From: Jose Vicente Andrade
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Nascimento de Jesus na casa de José (que não era sem teto), não na manjedoura!

 

SUBSÍDIOS PARA SUAS REFLEXÕES NO NATAL

José Vicente de Andrade*

      Todos os anos, recordando o costume que minha santa e saudosa mãe tinha de reunir as crianças da vizinhança para meditar com elas sobre as realidades do Natal de Jesus, eu também, há mais de sessenta anos, faço algum exercício assemelhado. Gosto de dirigir-me aos adultos que , talvez massacrados pelas dificuldades e pela pressão massiva do comércio, não se lembram que, no Natal, os cristãos celebram a data natalícia de Jesus, o filho de Deus e de Maria de Nazaré. Evento que supera de longe dia de comilanças para quem tem fartura em suas casas e de trocas de presentes para quem tem o poder aquisitivo para comprá-los.

A celebração de Natal é em data aleatória

O mundo todo sabe que os cristãos estabeleceram o dia 25 de dezembro para festejar o nascimento de Jesus Cristo.No entanto poucos sabem que o estabelecimento desta data pode não ser correto em termos de calendário. Dos quatro Evangelhos canônicos apenas os de São Mateus e de São Lucas contam a história do nascimento de Jesus em Belém. Porém nenhum dos dois menciona o mês, menos ainda o dia específico do tão importante acontecimento..

Comemoração pela chegada de Jesus

Possivelmente, as comunidades cristãs, embora não situadas em locais muito distantes uns dos outros, faziam memória do nascimento de Jesus cada uma a seu modo e em dias diversificados. Os cristãos buscavam a unidade de fé, de esperança e de caridade, não a uniformidade cultural, pois eram pessoas e grupos de culturas diversas. Apenas aos poucos, as diversas comunidades foram estabelecendo o fundamento do que, tempos depois se tornou a cultura cristã.. Na Esta etapa organizacional primeira, que aconteceu quando o cristianismo – após as borrascas e tempestades das perseguições que a tantos “irmãos” feriram e mataram – é que surgiram umas poucas bases para a formulação de algumas orientações quanto às idéias e fatos que se tornaram “crenças” cristãs.

A celebração da Vida

As preocupações dos membros das comunidades nas quais se formaram as assembléias que se tornaram expressões humanas da Igreja que começava, eram com a conservação da liberdade humana e com a preservação da vida. Os cristãos valorizam dom de Deus cada sinal da vida no ambiente em que viviam e respeitavam e no qual. Trabalhavam para estabelecer o equilíbrio hoje denominado ambiental ou ecológico. Era-lhes muito difícil viver o cotidiano expostos aos riscos de morte, simplesmente porque testemunhavam de público que amavam e adoravam a Jesus Cristo, o divino mestre e Filho de Deus. Não passava, pois, por suas mentes dedicar-se a celebrações rituais para comemorar datas. Precisavam, em primeiro lugar, viver; depois, na segurança, celebrariam a vida e a ressurreição do Senhor, as alegrias dos dons de suas próprias vidas e a expectativa de suas ressurreições pessoais junto de Deus, no Paraíso!

Jesus, a segurança contra a injustiça

 As primeiras comunidades cristãs passaram muitas décadas ou, pelo menos trezentos anos, criando as estruturas e as logísticas que lhes permitiram formar comunidades, que, de fato foram grupos de pessoas generosas que se dispunham a se garantirem contra as injustiças decorrentes da fraqueza humana. Neste gesto altruísta constavam as formas de proteção que davam aos excluídos ou aos mais necessitados, inserindo-os nas comunidades de vivência, de oração e de crença. Nelas os recém-chegados recebiam os ensinamentos fundamentais referentes aos dizeres e às promessas de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O Natal , uma celebração em duas datas

Neste contexto nasceu a comemoração do Natal Cristão. Foi no século IV, quando o cristianismo engatinhava, sob formas de comunidades simples, humildes e com medo da morte, decidiram a desenvolver-se e progredir em número, qualidade e influência. O nascimento de Cristo, que começou a ser celebrado durante o ocaso do Império Romano, teve por referência de calendário anual o dia 6 de janeiro, data em que ainda hoje algumas Igrejas Orientais celebram o Natal de Jesus ou sua Epifania [Manifestação da Glória de Deus]. A Igreja Ocidental determinou 25 de Dezembro como o dia comemorativo do aniversário natalício de Jesus Cristo.

Uma virgem deu à luz

Para se entender por que a  comemoração do Natal, sem maiores problemas, foi fixada em 25 de dezembro ou em 6 de janeiro, é bom que se lembre que a comunidade cristã havia estabelecido uma relação entre o nascimento de Jesus e o solstício de Inverno, Associação livre, baseada, em termos culturais, em celebrações pagãs em vigor em religiões anteriores ao cristianismo. Nesse solstício os egípcios faziam suas devoções e ritos voltados a Osíris, divindade dos mortos. Os antigos caldeus celebravam seu solene culto à Caverna do Levante, como o faziam também os sarracenos, em cujo ritual um sacerdote descia a uma caverna e de lá saía anunciando aos gritos:“A Virgem deu à luz e a Luz irá crescer outra vez”.

