Capítulo 1
Confessio Trinitatis
3 min de leitura
A vida consagrada é, antes de tudo, uma confissão da Santíssima Trindade. Os conselhos evangélicos exprimem de modo particularmente vivo a forma de vida que o Filho de Deus assumiu quando entrou neste mundo. A castidade consagrada reflecte o amor infinito que liga as três Pessoas divinas entre si; a pobreza proclama que Deus é a única riqueza verdadeira do homem; a obediência manifesta a entrega total do Filho ao Pai no amor do Espírito. Deste modo, a vida consagrada torna-se uma confissão viva e uma proclamação contínua do mistério trinitário, recordando à Igreja e ao mundo que o fundamento último de toda a realidade é a comunhão de amor entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
A iniciativa é de Deus. A vocação à vida consagrada não nasce de uma decisão puramente humana, mas de um chamamento divino que precede e fundamenta a resposta do homem. É Deus quem, no Seu amor gratuito, escolhe e chama; é o homem que, iluminado pela graça, reconhece este chamamento e lhe responde com generosidade. A experiência dos grandes fundadores e fundadoras confirma esta verdade: todos testemunham ter sido surpreendidos por uma acção de Deus nas suas vidas, uma acção que os levou a abandonar tudo para O seguir de modo radical. A vocação consagrada é, portanto, antes de tudo, um dom da graça, que deve ser acolhido com gratidão e vivido com fidelidade.
A castidade pelo Reino dos Céus é um dos sinais mais eloquentes da vida consagrada. Ao renunciar ao amor conjugal e à paternidade ou maternidade segundo a carne, o consagrado e a consagrada testemunham que Deus é suficiente para preencher o coração humano e que o amor divino é a fonte de toda a fecundidade verdadeira. A castidade consagrada não é uma negação do amor, mas a sua expressão mais radical: é o amor que se dirige totalmente a Deus e, n'Ele, a todos os homens. Os consagrados e consagradas, ao viverem a castidade com alegria e fidelidade, oferecem ao mundo um testemunho profético que recorda a todos a primazia do amor de Deus e a vocação escatológica de toda a humanidade.
A pobreza evangélica é a expressão visível da confiança total em Deus Providência. Ao renunciar aos bens materiais e à segurança que eles proporcionam, os consagrados proclamam que o verdadeiro tesouro do homem está no céu (cfr. Mt 6, 20) e que a felicidade não depende da abundância das posses, mas da comunhão com Deus. A pobreza consagrada é também um acto de solidariedade com os pobres do mundo: ao partilharem a condição dos despossuídos, os consagrados tornam-se sinais credíveis do amor de Deus pelos últimos e denunciam profeticamente as injustiças de um sistema económico que produz riqueza para poucos e miséria para muitos.
A obediência religiosa é a expressão mais profunda da liberdade cristã. Ao submeter a própria vontade à vontade de Deus, manifestada através dos superiores legítimos, o consagrado reproduz na sua vida a atitude fundamental de Cristo, que disse: «Eu não vim fazer a minha vontade, mas a vontade dAquele que Me enviou» (Jo 6, 38). A obediência não é servidão, mas o exercício mais alto da liberdade, porque é a adesão livre e amorosa à vontade de Deus, reconhecida como o único caminho para a realização plena do ser humano. Numa cultura que exalta a autonomia individual como valor supremo, a obediência consagrada é um sinal profético que recorda a todos que a verdadeira liberdade consiste em fazer a vontade de Deus.
Deslize para navegar entre capítulos