Capítulo 1
A Revelação da Sabedoria de Deus
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A Sagrada Escritura contém, de forma explícita ou implícita, uma série de elementos que permitem obter uma visão do homem e do mundo dotada de um notável valor filosófico. Os cristãos foram tomando progressivamente consciência da riqueza contida naquelas páginas sagradas. Delas resulta que a realidade, por nós experimentada, não é o absoluto: não é incriada nem se autogerou. Só Deus é o Absoluto. Das páginas da Bíblia transparece, além disso, uma visão do homem como imago Dei, que contém indicações precisas sobre o seu ser, a sua liberdade e a imortalidade do seu espírito. Uma vez que o mundo criado não é auto-suficiente, toda a ilusão de autonomia que ignore a dependência essencial de Deus, incluindo a de toda a criatura, é superada.
O Livro da Sabedoria contém textos importantes para o nosso tema. Nessas páginas, o autor sagrado fala de Deus, que se dá a conhecer também através da natureza. Para os antigos, o estudo das ciências naturais coincidia, em grande parte, com a reflexão filosófica. Tendo afirmado que, com a sua inteligência, o homem está em condições de «conhecer a estrutura do mundo e a actividade dos elementos, o princípio, o fim e o meio dos tempos, a alternância dos solstícios e a mudança das estações, os ciclos do ano e a posição dos astros, a natureza dos animais e o instinto dos seres selvagens» (Sb 7, 17-20), isto é, de fazer filosofia, o texto sagrado dá um passo notável ao afirmar que a investigação racional pode ir mais longe. Com efeito, ao insistir no facto de que pela grandeza e beleza das criaturas se pode, por analogia, contemplar o seu Autor (cfr. Sb 13, 5), o autor sagrado reconhece que a razão pode e deve ir além do visível para alcançar a fonte de toda a beleza.
Uma primeira reflexão que se nos impõe, a partir destes textos bíblicos, refere-se ao facto de que neles se contém não apenas a expressão de uma fé profunda, mas também a formulação de uma autêntica reflexão racional. Trata-se de verdades alcançadas pelo caminho da razão, que encontram confirmação e plenitude na revelação divina. O Deus que se revela é o mesmo Deus que criou o homem com a capacidade de O buscar e de O encontrar. A revelação não anula a razão, antes a purifica, a eleva e a orienta para o seu fim último, que é a contemplação da verdade plena. Deste modo, a Sagrada Escritura oferece o fundamento mais sólido para a harmonia entre fé e razão, mostrando que ambas concorrem para o mesmo objectivo: conduzir o homem ao conhecimento de Deus e de si mesmo.
A revelação cristã é a verdadeira estrela que orienta o homem que avança por entre os condicionalismos da mentalidade imanentista e as estreitezas de uma lógica tecnocrática. É a última possibilidade que Deus oferece para reencontrar em plenitude o projecto originário de amor, que teve início com a criação. Ao homem que deseja conhecer a verdade, se ainda é capaz de a buscar, Deus vem ao seu encontro com a riqueza da sua revelação. A encarnação do Filho de Deus permite ver realizada a síntese mais plena e definitiva que a mente humana pode conceber: o Eterno entra no tempo, o Todo esconde-se no fragmento, Deus assume o rosto do homem.
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