lá naquele cantinho, ao lado de grandes
países. Eu nunca tive
assim um nacionalismo
muito forte porque
eu sabia muito bem que éramos um
país pequeno, que
tinha que conviver
com outros países
mais fortes. O francês tinha
um sentimento de identidade muito
grande, como o alemão e o inglês. Todos eram
assim. Esses povos
tinham um sentimento de que eles eram o
centro do mundo. A gente
na Bélgica nunca teve isso. Seria ridículo! Afinal
somos um país da dimensão
de Alagoas, um estado brasileiro.
Então, como ter pretensões? Nasci, então, numa terra
católica, medieval e muito
tradicional. Era tão pequena
que eu percebi - todo mundo
ajudava para eu perceber isso - que
tinha que aprender rapidamente o
francês. Já tinha
aula de francês no primário. Lembro muito bem quando chegava em casa e o
meu pai ia verificar o
meu boletim. A primeira coisa que ele olhava
não era a nota de
religião ou não sei
mais o quê. A primeira
coisa que
ele olhava era a nota de
francês e dizia: “Está bem em francês? Se está bem
em francês, está bom!”. Depois
fiz aulas de alemão, de inglês. Eu tive que
aprender muito
cedo essas línguas. Muitos
dos meus colegas não
gostavam dessa tarefa, porque achavam o, só falam o francês. O americano
só fala inglês, o alemão só
fala alemão, o
brasileiro só
fala português. Um
livro em francês,
alemão ou
inglês, eu
leio com a mesma facilidade. Para
um historiador isso é muito
bom, pois
fundamentalmente História é leitura. É ler documentos.
C.H:
Quantas línguas o senhor domina?
E.H:
Há uma diferença entre falar e ler. Lendo, eu
tenho facilidade numas sete. Foi por essa facilidade de aprender outras
línguas que eu fui escolhido pelas autoridades, pelos professores do
seminário, para ir para a Universidade. Estudei latim e grego no seminário.
Essa foi uma outra coisa que caiu do céu, porque o grego e o latim me ajudam
muito hoje na leitura de documentos a respeito da história do cristianismo.
Por exemplo, eu sei o grego, mas às vezes tenho dificuldades, diferente da
minha leitura do português. Mas estudando, lendo com calma, eu destrincho. O
hebraico, infelizmente, eu não leio nada, mas o grego e o latim eu sei
destrinchar. Como isso facilita a vida profissional, não é? Desde o tempo de
estudante eu contestava de vez em quando um professor. Eu dizia: “Professor,
mas eu li aqui o texto em grego, que diz outra coisa”. Aí ele ficava meio
sem graça e dizia assim: “Não! Vem no meu quarto depois da aula, que eu vou
te explicar melhor”.Quando eu chegava no quarto, ele inventava umas
desculpas, que não tinha tempo para me atender etc. Foi só assim que eu
percebi que essa fundamentação que eles davam na igreja tinha muita
insegurança e isso me incentivou a estudar História.
CH: Como eram as suas leituras na infância?
EH:
Eu sou filho de um professor de colégio, esses
colégios de segundo grau. Então a nossa casa era repleta de livros. Lá em
Bruges, cidade da Bélgica, os verões são muitos longos, quer dizer, o sol só
deixa de aparecer as nove, dez ou onze horas da noite. Fosse inverno ou
verão, eu e meus irmãos tínhamos que dormir regularmente às nove horas.
Tínhamos uma educação muito disciplinada, muito rígida. Na hora de dormir,
eu aproveitava para pegar um dos livros do meu pai. Embaixo dos lençóis, eu
abria o livro. O meu pai não disse nada, nem minha mãe. E continuei a ler.
Li muito e fiquei com paixão pelos livros por toda a vida. Isso vem da
infância, sem dúvida. Acho que a coisa mais importante da minha infância foi
essa descoberta dos livros.
C.H:
Como era o ensino de História na época da sua infância e da sua
adolescência?
E.H:
A
política pública daquele tempo que
eu vivi era de privilegiar o
ensino primário. Isso
era fundamental! O ensino primário
era muito bom! O
professor, nas aulas de História, inculcava nos alunos
um amor à terra. Nós, como
estudantes, íamos com ele para ver um prédio
histórico e depois tínhamos que desenhar aquele prédio.
Nós já saíamos, inclusive,
com lápis e papel nas
mãos. Éramos crianças de menos de quatorze anos. A gente ia
e já fazia o desenho. Depois
levávamos o desenho para pintar em casa.
Quer dizer,
pintávamos a nossa terra, a nossa
memória, o que a nossa
terra tinha de
monumento, de coisas importantes.
C.H: E o ensino de História na
Universidade?
E.H:
Eu entrei no seminário muito cedo. Eu fiz o ensino secundário e resolvi ir
logo para o seminário. Todo ano eram muitos os seminaristas que se
candidatavam para a Universidade, mais ou menos uns cinqüenta. E destes, uns
três, em média, conseguiam entrar. Eu fui um dos privilegiados. Fui estudar
na Universidade de Lovaina. Lá, para mim, era um paraíso de estudo, de
conhecimento. Cada dia tinha conferências. Vinham conferencistas de vários
países, sobretudo da França. E eu bebia tudo isso. Adorava aquele ambiente
que nos proporcionava estudar História de forma aprofundada. Tínhamos um
professor de heurística - o estudo das fontes - que era maravilhoso. Lembro
dele até hoje. Ele dizia: “A heurística não vale nada sem a hermenêutica,
sem a interpretação”. Até hoje eu tenho isso como orientação básica. Não se
pode pegar um documento, como muitos fazem, e pensar que o documento diz
tudo. O documento não diz nada, você tem que questioná-lo.
C.H: E como surgiu a sua vocação para o
sacerdócio?
E.H:
A vocação para sacerdócio, eu acho que tem a ver primeiramente com a
educação que eu recebi em casa. Tem estudantes hoje que vão para o seminário
e acham muito estranha aquela disciplina, aquele rigor. Eu não achei nada
difícil, porque o meu que não permitia discussão. O segundo elemento foi
tipicamente religioso. E a terceira coisa, analisando hoje, eu acho que foi
o elemento artístico. Parece ridículo, mas o que me fez optar pelo
seminário, entre as outras coisas, foi o fato de eu ter me tornado o líder
de um grupinho de estudantes que faziam cartazes de Natal. Naquele tempo
todo o material era passado num mimeógrafo. E conhecíamos um seminarista que
tinha um mimeógrafo. Ele me disse: “Aparece no seminário para pegar os
cartazes e distribuir”. Quando eu cheguei no seminário, que era num velho
convento, os seminaristas cantavam, cantavam muito. E eu achei uma coisa tão
linda, tão maravilhosa! Isso me deixou uma impressão de outro mundo. Senti
uma paz! Há umas coisas na alma humana que a gente não sabe descrever, mas
eu me lembro bem que a vontade de ir mesmo para o seminário surgiu ao ouvir
aquela música (risos)! Eu não tive problemas com disciplina. Então, a Igreja
não foi difícil para mim, nem na questão sexualidade. Afinal, tudo já era
muito reprimido fora do seminário. Juntou-se a facilidade de lidar com a
disciplina da Igreja, com aquele sonho religioso e com a arte, especialmente
a música. O prédio bonito do seminário também contou. Há coisas que
intelectualmente não dá para compreender, mas que estão na vida da gente.
C.H: Como foi a sua experiência na África,
entre os anos de 1955-1957. O que o levou a morar nesse outro continente?
E.H:
No
seminário tudo era regido
pelo sino. O
sino tocava para tudo: para tomar café, para rezar, para ir à missa etc.
Um dia, no meio da
tarde, eu me lembro
bem, tocou o sino e todos os
seminaristas se reuniram no auditório. Isso
era uma coisa
totalmente fora do regulamento.
Quando chegamos, uns duzentos e
tantos seminaristas lotando o recinto, o Reitor disse assim: “Está aqui entre
nós um padre
que foi para a
América Latina. Ele foi com uma
missão do Papa. O Papa
achou que a América Latina era uma
terra católica, mas
que corria três grandes
perigos: o protestantismo, o
espiritismo e o comunismo...”.
C.H: Esse episódio foi em que ano, o senhor
recorda?
E.H:
Isso foi quando em 1954, eu estava no último ano do seminário. Pois bem, o
Reitor virou-se para o quadro negro e disse: “Na Bélgica há um padre para
500 pessoas. Na Venezuela, há um padre para dez mil”. Eu pensei: “Mas não é
possível! Então ser padre na Venezuela exige vinte vezes mais a missão de
evangelizar do que na Bélgica!” O Reitor continuou falando: “Quem quiser,
quem pensar em realizar essa missão, pode falar com o Bispo”. Quando
terminou essa conferência, nós subimos para os nossos quartos. O Bispo de lá
tinha essa iniciativa de tomar o café da manhã com os seminaristas, como Dom
Aloísio tinha esse costume aqui. O objetivo era saber como eram os
seminaristas. Então, eu me inscrevi para falar com o Bispo no café da manhã.
Umas três semanas depois, quando fui chamado, o Bispo disse: “O que você tem
a dizer?”. Eu disse: “Olha, eu gostaria de ir para a América Latina”. Ele
respondeu: “Ah! Ótimo! Muito bom! Tem um colégio ligado à Universidade, onde
se aprende o português e o espanhol, que são as principais línguas faladas
na América Latina! Vá lá! Estude! Reze muito! Etc, etc, etc”. Essas coisas
que Bispo sempre diz! Então, me ordenei padre. Duas ou três semanas depois
da ordenação, chegou uma carta na minha casa, vinda do Bispo, avisando:
“Chegou aqui o Superior das Missões no Congo Belga, na África. Você estudou
grego e latim e o Superior precisa de professores, nessas áreas, para o
colégio que ele administra no Congo. É bom para você ir lá, porque você
queria mesmo ir para um país tropical, um país quente, e lá também é quente
(risos).”O Congo era uma colônia belga, mas logo depois fizeram a
independência. Fui chamado para ir a Bruxelas encontrar o Superior. Era uma
missão tão grande que ele mandava na própria companhia aérea belga que fazia
as viagens para o Congo, de tanto que mandava padres e freiras para lá. Ele
viajava o tempo todo e enchia, digamos, um terço do avião com o pessoal
dele. Então eu recebi duas grandes malas de ferro, cheias de coisas para
viver nos trópicos: roupas (tudo branco, naturalmente); batinas brancas;
sapatos... Fui preparado como um militar saindo para uma expedição (risos),
com duas malas de ferro. O Superior telefonou para o diretor da companhia
aérea e disse: “Inscreva o Eduardo Hoonaert dia tal, hora tal, saindo de
Bruxelas para Quixassa”. Foi a minha primeira viagem aérea. Era 1955. A
minha impressão desse colégio foi péssima, péssima, péssima... Aquele era um
colégio grande, voltado para os colonizadores e ao lado havia o mundo negro,
o mundo africano, desprezado. Os padres viviam a serviço daqueles brancos.
