Capítulo 9
A PASTORAL DOS JOVENS
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A pastoral juvenil, tal como estávamos habituados a realizá-la, foi abalroada pelas mudanças sociais e culturais. Nas estruturas habituais, muitas vezes os jovens não encontram resposta para as suas inquietudes, necessidades, problemas e feridas. A proliferação e o crescimento de associações e movimentos com caraterísticas predominantemente juvenis podem ser interpretados como uma ação do Espírito que abre novos caminhos. Mas é necessário um aprofundamento da sua participação na pastoral de conjunto da Igreja, bem como uma maior comunhão entre eles e uma melhor coordenação da atividade. Embora nem sempre seja fácil abordar os jovens, estamos a crescer em dois aspetos: a consciência de que é toda a comunidade que os evangeliza e a urgência de que os jovens sejam mais protagonistas nas propostas pastorais.
Quero assinalar que os próprios jovens são agentes da pastoral juvenil, acompanhados e orientados mas livres para encontrar caminhos sempre novos, com criatividade e ousadia. Por conseguinte, seria supérfluo deter-me aqui a propor uma espécie de manual de pastoral juvenil ou um guia prática de pastoral. Trata-se, antes, de colocar em campo a sagacidade, o engenho e o conhecimento que os próprios jovens têm da sensibilidade, linguagem e problemáticas dos outros jovens.
Fazem-nos ver a necessidade de assumir novos estilos e estratégias. Por exemplo, enquanto os adultos procuram ter tudo programado, com reuniões periódicas e horários fixos, hoje a maioria dos jovens sente-se pouco atraída por estes esquemas pastorais. A pastoral juvenil precisa de adquirir outra flexibilidade, convidando os jovens para acontecimentos que, de vez em quando, lhes proporcionem um espaço onde não só recebam uma formação, mas lhes permitam também compartilhar a vida, festejar, cantar, escutar testemunhos concretos e experimentar o encontro comunitário com o Deus vivo.
Neste sentido, seria altamente desejável recolher ainda mais as boas práticas: metodologias, linguagens, motivações que se revelaram realmente atraentes para aproximar os jovens de Cristo e da Igreja. Não importa a cor delas: se são «conservadoras ou progressistas», se são «de direita ou de esquerda». O importante é recolher tudo aquilo que deu bons resultados e seja eficaz para comunicar a alegria do Evangelho.
A pastoral juvenil só pode ser sinodal, ou seja, capaz de dar forma a um «caminhar juntos» que implica «a valorização â através dum dinamismo de corresponsabilidade â dos carismas que o Espírito dá a cada um dos membros [da Igreja], de acordo com a respetiva vocação e missão. (â¦) Animados por este espírito, poderemos avançar para uma Igreja participativa e corresponsável, capaz de valorizar a riqueza da variedade que a compõe, acolhendo com gratidão também a contribuição dos fiéis leigos, incluindo jovens e mulheres, a da vida consagrada feminina e masculina e a de grupos, associações e movimentos. Ninguém deve ser colocado nem deixado colocar-se de lado».
Desta forma, aprendendo uns com os outros, podemos refletir melhor aquele maravilhoso poliedro que deve ser a Igreja de Jesus Cristo. Esta pode atrair os jovens, precisamente porque não é uma unidade monolítica, mas uma trama de variados dons que o Espírito derrama incessantemente nela, fazendo-a sempre nova apesar das suas misérias.
No Sínodo, surgiram muitas propostas concretas para renovar a pastoral juvenil e libertá-la de esquemas que já não são eficazes, porque não entram em diálogo com a cultura atual dos jovens. Como se compreende, não poderia reuni-las todas aqui; entretanto é possível encontrar algumas delas no Documento Final do Sínodo. Grandes linhas de ação
Queria apenas assinalar, brevemente, que a pastoral juvenil supõe duas grandes linhas de ação. Uma é a busca, a convocação, a chamada que atraia novos jovens para a experiência do Senhor. A outra é o crescimento, o desenvolvimento dum percurso de maturação para quantos já fizeram essa experiência.
