Capítulo 3
A Raiz Humana da Crise Ecológica
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A humanidade entrou numa nova era em que o poder da tecnologia nos coloca numa encruzilhada. Somos herdeiros de dois séculos de enormes vagas de mudança: a máquina a vapor, o caminho de ferro, o telégrafo, a eletricidade, o automóvel, o avião, as indústrias químicas, a medicina moderna, a informática. A tecnociência, bem orientada, pode produzir coisas realmente valiosas para melhorar a qualidade de vida do ser humano, desde os objetos domésticos às grandes estruturas de transporte, pontes, edifícios, espaços públicos. Pode produzir também coisas belas e «lançar» o ser humano, com um salto, para a contemplação.
Mas não podemos ignorar que a energia nuclear, a biotecnologia, a informática, o conhecimento do nosso próprio ADN e outras capacidades que adquirimos nos dão um poder tremendo. Ou melhor, dão àqueles que detêm o conhecimento e sobretudo o poder económico para o desfrutar, um domínio impressionante sobre o conjunto do género humano e do mundo inteiro. Nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma, e nada garante que o utilizará bem, sobretudo se considerarmos a maneira como o está a fazer. O ser humano não é plenamente autónomo e todo-poderoso; é também criatura de Deus, chamada a reconhecer os seus limites e a exercer a sua responsabilidade com sabedoria e humildade.
O paradigma tecnocrático tende a exercer o seu domínio também sobre a economia e a política. A economia assume todo o desenvolvimento tecnológico em função do lucro, sem prestar atenção a eventuais consequências negativas para o ser humano. A finança sufoca a economia real. Não se aprenderam as lições da crise financeira mundial, e com muita lentidão se aprendem as lições do deterioramento ambiental. Em alguns círculos, defende-se que a economia atual e a tecnologia resolverão todos os problemas ambientais, da mesma forma que se afirma, com linguagens não académicas, que os problemas da fome e da miséria no mundo se resolverão simplesmente com o crescimento do mercado.
O antropocentrismo moderno acabou, paradoxalmente, por colocar a razão técnica acima da realidade, porque este ser humano «já não sente a natureza como norma válida, nem como um refúgio vivente. Vê-a, sem nenhuma hipótese, como um espaço e uma matéria para uma obra em que se atira todo, não importando o que daí resulte». Desta forma, desvaloriza-se o valor intrínseco do mundo. Quando o ser humano se coloca no centro do universo e pretende ocupar o lugar de Deus, destrói todas as referências comuns e acaba por destruir-se a si mesmo. A criação é gravemente prejudicada quando o ser humano desrespeita a ordem inscrita pelo Criador na natureza.
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