Capítulo 6
O fogo
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Isto comporta consequências para a espiritualidade. Por exemplo, a teologia dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola tem como princípio o affectus. O discurso é construído sobre uma vontade fundamental â com toda a força do coração â que dá energia e recursos à tarefa de reorganizar a vida. As regras e as composições de lugar que Inácio põe em prática funcionam sobre um âfundamentoâ que é diferente delas: o desconhecido do coração. Michel de Certeau mostra como as âmoçõesâ de que fala Santo Inácio são as irrupções de uma vontade de Deus e de uma vontade do próprio coração que permanece diversa em relação à ordem manifesta. Algo de inesperado começa a falar no coração da pessoa, algo que surge do incognoscível, que abala a superfície do conhecido e se lhe opõe. É a origem de um novo âordenamento da vidaâ a partir do coração. Não se trata de discursos racionais que devem ser postos em prática, passando-os para a vida, de modo a que a afetividade e a prática fossem simplesmente as consequências â dependentes â de um conhecimento adquirido .
Onde o filósofo detém o seu pensamento, o coração fiel ama, adora, pede perdão e oferece-se para servir no lugar que o Senhor, à escolha, lhe dá para O seguir. Então percebe que é o âtuâ de Deus e que pode ser um âeuâ porque Deus é um âtuâ para ele. Na realidade, somente o Senhor se dispõe a tratar-nos sempre â e para sempre â como um âtuâ. Aceitar a sua amizade é uma questão de coração e constitui-nos como pessoas no sentido pleno da palavra.
São Boaventura dizia que, no final, se deve perguntar «não à luz, mas ao fogo» . E ensinava que «a fé está no intelecto, de tal modo que provoca o afeto. Por exemplo: saber que Cristo morreu por nós não permanece (somente) conhecimento, mas torna-se necessariamente afeto, amor» . Nessa linha, São John Henry Newman tomou como lema a frase â Cor ad cor loquitur â, porque, além de toda dialética, o Senhor salva-nos falando ao nosso coração a partir de seu Sagrado Coração. Seguindo ele, grande pensador, esta mesma lógica fazia com que o lugar do encontro mais profundo consigo mesmo e com o Senhor não fosse a leitura ou a reflexão, mas o diálogo orante, de coração a coração, com Cristo vivo e presente. É por isso que Newman encontrava na Eucaristia o Coração de Jesus Cristo vivo, capaz de libertar, de dar sentido a cada momento e de derramar a verdadeira paz sobre o ser humano: «Ó Coração Sacratíssimo e Amorosíssimo de Jesus, estás escondido na Sagrada Eucaristia, e continuas a bater por nós [â¦]. Eu te adoro, então, com todo o meu melhor amor e temor, com meu carinho fervoroso, com a minha vontade mais conquistada e resolvida. Ó meu Deus, quando tu te rebaixas a sofrer para (que eu possa) receber-te, para comer e beber a Ti, e Tu por um tempo fazes a tua morada dentro de mim, ó faça meu coração bater com o teu Coração. Purifica-o de tudo o que é terreno, de tudo o que é orgulhoso e sensual, tudo o que é duro e cruel, de toda a perversidade, de toda a desordem, de todo amortecimento. Então, encha-o de Ti, que nem os acontecimentos do dia, nem as circunstâncias do tempo possam ter o poder de perturbá-lo, mas que em teu amor e temor possa ter paz» .
Perante o Coração de Jesus vivo e atual, o nosso intelecto, iluminado pelo Espírito, compreende as palavras de Jesus. Assim, a nossa vontade põe-se em ação para as praticar. Mas isso poderia permanecer como uma forma de moralismo autossuficiente. Ouvir, saborear e honrar o Senhor pertence ao coração. Só o coração é capaz de colocar as outras faculdades e paixões e toda a nossa pessoa numa atitude de reverência e obediência amorosa ao Senhor.
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