12 apoftegmas
Abade Isaque, O Presbítero Das Célias
Certa vez foram procurar o Abade Isaque para fazê-lo presbítero. Ele, ao saber disto, fugiu para o Egito; retirou-se num campo e escondeu-se em meio ao feno. Ora os Padres seguiram atrás dele, e, chegando ao mesmo campo, pararam para repousar um pouco, pois era noite. Soltaram também o asno para que pastasse; este, depois de ter vagueado, deteve-se finalmente diante do ancião. Na manha seguinte, pois, procuraram o asno e entraram também o Abade Isaque, o que lhes causou admiração. Quiseram-no, então, amarrar, mas ele não o permitiu, dizendo: “Não fugirei mais, pois esta é a vontade de Deus, e, onde quer que eu fuja, ela se me depara”.
Referiu o Abade Isaque: “Quando eu era jovem, residia com o Abade Crônio; nunca, porém, me mandou fazer algum serviço, embora fosse velho e trêmulo; de si mesmo levantava-se, e oferecia a caneca a mim e a todos igualmente. Ainda morei com o Abade Teodoro de Ferma, o qual também nunca me disse que fizesse algum serviço; punha a sós a mesa, e dizia: ‘Irmão, se queres, vem; come’. Eu então lhe respondia: ‘Abade, vim a ti para ganhar algum proveito; por que é, pois, que nunca me mandas fazer algo?’ O ancião, porém, ficava calado de todo. Certo dia fui procurar os anciãos e contei-lhes o que se dava. Estes chegaram-se ao Abade Teodoro, e disseram-lhe: ‘Abade, tal irmão veio procurar tua santidade para aproveitar alguma coisa; por que é então que nunca lhe mandas fazer algum serviço?” Respondeu o ancião: “Acaso seria o superior de um cenóbio, para lhe dar ordens? De fato, não lhe mando coisa nenhuma, mas, se ele o quer, faça também ele o que me vê fazer”. Desde aquele momento, eu me antecipava e fazia tudo aquilo que o ancião estava por fazer. Ele, o que fazia, fazia-o em silêncio, e ensinou-me isto: agir em silêncio.
O Abade Isaque e o Abade Abraão moravam juntos. Certa vez, ao entrar na cela, o Abade Abraão encontrou o Abade Isaque chorando, e perguntou-lhe: “Por que choras?” Respondeu o ancião: “E como não haveríamos de chorar? Pois para onde iremos? Adormeceram-se os nossos Pais. Não nos bastava o trabalho manual para o frete das naves, que pagávamos quando íamos visitar os anciãos. Agora, portanto, estamos órfãos. Por isto é que choro”.
Disse o Abade Isaque: “Conheço um irmão que, fazendo a messe no campo, quis comer uma espiga de trigo. Perguntou então ao proprietário do campo: ‘Permites que coma uma espiga de trigo?’ Aquele, ao ouvir isto, admirou-se e respondeu-lhe: ‘O campo é teu, ó Pai, e perguntas a mim?’ A tal ponto era fiel o irmão”.
Disse também aos irmãos: “Não introduzais meninos aqui. Pois quatro igrejas na Cétia se tornaram desertas por causa dos meninos”.
Do Abade Isaque diziam que comia com o seu pão as cinzas do turíbulo da oblação (1).
Dizia o Abade Isaque aos irmãos: “Os nossos Pais e o Abade Pambo usavam vestes gastas, muito remendadas e feitas de folhas de palmeiras; agora, porém, trajais roupas de valor. Ide-vos daqui; tornastes estas regiões desertas”. E, estando para sair para a messe, disse-lhes: “Não vos dou mais preceitos, pois não os observais”.
Um dos Padres contou que certa vez um dos irmãos foi à igreja das Célias trajando um manto curto em presença do Abade Isaque. Este o expulso dizendo: “Esta região é dos monges; tu, sendo secular, não podes ficar aqui”.
Disse o Abade Isaque: “Nunca levei comigo para a cela qualquer pensamento contra um irmão que me tivesse afligido. Também procure não deixar que algum irmão entrasse na sua cela, tendo qualquer pensamento contra mim”.
O Abade Isaque adoeceu de grave moléstia, que se protraiu por muito tempo. O irmão então fez-lhe um mingauzinho, em eu colocou algumas ameixas. O ancião, porém, não o quis comer. À vista disso, o irmão rogava-o, dizendo: “Toma um pouco, ó Abade, por causa da doença”. Ele respondeu: “Em verdade, irão, eu queria passar trintar anos nesta moléstia”.
Contaram do Abade Isaque que, estando ele para morrer, se reuniram em torno dele os aciãos e lhe disseram: “Que faremos depois de ti, ó Pai?” Ele respondeu: “Vede como caminhei em vossa presença; se quereis também vós seguir e guardar os mandamentos de Deus, Ele mandará sua graça e conservará este lugar. Se, porém, não observardes os mandamentos, não permanecereis neste lugar. Também nós, todas as vezes que os nossos Pais estavam para morrer, nos entristecíamos; mas, observado os mandamentos do Senhor e as instruções deles, permanecemos como se os Pais estivessem conosco. Assim fazei também vós, e sereis salvos”.
O Abade Isaque referiu o seguinte: “Dizia o Abade Pambo que o monge deve trajar túnica tal que, se a atirasse fora da cela por três dias, ninguém a recolheria”.