Esses padres tinham uma paróquia, instalações, um colégio, uma hospedagem
maravilhosa, garçons sempre nos servindo... Mas não gostei! A independência
do Congo Belga foi dois anos depois da minha chegada, em 1959. Então fiquei
esses dois anos na África, numa missão muito ligada ao governo belga. A
Igreja fazia tudo o que o governo determinava para que o subsídio dos padres
fosse repassado. Um dos requisitos do governo era manter padres com diploma
universitário, como era o meu caso. Depois de dois anos, no dia do meu
retorno à Bélgica, eu telefonei para o Bispo e disse: “África nunca mais! Eu
quero falar com o senhor! Não quero mais voltar porque lá está tudo errado:
negros de um lado, brancos do outro, tudo dividido... Os negros vivendo em
grande pobreza, enquanto a gente tinha cinco carros à disposição, com
gasolina, tudo de graça. Aí o Bispo disse: “Está certo, vá retomar os seus
estudos sobre as línguas da América Latina”. Mas eu senti que o entusiasmo
do Bispo estava diminuindo, porque ele achava que a América Latina era um
continente perigoso para os padres europeus. Dizia que as mulheres
latino-americanas eram muito lascivas e que muitos padres se sentiam
tentados a largar o sacerdócio por causa delas. Colocava muito a culpa na
mulher latino-americana (risos). Então, nós não podíamos ir sozinhos.
Tínhamos que ir para a América Latina em equipe, dormir sempre em equipe,
naquele lugar determinado... Eu percebi que o Bispo estava muito cheio de
dedos, mas deixou que eu viesse para cá em 1958. Cheguei em João Pessoa no
dia 04 de setembro de 1958.
C.H:
Só mais uma pergunta referente à sua ida ao Congo: já era pré-determinado
que seriam dois anos de missão?
E.H:
Sim. Já era determinado que seriam períodos de dois anos. A gente podia ter
renovado. Eu me neguei a renovar e aí retornei para a Bélgica e solicitei o
meu envio para a América Latina.
C.H: Retornemos, então, à sua chegada em
João Pessoa...
E.H:
Eu cheguei com algumas certezas. Eu era um padre católico, acreditava no
Papa, na Igreja e nos três perigos da América Latina: o protestantismo, o
espiritismo e o comunismo. Também era certo de que os países
latino-americanos eram muito atrasados. Então, por exemplo, quando eu
cheguei em Recife e fui para João Pessoa, numa estrada que na época era em
parte de terra batida, eu disse: “Isso é mesmo um atraso! Que país atrasado!
(risos)”. Eu tinha uma mentalidade perfeitamente colonial, embora tivesse
reagido diante da questão da África, talvez porque lá eu senti, digamos
assim, a muralha intransponível entre brancos e negros. Aqui as coisas eram
muito diferentes. Aos poucos, no entanto, esse ranço colonialista foi se
desmanchando. Foi um processo lento, onde as minhas certezas foram caindo
por terra. A questão fundamental nesse processo foi a observação. E eu
realmente sou um homem muito curioso, muito observador. Eu gosto de me
situar. Agora eu diminuí isso com a idade, mas quando eu era mais novo, eu
não gostava de chegar numa cidade sem me situar. Por exemplo, a primeira vez
que eu fui ao Rio de Janeiro, eu peguei um bonde e fiz todo o percurso nesse
bonde. Tudo, tudo, tudo, eu observava, chegava no meu quarto e anotava as
coisas que eu via por onde eu passava, para me situar. Eu sempre fui assim.
C.H:
O senhor disse que sua viagem ao Brasil foi realizada em equipe...
E.H:
Sim. Éramos três, mas o terceiro teve problemas de saúde na época da nossa
partida e só chegou depois. Um dos meus colegas ficava em casa e dizia:
“Quando o Bispo vem nos chamar?”. Outra sabedoria brasileira: a maturidade
de esperar. O Bispo daqui percebia que nós éramos muito verdes, como se diz.
Muito imaturos para enfrentarmos uma nova situação. Mas nós não pensávamos
assim. Na Igreja, tudo passa pelas nomeações: você é professor, vigário,
assistente dos movimentos católicos etc, a partir das nomeações. Eu e meu
colega ficávamos nervosos porque o Bispo não nos chamava. Ele nos deixou
numa casa onde tinha uma senhora preparando nosso almoço. E não fazia nada.
Ah! Mas eu até que adorava isso!Eu adorava porque eu pegava as minhas
trouxas de manhã cedo e vinha andando pela cidade e vendo as coisas. Eu
andava pela rua, pela feira, tomava um bonde. Naquele tempo também tinha
bonde em João Pessoa, o bonde no centro. Eu via tudo e ficava impressionado.
Tem umas coisas que a gente experimentava que eram totalmente fora do
esquema da gente. Por exemplo: o Brasil era um país católico, mas um país
católico que não correspondia ao meu esquema. Por sinal, as pessoas não iam
à missa (risos), mas era todo mundo católico. Que catolicismo é esse? Então,
os meus esquemas mentais foram se desmanchando. Outra coisa que me salvou,
foi que diante dos meus colegas, eu dizia assim: “Depois de cinco anos, se
eu conseguir entender alguma coisa do Brasil, eu vou me sentir muito, muito
feliz”.Quer dizer, eu compreendi que esse país era tão diferente do que eu
já tinha conhecido, que eu tinha que aprender essas novas coisas. Então eu
pensei: “Se depois de cinco anos eu conseguir entender alguma coisa... Ah!
Que maravilha!” Alguns colegas europeus também faziam assim, mas outros que
eram nervosos, que queriam logo fazer as coisas a partir dos esquemas que
eles mesmos se impuseram – “Brasil é isso! Brasil é aquilo! Tem que fazer
isso! Tem que fazer aquilo!” – acabaram se perdendo. Não tinham que fazer
nada! Tinham que entender o país! Por isso é que, apesar de apreensivo, eu
estava também muito feliz de saber que o Bispo não estava tão apressado.
Aliás, ele se chamava Dom Manoel Pereira. Ainda está vivo. Era um homem
muito inteligente. Entendia a gente, pois tinha estudado na Europa. Entendia
o nosso caso e foi excelente, nos deixou muito à vontade.
C.H: E quando Dom Manoel Pereira resolveu
nomear o senhor?
E.H:
Ele começou a ver que eu tinha uma
certa formação intelectual e também gosto
pelos estudos. Ele
me nomeou professor de História
da Igreja, mas eu
nem falava português. Lembra daquelas famosas malas de ferro
que foram para
a África? Eu e meus dois companheiros de viagem viemos para o Brasil
com quinze malas. Chegamos de avião, mas as
malas vieram de navio. Quinze dias depois da
nossa chegada, as benditas malas apareceram. Das 15 malas, doze aproximadamente eram só de livros.
Como eu já disse
também, desde criança
eu gostava muito de ler. E
eu tinha entre
esses livros uma famosa história
da Igreja, tirada de um
escritor francês. E o Bispo perguntou: “Você tem
esse livro? Você leu?”
Eu respondi: “Li”. Ele retrucou: “Ah! Então você vai ser professor de História da Igreja (risos)!”. Mas
eu nem falava bem a
língua e passei a ter um grupo de cem
estudantes seminaristas lá
em João Pessoa. Acho que foi
muita generosidade ou
vontade dos alunos, que
pareciam gostar das aulas. Eu duvido
muito que entendiam a língua toda!
Mas pareciam gostar! Eu, inclusive, misturava português
com o francês. Talvez
eles achassem isso interessante, essa mistura. E uma coisa
que eu fiz desde o
começo das aulas foi tentar entender melhor a
história da Igreja no Brasil. E foi assim que
eu descobri o Padre Cícero.
C.H:
Como foi a descoberta do Padre Cícero?
E.H:
Foi uma
coisa muito,
muito interessante. É que nós éramos
muito disciplinados, muito utópicos. Nós éramos três.
Eu dava aula no seminário, mas
morava com os outros dois na paróquia. Eu
também fazia parte da equipe de
paróquia e toda tarde,
quando eu não
tinha aula no seminário, realizávamos um trabalho pastoral. Todos
juntos. Tínhamos uma paróquia operária, fora
de João Pessoa. O vigário dessa paróquia era
brasileiro, gente muito boa,
o padre Trigueiro. Ele
nos entregou essa área. Então
construímos lá duas capelas. Duas ou
três tardes por
semana, nós organizávamos uma expedição. Era
assim: nós pegávamos o carro, deixávamos o carro na porta
de uma rua e visitávamos todas as
casas daquela rua. Então
pegávamos roupas e quando era
por volta das cinco
e meia, íamos jantar e depois
fazíamos uma pequena reunião. O que
eu achei de mais impressionante era justamente
que, em quase todas
as casas tinha a frase:
“O Padre Cícero abençoe esta casa” (risos)!
Isso era por
volta de 1958-1959. Falamos com o Reitor
que tinha estudado na Europa e com outras pessoas da Igreja. Em
geral diziam: “Aquele Padre
Cícero é um embuste”. Uns
falavam que era um
padre esquisito. Enfim, sempre os
argumentos eram negativos, mas o
povo venerava esse padre.
Pensei: “Esse é um mistério que eu tenho
que desvendar,
porque quando começaram as minhas aulas,
falava-se apenas dos missionários europeus: São
Francisco, São Xavier, São Tomás... Os grandes missionários”. Eu pensava: “Também aqui
houve um missionário”. Mas os alunos
não sabiam absolutamente de nada. Repetiam que Cícero
era um padre
que não prestava. Era sempre a
mesma história. Até
que em 1964, eu
resolvi viajar para
Juazeiro do Norte. O Padre Murilo,
que faleceu agora, faz pouco
tempo, me deixou ficar quinze
dias no quarto
de hóspedes da casa dele. Sempre me tratou
de maneira muito amável e
me deixou com inteira
liberdade. Eu disse: “Olha,
eu vim aqui para entender melhor o
Padre Cícero, certo?”
Então, eu andava o dia
todo pela Rua do
Horto, observava os romeiros, tirava fotos... E soube que logo
antes de mim tinha andado
por Juazeiro um
pesquisador americano chamado Ralph Della Cava. O Padre
Murilo estava muito impressionado
com ele, porque o
Ralph tinha uma máquina de fotocópia. Então
ele chegava nos lugares
junto com um
rapaz que ele pagava
para ajudá-lo e começava a tirar cópias dos
documentos. Lembro do padre Murilo dizendo: “Olhe, ele levou toda a
documentação para os Estados
Unidos, porque ele tinha a
máquina copiadora”. Eu não
tinha máquina nenhuma, não tinha
condições de colher todo o
material que o Ralph levantou. Também não
era bem
isso que eu queria. O
que eu queria mais
era entender
como é que o povo vivia
essa fé no Padre Cícero.
Depois de uma semana, mais
ou menos, o Padre
Murilo me falou: “Olha, a diretora de um colégio
aqui de Juazeiro, Dona
Amália Xavier de Oliveira, quer nos convidar para um almoço”.
Eu já sabia que
ela tinha escrito
um livro sobre o
Padre Cícero. Um
livro muito bom: O Padre Cícero que eu conheci.
E gostei muito da postura dela, do conhecimento que
ela tinha. No fim do
almoço, ela tirou da gaveta um
documento. Ela disse: “Eu
estou vendo que o senhor está interessado na História. Tem aqui um
documento que eu guardo há
muito tempo. Eu recebi
do professor Marrocos, mas eu
não consigo editar esse material.
