Capítulo 5
IV. GUIADOS PELO ESPÍRITO DE SANTIDADE
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« Ao ouvirem isto, os discípulos caíram por terra, muito assustados » ( Mt 17,6). No episódio da Transfiguração, os sinópticos põem em evidência, embora com acentuações diferentes, a sensação de temor que se apodera dos discípulos. O fascínio do rosto transfigurado de Cristo não os impede de se sentirem assustados diante da Majestade divina que os ultrapassa. Sempre que o homem vislumbra a glória de Deus, faz também a experiência da sua pequenez, provocando nele uma sensação de medo. Este temor é salutar. Recorda ao homem a perfeição divina, e ao mesmo tempo incita-o com um premente apelo à « santidade ». Todos os filhos da Igreja, chamados pelo Pai a « escutar » Cristo, não podem deixar de sentir uma profunda exigência de conversão e de santidade. Mas, como se salientou no Sínodo, esta exigência chama em causa, em primeiro lugar, a vida consagrada. Na verdade, a vocação recebida pelas pessoas consagradas para procurarem acima de tudo o Reino de Deus é, antes de mais nada, um chamamento à conversão plena, renunciando a si próprias para viverem totalmente do Senhor, a fim de que Deus seja tudo em todos. Chamados a contemplar e a testemunhar o rosto « transfigurado » de Cristo, os consagrados são chamados também a uma existência transfigurada. A respeito disto, é significativo o que se diz na Relação final da II Assembleia Extraordinária do Sínodo: « Os santos e as santas sempre foram fonte e origem de renovação nas circunstâncias mais difíceis, ao longo de toda a história da Igreja. Hoje, temos muita necessidade de santos, graça esta que devemos implorar continuamente a Deus. Os Institutos de vida consagrada, mediante a profissão dos conselhos evangélicos, devem estar conscientes da sua especial missão na Igreja de hoje, e nós devemos encorajá-los nessa sua missão » ( 74 ). Estas considerações encontraram eco nos Padres desta IX Assembleia sinodal, quando afirmam: « A vida consagrada foi, através da história da Igreja, uma presença viva desta acção do Espírito, como um espaço privilegiado de amor absoluto a Deus e ao próximo, testemunho do projecto divino de fazer de toda a humanidade, dentro da civilização do amor, a grande família dos filhos de Deus » ( 75 ). Igreja sempre viu na profissão dos conselhos evangélicos um caminho privilegiado para a santidade. As próprias expressões com que é designada â escola do serviço do Senhor, escola de amor e de santidade, caminho ou estado de perfeição â já manifestam quer a eficácia e a riqueza dos meios próprios desta forma de vida evangélica, quer o especial empenho requerido àqueles que a abraçam ( 76 ). Não foi por acaso que, no decorrer dos séculos, tantos consagrados deixaram eloquentes testemunhos de santidade e realizaram façanhas de evangelização e de serviço, particularmente generosas e árduas.
No seguimento de Cristo e no amor pela sua Pessoa, existem alguns pontos referentes ao crescimento da santidade na vida consagrada, que actualmente merecem ser colocados em particular evidência. Antes de mais, exige-se a fidelidade ao carisma de fundação e sucessivo património espiritual de cada Instituto. Precisamente nessa fidelidade à inspiração dos fundadores e fundadoras, dom do Espírito Santo, se descobrem mais facilmente e se revivem com maior fervor os elementos essenciais da vida consagrada. Na verdade, cada carisma tem, na sua origem, um tríplice encaminhamento: primeiro, encaminhamento para o Pai, no desejo de procurar filialmente a sua vontade através de um processo contínuo de conversão, no qual a obediência é fonte de verdadeira liberdade, a castidade exprime a tensão de um coração insatisfeito com todo o amor finito, a pobreza alimenta aquela fome e sede de justiça que Deus prometeu saciar (cf. Mt 5,6). Nesta perspectiva, o carisma de cada Instituto impelirá a pessoa consagrada a ser toda de Deus, a falar com Deus ou de Deus â como se diz de S. Domingos ( 77 )â, para saborear como o Senhor é bom (cf. Sal 34/33,9), em todas as situações. Os carismas de vida consagrada implicam também um encaminhamento para o Filho, com quem induzem a cultivar uma íntima e feliz comunhão de vida, na escola do seu serviço generoso a Deus e aos irmãos. Deste modo, « o olhar, progressivamente cristificado, aprende a separar-se da exterioridade, do turbilhão dos sentidos, isto é, de tudo aquilo que impede ao homem aquela suave disponibilidade a deixar-se agarrar pelo Espírito » ( 78 ), e permite assim partir em missão com Cristo, trabalhando e sofrendo com Ele na difusão do seu Reino. Todo o carisma comporta, enfim, um encaminhamento para o Espírito Santo, enquanto dispõe a pessoa a deixar-se guiar e sustentar por Ele, tanto no próprio caminho espiritual como na vida de comunhão e na acção apostólica, para viver naquela atitude de serviço que deve inspirar toda a opção de um autêntico cristão. Com efeito, é sempre esta tríplice relação que transparece em cada carisma de fundação, naturalmente com os traços específicos dos vários modelos de vida, precisamente pelo facto de predominar naquele « um profundo ardor do espírito de se configurar com Cristo, para testemunhar algum aspecto do seu mistério » ( 79 ), aspecto esse que se há-de encarnar e desenvolver na mais genuína tradição do Instituto, segundo as Regras, as Constituições e os Estatutos ( 80 ).
