UM CAMINHO PARA A TRANSCENDÊNCIA
Este livro é considerado um marco da espiritualidade cristã. De autor anônimo, inglês, foi escrito em fins da Idade Média, por volta do século XIV. Segundo Comblin, apresentador desta edição, seu propósito seria “transmitir ao leitor sua convicção, adquirida pela experiência, de que não se chega a conhecer Deus através das idéias e da reflexão intelectual. O conhecimento de Deus fica num não-saber (...) um saber que nunca sai de certa escuridão”.
Simon Tugwell, dominado de Oxford, observa no prefácio que o autor da “Nuvem” não está interessado em qualquer tipo de reflexão teológica ou metafísica. No entanto, ele admite que a ordem material seria expressão da ordem espiritual e vice-versa.
Adverte-nos esse anônimo medievo quanto ao erro de forçar nossa natureza a agir de modo contrário a ela, na busca da contemplação; e quem somente o nosso “ser nu” seria capaz de se aproximar do “ser nu” seria de Deus. Acredita ele que a possibilidade de nossa união contemplativa com Deus estaria não em nossos méritos, mas na misteriosa profundeza de nossas almas. E desde que O solicitemos humildemente na oração Ele virá em nosso auxílio.
Ao longo de todo este livro, a reflexão se desenvolve tendo como suporte o exercício necessário para elevar o coração a Deus, num discreto impulso de amor. Recomenda: “Faça tudo que estiver a seu alcance para esquecer todas as criaturas que Deus já criou, a fim de que, nem seu pensamento, nem seu desejo, em geral ou em particular, sejam dirigidos ou estendidos a qualquer uma delas”. Alerta para fato de que, ao fazer esse exercício pela primeira vez, tudo que se encontra é escuridão, “uma espécie de nuvem do não-saber” sempre presente entre o contemplativo e Deus.Propõe então “descansar nessa escuridão” enquanto se possa, chamando por Ele a quem se ama. Por escuridão entende a privação de conhecimento, algo que não sabemos ou esquecemos, porque não o percebemos com “olhos espirituais”. Lembra que é preciso bater nessa espessa nuvem com um dardo afiado de amor ardente, pois Deus pode ser amado, não pensado.
Nos capítulos VII e LXX há recomendações de apreciável sintonia com a prática da meditação hoje. No VII, ensina como lidar com os pensamentos durante o citado exercício: “a fim de obter melhor compreensão tome só uma palavrinha (...) quanto mais curta melhor (...) Escolha a que preferir (...) Prenda essa palavra no seu coração (...) [Ela] há de ser seu escudo (...) na paz ou na guerra. [Com Ela] você açoitará essa nuvem e essa escuridão” abatendo toda sorte de pensamento. No LXX afirma que “o silenciar de nossos sentidos físicos conduz muito mais facilmente à experiência das coisas espirituais; da mesma maneira que silenciar de nossas faculdades espirituais conduz a um conhecimento experimental de Deus, tanto quanto possível,pela ação da graça, na vida presente”.
No capítulo XXX, a questão tratada é a do julgamento. Propõe: “julgue-se a si próprio como quiser; é um assunto entre você e seu Deus (...) mas, deixe os outros em paz”.
A cada passo , alerta para o cuidado com o orgulho, as ilusões, as fantasias, as emoções e as armadilhas do demo, dando eco nesse particular à obsessão que marcou a Cristandade do Ocidente desde o século XIII. Chama também a atenção para não interpretar materialmente metáforas com significado espiritual, citando expressões como “acima”, “abaixo”, “dentro”, “fora” etc. Parece à primeira vista que estamos diante de um diretor espiritual, ou de um mestre de noviços, talvez um cartuxo, como sugere o autor do prefácio.
Sóbrio em referencias, uma delas de São Dionísio (capítulo LXX) parece haver contribuído especialmente para sua percepção contemplativa: “O saber verdadeiramente divino de Deus é aquele que é conhecido pelo não-sabe”.
Comenta-se que a “Nuvem” exerceu forte influencia na espiritualidade espanhola do século XVI, sobretudo a carmelita, havendo inspirado Tereza de Ávila a encontrar seu caminho.
Provavelmente ligado à tradição platônica e à verdade teológica de Santo Agostinho, o autor da “Nuvem” está convicto de que as aspirações fundamentais de todos os seres humanos se realizam na união com Deus, a nós revelado em Jesus Cristo.
Fonte:Meditação Cristã Boletim do Rio de Janeiro n° 41