Isso devia ser
publicado, porque eu vejo que é
um documento fundamental para conhecer a vida do
padre Ibiapina, que foi mentor
do Padre Cícero. O Padre
Cícero, quando era
jovem, ficou muito impressionado quando o padre
Ibiapina passou pelo Crato etc.” Ela contou toda
a história que ela sabia
para mim.
Era uma informação totalmente nova.
Eu nunca tinha
ouvido falar
no Padre Ibiapina. Eu disse que ia
tentar editar o
documento, mas eu
não tinha muito
contato com editores.
Aí eu comecei a me
informar melhor sobre
esse documento e vi que ele
poderia ser a
principal fonte de
pesquisa sobre a trajetória do padre Ibiapina. De qualquer modo,
eu cheguei de novo para as minhas aulas
com muito mais
segurança sobre o Padre
Cícero, sabendo situá-lo na história do Ceará. Engraçado! A minha
leitura casa muito
bem com a
leitura do Ralph Della Cava. É uma leitura mais
econômica, mais social,
mais política e não
somente religiosa e ajudava a situar melhor a
figura do Padre Cícero.
Naquele tempo, eu procurava estudar
muita coisa
que eu não conhecia
sobre a história local:
a questão da barbarização, da formação do estado do Ceará, a questão
do Cariri, do assim chamado “fanatismo”...
C.H: Então essa viagem ao Juazeiro do
Norte, em 1964, é que possibilitou ao senhor conhecer o Padre Cícero e ao
mesmo tempo o padre Ibiapina?
E.H:
É. O Antônio Conselheiro demorou um pouco mais. Apareceu para mim muito mais
tarde, como também o Caldeirão. Todo esse processo de conhecimento foi se
dando aos poucos. Por exemplo: aquele documento que eu recebi em 1964, eu só
consegui editar em 1980. O livro onde ele foi publicado é de 1981. Quer
dizer, foram 16 anos, não é? E a segunda edição está saindo agora em 2006,
pelo Museu do Ceará. Foi um livro que se espalhou, mas que muita gente ainda
hoje procura, porque percebe que é um documento importante. E antes tudo era
manuscrito, não é? Tudo isso aconteceu muito devagar, mas no tempo certo.
C.H:
Já que estamos falando dos anos sessenta no Brasil, eu gostaria de
perguntar como o senhor percebeu o golpe militar de 1964.
E.H:
Eu morei seis anos
em João Pessoa. Depois morei
dezoito anos em Recife, doze
anos aqui em
Fortaleza e agora estou com
mais ou menos treze
anos em Salvador. Então nesse período dos
anos sessenta, eu estava de mudança de João Pessoa
para Recife. É
o seguinte: naquele tempo, o Bispo
de Recife era o Dom Carlos
Coelho. Ele tinha uma
idéia de fundar um
Seminário Regional. Aconteceram muitos problemas
internos da Igreja, que
não adianta evocar aqui,
porque alongaria demais a conversa. Bem, ele quis fazer esse
seminário grande, para todas as
Dioceses do Nordeste. Esse
seminário seria construído como
se fosse uma sede da SUDENE.
Aquele foi o tempo dos grandes empreendimentos. Era um
tempo pós Juscelino, Brasília... Aliás, depois de
tantos anos, eu cheguei
à conclusão de que eu vim numa
boa hora para
o Brasil. Dizem que o ano mais feliz da História do
Brasil foi em 1958, ano em
que cheguei. Pois bem, eu vi o Juscelino, vi Brasília, o desenvolvimento, novas estradas
etc. As idéias eram grandiosas.
Esse prédio do Seminário Regional, por
exemplo, seria enorme, feito
com dinheiro
vindo da Europa e não sei mais de onde. E
o Dom Carlos tinha uma maquete
igualmente enorme do prédio
no seu escritório. Eu
sabia disso e fui de vontade
própria, sem pedir licença a ninguém, falar
com Dom Carlos. Eu
disse: “Dom Carlos, eu estou à sua
disposição”. Eu morava em
João Pessoa e ensinava a disciplina sobre
a História da Igreja. Era uma
experiência muito boa, porque sempre
empurraram para os padres mais
novos as aulas menos
interessantes. Você tinha que
dar aulas
sobre direito canônico, sacramentos, batismo, extrema
unção (risos). No começo, eu
engolia tudo, dava aula de tudo.
Era muito trabalho para preparar. Quando chegou o ano de 1962, eu
dei um basta. Eu
me lembro muito bem que eu comecei a
dizer: “Eu
só dou aula de História!”. Nessa fase
eu tinha uma certa
força, porque eu
era vigário ao mesmo
tempo em que ensinava
no seminário de João Pessoa. Como
eu passei a lecionar apenas
História, eu tinha
mais tempo livre
para ensinar em outros
lugares. Foi quando eu
cheguei para Dom Carlos e falei: “Eu estou estudando História, estou gostando disso e ofereço os
meus serviços para o
Seminário de Olinda”. Ele respondeu: “Ah, muito bem, maravilhoso!” Conclusão: nas terças e quartas-feiras, eu dava aula à
tarde em João Pessoa.
Quinta-feira, eu pegava um
ônibus às cinco da manhã
para Recife.
Ficava dois dias em
Recife e voltava para João Pessoa. Vivi
assim por dois anos: João Pessoa –
Recife; Recife - João Pessoa.
Depois eu cortei a ligação com João
Pessoa e fiquei só em
Recife. Mudei-me para Recife
exatamente em 1964. Uma semana antes da
minha mudança definitiva para
Recife, também chegou por lá o
Dom Hélder Câmara, que
era um fenômeno novo, totalmente
novo. Dom
Carlos era um homem
muito bom, mas
sem muita projeção.
Chegou Dom Hélder já com o
nome de grande orador, como um dos
principais organizadores do Congresso Eucarístico de 1955 etc. Era um
homem muito conhecido.
Ele chegou em Recife no
mês de abril de 1964. Dia 31 de abril
foi instaurado o golpe militar, não é?
Imediatamente eu e outros
padres abarcamos as posições de Dom
Hélder, que eram muito interessantes. Não eram posturas de enfrentamento ao poder
militar, mas
buscavam tomar uma certa distância
dele. Uma atitude que nós tínhamos
era a de não saudar nenhuma autoridade militar. E
isso os militares percebiam muito bem. Então, a gente
formava corpo junto a Dom
Hélder. Percebíamos que era um
Bispo que tomava uma postura de independência
diante do golpe militar e
era muito respeitado por isso.
Mas a repressão existia. Acabaram matando o Padre Henrique. Tentaram me intimidar.
Eu recebia uns telefonemas... Houve toda uma série
de intimidações, mas a gente
ficou numa postura de não aceitação do
golpe. Esses tempos
eram muito difíceis.
C.H:
Foi nesse período que começaram as suas leituras marxistas?
E.H:
Isso aconteceu alguns anos depois. Li o livro de Gustavo Gutiérrez. Eu não
vou precisar bem as datas porque há uma diferença entre o especificamente
marxista e o que, eu diria, era genericamente marxista. Certos conceitos
marxistas já pertenciam à Sociologia, como por exemplo, o conceito de
classes sociais. Existiam outros conceitos evidentemente com uma matriz de
classe, que marca as personalidades, marca os comportamentos, marca tudo na
nossa sociedade, que é uma sociedade de classes, mas que eu não
classificaria como especificamente marxista. Eu diria, no sentido muito
agressivo da palavra, que o conceito de luta de classe, ou seja, o eterno
jogo de uma classe proletária contra aquela que detêm os meios de produção,
é especificamente marxista. O meu grupo, naquele tempo, seguia realmente um
marxismo mais genérico. Alguns negaram depois, disseram que não era bem
assim e tal. Mas é evidente que as idéias de Marx como pensador são
importantes ainda hoje. O capitalismo, por exemplo, foi um termo que ele
criou para mostrar a cultura na qual ainda vivemos, situada em torno do
mercado.
C.H:
Como o senhor avalia a situação da Igreja Católica no Brasil, de modo mais
geral, diante do golpe de 64?
E.H:
A
Igreja estava muito dividida. Embora a Igreja
sempre tenha dito que se
separou do Estado, ela ainda estava
muito ligada a ele. No
tempo de Getúlio, por exemplo,
havia o Ministro Capanema, um grande
ministro. Getúlio disse: “Olha, se chegar
aqui uma Madre Superiora,
um Bispo ou
um diretor de colégio religioso para pedir dinheiro para os colégios
católicos, dá! Quer dizer: a Igreja sempre
esteve próxima do Estado. Em 64 o
processo era
muito doloroso porque
ela se distanciando do regime ia perder as benesses. Por
isso, a Igreja estava muito dividida e alguns faziam declarações críticas ao golpe, mas na
realidade, por
baixo dos panos, continuavam a receber as benesses.
Os militares percebiam essa fraqueza e se aproveitavam dela. Tivemos que formar uma Igreja à parte,
praticamente sem recursos. Veja o caso de Dom
Fragoso: as instituições dele não ganhavam mais nenhum
tipo de benefício. Eu,
por exemplo, fui por
um ano da minha
vida, Reitor do Seminário Menor
em Recife. Havia regularmente um
deputado que chegava lá e
dizia: “Olhe, assine aqui um papel, por favor, que eu vou
apresentar em
Brasília para conseguir
dinheiro para o
seminário”. Isso não estava
certo. Acho que se um
seminário católico tinha o
direito de receber dinheiro do Estado, um
seminário protestante, um
seminário espírita, um
seminário afro-brasileiro, com um
tipo de formação afro-brasileiro, tinham também o direito
de receber. Existia um Dom Hélder,
mas tinha padre
que não o seguia. E ele não
era um homem
autoritário, não impunha uma linha só dele.
Então, eu acho que a
Igreja estava muito dividida. De qualquer modo,
essa situação ajudou a Igreja a se desligar
devagarzinho do Estado. Eu, particularmente, não senti o golpe de 64 como
uma ameaça pessoal, embora
eu estivesse na lista de computador do
regime como
um daqueles que não podia
voltar para o Brasil. Uma
vez eu fui para a Bélgica,
visitar a minha terra e para entrar de novo no Brasil eu tive
que voltar
pelo Uruguai. Isso foi em
1972. Se eu me apresentasse num aeroporto, eu
seria barrado, como muita gente.
Essa era a fórmula mais
simples que o regime encontrou
para não
ter mais
problemas. Isso aconteceu porque eu
tinha mostrado claramente, por
cartas, meu apoio a Dom Fragoso,
porque ele tinha
dois rapazes
que foram presos e torturados. Essa carta foi interceptada pela Polícia
Federal e Dom Fragoso
teve que responder: “Quem é
esse tal de Eduardo, onde é que
ele mora etc”. De tal maneira
que eu entrei a partir daquele
momento na lista negra do regime. Dom Hélder,
por exemplo, foi obrigado a ficar
em silêncio absoluto. Mas
como eu era
muito ligado a ele, visitava-o duas ou três
vezes por semana. E
tinha sempre um
rapaz anotando todos os carros
que iam lá. Então,
existia o meu registro como
alguém que visitava Dom
Hélder. Eu também era
vigário numa paróquia onde
tínhamos uma questão de terra. Eu apoiava a
tomada da terra pelo povo, através do
usucapião. Fizemos todo um trabalho lá e
tinha um político
por trás, que
era proprietário dessas terras. Então
esse foi um outro ponto de atrito
com o regime.
