Capítulo 2
Na Crise do Compromisso Comunitário
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O mundo atual apresenta numerosos desafios ao compromisso dos cristãos. A cultura do descarte, que afeta tanto os bens materiais como as pessoas, gera uma indiferença generalizada perante o sofrimento alheio. A economia da exclusão mata. Já não se trata simplesmente do fenómeno da exploração e da opressão, mas de algo novo: com a exclusão, fere-se a própria raiz da pertença à sociedade na qual se vive, pois quem vive nas «periferias existenciais» já não está nela, nem na parte de baixo, nem à margem, nem sem poder; está fora. Os excluídos não são «explorados», mas resíduos, «sobras».
Uma das causas desta situação está na relação que estabelecemos com o dinheiro, porque aceitamos pacificamente o seu domínio sobre nós e sobre as nossas sociedades. A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma profunda crise antropológica: a negação da primazia do ser humano. Criámos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32, 1-35) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano. Enquanto os ganhos de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz.
Neste contexto, alguns ainda defendem as teorias do «derrame» ou «gotejamento», que supõem que todo o crescimento económico, favorecido pela liberdade do mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confiança grosseira e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e nos mecanismos sacralizados do sistema económico reinante. Entretanto, os excluídos continuam a esperar. Para se poder apoiar um estilo de vida que exclui os outros, ou para se poder manter o entusiasmo com esse ideal egoísta, desenvolveu-se uma globalização da indiferença.
Quase sem nos dar conta, tornámo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessa cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem e não nossa. A cultura do bem-estar anestesia-nos. O diagnóstico que a fé cristã faz desta situação não é meramente sociológico, mas teológico: reconhecemos nela a ação do mal, do pecado estrutural que impregna as relações sociais e as estruturas económicas. A resposta cristã a esta realidade não pode ser a indiferença ou a resignação, mas o compromisso ativo pela justiça, movido pelo amor de Deus que transforma corações e estruturas.
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