Relativamente à primeira, a busca, confio na capacidade dos próprios jovens, que sabem encontrar os caminhos atraentes para convidar. Sabem organizar festivais, competições desportivas, e sabem também evangelizar nas redes sociais com mensagens, canções, vídeos e outras intervenções. Devemos apenas estimular os jovens e dar-lhes liberdade de ação, para que se entusiasmem com a missão nos ambientes juvenis. O primeiro anúncio pode despertar uma profunda experiência de fé no meio dum retiro de conversão, numa conversa no bar, num recreio da Faculdade, ou qualquer outro dos insondáveis caminhos de Deus. O mais importante, porém, é que cada jovem ouse semear o primeiro anúncio na terra fértil que é o coração doutro jovem.
Nesta busca, deve-se privilegiar a linguagem da proximidade, a linguagem do amor desinteressado, relacional e existencial que toca o coração, atinge a vida, desperta esperança e anseios. É necessário aproximar-se dos jovens com a gramática do amor, não com o proselitismo. A linguagem que os jovens entendem é a de quantos dão a vida, a daqueles que estão ali por eles e para eles, e a de quem, apesar das suas limitações e fraquezas, se esforça por viver coerentemente a sua fé. Ao mesmo tempo, devemos procurar, ainda com maior sensibilidade, como encarnar o querigma na linguagem dos jovens de hoje.
Quanto ao crescimento, quero fazer uma advertência importante. Acontece em alguns lugares que, depois de ter provocado nos jovens uma experiência intensa de Deus, um encontro com Jesus que tocou o seu coração, propõe-lhes encontros de «formação» onde se abordam apenas questões doutrinais e morais: sobre os males do mundo atual, sobre a Igreja, a doutrina social, sobre a castidade, o matrimónio, o controle da natalidade e sobre outros temas. Resultado: muitos jovens aborrecem-se, perdem o fogo do encontro com Cristo e a alegria de O seguir, muitos abandonam o caminho e outros ficam tristes e negativos. Acalmemos a ânsia de transmitir uma grande quantidade de conteúdos doutrinais e procuremos, antes de mais nada, suscitar e enraizar as grandes experiências que sustentam a vida cristã. Como dizia Romano Guardini, «na experiência dum grande amor (â¦), tudo o que acontece se transforma num episódio interno àquela».
Qualquer projeto formativo, qualquer percurso de crescimento para os jovens deve, certamente, incluir uma formação doutrinal e moral. De igual modo é importante que aqueles estejam centrados em dois eixos principais: um é o aprofundamento do querigma, a experiência fundante do encontro com Deus através de Cristo morto e ressuscitado; o outro é o crescimento no amor fraterno, na vida comunitária, no serviço.
Sobre isto, insisti muito na Exortação Evangelii gaudium e acho que seria oportuno lembrá-lo. Por um lado, seria um erro grave pensar que, na pastoral juvenil, «o querigma é deixado de lado em favor duma formação supostamente mais âsólidaâ. Nada há de mais sólido, mais profundo, mais seguro, mais consistente e mais sábio que esse anúncio. Toda a formação cristã é, primariamente, o aprofundamento do querigma que se vai, cada vez mais e melhor, fazendo carne». Por isso, a pastoral juvenil deveria incluir sempre momentos que ajudem a renovar e aprofundar a experiência pessoal do amor de Deus e de Jesus Cristo vivo. Fá-lo-á valendo-se de vários recursos: testemunhos, cânticos, momentos de adoração, espaços de reflexão espiritual com a Sagrada Escritura e, inclusivamente, com vários estímulos através das redes sociais. Mas nunca se deve substituir esta experiência feliz de encontro com o Senhor por uma espécie de «doutrinação».
Além disso, qualquer plano de pastoral juvenil deve conter claramente meios e recursos variados para ajudarem os jovens a crescer na fraternidade, viver como irmãos, auxiliar-se mutuamente, criar comunidade, servir os outros, aproximar-se dos pobres. Se o amor fraterno é o «novo mandamento» ( Jo 13, 34), «o pleno cumprimento da lei» ( Rm 13, 10) e o que melhor demonstra o nosso amor a Deus, então deve ocupar um lugar relevante em todo o plano de formação e crescimento dos jovens.