Eu não fui diretamente molestado, mas houve diversos pontos
de atrito e isso, evidentemente, nunca pôde ser registrado de
maneira objetiva. Mas
certamente eu estava no computador deles e seria proibido de entrar no
Brasil. Por isso eu entrei
no país por Montevidéu. De lá tomei um
ônibus para o Chuí e
entrei em Porto Alegre. Fiz toda a viagem
por terra e
cheguei aqui no Nordeste. Quer
dizer, fiz um
percurso bem mais longo
pra garantir a minha
entrada, porque se eu
chegasse diretamente de avião eu seria
barrado. O sistema rodoviário era
mais complicado do regime controlar.
C.H: Fale sobre a sua experiência na
formulação dos “sete cadernos”, ou seja, nos seus diários de campo que o
levaram a discutir a chamada “religiosidade popular”.
E.H:
Como historiador, esses sete
cadernos são muito
importantes. Eu comecei a contar
isso anteriormente. Tem a ver
com aquela história que o
Padre Cícero era
considerado um padre aberrante
pela Igreja, mas ao
mesmo tempo um
padre muito venerado pelo
povo, o que me fez
pensar que
havia um problema entre o
povo e a Igreja. A Igreja
dizia uma coisa e povo fazia outra. A Igreja
criava palavras para evitar a lucidez sobre
esses problemas, como
por exemplo, “religiosidade popular”. Esse é
um termo muito
ideológico, que quer dizer, no final das contas: isso é o
“povinho” que faz. Então, as velas,
as romarias, os santos, as promessas, tudo
era jogado dentro de um
baú. Os padres praticamente rotulavam assim: religiosidade popular, privada,
particular. Não tem nada a
ver! Tinha uma
religiosidade social, comunitária, verdadeira, que era a
doutrina da Igreja. Até
hoje funciona isso na Igreja,
quando você
vê depois do Evangelho, o padre dizer assim: “Agora
vamos rezar pelo
Papa, pelos bispos e
depois cada um pode
fazer suas
intenções particulares”. Todo esse
mundo de palavras, na realidade,
são maneiras de evitar uma
questão evidente. A observação é evidente, mas a
pessoa não
vê nada por causa desse filtro,
dessa maneira de falar: “religiosidade popular”. Essa questão foi
se agravando em mim, pessoalmente, quando dava minhas aulas.
Eu fui sendo cada vez
mais considerado herético pelos
estudantes, que achavam que
eu não estava mais
representando a doutrina da Igreja. Certos
bispos se inquietavam, perguntavam
para alunos
como eram essas aulas. Não
era bem
isso que eles
queriam. Havia uma série de inquietações, digamos assim, sobre a
minha maneira de ensinar.
Por outro lado, se
dizia: “Mas ele estuda
muito, não sei o quê,
mas não é muito
seguro...”. Tudo isso foi se
acumulando em 69. Eu tinha
um colega, um
cara muito
bom, que era
vigário de Santa Rita, na
Paraíba. Naquele tempo, eu morava em
Recife, e disse a ele: “Olha,
Paulo, se eu me encostar aqui durante uns
dois meses, digamos, você
me dá abrigo?
Mas eu não vou
colaborar com
nada, não vou ajudar na
paróquia”. Ele respondeu: “Tudo bem!” Eu já
tinha arranjado na Alemanha um gravadorzinho e tinha meu
fusca. Aí, toda
manhã, eu saía com o
meu fusca dentro dos
canaviais. Lá tem enormes
canaviais, os canaviais da família Ribeiro,
que possuía seis usinas. Ia
até Sapé, onde as
ligas camponesas atuavam. Éramos
todos contemporâneos. De tal maneira
que, de vez em
quando, eu tive que
evitar me
expor quando
chegava alguém estranho. Eu
me escondia e escondia o meu fusca
dentro do canavial. Era
fácil. Depois andava com meu
gravadorzinho, encontrava um cara que estava
cortando lenha, um outro
que estava cuidando de um cavalinho e eu ficava lá
sentado, tentando me aproximar, dizendo que
eu era muito
curioso, se eles não queriam
falar um
pouquinho comigo sobre religião.
Eu perguntava: “O senhor é católico?”
Eles geralmente respondiam: “Sou, graças a Deus!”.
Então eu anotava tudo,
tudo, tudo, tudo no
meu gravador. Quando
chegava em casa, passava as anotações para os cadernos.
Eu tenho esses cadernos
até hoje e eles
significam muito para mim.
Metodologicamente geraram a grande
ruptura dos meus antigos
esquemas e comecei a perceber que o
centro do catolicismo é isso: uma visão
mística, muito bonita,
muito imaginada, que divide o mundo em
setores. Por exemplo: tem
o céu, onde está o mundo de Deus;
tem a terra, que é o mundo do
pecado etc. A Igreja é uma espécie de céu
que desce na terra e lá se
encontra a santidade, com
os padres e as freiras. Mas
entender o padre, ninguém
tem que entender, pois o padre é santo. É
uma idéia que faz parte de
toda a riqueza
do imaginário popular. Esse
mundo foi entrando devagar na minha
cabeça. Eu fui lendo e fui escrevendo. Quando estava escrevendo, eu percebia tudo
isso claramente e produzi um artigo
chamado “A Lei e Religião”, que
publiquei no meu primeiro livro. Os
sete cadernos não
foram publicações, foram anotações. Foram frutos do que a
Sociologia chamava de pesquisa participativa. Eu, inclusive, percebi
que minha maneira de
falar começou a mudar.
Eu passei a adotar palavras
populares. Bom, até
hoje os sete cadernos
inspiram as minhas publicações.
Esse foi o ponto metódico básico, foi a descoberta que
veio de uma crise, de ima insegurança
com relação à doutrina da Igreja. Afinal,
eu sempre achei que
as pessoas não são
ignorantes, não são
burras. As pessoas são
inteligentes. Então como
conciliar essas visões aparentemente distintas? Aí comecei a perceber
que a Igreja é uma instituição como
as outras que vieram de Portugal para dominar esse povo
aqui, para
poder fazer esse povo
aceitar o sistema que
eles implantaram de fora, que faz
parte do capitalismo, que
faz parte da dominação. Uma grande parte da
sociedade oprime uma realidade popular,
que reage. Uma das formas é justamente a reação religiosa. E eu
precisava de elementos teóricos para ampliar o meu
entendimento sobre essas questões. Então,
as idéias de Michel de Certeau e
Wittgenstein, entre outros, foram instrumentos que
me ajudaram a ver a realidade de modo mais
claro. A consistência dessa situação é, digamos, muito complexa.
Porque muitas vezes você tem uma intuição, você sente uma coisa, mas
não sabe dizer
como e o que é. Como se
as palavras que usamos não
fossem satisfatórias. Então,
eu fazia minha pesquisa
participativa e recorria muito
também às idéias desses intelectuais.
C.H:
O senhor
conheceu o Michel de Certeau. Como
foi o
seu contato inicial
com ele? O senhor já havia lido os trabalhos dele antes de encontrá-lo pessoalmente?
E.H:
Não. Eu sabia dos livros dele, mas
assim, muito por
fora. Nós tínhamos um
amigo em Recife
que era jesuíta. Chamava-se
Jacques. Depois ele deixou a ordem. Era
canadense e eu sempre o achei uma pessoa
muito inteligente. Um
dia ele disse: “Eu
tenho um amigo na França, que podia nos
ajudar muito”. Nós
tínhamos essa inquietação. Digo nós porque
não era só
minha, era de todo
um grupo em
Recife, arregimentado por Dom Hélder.
Então o Jacques dizia: “Olhe,
eu tenho um amigo, Michel
de Certeau, que mora em Paris. É
professor da Sorbonne, mas também dá
aulas na Califórnia, Estados Unidos. Eu vou ver se ele, numa dessas viagens, poderia
ficar um
dia conosco, para nos ajudar”. Dito e feito.
Arranjamos uma casa na praia, um
pouquinho fora de Recife e fomos para
lá. Éramos quinze pessoas com o
Michel de Certeau. Para mim, foi uma revolução, porque ele
não falava de religião, ele
falava de lingüística, de significados. Ele falava de palavras. Ele
colocava coisas claras que, ao
mesmo tempo, encaixavam perfeitamente nos meus
problemas. Eu me lembro
muito das análises dele sobre as palavras “ator” e “atante”.
Por exemplo, o Lula
e o Alckmin não são “atores”,
são “atantes”. A diferença é que
por trás de todo
“ator” está o “atante”. Esse “atante” é uma palavra francesa que é praticamente impossível de traduzir
em português,
mas seria aquele que está
no palco, representando, mas sempre
conduzido por alguém. Lula e
Alckmin são “atantes”. Podem ser comparados a marionetes: eles
têm que falar e agir segundo a programação dos “atores”, ou
seja, das forças históricas seculares que
apóiam respectivamente as suas candidaturas. Nesses casos, é preciso
saber quem
está por trás dos “atantes”, que são
expressões históricas passageiras.
Isso me ajudou demais! Michel percebia os preconceitos, visões, todo
esse mundão que é a
Igreja Católica. O que
está por trás dessa palavra tão
simples: “popular”? O que
está por trás de uma promessa a
Padre Cícero? Uma força histórica
imensa, que está se expressando de uma maneira aparentemente sem sentido.
Por trás de uma vela
que se acende, percebi uma grande força
histórica. A vela é apenas
uma coisa “atante”. Esse fluxo
histórico complexo dos fenômenos foi uma grande descoberta. A segunda descoberta foi a questão do
“holofote”. O “holofote” está em cena, está no
palco. Se você
quer ser
um bom cientista,
você tem que
virar o “holofote” para a
platéia, porque é na platéia que
existe o fenômeno, não é no palco.
O palco é apenas uma ressonância da platéia. Isso
me ajuda até
hoje. Vamos para um exemplo prático:
a Igreja Universal do Reino de
Deus. Todo mundo
olha para o
Macedo e diz: “O Macedo é um
safado etc, etc!” Quase ninguém
olha para o
povo que vai lá
encher as igrejas dele. Não vêem a experiência religiosa mística impressionante que acontece nesses cultos. As pessoas têm uma emoção, ficam chorando, e isso quase
ninguém gosta.
C.H:
Foram quantos dias de “seminário” com Michel de Certeau?
E.H:
Foram
apenas quatro dias.
Ele nos deu umas orientações. Nós
colocávamos os nossos problemas e ele
respondia. Era uma figura absolutamente brilhante!
Fantástico! Ele entendia a coisa.
Ele fazia conexões. Ele
tinha ido para Haiti,
tinha trabalhado com operários na
França. Ele tinha uma riqueza de
experiências! Adorou o Nordeste! Depois
do “seminário”, eu disse: “Michel, eu tenho uma paróquia muito
interessante, uma paróquia pobre onde
praticamente todas as pessoas
são de descendência africana. Você quer conhecer?”
