De: Maria Celia Bach
Vale a pena
ler até o fim!
Uma história do mestre Benjamim.
Rubem Alves
A tenda do Mestre Benjamim estava cheia.
Uma velhinha de voz trêmula pele cheia de rugas lhe
pediu:
-"Mestre, fale-nos sobre Deus...” Mestre Benjamim fez
silêncio. Olhou para o vazio. Vagarosamente um
sorriso foi-se abrindo.
-“Quantas pessoas aqui, na minha tenda, estão
pensando no ar? Por favor, levantem uma mão...”
Ninguém levantou a mão.
-“Ninguém levantou a mão... Ninguém está pensando no
ar. E, no entanto, todos nós o estamos respirando. O
ar é a nossa vida e não precisamos pensar nele nem
dizer o seu nome para que ele nos dê vida. Mas o homem
que se afoga no fundo das águas só pensa no ar.
Deus é assim. Não é preciso pensar nele e pronunciar o
seu nome.
Ao contrário, quando se pensa nele o tempo todo é
porque está se afogando..."
-“Que desejamos para os nossos filhos?
Que eles sejam felizes. Sorrimos ao vê-los por aí a
correr, a pular, a cantar, a brincar, pensando nas
coisas de criança.
Mas enquanto brincam e riem eles não pensam em nós.
Se um filho ao se levantar viesse até você e o
elogiasse, e agradecesse porque você lhe deu a vida e
jurasse amor para sempre, e fizesse a mesma coisa na
hora do almoço, e repetisse os mesmos gestos e
palavras ao meio da tarde, e de noite fizesse tudo de
novo, suspeitaríamos de que alguma coisa não está bem.
O que desejamos é que eles gozem a vida sem pensar em
nós.
Quem pensa demais e fala demais sobre Deus é porque
não o está respirando.
Fez-se silêncio.
Foi quando uma lufada de vento entrou pela tenda,
fazendo balançar a lâmpada de óleo que pendia do teto.
-“Deus é como o vento. Sentimos na pele quando ele
passa, ouvimos a sua música nas folhas das árvores e o
seu assobio nas gretas das portas. Mas não sabemos de
onde vem nem para onde vai. Na flauta o vento se
transforma em melodia. Mas não é possível
engarrafá-lo.
Mas as religiões tentam engarrafá-lo em lugares
fechados a que eles dão o nome de “casa de Deus”. Mas
se Deus mora numa casa estará ele ausente do resto do
mundo? Vento engarrafado não sopra...”
Ouviu-se então o pio distante de uma coruja.
-“Deus é como um pássaro encantado que nunca se vê. Só
se ouve o seu canto...”
-“Deus é uma suspeita do nosso coração de que o
universo tem um coração que pulsa como o nosso.
Suspeita... Nenhuma certeza.
Deus nos deu asas. Mas as religiões inventaram
gaiolas. Tudo o que vive é pulsação do sagrado. As
aves dos céus, os lírios dos campos...
Até o mais insignificante grilo, no seu cricri
rítmico, é uma música do Grande Mistério.
É preciso esquecer os nomes de Deus que as religiões
inventaram para encontrá-lo sem nome no assombro da
vida. Não precisamos dizer o nome “rosa” para sentir o
seu perfume. Muitas pessoas que jamais pronunciam o
nome de Deus o conhecem como reverência pela vida.
Há pessoas que se sentem religiosas por acreditar em
Deus.
De que vale isso?
Os demônios também acreditam e estremecem ao ouvir o
seu nome (Tiago 2.19).
Os homens religiosos, quando alguém morre, dizem:
“Deus o levou para si”.
Então, enquanto vivo, ele estava distante de Deus?
Deus é Deus dos mortos ou Deus dos vivos? Deus não
mora no mundo dos mortos.
Ele mora no nosso mundo, passeia pelo jardim.
Deus é beleza.
Quer ver Deus?
Veja a beleza do Sol que se põe, sem pensar em Deus.
Quer ouvir Deus? Entregue-se à beleza da música, sem
pensar em Deus.
Quer sentir o cheiro de Deus? Respire fundo o cheiro
do jasmim, sem pensar em Deus.
Quer saber como é o coração de Deus? Empurre uma
criança num balanço porque Deus tem um coração de
criança, sem pensar em Deus.
Há beleza demais no Universo.
Mas o tempo vai-nos roubando as coisas que amamos.
Vai-se o arbusto, vai-se a montanha, vão-se os riachos
cristalinos, vão-se as pessoas amadas, vamos nós...
O tempo é um monstro que devora os seus filhos.
Fica a saudade. Saudade é a presença da ausência das
coisas que amamos e nos foram roubadas pelo tempo.
Quando se pronuncia o nome sagrado, está-se afirmando
que a beleza amada não está perdida no passado. Está
escrito num poema sagrado:
“Lança o teu pão sobre as águas porque depois de
muitos dias o encontrarás..
As águas dos rios são circulares, o tempo é circular,
o que foi perdido volta, um eterno retorno...
Deus existe para nos curar da saudade...
Eu gostaria de dar um conselho: “Não sejam curiosos a
respeito de Deus, pois eu sou curioso sobre todas as
coisas e não sou curioso a respeito de Deus.
Não há palavra capaz de dizer quando eu me sinto em
paz perante Deus e a morte.
Escuto e vejo Deus em todos os objetos, embora de Deus
eu não entenda nem um pouquinho...
Eu vejo Deus em cada uma das vinte e quatro horas e em
cada instante de cada uma delas, nos rostos dos homens
e das mulheres eu vejo Deus...” (Walt Whitman)
“Sejamos simples e calmos como os regatos e as
árvores, e Deus amar-nos-á fazendo de nós belos como
as árvores e os regatos, e dar-nos-á verdor na sua
primavera e um rio aonde ir ter quando acabemos.”
(Alberto Caeiro)
Ouvidas essas palavras a velhinha sorriu para o Mestre
Benjamim e fez um gesto com a sua mão,
abençoando-o.
* Texto condensado do livro Perguntaram-
em Deus (Ed. Planeta).