Em todas as nossas instituições, devemos desenvolver e reforçar muito mais a nossa capacidade de receção cordial, porque muitos dos jovens que chegam encontram-se numa situação profunda de orfandade. E não me refiro a certos conflitos familiares, mas a uma experiência que atinge igualmente crianças, jovens e adultos, mães, pais e filhos. Para muitos órfãos e órfãs, nossos contemporâneos â talvez para nós mesmos â, comunidades como a paróquia e a escola deveriam oferecer percursos de amor gratuito e promoção, de afirmação e crescimento. Hoje, muitos jovens sentem-se filhos do fracasso, porque os sonhos de seus pais e avós acabaram queimados na fogueira da injustiça, da violência social, do «salve-se quem puder». Quanto desenraizamento! Se os jovens cresceram num mundo de cinzas, não é fácil para eles sustentar o fogo de grandes ilusões e projetos. Se cresceram num deserto vazio de sentido, como poderão ter vontade de se sacrificar para semear? A experiência de descontinuidade, desenraizamento e queda das certezas basilares, favorecida pela cultura mediática atual, provoca esta sensação de profunda orfandade à qual devemos responder, criando espaços fraternos e atraentes onde haja um sentido para viver.
Criar «lar» é, em última análise, «criar família; é aprender a sentir-se unido aos outros, sem olhar a vínculos utilitaristas ou funcionais, unidos de modo a sentir a vida um pouco mais humana. Criar lares, âcasas de comunhãoâ, é permitir que a profecia encarne e torne as nossas horas e dias menos rudes, menos indiferentes e anónimos. É criar laços que se constroem com gestos simples, diários e que todos podemos realizar. Como todos sabemos muito bem, um lar precisa da colaboração de todos. Ninguém pode ficar indiferente ou alheio, porque cada qual é uma pedra necessária na sua construção. Isto implica pedir ao Senhor que nos conceda a graça de aprender a ter paciência, aprender a perdoar-nos; aprender cada dia a recomeçar. E quantas vezes temos de perdoar e recomeçar? Setenta vezes sete, todas as vezes que for necessário. Criar laços fortes requer a confiança, que se alimenta diariamente de paciência e perdão. Deste modo se concretiza o milagre de experimentar que, aqui, se nasce de novo; aqui todos nascemos de novo, porque sentimos a eficácia da carícia de Deus que nos permite sonhar o mundo mais humano e, consequentemente, mais divino».
Neste contexto, é preciso oferecer lugares apropriados aos jovens, nas nossas instituições: lugares que eles possam gerir a seu gosto, com a possibilidade de entrar e sair livremente, lugares que os acolham e onde lhes seja possível encontrar-se, espontânea e confiadamente, com outros jovens tanto nos momentos de sofrimento ou de chatice como quando desejam festejar as suas alegrias. Algo do género foi realizado por alguns oratórios e outros centros juvenis, que em muitos casos são o ambiente onde os jovens vivem experiências de amizade e enamoramento, onde se encontram e podem compartilhar música, atividades recreativas, desporto e também a reflexão e a oração com pequenos subsídios e várias propostas. Assim abre caminho aquele indispensável anúncio de pessoa a pessoa, que não pode ser substituído por nenhum recurso ou estratégia pastoral.
«A amizade e o intercâmbio, frequentemente mesmo em grupos mais ou menos estruturados, possibilitam reforçar competências sociais e relacionais num contexto onde não se sentem avaliados nem julgados. A experiência de grupo constitui também um grande recurso para a partilha da fé e a ajuda mútua no testemunho. Os jovens são capazes de guiar outros jovens, vivendo um verdadeiro apostolado no meio dos seus próprios amigos».