Ele topou e eu fui sozinho
para Recife
com ele. Acabou ficando dois
dias na minha casa.
Atrás da minha casa
tinha o que se chamava em Recife de
Xangô, porque aqui se
chama Candomblé. O Michel foi ver.
Eram dez horas da noite.
Esse homem ficou de dez da noite
até as quatro da madrugada! Ficou impressionado com a mãe de
santo, com todo o
ritual! Ele achava que
aquelas pessoas intuíam as coisas. Para ele, o brasileiro
tinha uma intuição forte.
Embora ele tenha morrido muito prematuramente, com apenas
quarenta e tantos anos, ele
também tinha uma intuição e uma
percepção imensa das coisas. Ele
adorava o Brasil, porque esse caldeirão
de tantas culturas convivendo
entre si era uma
dimensão nova e inquietante para
ele. Michel tinha uma potencialidade para entender muitas culturas, entender
muitos tipos de gente.
Para ele o
sincrético era positivo. O que
nós aprendemos a notar como
negativo, ou seja, o sincrético, a miscigenação etc., para
ele era absolutamente positivo, uma conquista para o
desenvolvimento da humanidade. Ele
percebia tudo isso. Eu o levei
também para
João Pessoa, onde ficava o Dom José Maria Pires que
era um Bispo
negro. E nós nos reunimos
uma manhã toda, de novo. Ele sempre dando
dicas muito preciosas. Eu anotava tudo.
Foi uma presença marcante na minha vida
intelectual. Foi muito importante. Depois me
encontrei com ele em Paris.
Eu estava tão satisfeito
com esse contato,
que vi o irmão do Leonardo Boff e disse: “Claudovis, você que faz o
doutorado aqui, tem que
ver esse
homem. Tem que falar com ele”.
Então eu telefonei ou
escrevi, não sei mais, para Michel e disse: “Eu
e um amigo
queremos visitá-lo”. Ele respondeu:
“Estou aqui à disposição de vocês”.
Ficamos dois dias em Paris,
com Claudovis e com mais
um amigo brasileiro
que estava em Roma. Eram três ou
quatro pessoas. Ficamos também escutando, perguntado, respondendo, colocando
coisas. Então, eu
ampliei a minha maneira de ver o
mundo, sobretudo a partir da questão do “holofote”:
olhar para o povo, olhar muito, não
ver apenas o
palco. Foi aí que
eu comecei a me desligar da Igreja aos poucos. Ia para a
missa não para ver o padre e
sim para
ver o povo.
Como é que o povo
reagia, o que estava acontecendo no
íntimo da consciência de cada um etc.
Olhar o simbolismo. Michel era, no fundo,
um antropólogo. O que ele deu a
mim foi uma consistência antropológica para
entender o que
eu só conseguia interpretar num
nível sociológico. Ele era
muito entusiasmado. Era um
homem de entusiasmos, às vezes com a
menor coisa, a
menor coisinha. O tipo da pessoa curiosa, muito
atenta aos detalhes que
ninguém percebia. Ele via e sabia interpretar o que
estava acontecendo. Tinha muito entusiasmo, um
entusiasmo enorme, uma sede
intelectual, uma coisa impressionante.
Era muito difícil
acompanhar o Michel, porque ele
era uma pilha que
não acabava. Era uma dessas pessoas que têm
uma certa vocação para a vida intelectual. Em
pouco tempo ele
captava coisas que quase
ninguém captava. Achava o Brasil
um país maravilhoso! Ele
não olhava para o que a
maioria olhava. Ele percebeu a integração de culturas e dizia: “Aqui tem uma grande integração cultural que não existe
na França, não existe na Califórnia e em
muitos outros lugares
do mundo”.
C.H: Fale mais um pouco sobre esse contato
do Michel de Certeau com o terreiro de candomblé em Recife.
E.H:
Ele
intuiu a África em diáspora. Pelo que captei dele depois, era
assim que ele entendia
o Candomblé. Ele via uma África
em exílio, uma África transportada, em diáspora,
fora da sua terra natal, mas
que conseguia se rearticular, através do mundo
lingüístico e simbólico, apesar de não
ter as condições de estabelecer a
sua pátria, o seu
sistema político, econômico e social. Uma África que conseguia se reintegrar de forma simbólica. A
religião era para ele um
conjunto amplo de símbolos. Ele
não aplicava à religião conceitos como
verdade ou
mentira. A religião não
obedece a esses esquemas de verdade.
Então Jesus ressuscitou ou não
ressuscitou? Foi ao céu ou não foi ao
céu? Essas questões que
incomodam os cristãos de hoje, mas
não tem nada a ver, porque tudo
isso é simbólico. É muito bonito
quando você
entende de maneira simbólica.
Ele via a
vida recriada simbolicamente no
Candomblé. Ele viu a África lá dentro,
aquela resistência. Eu acho que foi
mais uma experiência emocional, mística.
C.H: Michel de Certeau veio outras vezes ao
Brasil ou essa foi a única vez?
E.H:
Parece que foi a única vez, que não veio mais. Aconteceu esse nosso encontro
em Paris e poucos anos depois ele faleceu rapidamente.
C.H: Como ele avaliava a situação da Igreja
Católica de um modo geral?
E.H:
A gente conversava muito pouco
sobre isso. Acho que
ele não era
muito eclesiástico. Eu
acho que a Companhia de Jesus, à qual ele
pertencia, o estimava muito,
porque ele era
um grande intelectual, mas
não propriamente um padre.
Ele era mais
um homem da intelectualidade. Não tinha
paróquia, não fazia o trabalho
pastoral. Ele era
um professor
muito estimado na França e incomodava os
maiores intelectuais, porque ele
era transdisciplinar: atravessava a
Sociologia, a Antropologia, a História. Ele
atravessava várias disciplinas e os
demais professores se inquietavam com ele,
porque Michel não aceitava os guetos: cada
um no seu cantinho, um
como o grande professor sociólogo,
outro como o grande
não sei o quê. O Michel era assim:
atravessava fronteiras disciplinares, formava grupos na França. Inquietava o establishment, a ciência, os professores. Ele
inquietava porque não ligava para essas
coisas de ser
um professor
reconhecido. Ele viajava muito e assim
escapava dessa situação. Outra coisa que ele viu foi
o cristianismo éclaté. Eclaté
significa estilhaçado.
Como uma garrafa que
quebra e tic! Ele percebia isso, que
não era tão
visível na época. Hoje é
que se vê claramente a
multiplicação de igrejas cristãs que invocam Jesus. É uma coisa impressionante.
Todo dia aparece uma. Michel percebia que a Igreja
Católica ia aos poucos esvaecendo.
C.H: Vamos
conversar agora sobre a sua convivência
com o José Comblin?
E.H:
Sim, sim. Eu
considero José Comblin o melhor
teólogo da América Latina. Não
por ser o
mais culto, mas
por ser
justamente o mais irônico.
Ele tem uma postura mais
eqüidistante, mais crítica
diante da Igreja. É um
padre. Continua padre celibatário, mas
não tem nada a ver com a Igreja.
Esse é um fenômeno altamente irônico, não é?
As conferências de Comblin são muito
interessantes, porque depois de vinte minutos uma parte da platéia
fica rindo e a outra parte fica nervosa, fecha a
cara e pergunta: “O
que ele está dizendo? Ele critica tudo, acaba com
tudo.” Então começaram a procurar
palavras para
eliminar essa maneira de falar, essa
maneira de ver
as coisas: “Ele critica, ele
é muito negativo, ele é
muito pessimista, ele
é muito não sei o quê”.
Outros ficam rindo porque pegam a ironia. Ele
quer dizer o
seguinte: a Igreja Católica
é uma cultura hegemônica. Todo
mundo é católico. Aliás,
essa foi uma das minhas primeiras
experiências brasileiras, uma das
primeiras gafes que eu cometi
aqui. Quando cheguei em João Pessoa,
eu fui para
uma banca de revistas. Eu
queria estudar o português, conhecer o
país. Aí perguntei para a senhora que estava na
banca: “Tem uma revista católica?” Porque na Bélgica tem revista socialista, tem revista do livro
“Os Pensadores”, revista dos que
não têm fé etc. Ela
olhou para mim, eu estava
de hábito e respondeu: “Toda revista é
católica” ! (risos). Aqui
tudo é católico! O cinema se chama
Santo Antônio. A padaria é São
Francisco. Ninguém estranha uma padaria chamada
São Francisco, o que para mim era
muito estranho. Muito
diferente da Europa. Quem ia colocar o
São Antônio no cinema junto
com a Brigitte Bardot?
Aqui
passava a Brigitte Bardot, passava tudo,
no cinema São Antônio. É um país
totalmente diferente de onde eu nasci. O
Comblin é um pouco isso. É
um irônico da Igreja. Ele
fala a partir
do paradigma original da Igreja: Jesus. Eu perguntei uma vez: “Comblin, você
já foi para
Roma?” Ele respondeu: “Roma?
Nunca fui para
Roma. O quê que eu vou
fazer em
Roma?” Todos os padres liam o Eclesiário,
menos ele. Mas
também não era
contra. Era uma postura
profundamente irônica e uma ironia é no fundo uma grande
arma, porque se nós
vamos para o confronto
direto, o que acontece? Aumenta a existência do outro. O conflito muitas vezes é muito
ruim, porque aquele
inimigo cresce em cima da
sua força. Já a
ironia é corrosiva, porque ela
pega a pessoa
pelo que
ela tem de mais importante:
a inteligência. E aí você pergunta: “Entendeu o que eu disse?
Você entendeu?” A ironia é muito
perigosa. Eu vi bispos ficarem inquietos e depois dizerem: “Não vamos mais
aceitar esse
cara, porque
ele desestabilizou tudo. É corrosivo”. Anos
atrás, chegou um colega dele,
que o tinha conhecido
na Bélgica. Comblin foi professor lá também,
antes de vir
para cá.
Esse colega afirmava: “É um maçarico.
Ele é um maçarico.
Toda peça ele
vê e “shit”, tira um pedaço. Então a
cadeira cai. Ele não destrói
completamente a cadeira. Ele a
remonta, como um
maçarico com a sua
solda. Mas é só retirar a solda
artificial e tudo cai por
terra de novo.”
Isso era típico dele.
O episcopado do Brasil não diz nada
contra o Comblin. Não pode! Porque
se há um exemplo de padre, é ele. É
um celibatário perfeito, vive em pobreza,
doação. Mas por
outro lado, não
acredita na Igreja. Ele é muito
estranho! Eu convivi com
ele por seis
anos e eram só ironias.
Ele nunca falava diretamente contra alguém.
Ele minava as coisas pela
ironia. Por exemplo:
nós fomos tomar café
com um padre,
que era gente boa,
mas estava muito vaidoso de
ter sido nomeado Reitor. Aí
Comblin chega no café e diz: “Oh!
Padre-Reitor”. Só em dizer “padre-reitor”,
todo mundo ria. É
um homem muito
especial. E de uma grande cultura
teológica! Ele agora tem
oitenta e dois anos, escreve livros que os
padres mais novos estão
lendo. E escreve nas editoras
católicas
como a Paullus. E o episcopado não
fala nada. E os livros dele sempre têm duas, três, quatro
edições. A gente lê e
divulga. E o episcopado calado. Quem
gostava dele era Dom Hélder. Entendiam-se muito bem. Os dois eram próximos.
