Capítulo 3
As Igrejas e Comunidades Eclesiais Separadas da Sé Apostólica Romana
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Voltamos agora a nossa atenção para as duas principais categorias de cisões que afectaram a túnica inconsútil de Cristo. As primeiras tiveram lugar no Oriente, quer por causa da impugnação das fórmulas dogmáticas dos Concílios de Éfeso e de Calcedónia, quer, mais tarde, pela dissolução da comunhão eclesiástica entre os Patriarcados orientais e a Sé Romana. As outras surgiram, mais de quatro séculos depois, no Ocidente, em consequência dos acontecimentos que vulgarmente são designados por Reforma. Desde então, não poucas comunhões, nacionais ou confessionais, se separaram da Sé Romana. Entre aquelas em que as tradições e estruturas católicas em parte subsistem, ocupa lugar especial a comunhão anglicana. Todavia, estas diversas separações diferem notavelmente entre si, não só por razão da sua origem, lugar e tempo, mas sobretudo pela natureza e gravidade das questões relativas à fé e à estrutura eclesiástica.
As Igrejas do Oriente e do Ocidente seguiram durante muitos séculos caminhos próprios, unidas, no entanto, na comunhão da fé e da vida sacramental, servindo de árbitro a Sé Romana quando entre elas surgiam diferenças em matéria de fé ou disciplina, por comum consenso. O sagrado Concílio recorda com prazer, entre muitos outros factos de relevo, que no Oriente florescem muitas Igrejas particulares ou locais, entre as quais ocupam o primeiro lugar as Igrejas patriarcais, e que não poucas se gloriam de terem sido fundadas pelos próprios Apóstolos. Por isso, foi e é de máximo interesse entre os orientais a conservação e a manutenção daquelas relações fraternais na fé e na caridade que, como entre irmãs, devem existir entre as Igrejas locais. É igualmente digno de nota que as Igrejas do Oriente possuem desde a sua origem um tesouro do qual a Igreja do Ocidente em muitas coisas tomou: na liturgia, na tradição espiritual, no direito e na ordenação jurídica.
Todos sabem com quanto amor os cristãos orientais celebram a sagrada Liturgia, especialmente a Eucaristia, fonte da vida da Igreja e penhor da futura glória, pela qual os fiéis, unidos ao Bispo, têm acesso a Deus Pai pelo Filho, o Verbo encarnado, que padeceu e foi glorificado, na efusão do Espírito Santo, e alcançam a comunhão com a Santíssima Trindade, feitos «participantes da natureza divina» (2 Ped 1, 4). Pela celebração da Eucaristia do Senhor, em cada uma destas Igrejas, edifica-se e cresce a Igreja de Deus, e pela concelebração manifesta-se a comunhão entre elas. Nestas celebrações litúrgicas, os orientais exaltam com belos hinos a sempre Virgem Maria, que o Concílio ecuménico de Éfeso solenemente proclamou Santíssima Mãe de Deus, para que Cristo fosse verdadeira e propriamente reconhecido como Filho de Deus e Filho do homem, segundo as Escrituras. Veneram também muitos outros santos, entre os quais os Santos Padres da Igreja universal.
Quanto às Comunidades eclesiais separadas no Ocidente, deve reconhecer-se que, embora tenham, em relação à Igreja católica, diferenças de origem, natureza e gravidade diversas, tanto sobre questões morais como históricas, não carecem de importância nem de valor no mistério da salvação. O Espírito de Cristo não recusa servir-se delas como de instrumentos de salvação cuja força vem da mesma plenitude de graça e verdade confiada à Igreja católica. Contudo, os nossos irmãos separados, quer individualmente quer as suas Comunidades e Igrejas, não gozam daquela unidade que Jesus Cristo quis prodigalizar a todos aqueles que regenerou e vivificou para um só corpo e para uma vida nova, e que a Sagrada Escritura e a venerável Tradição da Igreja professam. Porque somente pela Igreja católica de Cristo, que é auxílio geral de salvação, pode conseguir-se toda a plenitude dos meios de salvação. Cremos, todavia, que o Senhor confiou todos os bens da Nova Aliança ao único colégio apostólico, a cuja cabeça está Pedro, para constituir na terra um só corpo de Cristo, ao qual é necessário que se incorporem plenamente todos os que de algum modo já pertencem ao Povo de Deus.
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