Capítulo 2
O Exercício do Amor por Parte da Igreja como «Comunidade de Amor»
5 min de leitura
A Igreja é a família de Deus no mundo. Nesta família, não deve haver ninguém que sofra por falta do necessário. Ao mesmo tempo, porém, a caritas-agape estende-se para além das fronteiras da Igreja. A parábola do Bom Samaritano permanece como critério de medida, impondo a universalidade do amor que se dirige para o necessitado encontrado «por acaso» (cf. Lc 10, 31), seja ele quem for. Ressalvada esta universalidade do mandamento do amor, existe também uma exigência especificamente eclesial: dentro da família de Deus, a nenhum dos seus membros é lícito sofrer necessidade. O Apóstolo Paulo afirma claramente: «Enquanto temos tempo, pratiquemos o bem para com todos, mas principalmente para com os irmãos na fé» (Gl 6, 10).
A ação caritativa da Igreja deve ser independente de partidos e ideologias. Não é um meio para mudar o mundo de forma ideológica, nem está ao serviço de estratégias mundanas, mas é actualização aqui e agora do amor de que o homem necessita sempre. A Igreja não pode nem deve tomar nas suas mãos a batalha política para realizar a sociedade mais justa possível. Não pode nem deve colocar-se no lugar do Estado. Mas também não pode nem deve ficar à margem na luta pela justiça. Deve inserir-se nela pela via da argumentação racional e deve despertar as forças espirituais, sem as quais a justiça, que sempre requer renúncias, não pode afirmar-se nem prosperar.
A doutrina social da Igreja argumenta a partir da razão e do direito natural, ou seja, a partir daquilo que é conforme à natureza de todo o ser humano. Reconhece que não é tarefa imediata da Igreja elaborar a ordem justa da sociedade, mas compete à Igreja contribuir para a purificação da razão e para o despertar das forças morais, sem as quais não se constroem estruturas justas, nem estas podem ser eficazes a longo prazo. A formação da consciência é, neste campo, uma tarefa fundamental e insubstituível. Sem homens e mulheres de consciência reta, não há justiça duradoura. A fé cristã oferece critérios de discernimento que iluminam a razão na busca do bem comum.
A caridade não é para a Igreja uma espécie de atividade de assistência social, que se poderia também deixar para outros, mas pertence à sua natureza, é expressão irrenunciável da sua própria essência. A Igreja é a família de Deus e, enquanto tal, deve cuidar dos seus membros que sofrem. Mas não pode limitar-se a isso: tal como a parábola do Bom Samaritano permanece como critério, assim também a caridade cristã não pode fechar-se dentro das fronteiras eclesiais. A Igreja é chamada a ser sacramento de amor no mundo, sinal visível do amor de Deus por toda a humanidade.
Para concluir, fixemos ainda o olhar nos santos, que exercitaram de modo exemplar a caridade. Penso, de modo particular, em São Martinho de Tours, que partilhou a capa com o pobre, e depois, durante a noite, sonhou que era Jesus a usar essa capa. O gesto espontâneo de partilha introduziu-o na comunhão profunda com o próprio Cristo. São Francisco de Assis abraçou o leproso e experimentou, naquele gesto que parecia impossível, a doçura de Deus. Santa Teresa de Calcutá serviu os moribundos de Calcutá e reconheceu em cada um deles o rosto de Cristo. Os santos são os verdadeiros portadores de luz dentro da história, porque são homens e mulheres de fé, esperança e caridade.
Maria, Mãe de Deus e Mãe nossa, é o modelo perfeito do amor cristão. O seu cântico do Magnificat — que se tornou o cântico de todos os humildes — mostra que o amor de Deus tem uma dimensão social e histórica. Maria proclama que Deus «dispersou os soberbos e exaltou os humildes, cumulou de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias» (Lc 1, 51-53). Na vida de Maria, o amor contemplativo e o amor ativo formam uma unidade perfeita. Ela é ao mesmo tempo a Virgem que reza e a serva que se apressa a ajudar a prima Isabel. A sua vida mostra-nos que a oração e o serviço são inseparáveis na vida cristã.
Os santos e beatos da caridade são testemunho eloquente de que o amor é possível e de que transforma o mundo. A sua existência demonstra que quem vai a Deus não se afasta dos homens, antes se torna verdadeiramente próximo deles. Nenhum destes santos considerou a oração e o serviço como realidades opostas, mas como duas faces do mesmo amor. A fé, a esperança e a caridade andam juntas. A esperança manifesta-se praticamente na virtude da paciência, que não desfalece nem mesmo face ao aparente fracasso, e na humildade, que aceita o mistério de Deus e confia n'Ele também nas trevas. O amor é a luz — no fundo, a única — que ilumina continuamente um mundo obscuro e nos dá a coragem de viver e agir.
Deslize para navegar entre capítulos