Mas Dom Hélder era
Dom Hélder. Os outros, mesmo os
que se diziam mais avançados,
tinham um certo medo de Comblin.
Porque ele eliminava aquela idéia de domínio
sobre a cultura que a
Igreja Católica tem. Ele é uma grande
presença na minha vida,
até hoje.
C.H: Fale sobre a Teologia da Libertação e
a confissão de Gustavo Gutiérrez.
E.H:
Ah! Sim. Existem livros que
você encontra
na sua vida e que,
mais ou menos,
verbalizam aquilo que você já sente e não
consegue verbalizar. Aconteceu muito isso
comigo. Eu acho que
muita gente compra
livros por causa disso. Tem
um certo sentimento
e lê as páginas do livro
e diz: “Olha, é isso que pensei,
é isso que eu
sempre quis dizer, está aqui no
livro”. Então, o livro é
uma confirmação. Aconteceu isso com o
meu novo
livro Origens
do Cristianismo. Chegou uma pessoa e disse assim:
“Olha, aquilo que
eu já estava sentindo está aqui no seu
livro. Eu estava sentindo tudo isso!”
Então, o livro é uma confirmação daquilo que você, na sua inteligência, na
sua experiência, já
intuía. É essa exatamente a minha impressão
sobre a Teologia da Libertação, quando em 1972
eu li a obra de Gustavo Gutiérrez. Percebi que havia uma lacuna a
respeito da religiosidade cultural,
em toda a sua
complexidade, suas formas de se expressar. O
pobre era idealizado. Então o pobre
virou o santo. Pobre agora é
aquele que concebe os valores verdadeiros etc. O rico era o
demônio. Eu estou exagerando um pouco, viu?
Eu escrevi uma carta ao Gustavo dizendo que o livro dele
me ajudou muito a entender as
coisas da religião católica, do cristianismo, mas que
eu achava que faltava uma discussão
maior sobre a religiosidade popular. Então
por volta dos anos
oitenta, eu estive em Lima
(Peru). Lima é a cidade
dele. Ele é limense e trabalha em
Lima. Ele me ofereceu
um outro livro
dele, escrevendo: “Para Eduardo, reconhecendo e
aceitando as críticas”. Ele reconhecia que não
tinha realmente trabalhado a religiosidade popular. É que
ele, no fundo, realmente
não trabalha com
essa questão. Até hoje as
publicações mais militantes da Igreja de esquerda ainda
estão muito nessa linha de crítica
ao sistema capitalista, crítica ao Bush, crítica ao neoliberalismo etc. Tudo bem! Mas cadê aquela
complexidade interna da própria Igreja?
C.H: Aproveitemos esse gancho para
conversar, então, sobre o surgimento da CEHILA (Comissão de Estudos de
História da Igreja na América Latina).
E.H:
Bom,
em 1973 eu recebi uma carta do Enrique Dussel, argentino, que tinha
estudado na Europa, tinha feito três
doutorados. Em 1973, vivíamos justamente o período de
repressão tanto no Brasil como na Argentina. Ele, inclusive, teve
que mudar de
residência porque explodiu uma bomba no apartamento dele. Aí ele se mudou
com a sua família
para o México, onde vive até
hoje. Ele era
muito visado. Bom, mas
isso quase todos
nós sofremos. Ele tinha
percebido, estudando lá na Europa,
que a América Latina é um
grande continente desconhecido. Isso, aliás,
até hoje é uma verdade. Falam-se
generalidades, coisas do senso
comum. Mas não se
conhece a história do continente. Então, ele
achava que devíamos fazer uma história do
continente americano aqui, a
partir desse continente e não
a partir da Europa. Era
preciso fazer
uma história da Igreja na América Latina. Daí surgiu a CEHILA: Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina. Naquele tempo, a coordenação geral da Igreja
latino-americana estava na mão de gente
muito aberta: o Monsenhor Magratt, o Monsenhor Larraín, Dom Hélder e o jovem Aloísio Lorscheider. Esse povo
tinha criado um
instituto chamado IPLA: Instituto da Pastoral Latino-Americana. E convidaram esses intelectuais mais avançados
para participar: Gustavo
Gutiérrez, Enrique Dussel, José Comblin. Eu era de uma
geração um pouco
mais nova em
idade. Essa
geração hoje tem mais de
oitenta anos. Eu conheci diversas pessoas que
fizeram o curso do IPLA. Um curso
muito bom, de alta
qualidade intelectual e também de visão.
E Enrique Dussel resolveu, a partir dessa
experiência, formar uma comissão
permanente de estudos, a CEHILA. Conseguiu da Igreja a liberação de cinco mil
dólares para convidar
um primeiro
grupo de estudos. Eu
era um dos convidados. Chegamos lá e nos
sentamos. Ficamos sentados nas cadeiras
da Conferência Episcopal do Equador, em
Quito.
Em dezembro de 1972 ou janeiro de
1973, havia uma reunião na Bolívia,
também do CEHILA, onde Roma fez um
grande golpe, que
até hoje perdura. O golpe de recuperar essa
instituição para os tradicionalistas, para os
vaticanistas. O vaticano conseguiu
colocar o Lopes Trujillo na direção. Ele
hoje é cardeal e sempre
foi um dos braços direitos
do Papa João Paulo II. Era um
golpe. E Lopes Trujillo apareceu na
nossa reunião. Foram poucos dias e
ele sabia que tinha essa
articulação, onde o Enrique tinha convidado
gente de toda a América Latina. Era
um movimento de leigos e tinha
gente de várias religiões protestantes. Todos sentados nas cadeiras dos bispos. O Lopes Trujillo tinha estudado com Enrique Dussel em Madri e tinham brigado, porque o Lopes tinha dito
que toda a linha de
Enrique era marxista. Naquele tempo, a palavra
marxista era um
cavalo de batalha, era
usada para hostilizar.
Ele tinha estudado o marxismo, evidentemente, mas não
era propriamente dessa linha. A gente
já falou disso, não é? Não
era propriamente uma linha marxista
ortodoxa para
instigar a luta de classes.
Era muito mais na
linha da não-violência, que foi sempre a
linha da Igreja aqui na
América Latina. Agia-se como o movimento
dos sem-terra. Invade a terra, sim,
claro, mas se a polícia
vier, recua. Depois invade de novo. Isso
não é violência, é insistência. Não
é tomar armas para fazer a revolução.
Era outro método,
que vem de Gandhi, de Martin Luther King
e que Dom Hélder aplicou sempre em
sua vida. Era essa a
nossa linha. Mas o
Lopes Trujillo era da direita. Era
filho de um grande
fazendeiro do interior da Colômbia, vinha de uma família de elite
e foi colocado na CEHILA para interferir em
prol do sistema do Vaticano, do Papa. Ele chegou
na nossa reunião. O Dussel falava que não existiam
duas Histórias: uma História profana, econômica, política, social
e do outro lado, uma História religiosa, das coisas religiosas. Tudo era uma
só História. Aí o
Lopes Touquilo chegou e disse: “O professor está
fazendo uma leitura marxista da realidade”.
Quando ele disse isso,
eram mais ou menos
seis horas da noite.
Então o Enrique disse: “Vamos continuar o debate e pedir às irmãs que
cozinham para preparar
a
janta para
mais tarde, por
volta das sete e meia
ou oito horas”. O
Lopes Trujillo encerrou o debate quando disse assim: “Mas
Enrique, as irmãs já trabalharam o
dia todo, são
sempre muito serviçais,
não vamos agora exigir tanto delas”. Falou de tal maneira
que conseguiu acabar com o debate. No dia
seguinte estavam duzentos seminaristas dirigidos por Trujillo e nós os historiadores. E quem vai, evidentemente celebrar a
missa é o Bispo Lopes Trujillo. Ele dizia: “Então chegam aqui os historiadores com suas
teses, mas não podemos
esquecer a doutrina da Igreja, blá, blá, blá”!” Quando terminou a missa, Enrique disse a Jaime Dias, que
era secretário: “Corre para a
secretaria porque os cinco
mil dólares estão lá guardados.”Os cinco mil
dólares do orçamento para o nosso
encontro estavam lá, não tínhamos
tocado ainda, nós iríamos resolver
depois. Quando o Jaime chegou, cadê o dinheiro? O
Bispo Lopes Trujillo, na qualidade de secretário geral
da Conferência dos Bispos de toda a
América Latina, disse: “Não, esse
orçamentário não pode ser assim. Isso tem
que passar
por minha vista”. De
repente, puff! Nós estávamos sem um
tostão e Trujillo pensou, na
sua ingenuidade, que tinha
matado a CEHILA, mas não
tinha matado. Sabe o que aconteceu? No nosso grupo
estava um bispo mexicano, um homem de
dois metros,
ele era muito
grande, o Mendes Alrceo. Ele realizava a missa pan-americana lá
no México. Toda a intelectualidade aparecia na missa dele, era
um grande acontecimento. Eu até
arrepio. O Mendes Arceo disse
assim: “Gente, vamos ser
inteligentes. O Jaime Dias, secretário, hoje
de manhã, vai registrar a nossa
CEHILA como uma entidade da sociedade
civil, uma entidade independente. Vamos
constituir uma associação e aí
estamos livres dessa porcaria da Igreja e
vamos, nós mesmos, arranjar
nossos financiamentos”. E foi
feito assim. E até
hoje essa sigla tem registro no
Equador, desde 1973. E continua atuando. Nós, por
exemplo, temos agora um
encontro em Goiânia e daqui a poucos dias vai
ter um
encontro em
São Paulo. Quer dizer, Trujillo pensou
em matar a CEHILA, mas a
libertou. Nós agora estamos livres, fazendo o que a gente
quer. Somos uma associação. Editamos a História da Igreja no Equador, no México, no Chile, no Brasil etc.
Trabalhamos muito para fazer esses livros
que hoje estão esgotados. Isso já faz
trinta anos. Formamos uma equipe, trabalhamos muito, depois
nos dividimos. Hoje em
dia, a CEHILA trabalha mais
com simpósios, isto
é, muito mais ligada às
Universidades. A Igreja Católica
praticamente abandonou a CEHILA porque
as
críticas eram muito fortes à
Instituição. Mesmo assim
existem bispos que gostam, que
assistem aos encontros aqui no Brasil. Não existiu, digamos, a punição radical,
mas não há um
empolgamento muito grande. De
tal maneira que a
CEHILA publica em editoras de Universidades, em editoras
científicas. Esse meu livro
sobre as origens do cristianismo está saindo por uma editora
pequena e o próximo, se Deus
quiser, se eu conseguir terminar, vou editar numa editora
leiga mesmo, uma editora de mercado.
C.H: Podemos conversar agora sobre a
História Criminal de Deschner?
E.H:
Sim.
Essa é uma questão de metodologia, pela crítica
que se faz à Igreja. Certos
doutores interpretam a História da Igreja como uma
História criminal, a História do crime, como se
faz em certos best-sellers.
