Capítulo 1
A Fé é Esperança
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Recordemos a carta de São Paulo a Filémon, na qual pede a este que acolha o escravo fugitivo Onésimo, não mais como escravo, mas como «irmão querido» (Flm 16). O Apóstolo não luta politicamente contra a estrutura social existente, mas realiza algo muito mais profundo: transforma a relação entre senhor e escravo a partir de dentro, pela força da fé. A comunidade cristã primitiva não propôs uma revolução social, mas operou uma transformação radical das relações humanas através do reconhecimento da dignidade de cada pessoa como filha de Deus. Esta transformação interior é mais profunda e duradoura do que qualquer revolução política.
Devemos acrescentar ainda outro ponto de vista. A Carta aos Hebreus, no capítulo 11, delineou uma espécie de história dos que vivem na esperança e da sua condição de peregrinos, história que de Abel vai até à época do autor da carta. Deste tipo de esperança, fala São Paulo na Carta aos Romanos, quando afirma que «Abraão acreditou, cheio de esperança, contra toda a esperança, e deste modo tornou-se pai de muitos povos» (Rm 4, 18). A esperança bíblica não é otimismo ingénuo, mas uma confiança firme em Deus, mesmo quando as circunstâncias parecem contrárias. É a certeza de que Deus cumpre as Suas promessas, ainda que o caminho passe pela cruz e pelo sofrimento.
Na época moderna, desenvolveu-se uma transformação fundamental da esperança. A esperança bíblica do Reino de Deus foi substituída pela esperança no reino do homem, no progresso humano. Francis Bacon e depois os pensadores do Iluminismo projetaram uma visão da história em que a ciência e a técnica libertariam progressivamente a humanidade de todo o sofrimento. Karl Marx radicalizou esta visão, propondo a revolução como caminho para o paraíso terrestre. A experiência histórica mostrou, porém, que o progresso técnico, embora necessário, não basta para garantir a felicidade humana. Sem Deus, o homem não sabe para onde ir e nem sequer consegue compreender quem é.
Quem não conhece Deus, embora possa ter muitas esperanças, no fundo está sem esperança, sem a grande esperança que sustenta toda a vida (cf. Ef 2, 12). A verdadeira, a grande esperança do homem, que resiste apesar de todas as desilusões, só pode ser Deus — o Deus que nos amou e ama até ao extremo, «até à consumação» (cf. Jo 13, 1 e 19, 30). Quem é tocado pelo amor começa a intuir aquilo que seria propriamente a «vida». Começa a intuir o que significa a palavra de esperança que encontrámos no rito do Batismo: da fé espero a «vida eterna» — a vida verdadeira que, inteira e sem ameaças, é simplesmente vida em toda a sua plenitude.
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