6 apoftegmas
Abade Gelásio
A respeito do Abade Gelásio diziam que tinha um livro feito de membranas, no valor de dezoito moedas. Continha todo o Antigo e o Novo Testamento, e era colocado na igreja para que se algum dos irmãos o quisesse, o lesse. Ora um irmão de outra região, tendo ido visitar o ancião, ao ver o livro, cobiçou-o, furtou-o, e logo se foi. O ancião não seguiu atrás dele, afim de o apreender, embora soubesse o que se dera. O irmão, pois, foi para a cidade, onde procurava vender o livro. Encontrou finalmente um pretendente, ao qual pediu o preço de dezesseis moedas. Disse-lhe então o pretendente: “Dá-me primeiro o livro; vou examiná-lo e depois te darei o preço”. O irmão assim entregou o livro. O pretendente, apoderando-se dele, levou-o ao Abade Gelásio para que este o examinasse, fazendo-lhe saber a quantia que o vendedor pedira. Disse o ancião: “Compra-o, pois é bom e vale o preço que acabas de indicar”. O homem foi-se, e contou outra coisa ao vendedor, não o que o ancião disse: “Eis, mostrei-o ao Abade Gelásio, e ele disse-me que o preço é caro e o livro não vale tal quantia”. O irmão perguntou: “E nada mais te disse o ancião?” Respondeu-lhe: “Não”. Então retrucou o irmão: “Não o quero mais vender”. E, compungido, foi ter com o ancião, cheio de arrependimento e pedindo-lhe que recebesse o livro. O ancião, porém, não o quis aceitar. Ao que disse o irmão: “Se o não aceitares, não terei paz”. E o ancião: “Se não tens paz, eis que o aceito”. O mesmo irmão permaneceu com o Abade até a morte deste, edificado pelo que fizera o ancião.
Certa vez um ancião, monge também ele, o qual morava perto de Nicópolis, deixou ao Abade Gelásio a sua cela com o terreno que lhe ficava em torno. Um colono de Bacato, o antigo governador de Nicópolis da Palestina, sendo consanguíneo do ancião falecido, foi ter com o mesmo Bacato, e reivindicou para si a posse do dito terrenos, como se este, por vigor das leis, de então por diante lhe tocasse. Bacato, então, quer era enérgico, tentou sucessivas vezes com a própria mão desapossar o terreno o Abade Gelásio. Este, porém, não querendo entregar a cela monástica a um secular, não cedia. Ora Bacato observou que os jumentos do Abade Gelásio carregavam as azeitonas do campo que a este fora deixado; desviou-os então com violência e levou para casa as azeitonas, apenas deixando os animais e os que os conduziam, não sem lhes ter infligido maus tratos. O bem-aventurado ancião em absoluto não reivindicava a si os frutos, mas não desistia do domínio do campo pelo dito motivo. Bacato, em consequência, inflamado de ira contra Gelásio e, além disto, impelido por outras causas (pois era homem contencioso), resolveu ir a Constantinopla, fazendo a viagem a pé. Chegando perto de Antióquia, numa época em que brilhava como um astro de luz o santo Simeão, ouviu contar o que este fazia (eram coisas que ultrapassavam as forças de um homem), e desejou, como se fosse cristão, ver o santo. Ora o santo Simeão, tendo-o visto da coluna (1), perguntou-lhe logo que entrou no mosteiro: “Donde és, e para onde vais?” Respondeu: “Sou da Palestina e vou para Constantinopla”. “E por que motivo?” Explicou Bacato: “Por muitas causas de necessidade; espero que, pelas orações de tua Santidade, volte e adora teus santos vestígios”. Declarou-lhe então santo Simeão: “Não queres, ó desesperado entre os homens, dizer que caminhas contra o homem de Deus. Todavia não hás de fazer boa viagem nem mais verás a tua casa. Se, pois, queres obedecer ao meu conselho, vai daqui procurar o homem de Deus e prostra-te diante dele arrependido, dado que chegues até ele ainda com vida”. De fato, em breve Bacato foi acometido de febre; os que o acompanhavam o colocaram numa liteira, e assim ele dava-se pressa, conforme a palavra do santo Simeão, por chegar ao lugar onde estava o Abade Gelásio e pedir perdão a este. Contudo, chegando a Berito, Bacato morreu, sem ter visto de novo a sua casa, de acordo com a profecia do santo. Estas coisas, narrou-as a muitos homens fidedignos, depois da morte do pai, seu filho, também chamado Bacato.
Muitos dos discípulos de Gelásio ainda narravam o seguinte: Certa vez um peixe foi levado aos irmãos; o cozinheiro fritou-o, e levou-o ao celeireiro. Ora, sobrevindo motivo de urgência, o celeireiro teve que sair do celeiro; deixava o peixe num vaso por terra, mandando, porém, a um jovem discípulozinho do bem-aventurado Gelásio que o guardasse provisoriamente, até que voltasse. Contudo, o menino, tentado pela gula, pôs-se a comer avidamente o peixe. Nesse momento entrou o celeireiro e encontrou-o a comer; indignado contra o menino, que estava sentado no chão, sem refletir muito, deu-lhe um pontapé; ora a criança, ferida mortalmente, por intervenção particular do demônio, esvaneceu-se e morreu. Então o celeireiro, tomado de medo, reclinou o corpo no seu próprio estrado de dormir, recobriu-o, e foi ter com o Abade Gelásio, aos pés do qual se prostrou, narrando-lhe o que acontecera. O Abade mandou-lhe que a ninguém mais o contasse, e que, à noitinha, depois que todos os irmãos já estivessem em repouso, levasse o cadáver para o oratório, o colocasse diante do altar e se retirasse. Entrando então o ancião no oratório, pôs-se de pé em oração; e, à hora da salmodia noturna, quando se reuniam os irmãos, apareceu o ancião tendo a segui-lo o adolescente. E ninguém soube do que acontecera, exceto ele e o celeireiro, até a morte do Abade.