Os crimes dos Papas, os crimes
dos reis etc. Então, isso é
um caminho historiográfico que eu acho
metodologicamente complicado. É interessante apenas como
leitura. Eu tenho, por
exemplo, Os Crimes do Papa, que
alguém me ofereceu. Eu
me diverti pra valer! Mas metodologicamente, historiograficamente falando,
não traz nenhuma novidade. É puro
positivismo. Tem um véu
duvidoso, que é o moralismo. Também tem um
caráter muito mercadológico, sem dúvida.
Eu acho que toda
história humana tem uma dimensão criminal. Mas eu prefiro
não interpretar a partir desses
paradigmas, eu prefiro ir para o Wittgenstein, que para mim é muito
mais profundo. Deschner é um alemão que serviu na Segunda Guerra
Mundial como soldado de Hitler. Ele fez uma autocrítica muito sadia da
sua atuação como
nazista, e nessa autocrítica ele
projetou a história numa perspectiva criminal. Eu o admiro pelos 12 volumes
que produziu. E pela sua
erudição, que é fantástica. Mas
metodologicamente não me interessa. Eu
tenho o livro, mas eu
não consulto mais, porque
eu acho que a maneira do
ser humano se
comunicar nesse mundo é muito
mais na linha do jogo.
Eu gosto muito
mais de Wittgenstein, que interpreta o ser
humano a partir dos discursos
inseridos num jogo. Jogamos o
tempo todo. Por
exemplo, as eleições são
um jogo, a tal
ponto que o
povo até participa realizando os seus prognósticos: Lula perde um
pouco, depois sobe um
pouco. É um jogo
que se arma, um
jogo democrático, onde entra a artimanha, entra tudo, do pior e
do melhor. Eu não faço uma
avaliação moralista. Todos jogamos,
todos temos interesses. E jogamos como podemos jogar, para conseguir nossas
conquistas. Mas existe o jogo limpo e o
jogo sujo. Wittgenstein foi quem justamente
aprofundou essa idéia. Ficou sendo
um guru. Um
filósofo absolutamente fascinante. E também não é
muito aceito. Há quem o ache o maior filósofo do século XX, mas
outros dizem que não. Na
minha caminhada intelectual, o Wittgenstein foi muito importante, mas
essa influência é recente. Talvez
tenha uns dez anos. Ele é da
linha de Michel de Certeau. Quem me alertou
para a importância de Wittgenstein foi justamente um
livro do Michel, que eu descobri
também muito depois:
A Invenção do Cotidiano. É
um grande livro. Há
uma passagem onde ele diz
assim: “Quem quiser entender a
linguagem popular veja Wittgenstein”. Então lá vou
eu para a
minha terra
natal, trazendo tudo o que
eu consigo sobre
esse tal de Wittgenstein. Eu tenho um
sobrinho que é livreiro,
que conhece tudo o que é
livro. Ele me deu as
dicas. Encontrei as duas aulas dele mais
importantes, escritas no holandês. Tenho a edição mais
crítica dele. E me apeguei a esse tal de
Wittgenstein. Eu disse: “Eu tenho que
aprender esse
cara, que
não é fácil, porque
ele falava com aforismos,
um pouco na linha
de Nietzsche”. Ele não gostava muito de ser professor, do rito.
Então, depois de um
tempo, fazia só seminários.
Só os estudantes interessados iam para o seminário e
ele lá não
apresentava uma aula, ele apresentava aforismos que os
estudantes copiavam, copiavam, copiavam.
E isso constitui o legado dele. É uma figura totalmente fora
dos parâmetros. Ele foi de tudo
na vida. Procurou, procurou, procurou
e
quando morreu, aos sessenta e dois anos, disse: “Eu
tive uma vida muito
feliz”. Era
uma figura excepcional. Desestabilizou Russel, que foi considerado um grande
filósofo também. Os outros intelectuais tinham medo de
Wittgenstein, porque ele também
tinha, como Comblin, um
traço irônico, muito
perigoso. Para ele tudo na vida é
um jogo. Isso é uma
herança pré-humana, quer dizer, do nosso mundo
animal. Já se percebe que os animais,
quando aparentemente brincam, o fazem com intencionalidades escondidas. Por
exemplo: um animal
que cata o outro.
Essa ação é feita para que depois o animal
que foi catado ajude depois o que
catou a mover uma pedra. Com a
evolução do neuro-cientismo, os
neuro-cientistas começaram a perceber que o nosso
cérebro guarda muitos
comportamentos e muitas habilidades que
são, praticamente, pré-humanos. Os
comportamentos das crianças são
muito enigmáticos. A criança praticamente só aprende jogando, brincando. Eu e Tereza temos um netinho de três anos.
Ele só quer brincar. Porque
que ele brinca?
Dentro da visão cartesiana isso não tem
sentido, ele deveria estar na
escola, aprendendo a ler. E muitos
pais acabam com seus
filhos, rapidamente, quando acabam com a parte
lúdica do processo educativo.
Existe todo um conjunto de
sensibilidades hoje, nas ciências humanas, que nos fazem
perceber essa coisa
que é muito modesta para
nós, seres humanos:
que brincamos com intencionalidades ocultas, que a brincadeira não
é só brincadeira. Eu
vou dar
outro exemplo. Nós
fomos para o dia do avô e da
avó, na escolinha do nosso netinho.
Ele tem três anos.
Ficamos todos sentados em cadeirinhas
baixinhas: ele, minha mulher,
eu, os outros pais e as
outras crianças. A minha mulher é
professora de música e começou a cantar músicas de
crianças. De repente, o menino olhou para
mim e disse: “Essa é minha avó” (risos). Ele
já faturou para si uma
parte da festa: “Não é
qualquer vovó, não! É a minha
vovó que faz isso! Ela está
aqui, brincando com todo
mundo, parece a professora do
grupo, mas é a minha
avó”. Quer dizer, há toda uma
percepção da ludicidade, onde entra também a ironia
e muitos outros comportamentos. Essa ludicidade ajuda muito a
entender a História Oral ou entender a História que
muitos interpretam como séria.
Muitas coisas são brincadeiras, pura brincadeira. Toda a Igreja
Católica, na sua legitimação,
está pendurada num trecho do evangelho de Mateus, que diz
assim: “Tu és pedra e
sobre esta pedra construirei a minha igreja”.
Esse texto você tem na
cúpula da capela de São
Pedro. Todos os padres vão
dizer que
esse texto significa que Jesus indicou Pedro como o primeiro
Papa. E depois vem a Igreja e diz que
está tudo certo. Quando
você interpreta de maneira irônica
e vive o jogo de palavras entre
“Pedro” e “pedra”, percebe que em
grego “Pedro” é “pedra”. Pedro tinha um
temperamento muito impetuoso,
muito impulsivo, mas
no fundo tinha os seus
medos, ele chegou a negar Jesus
depois. E Jesus brinca: “Tu és
muito forte rapaz!
Você é muito
forte”. Jesus estava brincando
com ele. Mas essa
leitura irônica não é
considerada, então a afirmação “Tu
és pedra e sobre
essa pedra construirei minha Igreja”
transformou Jesus num legislador, num
fundador de igreja. Mas esta
frase foi uma ironia dita
por Jesus. Eu acho que essa
maneira, digamos assim, lúdica,
artística, humorística, de interpretar os grandes
fenômenos históricos está surgindo, ainda que de
leve. Aqueles cientistas sisudos estão desaparecendo.
C.H: Como o senhor avalia
a relação ente História e ficção?
E.H:
Isso
é um grande desafio.
Esse é justamente, eu
diria, o ponto crucial do Positivismo. O
Positivismo, ele segue um
postulado. O postulado é que
existe uma ligação direta entre
palavra e coisa, palavra e
fato. Então, um
exemplo: Na manhã do dia 31,
em tal lugar,
eu estava lá sentado. Fato. Então
você pode pegar
um repórter, faz uma foto e mostra
claramente que nós
estávamos ali reunidos. Mas isso
não tem importância nenhuma. A importância é o que estamos dizendo. Aí entra a ficção, embora
eu não goste muito
da palavra. Eu gosto
mais da palavra “imaginação”. Se fôssemos agora fazer uma
ressonância magnética, para saber como o
nosso cérebro está trabalhando nesse momento, a gente
veria a diferença entre nós e
entre as outras pessoas. Existem mil maneiras de
viver o mesmo
fato. Então o fato
em si não existe. O
que existe? A minha maneira de
interpretar. Volta aí aquela
lição antiga que
eu recebi do meu professor, na
Universidade: a heurística sem a
hermenêutica não significa absolutamente nada. Quer
dizer, o fato
sem a interpretação, não significa nada. Se você quer saber o que se passa,
você tem que
ir para a hermenêutica, para perceber a maneira
como o cérebro está interpretando a palavra. Não
existe a palavra “paz”, o que
existe? A ressonância que a palavra
“paz” evoca em mim.
Ora, a palavra “pai”,
que Jesus disse: “Deus é pai”.
Para um
determinado indivíduo isso é
um horror: “Meu
pai foi um dominador,
um pai que
sempre me atacou! Eu
tive que me libertar do
meu pai!” A reação
cerebral, neurológica, reage à
palavra “pai” de maneira
nervosa. Então, não
basta dizer
“pai”, tem que saber como é que
“pai” ressoa em mil e
um cérebros que
estão ouvindo a palavra. Esse é o desafio da
História: captar o que é
que está acontecendo nesses cérebros e você tem
que estudar
com isso toda a
história cultural, a história dos preconceitos etc. Ontem estávamos na casa da irmã da Tereza, que dizia: “No momento que o
negro pegou no lápis, o Brasil não prestou mais”. Essa frase, positivamente, não significa um
mundo, quando você vê por
trás dela toda a história
dos africanos no Brasil. Como chegaram, como foram discriminados. Essa pessoa, no fundo,
continua a transmitir um preconceito que é mais
perigoso quanto mais
culta ela for. Não
adianta reagir porque se eu
começar a reagir entramos numa discussão de três
ou quatro horas,
que pode terminar em
briga, em incompatibilidade de continuar a conversa.
Então, eu acho que a
História tem que captar esse mundo
imaginário, simbólico. Por exemplo, na
Bíblia tudo é simbólico. Quando eu
escrevi sobre origens do cristianismo, chegou uma senhora e perguntou: “O senhor
acredita em Adão e Eva?” Lá vem a história de Adão e Eva! Os padres e a Igreja, para firmarem os
seus poderes, transformavam tudo em
fato. Adão e Eva no Paraíso é uma história linda.
Não é que vou rejeitá-la, mas como
historiador eu tenho que depurar isso. O que está
história quer dizer? Eles ficam nus
no paraíso e de repente a nudez significa
pecado. Porque a nudez vira pecado?
Que história é essa? O que está por
trás disso nessa cultura hebraica secular.
Aí você vai
trabalhar, trabalhar,
trabalhar. O Moisés atravessa o mar vermelho. É
um fato? Fato
que nada, rapaz,
isso é uma grande imaginação! Mas
o que significa isso? Não
que eu rejeite, eu
não rejeito. Mas pergunto: O que significa isso? Por
exemplo, o Dan Brown, embora se dizendo romancista, tem um cara por trás dele, o
Bygan. Os manuscritos de Jesus,
que eu li nesse livro de Brown, são puro Positivismo. Ele se
apresenta como um cara muito avançado,
mas não observa uma lição básica de
qualquer professor de História:
palavra não é xerox de fato. Um
escritor não é um
repórter. Um repórter tem
que ser
muito fiel aos fatos.