O solstício e as estações

Cultos a nascimentos de divindades são mais remotos do que se imagina hoje. Desde tempos imemoráveis manifesta-se a necessidade comum e universal de se explicar como e quando as divindades surgiram na terra. Seguindo a natureza episódica e a rotatividade periódica quanto aos solstícios e ao ritmo das estações, não deve ter havido problemas ou preocupações maiores para o estabelecimento de datas para comemorações anuais. Para os cristãos, o quando celebrar era simples memória de fatos referentes à vida de Jesus, que não era uma idéia, mas um homem que nasceu, viveu, morreu e, segundo o testemunho de Seus apóstolos e discípulos. A importância maior, porém, consistia que Ele ressuscitou para a vida eterna, a Vida de Luz que não se apagará jamais e nesta LUZ todos os batizados podem viver, desde que confessem a Divindade de Jesus!

Jesus ; o Sol invencível

Pela dificuldade de se explicar os então inexistentes dados do DNA de Jesus e a genealogia das muitas divindades, estabeleceu-se um indicativo a partir da festa do “Natalis Solis Invicti”. Este evento era celebrada na antiga Roma, a 25 de dezembro, estabelecido como o dia do nascimento de Mitra, chamado o Sol invencível. Tal como Jesus Cristo, o deus Mitra teria nascido de uma virgem, numa gruta ou caverna. As seriações de dias estabelecidos pelos cristãos em preparação de suas grandes celebrações, tais como vigílias, tríduos e oitavas, possivelmente aconteceram por influência das Saturnais que se celebravam na segunda metade de dezembro e se estendiam por cinco dias.

Rituais da vida e da morte

A decisão dos cristãos de agendarem a celebração natalina nesse período anual não foi nada criativa, mas ajuizada manifestação de sua capacidade de adaptar-se a manifestações culturais existentes, já antes de Cristo. Em significativa parte do Hemisfério Norte conhecido, no Extremo Oriente e também entre os povos da América, o solstício de Inverno era celebrado com rituais ligados quer ao renascimento da vida e da esperança quer à própria morte. Na Europa, desde a Galícia até a Sérvia, além de diversos rituais, havia muitas canções populares que falavam da existência de um reencontro entre os vivos e seus antepassados, nessa fase do ano, quando o Sol se manifesta no ponto mais baixo da sua energia e a noite se torna mais longa. Nas trevas frias havia espaço tanto para orgias como para celebração da fecundidade.

O velhinho do sonho e da fantasia

O simpático e rechonchudo velhinho barbudo que vem do Pólo Norte, vestido de vermelho e que traz presentes em seu trenó, tornou-se conhecido como Papai Noel. Sua representação hoje é o núcleo estratégico para o marketing natalino. Sua criação foi a partir da figura de São Nicolau, bispo de Mira (atual Turquia), protetor dos marinheiros e viajantes, nascido por volta de 270 e a quem se atribuíam milagres relacionados a crianças. Este santo bispo era representado com mitra e cajado e paramentado de vestes vermelhas. A necessidade de incentivos à fantasia infantil, levou a sociedade a misturar a lembrança de um bispo católico que parece ter existido, com a imagem de um velhinho que, segundo lenda, na noite de Natal cruzava o céu com seu carro puxado por renas e descia pelas chaminés das casas.

Papai Noel  tem perfil para crianças

Em 1822, Clement C. Moore, um professor norte-americano deu um toque de mestre no perfil do Papai Noel que, ainda nos nossos dias, transita pelos céus à época do Natal. Seguindo o poema “Uma Visita de São Nicolau”, que o professor escreveu para seus filhos, em 1886, na revista “Harper’s Weekly”, o cartunista Thomas Nast redesenhou a personagem tal e qual é apresentada atualmente. Portanto, muito antes de a Coca-Cola o ter usado o velhinho de vermelho e branco em sua publicidade e os profissionais da mídia o terem explorado,  usando de todos os recursos, como sinal de esperança, de sonho e de poesia, num mundo atacado pela violência generalizada..

São Francisco e o presépio

O presépio, encenação teatral que São Francisco de Assis realizou no vale de Greccio (Itália), em 1223, embora de extrema importância como memória de fato acontecido em Belém de Judá, atualmente perde como atração tanto para o Papai Noel como para todos os demais símbolos natalinos do consumismo. Temos que reconhecer que, hoje, também o presépio não significa mais que um conjunto de imagens de tradições e de variantes diversificadas. A cada ano, mesmo nos recintos das igrejas, o presépio passa por grandes mudanças, em sua maioria, em virtude das alterações diversificadas e drásticas de valores que envolvem até mesmo a própria qualidade das celebrações religiosas.

* São Paulo, 9 de dezembro de 2007

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