Do Abade Gelásio contavam o seguinte não somente os seus discípulos, mas também muitos dos que o visitavam frequentemente: Por ocasião do Sínodo ecumênico de Calcedônia, Teodósio, o qual na Palestina dirigia o cisma de Dióscoro, tomando a dianteiro dos bispos que estavam para voltar às suas igrejas (também ele se achava em Constantinopla, expulso da sua pátria por se comprazer sempre em tumultos públicos), esse Teodósio foi ter com o Abade Gelásio no mosteiro deste. Falou contra o Sínodo de Calcedônia, como se este tivesse sancionado o dogma de Nestório (1), julgando assim captar o santo para cooperar com o erro e o cisma de Dióscoro. Gelásio, porém em virtude de seu temperamento natural, assim como pelo discernimento que de Deus recebera, percebeu o que a intenção de Teodósio tinha de depravado, e não aderiu à apostasia, como de resto aderiram quase todos os seus contemporâneos; antes, infligiu a Teodósio um vexame bem merecido e repeliu-o; com efeito, tendo chamado o menino que ele ressuscitara dos mortos, disse a Teodósio em tom grave: “Se queres disputar a respeito da fé, tens aqui quem te ouça e te responda, pois a mim falta tempo para ouvir o que dizes”. Confundido com estas palavras, Teodósio foi para a Cidade Santa (2), onde ganhou toda a classe dos monges para si, dando ele a aparência de agir por zelo divino; ganhou também a Imperatriz que então se achava na cidade, e, assim apoiado, com violência apoderou-se da sede episcopal de Jerusalém, o que conseguiu cometendo morticínios e os outros feitos ilícitos e contrários aos que até hoje muitos se recordam. A seguir, pois que se tornava poderoso e conseguira seu intento, sagrou muitos bispos, usurpando as sedes dos antístites que ainda não tinham voltado, e mandou vir à sua presença também o Abade Gelásio; chamou-o para a igreja, usando de seduções e, ao mesmo tempo, de ameaças. Quando, pois, Gelásio entrou na igreja, intimou-lhe Teodósio: “Profere o anátema contra Juvenal”. Aquele, em nada atemorizado, respondeu: “Não conheço outro bispo de Jerusalém senão Juvenal”. Teodósio, temendo, então, que também outros imitassem o santo zelo de Gelásio, mandou que expulsassem a este da igreja. Os cismáticos apreenderam-no, e cercaram-no de lenhos, ameaçando queimá-lo. Vendo, porém, que nem assim se rendia nem amedrontava, temeram a insurreição do povo, pois famoso era o homem (tudo, de resto, era disposto pela Providência divina), e soltaram incólume a testemunha da fé, a qual, enquanto dela dependia, se oferecera a Cristo em holocausto.
A respeito dele diziam que em sua juventude abraçou a vida pobre e eremítica. Havia naquela época ainda outros muitos fieis que abraçaram a mesma vida na mesma região; entre os quais estavam um ancião extremamente simples, muito pobre, o qual viveu a sós numa cela até a morte, embora tenha tido discípulos m sua velhice. Este ancião durante toda a vida se exerceu na observância de não possuir duas túnicas nem se preocupar com os companheiros a respeito do dia de amanhã. Ora, quando aconteceu que o Abade Gelásio, por graça de Deus, constituiu o seu cenóbio, foram-lhe doados muitos terrenos; veio a possuir também os animais de carga e os bois para o serviço do cenóbio; fora ele, de resto, quem dera ao divino Pacômio o oráculo de constituir o primeiro cenóbio, e com o mesmo cooperara na constituição do mosteiro (1). Ora o referido ancião, vendo a Gelásio em meio a essas coisas, e conservando genuína caridade para com ele, disse-lhe: “Temo, Abade Gelásio, que fique ligado o teu pensamento aos campos e às demais posses do cenóbio”. Ao que Gelásio respondeu: “Mais ligado está o teu pensamento à agulho com que trabalhas do que o pensamento de Gelásio a tias bens”.
Do Abade Gelásio referiam que, muitas vezes atormentado pelos seus pensamentos para se retirar para o deserto, certo dia disse ao seu discípulo: “Pratica esta caridade, irmão: tudo que eu fizer, suporta-o, e não me fales durante esta semana”. E, tomando um ramo de palmeira pôs-se a circular em seu patiozinho; cansado, sentou-se um pouco; mas de novo levantou-se, e continuava a andar. Vinda a tarde, disse consigo mesmo: “Que caminha no deserto, não come pão, mas ervas; tu, porém, dada a tua fraqueza, come um pouco de legume”. E, feito isto, de novo disse consigo mesmo: “Quem caminha no deserto, não dorme debaixo de teto, mas ao ar livre; por conseguinte, faze assim”. E, tendo-se reclinado, dormiu no patiozinho. Passou três dias, andando no mosteiro, comendo à tarde um pouco de legume (2), e à noite, dormindo ao relente; depois disto cansou-se. Então repreendeu o pensamento que o atormentava, dizendo a si mesmo: “Se não podes fazer as obras do deserto, senta-te na cela com paciência, chorando os teus pecados, e não vagueies; pois em toda a parte o olho de Deus vê as obras dos homens, e nada lhe fica oculto; Deus conhece os que praticam o bem”.