Isso não significa que se isolem e percam todo o contacto com as comunidades paroquiais, os movimentos e outras instituições eclesiais. Mas os jovens inserir-se-ão melhor em comunidades abertas, vivas na fé, desejosas de irradiar Jesus Cristo, alegres, livres, fraternas e comprometidas. Tais comunidades podem ser os canais que os levam a sentir que é possível cultivar relações preciosas. A pastoral das instituições educacionais
A escola é, sem dúvida, uma plataforma para nos aproximarmos das crianças e dos jovens. Trata-se de um lugar privilegiado de promoção da pessoa e, por isso, a comunidade cristã sempre lhe dedicou grande atenção, quer formando professores e diretores, quer instituindo escolas próprias, de todo o género e grau. Neste campo, o Espírito tem suscitado inúmeros carismas e testemunhos de santidade. Contudo a escola precisa duma urgente autocrítica; basta olhar os resultados da pastoral de muitas instituições educacionais: uma pastoral concentrada na instrução religiosa que, frequentemente, se mostra incapaz de suscitar experiências de fé duradouras. Além disso, existem algumas escolas católicas que parecem organizadas apenas para conservar a situação presente. A fobia da mudança torna-as incapazes de suportar a incerteza, impelindo-as a retrair-se perante os perigos, reais ou imaginários, que toda a mudança acarreta consigo. A escola transformada num «bunker», que protege dos erros «de fora»: tal é a caricatura desta tendência. Esta imagem reflete de maneira chocante aquilo que experimentam inúmeros jovens na hora da sua saída de alguns estabelecimentos de ensino: um desfasamento insanável entre o que lhes ensinaram e o mundo onde lhes cabe viver. As próprias propostas religiosas e morais recebidas não os prepararam para confrontá-las com um mundo que as ridiculariza, e não aprenderam formas de rezar e viver a fé que se possam facilmente sustentar no meio do ritmo desta sociedade. Na realidade, uma das maiores alegrias dum educador é ver um aluno constituir-se como uma pessoa forte, integrada, protagonista e capaz de se doar.
A escola católica continua a ser essencial como espaço de evangelização dos jovens. É importante ter presente alguns critérios inspiradores, indicados na Constituição Apostólica Veritatis gaudium em ordem a uma renovação e relançamento das escolas e universidades «em saída» missionária, tais como a experiência do querigma, o diálogo a todos os níveis, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade, a promoção da cultura do encontro, a necessidade urgente de «criar rede» e a opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e abandona; e também a capacidade de integrar os saberes da cabeça, do coração e das mãos.
Além disso, não podemos separar a formação espiritual da formação cultural. A Igreja sempre quis desenvolver, em prol dos jovens, espaços para a melhor cultura; e não deve desistir de o fazer, porque os jovens têm direito a ela. E, «sobretudo hoje, direito à cultura significa tutelar a sabedoria, ou seja, um saber humano e humanizador. Demasiadas vezes vivemos condicionados por modelos de vida banais e efémeros, que estimulam a perseguir o sucesso a baixo preço, desacreditando o sacrifício, inculcando a ideia de que o estudo não serve, se não leva imediatamente a algo de concreto. Mas não! O estudo serve para se questionar, para não se deixar anestesiar pela banalidade, para procurar um sentido na vida. Deve ser reclamado o direito a não fazer prevalecer as muitas sereias que hoje afastam desta busca. Ulisses, para não ceder ao canto das sereias, que encantavam os marinheiros e os faziam espatifar-se contra os rochedos, amarrou-se ao mastro da nau e fechou os ouvidos dos companheiros de viagem. Ao contrário, Orfeu, para contrastar o canto das sereias, fez algo diferente: entoou uma melodia mais bonita, que encantou as sereias. Eis a vossa tarefa: responder aos estribilhos paralisantes do consumismo cultural com escolhas dinâmicas e fortes, com a investigação, o conhecimento e a partilha». Diferentes áreas de desenvolvimento pastoral
Muitos jovens são capazes de aprender a amar o silêncio e a intimidade com Deus. Aumentou também o número dos grupos que se reúnem para adorar o Santíssimo Sacramento e rezar com a Palavra de Deus. Não se subestimem os jovens como se fossem incapazes de abrir-se a propostas contemplativas; basta encontrar os estilos e modalidades adequados para os ajudar a entrar nesta experiência de tão alto valor. Relativamente aos setores do culto e da oração, «em diferentes contextos, os jovens católicos pedem propostas de oração e momentos sacramentais capazes de tocar a sua vida diária, numa liturgia nova, autêntica e jubilosa». É importante valorizar os momentos mais fortes do Ano Litúrgico, particularmente a Semana Santa, o Pentecostes e o Natal. Prezam muito também outros encontros de festa, que quebram a rotina e ajudam a experimentar a alegria da fé.
