18 apoftegmas
Abade Moisés
Em dada ocasião o Abade Moisés foi com grande veemência tentado a fornicar. E, não tendo mais força para ficar na cela, foi referi-lo ao Abade Isidoro. Este o exortou a que voltasse para a cela. Moisés, porém, não assentiu, dizendo: “Não posso, Abade”. Então o Abade Isidoro tomou-o consigo e levou-o para dentro da própria morada, dizendo-lhe aí: “Olha para o poente”> Aquele olhou e viu uma multidão inumerável de demônios; estavam em fileiras e agitavam-se para entrar em luta. A seguir, o Abade Isidoro disse: “Olha também para o nascente”. Aquele olhou, e viu inumeráveis multidões de santos anjos recobertos de glória. Continuou então o Abade Isidoro: “Eis estes são os enviado do Senhor para socorrer os santos. Aqueles, porém, do lado do poente são os que lutam contra os santos. Por conseguinte, mais numerosos são os que estão conosco”> Ao ver isto, o Abade Moisés deu graças a Deus, e, tomando coragem, voltou para a cela.
Certa vez um irmão caiu em falta na Cétia. Pelo que se reuniu um conselho, o qual mandou buscar o Abade Moisés. Este, porém, não quis ir. Então o presbítero mandou dizer-lhe: “Vem, porque assembleia te espera”> Diante disto, levantou-se e foi, levando nas costas um cesto furado que ele enchera de areia. Ora os que lhe acorreram ao encontro, perguntaram-lhe: “Que é isto, ó Pai?” Respondeu-lhes o ancião: “Meus pecados vão caindo atrás de mim, sem que eu os vejo. E eis que vim hoje para julgar pecados alheios”. Tendo ouvido isto, nada mais disseram ao irmão (delinquente), mas perdoaram-lhe.
De outra feita, numa reunião de conselho na Cétia, os Padres, querendo provar o Abade Moisés, humilharam-no, perguntando: “Por que vem também este Etíope em meio a nós?” Ele ouviu e ficou calado. Uma vez, porém, terminada a sessão, interrogaram-no: “Abade, então de modo nenhum te perturbaste?” Respondeu: “Perturbei-me, mas não falei”.
Do Abade Moisés contavam que, tendo sido feito clérigo, lhe impuseram o véu umeral; disse-lhe então o arcebispo: “Eis que te tornaste todo branco, Abade Moisés”. O ancião respondeu: “Sim, quando ao exterior, Senhor Padre; oxalá também quanto ao interior!” A seguir, o Arcebispo, querendo prová-lo, disse aos clérigos: “Quando o Abade Moisés entrar no santuário, expulsai-o e persegui-o para ouvirdes o que dirá”. Tendo, pois, o ancião entrado, repreenderam-no e expulsaram-no, dizendo: “Sai, ó etíope!” E ele, ao sair, dizia consigo mesmo: “Fizeram-te muito bem, ó pele de cinza, negro! Não sendo homem, porque te colocas em meio aos homens?”
Certa vez foi publicado na Cétia o seguinte preceito: “Jejuai esta semana inteira”. Ora, em dada oportunidade, irmãos do Egito foram ter com o Abade Moisés, o qual preparou para eles um pouco de mingau. Os vizinhos, porém,tendo visto a fumaça, disseram aos clérigos: “Eis que Moisés violou o preceito: fez um mingau em sua cela”. Os clérigos responderam: “Quando vier, havemos de falar-lhe”. Todavia, chegado o sábado, os clérigos, considerando a grande virtude do Abade Moisés, disseram-lhe diante de toda a assembleia: “Ó Abade Moisés, transgrediste o preceito dos homens, e observaste o de Deus!” (1).
Um irmão foi à Cétia procurar o Abade Moisés e pedir-lhe uma palavra. Disse o ancião: “Vai, senta-te em tua cela, e tua cela te ensinará tudo”. senão após algum tempo”.
