Proêmio
Introdução
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A vida consagrada, profundamente enraizada nos exemplos e nos ensinamentos de Cristo Senhor, é um dom de Deus Pai à Sua Igreja, por meio do Espírito. Com a profissão dos conselhos evangélicos, os traços característicos de Jesus — virgem, pobre e obediente — tornam-se visíveis no meio do mundo de modo exemplar e permanente, e o olhar dos fiéis é convidado a fixar-se naquele mistério do Reino de Deus que já actua na história, mas aguarda a sua plena realização nos céus. Ao longo dos séculos, nunca faltaram homens e mulheres que, dóceis ao apelo do Pai, ao impulso do Espírito, escolheram este caminho de especial seguimento de Cristo, para se consagrarem a Ele com coração «indiviso» (cfr. 1 Cor 7, 34).
Também eles, como os Apóstolos, tudo deixaram para estar com Cristo e se colocarem, como Ele, ao serviço de Deus e dos irmãos. Deste modo, contribuíram para manifestar o mistério e a missão da Igreja com as múltiplas formas de carismas de vida espiritual e apostólica que lhes distribui o Espírito Santo, e concorreram assim para a renovação da sociedade. A vida consagrada é dom precioso e necessário também para o presente e para o futuro do Povo de Deus, porque faz parte íntima da sua vida, da sua santidade e da sua missão. A preocupação actual pela diminuição das vocações em alguns lugares não deve fazer esquecer que a vida consagrada continua a ser fecunda e a produzir frutos admiráveis de santidade e de serviço em toda a Igreja.
O Sínodo dos Bispos de 1994, dedicado à vida consagrada, constituiu uma ocasião providencial para aprofundar a natureza e o papel desta forma de vida na Igreja. Os Padres sinodais, com as suas reflexões e propostas, enriqueceram grandemente a compreensão do carisma da vida consagrada e indicaram caminhos para a sua renovação. Recolhendo os frutos do Sínodo, desejo agora propor a toda a Igreja uma reflexão orgânica sobre a vida consagrada, na esperança de que estas páginas possam ajudar os consagrados e as consagradas a prosseguir o seu caminho de santidade, e toda a comunidade eclesial a reconhecer e a valorizar cada vez mais este dom inestimável.
A reflexão sobre a vida consagrada não pode separar-se da contemplação do mistério trinitário, fonte e modelo de toda a vida cristã. Os conselhos evangélicos — castidade, pobreza e obediência — são, antes de tudo, uma resposta ao amor do Pai, que no Filho, pelo Espírito, chama homens e mulheres a uma consagração total. A vida consagrada é, assim, uma expressão privilegiada da vida trinitária no seio da Igreja: manifesta a comunhão do Pai com o Filho no Espírito Santo e torna visível, na fragilidade da condição humana, a beleza e a fecundidade do amor divino. Só à luz da Trindade se pode compreender plenamente o sentido e o valor da vida consagrada.
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