Uma oportunidade privilegiada para o crescimento e para a abertura ao dom divino da fé e da caridade é o serviço: muitos jovens sentem-se atraídos pela possibilidade de ajudar os outros, especialmente as crianças e os pobres. Frequentemente, este serviço é o primeiro passo para descobrir ou redescobrir a vida cristã e eclesial. Muitos jovens cansam-se dos nossos programas de formação doutrinal, e mesmo espiritual, e às vezes reclamam a possibilidade de ser mais protagonistas em atividades que façam algo pelas pessoas.
Não podemos esquecer as expressões artísticas, como o teatro, a pintura e outras. «De importância muito peculiar se reveste a música, que representa um verdadeiro e próprio ambiente onde os jovens estão constantemente imersos, bem como uma cultura e uma linguagem capazes de suscitar emoções e moldar a identidade. A linguagem musical constitui também um recurso pastoral, que interpela de modo particular a liturgia e a sua renovação». O canto pode ser um grande estímulo no percurso dos jovens. Dizia Santo Agostinho: «Canta, mas caminha; cantando, alivia a fadiga, mas não te dês à preguiça; canta e caminha. (...) Tu, se progrides, caminhas. Mas progride no bem, progride na verdadeira fé, progride na vida santa. Canta e caminha».
«Igualmente significativa é a relevância que assume entre os jovens a prática desportiva, cujas potencialidades em chave educacional e formativa a Igreja não deve subestimar, mantendo uma presença sólida dentro dela. O mundo do desporto precisa de ser ajudado a superar as ambiguidades que o permeiam, como a mitificação dos campeões, a submissão a lógicas comerciais e a ideologia do sucesso a todo o custo». Na base da experiência desportiva, «está a alegria: a felicidade de se mover, a alegria de estar juntos, o júbilo pela vida e pelas dádivas que o Criador concede todos os dias». Aliás houve Padres da Igreja que tomaram o exemplo das práticas desportivas para convidar os jovens a crescer na fortaleza e dominar o torpor ou a comodidade; assim São Basílio Magno, dirigindo-se aos jovens, tomava o exemplo do esforço que requer o desporto e assim inculcava neles a capacidade de se sacrificarem para crescer nas virtudes: «Depois de se terem imposto milhares e milhares de sacrifícios para aumentar por todos os meios a sua força física, suando nos fatigosos exercícios de ginástica (...) e â para não me alongar nas minhas palavras â levando uma existência tal que a sua vida antes da competição é apenas uma preparação para a mesma, (...) lançam mão de todos os seus recursos físicos e psíquicos simplesmente para ganhar uma coroa. (â¦) E nós, que aguardamos na outra vida prémios tão maravilhosos que nenhuma língua pode descrever dignamente, pensamos porventura alcançá-los transcorrendo a vida por entre comodidades e na acídia?»
Em muitos adolescentes e jovens, desperta especial atração o contacto com a criação, sendo sensíveis à salvaguarda do meio ambiente, como no caso dos escuteiros e outros grupos que organizam dias de contacto com a natureza, acampamentos, caminhadas, expedições e campanhas ambientais. No espírito de São Francisco de Assis, são experiências que podem traçar um caminho para se introduzir na escola da fraternidade universal e na oração contemplativa.