Disse o Abade Moisés: “O homem que foge, assemelha-se à uva madura; aquele, porém, que vive entre os homens, é como uva verde”.
Certa vez o governador da região, tendo ouvido falar do Abade Moisés, foi à Cétia para vê-lo. Alguns comunicaram o fato ao ancião, o qual se levantou a fim de fugir para o pântano. Encontraram-no, porém, na estrada, e perguntaram-lhe: “Onde fica a cela do Abade Moisés?” Respondeu: “Que quereis dele?” É um homem tolo”. Ora o governador, tendo ido à igreja, disse aos clérigos: “Eu, tendo ouvido o que se diz a respeito do Abade Moisés, desci para vê-lo. Eis, porém, que encontramos um ancião que ia para o Egito, ao qual perguntamos: “Onde fica a cela do Abade Moisés?” Ele nos respondeu: “Que quereis dele? É um tolo”> Ao ouvir isto, os clérigos ficaram tristes e indagaram: “Como era o ancião que assim falou contra o santo?” Responderam: “Era um ancião que trajava vestes gastas: homem grande e negro”. Os clérigos, então, afirmaram: “Esse mesmo era o Abade Moisés; para não vos receber, é que ele disse isso”. Muito edificado com o fato, o governador retirou-se.
Dizia o Abade Moisés na Cétia: “Se guardarmos os preceitos de nossos Pais, garanto-vos diante de Deus que os Bárbaros não chegarão aqui. Se, porém, não os guardarmos, este lugar será devastado”.
Estando certa vez os irmãos sentados em torno do Abade Moisés, disse-lhes: “Eis que hoje os Bárbaros chegarão à Cétia; levantai-vos, porém, e fugi”. Perguntaram-lhe então: “E tu não fugirás, Abade?” Respondeu: “Eu há tantos anos espero este dia, para que se cumpra a palavra do Senhor Cristo, que disse: ‘Todos os que tomam a espada, perecerão pela espada’ (1). Retrucaram, pois: “Também nós fugiremos, mas morreremos contigo”. O ancião respondeu: “Nada tenho em contrário; cada qual veja como está assentado”. Ora os irmãos eram sete. Mais tarde disse-lhes: “Eis que os Bárbaros se aproximam da porta”. De fato, os Bárbaros entraram e os mataram. Um deles, porém, escondeu-se atrás dos cordames, e viu sete coroas que desciam e os coroavam.
Um irmão dirigiu-se ao Abade Moisés, dizendo: “Vejo alguma coisa diante de mim, mas não a posso apreender”. Respondeu o ancião: “Se não te tornares morto com os que estão nos túmulos, não a poderás apreender”.
O Abade Poimém referiu que um irmão perguntou ao Abade Moisés: “De que maneira o homem se mortifica em relação ao próximo?” Respondeu o ancião: “Se o homem não firmar em seu coração a ideia de que já há três dias ele jaz no sepulcro, não chegará a realizar tal propósito”.
Contavam do Abade Moisés na Cétia que, quando estava em caminho para Petra, ele se sentiu cansado de andar e disse consigo mesmo: “Como poderei haurir a minha água aqui? Veio-lhe, então, uma voz, que lhe disse: “Entra, e não te preocupes com coisa alguma”. Entrou, pois (1). Ora eis que foram ter com ele alguns dos Padres; ele, porém, não tinha senão um pequeno cântaro de água, e esta se consumiu quando ele cozeu um pouco de lentilhas. Em consequência, o ancião ficou aflito. Indo e vindo, orava a Deus. Em dado momento, porém, eis que uma nuvem de chuva se desencadeou sobre Petra, e encheu todos os vasos do ancião. Depois disto, perguntaram-lhe: “Dize-nos quem é que ia e vinha”> Respondeu-lhes o ancião: “Eu estava pleiteando com Deus nestes termos: ‘Trouxeste-me aqui, e eis que não tenho água para que os teus servos bebam’. Por isto é que eu caminhava de cá e para lá, rogando a Deus, até que nos mandou água”.