Deste modo, os Institutos são convidados a repropor corajosamente o espírito de iniciativa, a criatividade e a santidade dos fundadores e fundadoras, como resposta aos sinais dos tempos visíveis no mundo de hoje ( 81 ). Este convite é, primariamente, um apelo à perseverança no caminho da santidade, através das dificuldades materiais e espirituais que marcam as vicissitudes diárias. Mas é, também, um apelo a conseguir a competência no próprio trabalho e a cultivar uma fidelidade dinâmica à própria missão, adaptando, quando for necessário, as suas formas às novas situações e às várias necessidades, com plena docilidade à inspiração divina e ao discernimento eclesial. Contudo, há que manter viva a convicção de que a garantia de toda a renovação, que pretenda permanecer fiel à inspiração originária, está na busca de uma conformidade cada vez mais plena com o Senhor ( 82 ). Neste espírito, torna-se hoje premente em cada Instituto a necessidade de um renovado referimento à Regra, pois, nela e nas Constituições, se encerra um itinerário de seguimento, qualificado por um carisma específico e autenticado pela Igreja. Uma maior consideração pela Regra não deixará de proporcionar às pessoas consagradas um critério seguro para procurar as formas adequadas para um testemunho capaz de responder às exigências actuais, sem se afastar da inspiração inicial.
A vocação à santidade só pode ser acolhida e cultivada no silêncio da adoração na presença da transcendência infinita de Deus: « Devemos confessar que todos precisamos deste silêncio repleto de presença adoradora: a teologia, para poder valorizar plenamente a própria alma sapiencial e espiritual; a oração, para que nunca esqueça que ver Deus significa descer do monte com um rosto tão radiante ao ponto de sermos obrigados a cobri-lo com um véu (cf. Ex 34,33) [...]; o compromisso, para renunciar a fechar-se numa luta sem amor e perdão. [...] Todos, crentes e não crentes, precisam de aprender um silêncio que permita ao Outro falar, quando e como quiser, e a nós compreender esta palavra » ( 83 ). Isto exige, concretamente, uma grande fidelidade à oração litúrgica e pessoal, aos tempos dedicados à oração mental e à contemplação, à adoração eucarística, às recolecções mensais e aos retiros espirituais. É preciso redescobrir também os meios ascéticos, típicos da tradição espiritual da Igreja e do próprio Instituto. Eles foram, e continuam a sê-lo, um auxílio poderoso para um autêntico caminho de santidade. Ajudando a dominar e a corrigir as tendências da natureza humana ferida pelo pecado, a ascese é verdadeiramente indispensável para a pessoa consagrada permanecer fiel à própria vocação e seguir Jesus pelo caminho da Cruz. Também se torna necessário identificar e vencer algumas tentações que às vezes se apresentam, por insídia diabólica, sob a falsa aparência de bem. Assim, por exemplo, a exigência legítima de conhecer a sociedade actual, para responder aos seus desafios, pode induzir a ceder a modas efémeras, com a diminuição do fervor espiritual ou com atitudes de desânimo. A possibilidade de uma formação espiritual mais elevada poderá levar as pessoas consagradas a um certo sentimento de superioridade relativamente aos outros fiéis, enquanto a urgência de uma legítima e indispensável habilitação se pode transformar numa busca exacerbada de eficiência como se o serviço apostólico dependesse prevalentemente dos meios humanos, e não de Deus. O desejo louvável de solidarizar-se com os homens e mulheres do nosso tempo, crentes e não crentes, pobres e ricos, pode levar à adopção de um estilo de vida secularizado ou a uma promoção dos valores humanos em sentido puramente horizontal. A partilha das instâncias legítimas da própria nação ou cultura poderá induzir a abraçar formas de nacionalismo ou a acolher elementos da tradição, que, ao contrário, precisam de ser purificados e elevados à luz do Evangelho. O caminho que conduz à santidade comporta, pois, a adopção do combate espiritual. É um dado exigente, ao qual hoje nem sempre se dedica a necessária atenção. Muitas vezes a tradição viu representado este combate espiritual na luta de Jacob a contas com o mistério de Deus, que ele afronta para ter acesso à sua bênção e à sua visão (cf. Gn 32,23-31). Neste episódio dos primórdios da história bíblica, as pessoas consagradas podem ler o símbolo do empenhamento ascético de que têm necessidade para dilatar o coração e abri-lo ao acolhimento do Senhor e dos irmãos.