Estas e outras distintas possibilidades que se abrem à evangelização dos jovens não devem fazer-nos esquecer que, para além das mudanças na história e da sensibilidade dos jovens, há dons de Deus que são sempre atuais e contêm uma força que transcende todos os tempos e circunstâncias: a Palavra do Senhor sempre viva e eficaz, a presença de Cristo na Eucaristia que nos alimenta e o Sacramento do Perdão que nos liberta e fortalece. Podemos também mencionar a inesgotável riqueza espiritual que a Igreja conserva no testemunho dos seus Santos e no ensinamento dos grandes mestres espirituais. Embora tenhamos de respeitar as várias etapas e precisemos por vezes de esperar com paciência o momento certo, não podemos deixar de convidar os jovens para estas fontes de vida nova; não temos o direito de os privar de tanto bem. Uma pastoral juvenil popular
Além da habitual ação pastoral que realizam as paróquias e os movimentos, segundo determinados esquemas, é muito importante dar espaço a uma «pastoral juvenil popular», que tem estilo, tempos, ritmo e metodologia diferentes. É uma pastoral mais ampla e flexível que estimula, nos distintos lugares onde se movem concretamente os jovens, as lideranças naturais e os carismas que o Espírito Santo já semeou entre eles. Trata-se, antes de mais nada, de não colocar tantos obstáculos, normas, controles e enquadramentos obrigatórios aos jovens crentes que são líderes naturais nos bairros e nos diferentes ambientes. Devemos limitar-nos a acompanhá-los e estimulá-los, confiando um pouco mais na fantasia do Espírito Santo que age como quer.
Falamos de líderes realmente «populares», não elitistas ou fechados em pequenos grupos de eleitos. Para ser capazes de animar uma pastoral popular no mundo dos jovens, precisam de «aprender a sondar os sentimentos do povo, a fazer-se seus porta-vozes e a trabalhar pela sua promoção». Quando falamos de «povo», não se deve entender tanto as estruturas da sociedade ou da Igreja, como sobretudo o conjunto de pessoas que não caminham como indivíduos, mas como o tecido duma comunidade de todos e para todos, que não pode permitir que os mais pobres e frágeis fiquem para trás: «O povo deseja que todos participem dos bens comuns e, por isso, aceita adaptar-se ao passo dos últimos para chegarem todos juntos». Portanto os líderes populares são aqueles que têm a capacidade de integrar a todos, incluindo na marcha juvenil os mais pobres, frágeis, limitados e feridos. Não lhes fazem repugnância nem metem medo os jovens chagados e crucificados.
Na mesma linha, especialmente com os jovens que não cresceram em famílias ou instituições cristãs e estão num caminho de lenta maturação, devemos estimular o bem possível. Cristo advertiu-nos para não pretendermos que tudo seja apenas trigo (cf. Mt 13, 24-30). Às vezes, por pretender uma pastoral juvenil asséptica, pura, caraterizada por ideias abstratas, afastada do mundo e preservada de toda a mancha, reduzimos o Evangelho a uma proposta insípida, incompreensível, distante, separada das culturas juvenis e adaptada só a uma elite juvenil cristã que se sente diferente, mas na verdade flutua num isolamento sem vida nem fecundidade. Assim, juntamente com as ervas daninhas que rejeitamos, arrancamos ou sufocamos milhares de rebentos que procuram crescer no meio das limitações.
Em vez de «sufocá-los com um conjunto de regras que dão uma imagem redutora e moralista do cristianismo, somos chamados a investir na sua audácia, educando-os para assumir as suas responsabilidades, certos de que também o erro, o falimento e a crise são experiências que podem revigorar a sua humanidade».
No Sínodo, exortou-se a construir uma pastoral juvenil capaz de criar espaços inclusivos, onde haja lugar para todo o tipo de jovens e onde se manifeste, realmente, que somos uma Igreja com as portas abertas. Não é necessário sequer que uma pessoa aceite completamente todos os ensinamentos da Igreja para poder participar em alguns dos nossos espaços dedicados aos jovens. Basta uma atitude aberta para com todos os que tenham o desejo e a disposição de se deixar encontrar pela verdade revelada por Deus. Algumas propostas pastorais podem supor um caminho já percorrido na fé, mas precisamos duma pastoral juvenil popular que abra as portas e dê espaço a todos e cada um com as suas dúvidas, traumas, problemas e a sua busca de identidade, com os seus erros, suas histórias, suas experiências do pecado e todas as suas dificuldades.