Disse o Abade Moisés: “O homem deve morrer em relação a seu companheiro, para que não o julgue em coisa alguma”.
Disse de novo: “O homem deve mortificar-se abstendo-se de tudo que é mau, antes que saia do corpo, a fim de não causar dano a algum homem”.
Disse mais: “Se o homem não guarda em seu coração a lembrança de que é pecador, Deus não o ouve”. Perguntou então um irmão: Que significa ‘guardar no coração a lembrança de que é pecador?’ Respondeu o ancião: “Se alguém carrega os seus pecados, não vê os do próximo”.
Disse igualmente: “Se as obras não concordam com a oração, é em vão que o homem se esforça”. O irmão perguntou: “Que significa a concórdia das obras com a oração?” O ancião explicou: “Significa que não mais cometamos os atos dos quais pedimos perdão. Quando o homem abandona a vontade própria, Deus se reconcilia com ele, e aceita a oração dele”.
O irmão perguntou: “Em toda a labuta do homem, que é que o ajuda?” Respondeu o ancião: “É Deus quem ajuda. Com efeito, está escrito: ‘O nosso Deus é refúgio e poder, auxílio nas muitas tribulações que nos sobrevieram’ (1). O irmão continuou: “Os jejus e as vigílias que o homem empreende, que valem?” Respondeu o ancião: Fazem a alma humilhar-se. Pois está escrito: ‘Vê minha humildade e minha labuta, e perdoa todos os meus pecados’ (2). Se a alma produzir esses frutos, Deus se compadecerá dela por causa dos mesmos”. Ainda prosseguiu o irmão: “Que deve fazer o homem em qualquer tentação que lhe sobrevenha ou diante de qualquer sugestão do inimigo?” O ancião respondeu: “Deve chorar diante da bondade de Deus para que o auxilie; se rezar com o devido conhecimento, logo conseguirá paz. Pois está escrito: ‘O Senhor é meu auxílio, e não temerei o que me fará o homem’ (2). O irmão interrogou mais uma vez: “Eis que um homem espanca seu servo por causa de uma falta que cometeu; que deve dizer o servo?” O ancião respondeu: ‘Se for um servo bom, dirá: “Tem piedade de mim, pequei’. O irmão acrescentou: “Nada mais dirás?” E o Abade: “Nada mais. Pois no momento em que ele toma sobre si a culpa e diz: ‘Pequei’, logo se compadece dele o seu senhor. O termo que levam todas estas coisas, é não julgar o próximo. Quando a mão do Senhor matou todo o primogênito na terra do Egito, não ficou casa em que não houvesse um morto”> O irmão interrogou: “Que significa essa palavra?” O ancião explicou: “Se nos deixarem ver nossos pecados, não observaremos os do próximo. Pois é tolice que o homem o qual tem um morto seu, deixe a este para chorar o do próximo. Morrer em relação ao teu próximo, isto significa que carregues os teus pecados e não te preocupes com qualquer outro homem, julgando que este é bom e aquele mau. Não faças mal a ninguém, nem penses mal em teu coração contra alguém desprezes a quem comete o mal. Também não te deixes persuadir por aquele que maltrata o próximo e não te alegres com quem comete maldade contra o próximo; nem fales contra alguém, antes dize: ‘Deus conhece a cada um’. Não dês assentimento ao detrator, nem te alegres com a detração que ele pratica; mas nem por isto odeies a quem difama o próximo. É isto que significa ‘não julgar’. Não venhas a ter inimizade com algum homem, nem guardes rancor em teu coração, mas também não tenhas ódio àquele que hostiliza o próximo. Isto é que é a paz. Consola-te com este pensamento: a fadiga dura pouco tempo, ao passo que o repouso é para todo o sempre, por graça do Deus Verbo. Assim seja”.