Chegou aqui no dia tal, o
fulano de tal,
para lançamento de tal coisa. Muito bem, você é um excelente repórter,
mas o historiador também não é
um repórter. O Wittgenstein apresenta a seguinte idéia:
as pessoas vivem num labirinto e não
sabem como sair dele porque
são ingênuas, porque acreditam nas palavras. Você nunca pode acreditar numa
palavra, nunca! Porque a
palavra faz parte de um
jogo. Você tem
que destrinchar o jogo. É
a mesma coisa
do xadrez. Você está no xadrez, o
cara bota uma
peça lá. Se você acreditar nesse negócio, você vai se dar mal! Tem
que saber o
que está na cabeça dele. Será que ele está
querendo pegar o meu rei? E
porque botou a peça aqui? Foi
inocentemente? Não! É porque na
cabeça dele o jogo já está
armado. Na minha ingenuidade,
pensando
que tenho abertura para avançar, é que
ele vai me pegar adiante e vai me
dar o xeque-mate. Então, a inteligência
não está em interpretar palavras, mas
em contextualizar palavras e em
percebê-las dentro de um jogo
inteligente. Porque existe o jogo limpo e o
jogo sujo, o jogo
inteligente e o jogo duro.
Quem deveria ganhar é quem faz o
jogo limpo, mas no
fundo, quem ganha faz o
jogo mais inteligente. Essa é a inteligência do Ronaldo que está diante
do goleiro. Ele faz um
gestozinho que vai botar a bola para a direita e
coloca a bola para o outro
lado. Essa fração de segundo, que é a
inteligência, é tudo, é um
jogo. O gol
mais bonito de toda a
copa foi o gol
do Ronaldo. E não é por nacionalismo
que eu digo, porque
tem uns gols que são
brutais, são casualidades. O jogo de futebol,
do cara inteligente, é aquele que
percebe onde estão os outros, onde
está o gol, onde está a bola, numa fração de segundo. A postura, essa armação para ele fazer gol. É a mesma coisa na política, a
mesma coisa na
Igreja, a mesma coisa em tudo.
Isso faz o historiador precisar da heurística, quer
dizer, estudar
criticamente os documentos, ler muito
sobre a questão para saber interpretar o jogo que está
por trás do fato. Se
você fica puramente no fato, não vai
chegar a nada,
nada, nada! A não
ser, no máximo, a fazer uma
crônica, mas não vai
fazer História.
C.H: Quando o senhor entrou em contato com
o mundo do Padre Cícero, deparou-se ao mesmo tempo com o mundo do Padre
Ibiapina. Qual é a importância dessa figura para a história do nordeste?
E.H:
Eu
diria que ele tem uma importância para os
sertões acima do Rio São Francisco. Porque o Rio São Francisco, até pouco
tempo atrás, era uma
barreira quase intransponível. Não tinha a
ponte lá do Juazeiro
da Bahia para a cidade de Petrolina. E a importância do Padre Ibiapina não se limita à religião, não é
só uma figura religiosa. Para
mim, a vida dele antes
de ser padre
é
tão importante quanto depois
que virou sacerdote. O Padre
Ibiapina era uma figura muito
ética. Ele se incompatibiliza com todo
mundo, tinha problemas
com Martiniano de Alencar, que naquele tempo era
presidente da província do Ceará. Teve problemas no Rio de
Janeiro. Quando ele foi
ser advogado
em Recife, também
teve problemas. Toda vez
por motivos éticos,
de não se dobrar diante da
idéia de um coronel, de
um político ou de
uma instituição grande ou
pequena. Eu acho que
Padre Ibiapina teve uma pureza ética
impressionante. Isso continuou quando ele
era sacerdote,
não acho que foi uma ruptura, foi uma
continuação. A vida de Padre
Ibiapina é um bloco só,
antes e depois da ordenação.
Só que ele percebeu
que - e isso foi um
jogo muito inteligente – com o sacerdócio, ele
poderia se situar num outro
nível, onde
não precisava hostilizar. Um nível onde
ele tinha mais
acesso ao povo. E podia transformar
o povo num instrumento de auto-dignificação. Outra coisa que ele fez
muito: dignificar o Nordeste,
dignificar o Sertão. Dar valor ao povo.
Apresentar o sertão nordestino, que era
ainda muito desconhecido. Para
mim, ele é superior
ao Padre Cícero. Padre
Cícero é mais sensacional
por conta do “milagre” que envolveu a beata. Mas o
Padre Ibiapina tinha um
equilíbrio, não se exaltava. Foi uma figura humana
excepcional e de uma importância muito grande. Finalmente, uma última coisa, não consciente
em Ibiapina, mas que
eu percebi como historiador: ele trabalhou com os remanescentes indígenas. Isso
é muito interessante! O remanescente indígena,
ele fugiu da fazenda do gado,
foi para a cabeceira do rio e para o pé-de-serra. É exatamente em
Borborema e no Cariri que ficou o
Padre Ibiapina. Ele não
tinha esse conhecimento antropológico, histórico e nem
etnológico para perceber
que, no fundo, ele
estava lidando com indígenas, já
mestiçados. A descrição que ele faz das
populações com quem tem
contato é típica de populações que
se sentem amedrontadas pelo avanço do gado, o
avanço das fazendas, o avanço do
que se chamava sociedade. É lá
que ele vai contribuir,
isso é inconsciente, mas é
importantíssimo, para a interpretação acerca da História indígena. A
crônica das Casas de Caridade fundadas pelo
padre Ibiapina é um documento
que mostra claramente onde
estão os remanescentes dessas
populações nativas.
C.H: Para
finalizar, poderíamos conversar sobre o movimento dos padres casados?
E.H:
O movimento dos padres casados é
muito desigual. Você tem
grupos, como aqui
em Fortaleza, que
são grupos de amigos. Isso
depende muito das figuras que
estão à frente desses grupos. O Lauro Mota, pela
sua maneira de ser,
pela sua capacidade,
catalisa o grupo em torno dele.
Até hoje ele está no
grupo como vice-presidente. Em torno dele,
ele conseguiu formar um
grupo de amigos que
não são somente dele,
mas dos filhos dos amigos dele. Eu
e Tereza fazemos parte disto. O
mais gostoso
não era tanto
ver os padres
casados reunidos, mas os seus
filhos se encontrando como amigos.
Nesse grupo existe essa dimensão. Em
outros grupos, a questão é a
saudade do sacerdócio, um
clientelismo escondido, mal assimilado. É muito difícil
articular um
grupo a partir
dos padres casados, não dá!
Os que existem funcionam como grupos de
amigos. Todos fizeram seminário, foram padres e resolveram casar.
Essa experiência comum faz surgir
entre eles uma certa
simpatia. Em geral, a
Instituição ainda é muito
forte no sentimento deles. Eles passaram muitos anos no
seminário, por isso têm
todo esse bloqueio, se é que eu posso
chamar assim.
É como se fosse uma perseguição,
eles têm que ser padres eternamente. Acho que por ser um padre historiador consegui ter mais
liberdade, mas foi difícil
também. O seminário não
nos deixa. Muitos
têm trabalhos em institutos da
Igreja. Não perdem o vínculo. Uns até
perdem, ensinam na Universidade,
mas é uma dificuldade. E a Igreja rejeita. Mas tudo depende
também muito da mulher.
Um problema de padre casado é
que no fundo, ele
não teve um namoro normal, porque o
padre não pode namorar,
por exemplo, como o
nosso filho namorou com diversas moças para
depois decidir
casar ou
não casar.
Namoro de padre muitas vezes é muito
escondido. Então, normalmente, o padre se casa
com alguém da Igreja, agente
de pastoral ou freira. E
muitas vezes ela também
não consegue se desvincular da Igreja.
Eu tive muita sorte
porque a Tereza era de outro
mundo. Ela é filha de
uma família muito católica,
mas sempre fez críticas desde
menina à Igreja que
condenava ao inferno e que dava determinadas instruções para
que você
seguisse como certezas absolutas pelo
resto da vida etc. Ela
tem reações que eu acho
que eu nunca tive na
minha infância. Quando
apareciam os bispos em Aracati (Ceará), cidade natal
dela, ela retrucava: “Lá vem o bolo confeitado”.
Achava que eles não tinham
nada a ver
com Jesus, um homem
que diziam que era
tão simples. Tereza gosta muito
quando digo que a Bíblia é
irônica em determinados
pontos. Ela acha fantástico observar a
bíblia como literatura e
não como dogma.
Falo aqui novamente
do jogo. Isso é uma coisa
que se pode dizer em relação a Dan
Brown, não somente a ele,
mas a toda essa literatura
que hoje atrai muita
gente. Dan Brown vendeu quarenta e
cinco milhões de exemplares do Código
Da Vinci. No fundo, ele
inventou um jogo. Casou Jesus com Maria Madalena e mostrou os filhos dessa união.
Isso escandaliza a Igreja, que
não percebe que fez também
um jogo: o de dizer
que Jesus instituiu a Igreja e colocou Pedro para
comandá-la. Isso é muito duvidoso!
E não deixa os padres
casarem com uma mulher para manter o seu poder sobre
eles. O jogo da Igreja é
tão duvidoso, mas
ela ainda diz: “Não,
Dan Brown é uma mentira, tudo é invenção”. As pessoas inteligentes vão
dizer: “Os dois estão
mentindo”. Você vai mais além na
sua reflexão política e vai chegando ao que Michel de Certeau chamou de “atores”. Quais
são as forças representadas pelo
Lula e qual é a força
histórica que Alckmin representa? Eu vou sentindo a terra,
toda aquela coisa imediata da
corrupção, embora a corrupção seja
evidentemente uma palavra, mas
também uma conseqüência dessas forças histórias
atuantes. É muito fácil
fazer a corrupção num
país onde, praticamente, o povo não tem
condições de controlar nada.
Muitos sabem que lá na
Bélgica tudo é controlado. As
pessoas obedecem às placas não
porque são santos e
civilizados. É porque há um controle,
tudo é registrado, tem que pagar multas. Você tenta evitar de pagar o imposto de
renda, mas lá vem a
ficha! Eles já sabem,
mais do que você, quanto você gastou. Está
tudo no computador. Você
não precisa justificar
nada. Você
gastou isso, você recebeu aquilo.
Um país como o
Brasil, imenso, com uma estrutura institucional muito fraca,
só pode apelar
para o quê?
Para mim,
só tem uma solução: apelar para a ética. Essa
qualidade humana que
Ibiapina tinha. Ele era
um homem honesto,
sem aquela exaltação, sem
aquele tom apocalíptico que tem um
pouco o Padre Cícero: “O
mundo vai se acabar etc”. Não tem
nada disso. O Ibiapina é enxuto: “Vamos trabalhar!
Aqui está faltando um açude? Uma
estrada? Uma cacimba? Vamos fazer!”.
Isso é muito realista, não tinha
exaltação na palavra.