Deve haver espaço também para «todos aqueles que têm outras visões da vida, professam outras crenças ou se declaram alheios ao horizonte religioso. Todos os jovens, sem excluir nenhum, estão no coração de Deus e, consequentemente, também no coração da Igreja. Francamente, porém, temos de reconhecer que nem sempre esta afirmação que ressoa nos nossos lábios encontra real expressão na nossa ação pastoral: muitas vezes ficamos fechados nos nossos ambientes, onde a voz dos outros não chega, ou dedicamo-nos a atividades menos exigentes e mais gratificantes, sufocando aquela sã inquietação pastoral que nos faz sair das nossas supostas seguranças. E todavia o Evangelho pede-nos para ousar e queremos fazê-lo sem presunção nem proselitismo, testemunhando o amor do Senhor e estendendo a mão a todos os jovens do mundo inteiro».
A pastoral juvenil, quando deixa de ser elitista e aceita ser «popular», é um processo lento, respeitoso, paciente, confiante, incansável, compassivo. No Sínodo, foi proposto o exemplo dos discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 13-35), que pode ser também modelo do que acontece na pastoral juvenil.
«Jesus caminha com os dois discípulos que, incapazes de entender o sentido do que Lhe acontecera, se retiram de Jerusalém e da comunidade. Para estar na sua companhia, percorre a estrada com eles. Interroga-os e escuta pacientemente a sua versão dos factos, para os ajudar a reconhecer o que estão a viver. Depois, com afeto e energia, anuncia-lhes a Palavra, levando-os a interpretar à luz das Escrituras os factos que viveram. Aceita o convite para ficar com eles ao cair da tarde: entra na sua noite. Enquanto O escutam, abrasa-se o coração deles e ilumina-se a mente; na fração do pão, abrem-se os seus olhos. E são eles mesmos a decidir pôr-se de novo a caminho, sem demora mas em sentido inverso, para regressar à comunidade e compartilhar a experiência do encontro com Jesus ressuscitado».
As várias manifestações de piedade popular, especialmente as peregrinações, atraem jovens que não se inserem facilmente nas estruturas eclesiais e são uma expressão concreta da confiança em Deus. Estas formas de busca de Deus, presentes particularmente nos jovens mais pobres mas também nos outros setores da sociedade, não devem ser desprezadas, mas encorajadas e estimuladas. Porque a piedade popular «é uma maneira legítima de viver a fé» e é «expressão da atividade missionária espontânea do povo de Deus».
Quero lembrar que não há necessidade de fazer um longo percurso para que os jovens se tornem missionários. Mesmo os mais frágeis, limitados e feridos podem sê-lo à sua maneira, porque sempre devemos permitir que o bem seja comunicado, embora coexista com muitas fragilidades. Um jovem que vai em peregrinação pedir ajuda a Nossa Senhora e convida um amigo ou um companheiro para que o acompanhe, com este gesto simples está a realizar uma valiosa ação missionária. Inseparavelmente unida à pastoral juvenil popular, existe uma missão popular, incontrolável, que rompe todos os esquemas eclesiásticos. Acompanhemo-la, encorajemo-la, mas não pretendamos regulá-la demasiado. 240 Se soubermos escutar aquilo que o Espírito nos está a dizer, não podemos ignorar que a pastoral juvenil deve ser sempre uma pastoral missionária. Os jovens enriquecem-se muito quando superam a timidez e encontram a coragem de ir visitar as casas, pois assim entram em contacto com a vida das pessoas, aprendem a olhar mais além da sua família e do seu grupo, começam a compreender a vida numa perspetiva mais ampla. Ao mesmo tempo reforçam-se a sua fé e o seu sentido de pertença à Igreja. As missões juvenis, que se costumam organizar nas férias depois dum período de preparação, podem suscitar uma renovação da experiência de fé e também projetos vocacionais sérios.
Mas os jovens são capazes de criar novas formas de missão, nos mais variados setores. Por exemplo, visto que se movem tão bem nas redes sociais, é preciso envolvê-los para que as encham de Deus, de fraternidade, de compromisso. O acompanhamento pelos adultos
Os jovens precisam de ser respeitados na sua liberdade, mas necessitam também de ser acompanhados. A família deveria ser o primeiro espaço de acompanhamento. A pastoral juvenil propõe um projeto de vida baseado em Cristo: a edificação duma casa, duma família construída sobre a rocha (cf. Mt 7, 24-25). Para a maioria deles, esta família, este projeto concretizar-se-á no matrimónio e na caridade conjugal. Por isso, é necessário que a pastoral juvenil e a pastoral familiar tenham uma continuidade natural, trabalhando de maneira coordenada e integrada para poder acompanhar adequadamente o processo vocacional.
