Capítulo 2
O Evangelho da Criação
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À luz da fé, a Bíblia não dá lugar a um domínio despótico do ser humano sobre as outras criaturas. Das narrativas bíblicas, depreende-se que a existência humana se baseia em três relações fundamentais intimamente ligadas: a relação com Deus, com o próximo e com a terra. Segundo a Bíblia, estas três relações vitais romperam-se não só exteriormente, mas também dentro de nós. Esta ruptura é o pecado. A harmonia entre o Criador, a humanidade e toda a criação foi destruída por termos pretendido ocupar o lugar de Deus, recusando reconhecer-nos como criaturas limitadas.
É importante ler os textos bíblicos no seu contexto, com uma justa hermenêutica, e recordar que nos convidam a «cultivar e guardar» o jardim do mundo (cf. Gn 2, 15). Enquanto «cultivar» quer dizer lavrar ou trabalhar um terreno, «guardar» significa proteger, cuidar, preservar, velar. Isto implica uma relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a natureza. Cada comunidade pode tomar da bondade da terra o necessário para a sua sobrevivência, mas tem também o dever de a proteger e garantir a continuidade da sua fertilidade para as gerações futuras. A terra é, em última análise, um dom sagrado confiado ao ser humano pelo Criador.
Os relatos da criação no livro do Génesis contêm, na sua linguagem simbólica e narrativa, ensinamentos profundos sobre a existência humana e a sua realidade histórica. Estas narrativas sugerem que a existência humana se baseia em três relações fundamentais intimamente ligadas: a relação com Deus, com o próximo e com a terra. O Salmo 148 não adora a natureza como se fosse Deus, mas convida toda a criação a louvar o Criador. O universo inteiro, com as suas múltiplas relações, revela melhor a riqueza inesgotável de Deus. São Tomás de Aquino salientou que a multiplicidade e a variedade provêm «da intenção do primeiro agente», o qual quis que «o que falta a cada coisa, para representar a bondade divina, seja suprido pelas outras».
Ao mesmo tempo, o pensamento judaico-cristão desmitificou a natureza. Sem deixar de a admirar pelo seu esplendor e imensidade, já não lhe atribui um caráter divino. Desta forma, destaca-se ainda mais o nosso compromisso para com ela. Um retorno à natureza não pode ser feito à custa da liberdade e da responsabilidade do ser humano, que é parte do mundo com o dever de cultivar as próprias capacidades para o proteger e desenvolver as suas potencialidades. Se reconhecermos o valor e a fragilidade da natureza e, ao mesmo tempo, as capacidades que o Criador nos deu, isto permite-nos acabar com o mito moderno do progresso material ilimitado.
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