11 apoftegmas
Abade Amonas
Um irmão pediu ao Abade Amonas: “Dize-me uma palavra”. Respondeu o ancião: “Vai, e nutre em teu espírito os pensamentos que os malfeitores no cárcere revolvem. Perguntam sempre aos homens onde está o Diretor do Presídio, quando há de vir, e choram por causa da espera. Assim também o monge em todo tempo deve estar preocupado, e arguir a sua alma, dizendo: Ai de mim! Como posso apresentar-me ao tribunal de Cristo? E como me poderei defender em presença dele?' Se com tais pensamentos estiver sempre ocupado o teu espírito, poderás ser salvo”.
Diziam do Abade Amonas que chegara a matar um basilisco (1). De fato, tendo ido ao deserto a fim de haurir água do lago, viu o basilisco e caiu sobre a face, dizendo: “Senhor, morra ou eu ou este!” E logo o basilisco, pelo poder de Cristo, se fez em pedaços.
Disse o Abade Amonas: “Passei na Cétia quatorze anos, pedindo a Deus, dia e noite, que me concedesse vencer a ira”.
Um dos Padres contou que nas Célias (1) havia um ancião esforçado, o qual costumava carregar uma esteira. Foi ter uma vez com o Abade Amonas. Este, quando o viu carregando a esteira, disse-lhe: “Isto de nada te serve”. Falou-lhe então o ancião: “Três sugestões me atormentam: vagar pelo deserto, retirar-me para uma terra estrangeira onde ninguém me conheça, encerrar-me numa cela sem avistar ninguém, comendo de dois em dois dias”. Respondeu-lhe o Abade Amonas: “Nenhuma destas três coisas te é oportuna; antes, senta-te em tua cela, come um pouco diariamente, e conserva a palavra do publicano em teu coração (2). Assim poderás ser salvo”.
Aos irmãos sobreveio uma tribulação no lugar em que moravam. Querendo abandoná-lo, foram ter com o Abade Amonas. Ora este descia o rio em barco; vendo-os caminhar à margem do rio, disse aos barqueiros: “Deixai-me descer à terra”. E, tendo chamado os irmãos, disse-lhes: “Eu sou Amonas, que vós procurais”. A seguir, consolou-lhes o coração e os fez voltar ao lugar donde haviam saído. Pois o que se dera não importava nenhum dano para a alma, mas era tribulação meramente humana.
Certa vez o Abade Amonas saiu para atravessar o rio; encontrou a embarcação preparada e sentou-se nela. Sobreveio outro barco ao dito lugar e tomou os passageiros que lá se achavam, para os fazer atravessar. Disseram-lhe: “Vem também tu, ó Abade; atravessa conosco”. Este respondeu: “Não entro senão no barco público”. Tinha consigo um feixe de palmas, e, sentado, pôs-se a tecer uma corda e desfazê-la, sucessivamente, durante todo o tempo que passou no barco. Assim finalmente atravessou. A seguir, os irmãos, prostrados, perguntaram-lhe: “Por que fizeste isto?” Respondeu-lhes o ancião: “Para que não esteja eu sempre a vaguear na medida em que se precipitam os meus pensamentos. Isto também é uma lição para que com estabilidade caminhemos na via do Senhor”.
Certa vez o Abade Amonas saiu para ir ter com o Abade Antão. Errou, porém, o caminho, e, tendo-se sentado, dormiu um pouco. Ao se levantar do sono, orou a Deus, dizendo: “Rogo-te, Senhor meu Deus, não deixes perecer a tua criatura”. Então apareceu-lhe como que a mão de um homem suspensa do céu a lhe mostrar o caminho, e acompanhou-o até colocá-lo diante da gruta do Abade Antão.
A este Abade Amonas profetizou o Abade Antão, dizendo: “Hás de fazer progresso no temor de Deus”. E, levando-o para fora da cela, mostrou-lhe uma pedra, e mandou-lhe: “Dize injúrias a esta pedra e bate-a”. Ele assim fez. Perguntou-lhe o Abade Antão: “Por acaso a pedra falou? Respondeu: “Não”. Acrescentou o Abade Antão: “Assim também tu hás de chegar a esta medida”. De fato isto aconteceu: o Abade Amonas fez tantos progressos que, de tanta bondade, não mais conhecia a maldade. Uma vez feito bispo, levaram-lhe uma virgem que havia concebido, e disseram-lhe: “Um tal sujeito foi causa disto; dá-lhes a devida punição”. Amonas, então, traçando o sinal da cruz sobre o seio da virgem, mandou que se lhe dessem seis pares de lençóis, dizendo: “Não aconteça que, quando der à luz, morra ela ou a criança e não Se encontre com que sepultar”. Replicaram-lhe os que a acusavam: “Porque assim procedeste? Dá-lhes uma punição”. O mesmo respondeu: “Considerai, irmãos, que ela está perto da morte; que devo eu fazer?” E despediu-a, sem ousar condenar alguém.
Diziam a respeito dele que alguns o tinham ido procurar para serem julgados por ele. Ora o ancião fazia-se de louco. Eis então que uma mulher, chegando-se perto dele, disse: “Este ancião é louco”. Ouviu-a o ancião, e interpelou-a nestes termos: “Quanto esforço fiz no deserto para possuir esta loucura; e eis q*ue por causa de ti estou para a perder hoje!”
Uma vez o Abade Amonas foi, a fim de comer, a certo lugar onde morava alguém que tinha má fama. Ao saber disto, os habitantes do lugar se perturbaram e reuniram-se a fim de expulsar a este da cela. E, informados de que o bispo Amonas se achava na região, foram pedir-lhe que os acompanhasse. Quando o irmão teve conhecimento destas coisas, tomou a mulher e escondeu-a num grande tonel. Chegando a multidão à cela, o Abade Amonas teve a intuição do que acontecera, e, por causa de Deus, quis encobri-lo. Entrou; sentou-se sobre o tonel, e mandou revistar a cela. Tendo eles, por conseguinte, procurado a mulher sem a encontrar, disse o Abade Amonas: “Que significa isto? Deus vos há de perdoar”. Então fez oração, e mandou que todos se fossem. A seguir, tomou a mão do irmão, e falou-lhe: “Cuidado contigo, irmão”. Dito isto, retirou-se também ele.
Perguntaram ao Abade Amonas qual seria a “via estreita e atribulada” (1). Ao que respondeu: “A via estreita e atribulada é esta: Fazer violência aos seus pensamentos, e, por causa de Deus, cortar a vontade própria. É assim que se realiza o dito: “Eis que deixamos tudo, e seguimos a ti” (2).