A comunidade desempenha um papel muito importante no acompanhamento dos jovens, e toda a comunidade se deve sentir responsável por acolhê-los, motivá-los, encorajá-los e estimulá-los. Isto implica que se olhe para os jovens com compreensão, estima e afeto, e não que sejam julgados continuamente ou lhes seja exigida uma perfeição que não corresponde à sua idade.
No Sínodo, «muitos destacaram a carência de pessoas especializadas e dedicadas ao acompanhamento. Acreditar no valor teológico e pastoral da escuta implica repensar a renovação das formas com que, habitualmente, se expressa o ministério presbiteral e verificar as suas prioridades. Além disso, o Sínodo reconhece a necessidade de preparar consagrados e leigos, homens e mulheres, qualificados para o acompanhamento dos jovens. O carisma da escuta, que o Espírito Santo suscita nas comunidades, poderia obter também uma forma de reconhecimento institucional para o serviço eclesial».
Além disso, é preciso acompanhar de modo especial os jovens que se apresentam como potenciais líderes, para poderem formar-se e preparar-se. Os jovens, que se reuniram antes do Sínodo, pediram que se desenvolvam «programas de liderança juvenil para a formação e desenvolvimento contínuo de jovens líderes. Algumas jovens notam uma falta de figuras femininas de referência dentro da Igreja, para a qual desejam, elas também, contribuir com os seus dons intelectuais e profissionais. Achamos ainda que seminaristas e religiosos, com maioria de razão, deveriam ser mais capacitados para acompanhar os jovens líderes».
Os mesmos jovens descreveram-nos as caraterísticas que esperam encontrar num acompanhador; e fizeram-no muito claramente. «Estes guias deveriam possuir algumas qualidades: ser um cristão fiel comprometido na Igreja e no mundo; uma tensão contínua para a santidade; não julgar, mas cuidar; escutar ativamente as necessidades dos jovens; responder com gentileza; conhecer-se; saber reconhecer os seus limites; conhecer as alegrias e as tribulações da vida espiritual. Uma qualidade de primária grandeza é saber reconhecer-se humano e capaz de cometer erros: não perfeitos, mas pecadores perdoados. Acontece frequentemente que os guias são colocados num pedestal e por isso, quando caem, provocam um impacto devastador na capacidade que os jovens têm de se comprometer na Igreja. Os guias não deveriam levar os jovens a serem seguidores passivos, mas sim a caminhar ao seu lado, deixando-os ser os protagonistas do seu próprio caminho. Deveriam respeitar a liberdade do processo de discernimento de um jovem, fornecendo-lhe os instrumentos para realizar adequadamente este processo. Um guia deveria confiar sinceramente na capacidade que tem cada jovem de participar na vida da Igreja. Por isso, um guia deveria cultivar as sementes da fé nos jovens, sem pressa de ver os frutos do trabalho que vem do Espírito Santo. Este papel não deveria ser circunscrito aos presbíteros e aos religiosos, mas também o laicado deveria poder exercê-lo. Todos estes guias deveriam poder beneficiar duma boa formação permanente».
Sem dúvida, as instituições educacionais da Igreja são um ambiente comunitário de acompanhamento que permite orientar muitos jovens, sobretudo quando «procuram acolher todos os jovens, independentemente das suas opções religiosas, proveniência cultural e situação pessoal, familiar ou social. Desta forma, a Igreja presta uma contribuição fundamental para a educação integral dos jovens nas mais diversas partes do mundo». Reduziriam indevidamente a sua função, se estabelecessem critérios rígidos para a admissão de estudantes ou para a sua permanência, porque privariam muitos jovens dum acompanhamento que os ajuda a enriquecer a sua vida.
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