Um renovado empenho de santidade das pessoas consagradas é hoje mais necessário do que nunca para favorecer e apoiar a tensão de todo o cristão para a perfeição. « É necessário, por conseguinte, suscitar em cada fiel um verdadeiro anseio de santidade, um forte desejo de conversão e renovamento pessoal num clima de oração cada vez mais intensa e de solidário acolhimento do próximo, especialmente do mais necessitado » ( 84 ). As pessoas consagradas, na medida em que aprofundam a sua própria amizade com Deus, ficam em condições de ajudar os irmãos e irmãs com válidas iniciativas espirituais, como escolas de oração, retiros e recolecções espirituais, jornadas de deserto, escuta e direcção espiritual. Deste modo, é facilitado o progresso na oração a pessoas que poderão, depois, realizar um melhor discernimento da vontade de Deus sobre elas próprias, e decidir-se por opções corajosas, às vezes heróicas, exigidas pela fé. De facto, as pessoas consagradas, « pelo mais profundo do seu ser, situam-se no dinamismo da Igreja, sequiosa do Absoluto, que é Deus, e chamada à santidade. É desta santidade que dão testemunho » ( 85 ).O facto de todos serem chamados a tornar-se santos, não pode senão estimular ainda mais aqueles que, pela própria opção de vida que fizeram, têm a missão de o recordar aos outros.
« Aproximando-Se deles, Jesus tocou-lhes, dizendo: âLevantai-vos e não tenhais medoâ » ( Mt 17,7). Como os três apóstolos no episódio da Transfiguração, as pessoas consagradas sabem por experiência que a sua vida nem sempre é iluminada por aquele fervor sensível que faz exclamar: « É bom estarmos aqui » ( Mt 17,4). Porém, é sempre uma vida « tocada » pela mão de Cristo, abrangida pela sua voz, sustentada pela sua graça. « Levantai-vos e não tenhais medo ». Este encorajamento do Mestre é dirigido obviamente a todo o cristão. Mas, por maior força de razão, vale para quem foi chamado a « deixar tudo » e, portanto, a « arriscar tudo » por Cristo. Isto vale, de modo particular, quando, com o Mestre, se desce do « monte » para tomar a estrada que do Tabor leva ao Calvário. Ao referir que Moisés e Elias falavam com Cristo do seu mistério pascal, Lucas significativamente usa o termo « partida » [ éxodos ]: « falavam da sua partida que iria consumar-se em Jerusalém » ( Lc 9,31). « Êxodo »: palavra fundamental da revelação à qual toda a história da salvação faz referência e que exprime o sentido profundo do mistério pascal. Tema particularmente grato à espiritualidade da vida consagrada e que manifesta bem o seu significado. Nele, está inevitavelmente incluído o que pertence ao mysterium Crucis. Mas este difícil « caminho exodal », visto da perspectiva do Tabor, aparece colocado entre duas luzes: a luz preanunciadora da Transfiguração e a luz definitiva da Ressurreição. A vocação à vida consagrada â no horizonte de toda a vida cristã â, não obstante as suas renúncias e provas, antes em virtude delas, é um caminho « de luz », sobre o qual vela o olhar do Redentor: « Levantai-vos e não tenhais medo ».
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