Capítulo 3
Intellego ut Credam
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«Compreendo para crer»: este é o outro aspecto da relação entre fé e razão, que sublinha a importância do itinerário racional para chegar à fé. Ninguém pode crer autenticamente sem antes ter compreendido, pelo menos em parte, aquilo que se lhe propõe crer. A razão não é um obstáculo à fé, mas o caminho natural que a ela conduz. Os grandes filósofos da Antiguidade, com as suas interrogações sobre o sentido último da existência, prepararam de algum modo a cultura ocidental para acolher a mensagem evangélica. Platão, Aristóteles e os estóicos, cada um a seu modo, formularam questões que só encontrariam resposta plena na revelação cristã.
A filosofia moderna, ao colocar no centro a questão do sujeito cognoscente, trouxe contributos significativos para a compreensão do acto de fé. No entanto, quando a razão se fecha sobre si mesma e recusa qualquer referência que a transcenda, perde a capacidade de alcançar a verdade plena e cai em diversas formas de cepticismo e de niilismo. A crise da razão moderna é, em grande parte, uma crise de confiança: o homem já não acredita na capacidade da sua inteligência de alcançar verdades universais e permanentes. Diante desta crise, a fé cristã oferece à razão um horizonte de esperança e de sentido, recordando-lhe que a verdade existe e pode ser conhecida.
É preciso reconhecer que certas correntes filosóficas contribuíram para agravar esta crise. O positivismo, ao reduzir o conhecimento válido ao método empírico das ciências naturais, excluiu do âmbito do saber todas as questões relacionadas com o sentido da vida, a existência de Deus e a natureza da alma humana. O historicismo radical, por sua vez, ao relativizar toda a verdade, tornou impossível qualquer afirmação de valor universal. Contra estas reduções, a Igreja reafirma a capacidade metafísica da razão humana, isto é, a sua aptidão para alcançar verdades que transcendem o dado empírico e que dizem respeito ao ser enquanto ser, ao bem, ao verdadeiro e ao belo.
O caminho da razão para a fé passa, necessariamente, pela experiência do limite. Quando o homem reconhece que as suas perguntas mais profundas — sobre a origem e o destino, sobre o sentido do sofrimento e da morte — não encontram resposta adequada apenas no âmbito da razão natural, abre-se à possibilidade de uma revelação que venha de fora e de cima. Este reconhecimento do limite não é uma derrota da razão, mas o seu exercício mais lúcido. A razão que se conhece a si mesma sabe que tem necessidade de ser iluminada por uma luz superior. Neste sentido, a filosofia autêntica é sempre uma propedêutica à fé, uma preparação do coração e da mente para acolher o dom de Deus.
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